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terça-feira, 6 de outubro de 2020

CANÇÃO DE NINAR


Passo a mão sobre o seu cabelo, assim como minha mãe passava nos meus. Você dorme um sono tranquilo. Inocente, alheio a tudo o que acontece em todos os lugares do mundo, alheio ao mundo. Encosto a cabeça em seu peito. Ouço sua respiração suave, quase silenciosa. Seguro a sua mão. Eu queria sentir o que você sente. O que você sente? O que vai sentir? No dia em que você chegou, chovia. Como agora chove. Eu lembro muito bem. Você não chorou. Estava quietinha. Você não chorou quando nasceu e isso diz muito sobre quem é. Sobre quem se tornou. Me orgulho de quem você se tornou. Adoraria pensar que uma parte de mim, uma pequena parte de mim, reside em você. E que vou estar contigo onde quer esteja. Te amo como nunca pensei que pudesse amar alguém.

Você não sabe, ainda é muito nova para saber, mas nem sempre iremos estar assim como estamos agora. Em amorosa harmonia. Nós vamos brigar. Vamos discutir. Você vai me olhar com aquela expressão de deboche que só você consegue fazer. Aquilo irá me irritar. Você saberá disso. Fará de propósito. Eu vou arquear as sobrancelhas e mandar você ir para o seu quarto. Você vai bater a porta com força ao fechá-la. Você vai bater a porta muitas vezes.

Essa será a época mais difícil entre nós. Você não vai querer me ouvir. Seus amigos serão mais importantes. Tudo será mais importante. Eu não vou entender. Vou me afastar. Vou te afastar.

Errei muito com você. Foram os maiores erros da minha vida. Não porque foram grandes. Mas porque foram com você. Eu vou pedir desculpas. Você vai dizer “tudo bem”. Não vai ficar tudo bem. As coisas irão mudar depois disso.

Você vai ficar cada vez menos em casa. Quer ser independente, diz. Eu não gosto da ideia de te ver longe de mim. Ela me assusta. Você sempre esteve aqui. Sob meu olhar. Sempre tive medo de que algo ruim acontecesse e eu não estivesse por perto para te acolher. Sempre tive medo do dia em que isso iria acontecer. Achava que nosso laço se enfraqueceria. Eu estava errada.

No dia em que o telefone tocou dizendo que você estava no hospital, eu chorei o caminho todo enquanto dirigia. No fim não era nada demais, uma bebedeira apenas. Mas eu me culpei. E me culparia outras tantas vezes mais.

Você vai crescer. E tudo o que eu vou mais querer é que seja melhor do que eu fui.

Eu queria estar aqui para sempre. Não porque você irá precisar de mim. Porque não vai. Eu sei que não vai. Não tenho ilusões. Mas porque eu queria acompanhar todas as suas conquistas, todos os seus sorrisos e estar junto de ti quando das lágrimas. Porque elas virão, minha menina. Elas sempre veem.

Você ficará especialmente triste quando o seu pai sair de casa. Você ficará mais do que triste. Uma espécie de revolta aflorará e você irá mudar. Esse será um daqueles pontos de ruptura. As coisas serão diferentes a partir dali. Você irá se esforçar para mostrar que é diferente de mim. Você é diferente de mim. Tão diferente de mim. Eu não saberei como agir. Vou me sentir como que pisando em lâminas afiadas, tentando evitar os cortes mais profundos. Mas viver é isso, cortes e cicatrizes. Eu tenho muitas. Algumas, foi você quem deixou e eu sei que deixei outras em você também.

Eu vou te acolher e você sabe que sempre terá em mim um abrigo. Sempre estarei aberta. Sempre estarei pronta. Mesmo quando não estiver. Mesmo quando parecer não estar.

Tenho você aqui, frágil, mas protegida. Eu achava que a sua fragilidade me fazia mais forte. Eu me sentia mais forte. Eu precisava ser mais forte. Por você.

É curioso como isso funciona. Quanto mais forte você ficar, mais eu vou temer por você. A coragem vem junto com a força e, ao lado, ambas trazem os riscos. E você vai se arriscar. Ah, como vai se arriscar.

Você nunca se deixará domar. Será como a correnteza bravia de um rio. Sempre que quiserem controlá-la, você irá transbordar cheia de energia, cheia de fúria. Irá respingar em quem estiver por perto. Você será assim. Jamais passará despercebida.

O amor irá lhe machucar. A quem não machuca? Mas isso eu não vou contar agora. Você terá de aprender sozinha. A coisa mais incrível em se apaixonar está em se surpreender. Não tirarei isso de você. Será extraordinário. Você vai ver.

Tomo sua mão na minha. Seguro seus dedos miúdos. Esses dedos vão mover o mundo. Onde quer você vá, onde quer que esteja, minha menina, deixe lá o seu toque. Que as pessoas lembrem de você com um sorriso, e que você lembre delas com amorosidade.

Nem todo mundo será bom com você. Nem todo mundo é bom. E quem é bom, nem sempre é o tempo inteiro. Pessoas boas fazem coisas ruins às vezes. Até você irá fazer. Não se martirize por isso. Não há como ser bom o tempo inteiro. O importante é ser bom a maior parte do tempo e, quando não for, se sentir mal por isso.

Não vou estar sempre aqui, criança. Irei mais cedo do que gostaria. Todo mundo vai embora um dia. Saber que vou antes de você me faz feliz. Não suportaria o contrário.

Eu vou chorar todas as suas lágrimas e vou sorrir cada um dos seus sorrisos. Será sempre assim. Sempre assim.

Agora você abriu os olhos. Estão fixos em mim. São escuros e brilham como o céu noturno de verão. Com a ponta dos meus dedos, percorro o seu rosto como quem toca uma pintura em uma tela. Quero sentir suas nuances, conhecer seus detalhes. Quero gravar em minha memória cada parte de você. Quero te levar comigo aonde quer que eu for, aonde quer que você vá.

Te embalo e assovio uma canção de ninar. Você fecha os olhos e volta a dormir. A vida é boa. Ela há de ser.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Ela era oceano, ele era rio


Estavam apaixonados. Davi e Jasmin estavam apaixonados. Difícil acreditar que estivessem, eram tão diferentes um do outro. Mas estavam. Davi e Jasmim estavam apaixonados.

Ela era dois anos mais nova do que ele. Ele era um amante da ciência. Ela era espiritualizada até a raiz do fios dos cabelos castanhos. Ele sofria por não conseguir vislumbrar um futuro para os dois. Ela vivia feliz com cada momento que estavam juntos.

Eram um casal improvável.

Jasmin era oceano. Aberta, livre, sem limites e sem destino. Queria ser. Em plenitude.

Davi era rio. Consciente de suas margens, buscava avançar, descobrir algo novo na próxima curva.

A paixão os pegou de repente. Sem aviso algum, sem sequer um sinal discreto. Conheciam-se há alguns anos já. Haviam trocado poucas palavras. Nada demais.

Uma certa noite, um temporal, guarda-chuva e sombrinha esquecidos em casa. Lá estavam eles, dois quase desconhecidos, parados, inertes, junto à portaria da faculdade.

Por um momento, houve certo desconforto. Perceberam que estavam próximos demais um do outro. Um passo curto para lado.

A chuva cada vez mais forte e nenhum sinal de que iria parar tão cedo. Os minutos passando e se tornando hora.

Com a noite sendo cada vez mais noite, a faculdade foi esvaziando. Uns saíram em grupos, outros, sozinhos. Eles, seguiam ali.

Davi não queria se molhar. Tinha medo de pegar um resfriado, depois, uma gripe, e, depois, uma pneumonia. Ele tinha a saúde um tanto quanto frágil.

Jasmim não tinha pressa. Contemplava encantada os clarões iluminando o céu noturno, e os sons e cheiros que a água explodindo em fúria no chão lhe proporcionava.

Eram rio e oceano.

As luzes foram desligadas.

Davi se sentou no degrau que dava para a rua.

Jasmim fez o mesmo.

Ficaram ali. Sentados. Lado a lado.

A chuva foi enfraquecendo. O silêncio, aumentando.

Davi estava prestes a se levantar e seguir caminho para casa quando sentiu Jasmin se aproximar e apoiar a cabeça sobre o seu ombro esquerdo.

Pronto. Estava feito.

Moça e rapaz, sentados no degrau da entrada da faculdade em uma noite chuvosa.

Foi assim que aconteceu.

Muita coisa se passou desde aquele dia. Se conheceram, se aproximaram, contaram histórias – e até segredos.

Tornaram-se amigos muito próximos.

Ele sabia que ela adorava ouvir heavy metal. Ela sabia que ele chorava toda vez que assistia ET na Sessão da Tarde. Ele sabia que ela fazia barulhos estranhos ao dormir. Ela sabia que ele nunca conseguiu andar de bicicleta.

Sabiam muito um sobre o outro.

Só não sabiam que iriam se apaixonar.

Davi se deu conta disso quando se pegou escrevendo o nome dela repetidas vezes em uma folha do caderno no meio de uma aula de Economia.

Jasmim, por sua vez, percebeu na noite em que ele não lhe mandou uma mensagem sequer pelo celular e ela sentiu um aperto no peito que há muito não sentia.

Assim, apaixonados, ambos, tentavam lidar com seus sentimentos sem fazer com que a amizade pudesse ser afetada.

Queriam mais, entretanto, temiam perder o que já tinham.

O dilema clichê. Sempre ele.

A diferença no caso de Davi e Jasmim é que ela era oceano e ele era rio.

Cada um ao seu modo – às vezes onda tranquila, às vezes correnteza bravia –, trataram de encontrar meios de obter aquilo que queriam.

Davi decidiu ser discreto em suas investidas. Iria mais insinuar do que fazer, deixar nas entrelinhas do que dizer. Aos poucos, pensava ele, iria cimentar um caminho que o levaria para dentro do coração dela.

Jasmim tinha mais pressa. Queria viver aquilo o quanto antes. Sua paixão era urgente. Teria, assim, de agir, mas na medida certa, sem errar o tom, sem correr o risco de, pressionando-o, fazê-lo se afastar.

Com o final do semestre se aproximando, e junto dele a formatura em Engenharia, Davi achou que convidá-la para a festa da turma de formandos seria uma boa oportunidade para colocar em prática seu plano.

Com o final do semestre se aproximando, e junto dele o fim da convivência diária entre os dois, Jasmin achou que ir na festa da turma de formandos seria a oportunidade perfeita para dar o passo seguinte.

Sem saber que ela iria de qualquer maneira, ele a convidou. Sem saber os motivos do convite, ela aceitou na hora.

Davi fora o maior incentivador para que a festa fosse um baile e não uma balada. Smokings e vestidos longos. Banda no palco tocando música para dançar em par. Queria Jasmin como sua companhia durante toda a noite. Tinha imaginado tudo. Primeiro a dança. Depois, uma caminhada pelo jardim do clube e, por fim, um beijo apaixonado sob a luz das estrelas. Ele era um romântico. Sempre fora.

Jasmin imaginava que, lá pela terceira música – quem sabe, meados da segunda –, o clima estaria pronto para um beijo. Assim, poderiam curtir juntos, já como um casal, o resto da noite. A vida é curta demais para esperar pelo momento perfeito. Para ela, o momento perfeito é o agora. Sempre o agora.

Que linda noite aquela do baile com o qual Davi e Jasmin haviam sonhado durante toda a semana. Um céu sem nuvens revelava pingos brilhantes na escura imensidão do cosmos.

Quando ela surgiu na portaria do prédio, ostentando no corpo um vestido preto que só não brilhava mais que seus grandes olhos castanhos, ele ficou paralisado. Ela caminhou até ele e lhe fez uma pergunta.

- Estou bonita?

Ele se esforçou para sair de seu estado petrificado e respondeu com a voz firme.

- Mais que bonita. Estás poderosa.

Seguiram no banco de trás do carro que os levava. Jasmin, por ela, já o atacaria ali mesmo. Só não o fez por receio de o assustar. Davi, por sua vez, sentia as palmas das mãos suarem e lutava contar seu pé esquerdo que, ritmadamente, batia no chão impedindo que ele disfarçasse seu nervosismo.

O salão, adornado por luzes pendentes, tinha um perfume de flores do campo.

- Sentiste o perfume? São flores do campo –, disse ele junto ao ouvido dela.

Ela não havia sentido, mas achou aquilo fofo.

O baile fora ótimo. A banda era boa, as pessoas estavam animadas, a bebida, gelada, e a noite, calorosa.

As coisas para Davi e Jasmin, porém, não se deram do modo como eles esperavam. Ela não o beijara na terceira música. Ele não a levara para caminhar pelos jardins.

Já era madrugada e os últimos acordes dos músicos no palco deram fim à festa. Restara apenas o burburinho dos jovens remanescentes cansados e a pista de dança repleta de copos plásticos jogados ao chão.

Davi e Jasmin estavam frustrados.

Quase tristes.

Não entendiam o porquê de nada do que planejaram ter acontecido.

Estava tudo tão claro em suas cabeças.

Foram embora. Davi a deixou em casa. Um abraço e um beijo no rosto antes de dar as costas à garota por quem estava completamente apaixonado. Jasmin ficou em pé junto à portaria olhando o carro se afastar. Uma solitária lágrima rolou por seu rosto.

Sentado no banco de trás, Davi ia para casa com um sentimento estranho lhe apertando o peito. Não era dor, mas um incômodo que crescia a cada metro de asfalto que o veículo deixava para trás. Algo estava muito errado.

Deitada na cama, o olhar distante de Jasmin em direção ao teto do quarto denunciava seu estado de espírito. Não era tristeza, mas um vazio que embaralhou as cartas do jogo da sua vida. Algo, definitivamente, estava errado.

Não foi preciso mais do que alguns poucos minutos, entretanto, para que, no mesmo instante, como que movidos por uma força que os unia além da presença física, algum tipo de energia presente em ambos, se dessem conta do que estavam fazendo e, de um pulo, tomassem as rédeas do destino nas mãos e assumissem o controle daquela história.

Davi mandou o motorista dar meia volta e fincar o pé no acelerador. Jasmin ergueu-se, pegou a chave da porta do apartamento, e, descalça, desceu correndo as escadas.

O som dos pés dela nos corredores do prédio e o barulho do cantar dos pneus do carro a cada curva, se unidos, formariam uma sinfonia única, uma melodia composta só para eles dois.

Jasmim puxou a porta de entrada. Davi empurrou a porta do carro.

Jasmim ganhou a rua, sentindo as pedras machucarem seus pés. Davi, atravessou a rua sem olhar para os lados.

Os passos se tornaram mais rápidos e, de repente, cessaram. Ficaram estáticos, ambos.

Estavam frente a frente. Os olhos de um, nos olhos do outro.

Nenhuma palavra foi dita. Não foi necessário dizê-las.

Beijaram o beijo mais cheio de paixão que já foi beijado.

A madrugada caminhou para o seu fim, o sol surgia tímido, a escuridão despedia-se e dava lugar à luz da manhã.

Já em suas casas novamente, os dois não conseguiram dormir nem por um momento sequer naquele dia. Refletindo sobre tudo o que acontecera nas últimas horas, descobriram, assim, Davi e Jasmim, qual fora o erro que cometeram, o qual ainda tiveram tempo de corrigir: paixão não combina com planejamento. Paixão é loucura, instinto. Paixão é fazer antes de pensar. Paixão é calor, planejamento é frio.

Ela era oceano.

Ele era rio.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019


JORNADA


Ele olhou nos olhos dela.
E disse.

“Quero ser brisa. Com você. Quero ser brisa com você.”

Juntos, fizeram-se aragem.
Sopraram forte, nas madrugadas.
Correram suaves, pelas manhãs.
Juntos.
Foram vento de primavera.

Raio.
Fúria.
Clarão.
Rugiu o trovão.
Já eram tempestade.

Fortes. Quentes.
Caíram vivos sobre a terra.

Escorreram. Fluíram.
Brotaram verdes em uma tarde de domingo.

“Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Consegue lembrar?”, ela perguntou.

Cresceram.
Eram caule. Eram folha. Eram ramo.
Eram flor, ao amanhecer.

Primeiro, vermelha. Depois, amarela. E lilás. E rosa.
E todas as cores.
Juntos.

E viram o cinza lá nas nuvens.
E misturaram-se com os pingos de chuva.
Fizeram-se água.
Percorreram trilhas e canais. Seguiram.

Eram rio.

“Eu sinto”, ele respondeu.

Cruzaram terras distantes.
Semearam vida em campos secos.
Saciaram os que tinham sede.

Renasceram.
Já eram pássaro.

E dominaram os céus.
Riscaram o azul.
Amanhecer nos lagos do Norte.
Anoitecer nos mares do Sul.

Donos do mundo.
Tomaram o tempo para si.
Não havia mais tempo.
Tudo era para sempre.
O instante. O momento. O agora. O antes. O depois.
Tudo era para sempre.

“Eu vou te amar até enquanto eu respirar”, ela falou.

E subiram. Subiram. Subiram. Subiram.
Romperam as barreiras.
Eram estrela.

E brilharam. Brilharam. Brilharam. Brilharam.
Iluminaram a noite escura.
Guiaram os espíritos perdidos.
Velaram o sono dos poetas.

Aproximaram-se.
Uniram-se ainda mais.
Eram luz.

Percorreram as galáxias.
Velozes. Indômitos.
Fizeram do universo o seu quintal.
Alcançaram o infinito.

“Eu vou ser o ar que tu respiras”, ele disse.

Voltaram ao início.
Estavam em casa.
Olhos nos olhos.
Caíram sobre a pele.

Eram lágrima.

Retrato sobre a mesa.
Toque das mãos.
Abraço apertado.

Gota final.


sábado, 29 de junho de 2019

Relato de uma cena em um final de sábado


Em pé enquanto esperam um ônibus que custa chegar em uma noite chuvosa de sábado em Porto Alegre, um casal discute a relação. Falam em tom de voz normal sem se preocupar se estavam sendo ouvidos por mim, que fazia companhia a eles já há um bom tempo.

– Tu não disseste que tinha me esquecido? – diz ela.

– Tu não podes levar a sério o que eu falo quando estou magoado – responde ele.

Foi possível ouvir apenas isso antes de os dois embarcarem no coletivo que encostou junto ao meio-fio da calçada espirrando água na minha calça jeans.

Sozinho no ponto de ônibus, peguei-me pensando o seguinte: moça, nós, humanos, nunca esquecemos. A gente não esquece quando fica em silêncio e não esquece quando diz que esqueceu.

A gente principalmente não esquece quando diz que esqueceu.

sábado, 1 de junho de 2019

Relato de um encontro casual qualquer





Não se lembrava de já tê-lo visto. Ainda assim, ele parecia ter um rosto familiar. Ela remexia suas memórias em busca de um nome, de um lugar. Uma imagem sem foco, lembrança distante de algum momento que não tinha certeza de ter vivido. Talvez um retrato na parede de uma sala de estar, ou uma história sem final perdida em um baú de espantos.

Em vão, tentou recordar de um instante, de uma palavra, de alguém. Sem encontrar sua resposta, aceitou que existem coisas que a vida não explica. Simplesmente ocorrem. Recordações imprecisas de fatos que nunca aconteceram. Restos de tempo.

Estavam sentados lado a lado.

Ele, de cabeça baixa, lia um livro repousado no colo e que ela tentava descobrir qual era. Ela, se esforçando para tentar disfarçar o nervosismo, estalava os dedos sem saber para onde olhar.

Ela notara que ele estava inquieto e interpretara como um sinal de que, talvez, realmente já tivessem se visto antes. Não seria algo incomum. A cidade era grande, mas tinha um quê de interior. Seguidamente reencontrava ao acaso pessoas que já tinham cruzado o seu caminho em algum momento e que, assim como chegaram, tinham ido embora. Agora, se via frente a alguém que não lhe era de todo estranho, mas que não tinha ideia de quem poderia ser, de qual momento passaram juntos.

Ele parecia mais jovem do que ela, mas não muito. Não haviam sido colegas de escola ou de faculdade, portanto. Nada impedia, porém, que tivessem amigos em comum, que já tivessem sido apresentados um ao outro, que uma música em uma festa qualquer pudesse tê-los aproximado.

De fato, a simples presença daquele rapaz ao seu lado lhe despertou uma sensação de deja vu. Ele não precisou dizer ou fazer nada. Ela não precisou ligar aquele momento a nenhuma memória antiga. Era ele. Apenas ele.

Havia algum tipo de conexão entre ambos. Enquanto ele lia, sem conseguir esconder algum desconforto pela situação, ela pensava e pensava, fazendo ilações com acontecimentos importantes de sua vida e buscando nos lugares mais escondidos e escuros de suas lembranças alguma passagem que pudesse lhe dizer de onde o conhecia.

Poderia dar fim àquele martírio pedindo licença por interromper a leitura e perguntando se, por acaso, já haviam se visto antes. Quem sabe ele se lembraria. Suspeitou que algum tipo de bloqueio a estivesse impedindo de encontrar a reposta para a dúvida que a perturbava desde que sentara naquele banco de ônibus há alguns minutos. Teria de desapegar daqueles pensamentos. Sim, teria de fazer isso. Era uma iniciante nas práticas da meditação e sabia que uma das formas de acessar suas recordações esquecidas era não pensar em como encontrá-las, não pensar em nada relacionado a elas, distanciar-se, apagar as memórias recentes e, assim, abrir caminho para as lembranças perdidas.

Tentou se concentrar, mas, a cada balanço do ônibus ao passar por um desnível na pista, a cada campainha sinalizando que um passageiro iria descer, a cada buzina tocada por um motorista impaciente, perdia o fio de sua experiência sensorial e se via, mais uma vez, diante do homem que sabia que conhecia, mas não tinha a menor ideia de quem era.

Passou, então, a prestar atenção nos detalhes. Talvez alguma característica peculiar a fizesse lembrar quem ele era. O jeito com que movia os lábios ao ler em silêncio, o modo como arqueava a sobrancelha direita a cada passagem do texto que o chamava atenção, a maneira com que coçava a barba da boca até a ponta do queixo.

Nada.

Ela era psicóloga. Tinha um consultório no Centro da cidade e um bom número de clientes. Já havia ouvido de tudo. Conhecia bem os meandros da mente humana. Sabia que seu cérebro poderia estar enganando-a. E sabia até porque ele poderia estar fazendo isso.

Saber o que se passava em sua cabeça, porém, não diminuía sua aflição. Ao contrário. Racionalizava o cenário e esquadrinhava as possibilidades que seu estudo e experiência lhe indicavam.

Sempre teve o controle de tudo. Sempre fora tão dona de si, de seus pensamentos, de suas atitudes, de seu passado e de seu futuro. Agora, seu presente lhe pregava uma peça.

Os pontos de ônibus iam ficando para trás e ela via o tempo para solucionar aquele enigma escorrer por suas mãos suadas.

Ele, por sua vez, lia sem sequer erguer a cabeça. Precisava terminar aquele livro. Estava preso a ele há quase três meses. Era um livro chato, mas ele nunca abandonara uma leitura antes do fim. Fosse ruim ou fosse péssima. Não seria daquela vez que o faria.

Ela pensou em iniciar uma conversa. Ouvir a voz dele poderia acionar algum lugar escondido de suas lembranças. Colocar luz sobre um momento que ficou esquecido sob camadas e mais camadas de novos acontecimentos

Isso. Precisava ouvir a voz dele.

Tinha de ser discreta, porém. Ele não podia notar seu interesse.

Assim, forjou uma cruzada de pernas que resultou em um pisão no pé direito dele.

- Perdão, perdão... sou muito desastrada mesmo –, disse, esperando que, em troca, ele lhe falasse algo, um “não foi nada”, que fosse.

Não logrou êxito na iniciativa, porém.

Ele apenas deu um meio sorriso e meneou a cabeça brevemente, retornando suas atenções para o livro no seu colo.

Mais alguns pontos ficaram para trás. Ela tinha de encontrar uma solução urgente, um meio, qualquer meio, para resolver aquele mistério e acalmar seus pensamentos.

Ela sabia que aquilo iria lhe atormentar por muito tempo. Conhecia-se muito bem. Era obsessiva compulsiva. Não iria conseguir descansar até encontrar a resposta que procurava. Sabia também que, após descer daquele ônibus, as coisas ficariam mais difíceis. Pouco a pouco, a face dele iria se perder, assim como os trejeitos, o modo de sentar e levar o dedo indicador à boca para poder trocar de página. Tudo isso iria sumir e, sumindo, tornariam sua empreitada quase impossível.

Corria contra o relógio. Ficava feliz cada vez que o coletivo parava e muitas pessoas embarcavam e desembarcavam. Isso lhe dava mais tempo.

A tranquilidade dele a incomodava demasiadamente. Se ela o conhecia, ele deveria conhecê-la também. Porque, então, não demonstrava intenção alguma em resolver aquilo? Porque não se incomodava com aquela situação? Porque não reagia?

- Por acaso, tu poderias me dizer as horas? –, perguntou, esperando que ele abrisse a boca para dizer algo de verdade e não apenas mover os lábios no ritmo da leitura silenciosa.

Como que zombando do desespero dela, ele tomou o telefone celular do bolso, apertou em um botão lateral, e mostrou os 19h27min que brilhavam na tela.

- Obrigada –, disse ela, com um perceptível tom de desapontamento na voz.

Iria desistir. Provavelmente, nunca haviam se visto antes. Sua mente estava lhe pregando uma peça, certamente. Não seria a primeira vez. Andava muito cansada do trabalho e a reta final da tese de seu doutorado estava lhe tirando noites e noites de sono. Precisava de um dia ou dois de folga. Apenas dormir. Era isso que estava precisando: dormir.

Ela fechou os olhos e imaginou a cidade que ficava para trás do lado de fora. Tentou deter seu nervosismo. As ruas se fizeram borrões e os pensamentos escorreram junto com a chuva fina que descia pelo vidro.

Ficou ali, alheia a tudo ao seu redor, por alguns minutos, uns cinco, ou dez, ou talvez apenas um ou dois. Só saiu de seu transe quando o coletivo freou bruscamente para evitar um atropelamento.

O seu ponto de desembarque era o próximo.

Era isso. Ela estava indo embora. Ele iria seguir. Possivelmente, nunca mais o veria. Tinha a certeza, porém, de que a lembrança dele e daquele fim de tarde no coletivo a iriam perseguir por meses e meses e, quem sabe, anos e anos.

O ônibus reduziu a velocidade gradualmente até parar. A porta se abriu. Ela desceu os degraus lentamente. Antes de dar o último passo, porém, virou-se para olhar para ele pela última vez.

Ele, que permanecera imóvel durante todos aqueles pequenos momentos, ergueu a cabeça, como que movido por uma força oculta que o obrigava a fazer isso, e, então, seus olhares se cruzaram por um instante.

Foi o bastante.

Já na rua, parada e sozinha, olhando o coletivo se distanciar ao som das gotas explodindo no asfalto, ela via as memórias se desenrolarem em sua mente como um novelo. Era ele. Sabia que o conhecia. Era ele. Depois de tanto tempo, depois de tantas outras histórias, aquelas páginas ainda estavam lá, empoeiradas, esquecidas, amareladas. Mas ainda estavam lá.

Dentro do ônibus, ele guardou o livro na mochila. Tirou os óculos, esfregou os olhos e olhou através da janela para a rua. As luzes e as cores borradas, assim como os rostos e todo o resto. Era difícil de acreditar. Ela não o reconhecera. Depois de tanto tempo, depois de tantas outras histórias, aquelas páginas, as que escreveram juntos, já não estavam mais lá. Foram esquecidas, rasgadas e descartadas. Não estavam mais lá.

Eles já não eram os mesmos. A vida os afastara e os transformara. Os mastigara e os cuspira.

Mas a viagem seguia.

A viagem sempre segue...


sexta-feira, 8 de março de 2019

ELA



Quando criança, houve uma época em que ela quisera ser bombeira. Pediu para o pai cravar um corrimão improvisado no meio do pátio para que pudesse treinar sua descida escorregando. Achava o máximo aquela descida. Imaginava-se fazendo aquilo em meio a um chamado. Um enorme galpão cheio de grãos e palha seca em chamas. Precisava ser rápida. Sempre mais rápida. Cronometrava o tempo desde quando saía correndo do quarto, passava pelo corredor voando, cruzava a sala como um raio, deixava a cozinha para trás, ganhava o jardim dos fundos, subia na escadinha de um pulo e descia pelo cano de PVC fincado no chão. Adorava aquilo.

Assim que cansou de apagar incêndios imaginários, passou a querer ser astronauta. Os mistérios do universo. Estrelas, cometas, planetas, luas e sóis, asteroides, buracos negros, nebulosas. Galáxias inteiras. Infinitas descobertas. Fez dois buracos em um balde que estava jogado em um canto na área de serviço e pronto, já tinha um capacete. Pegou uma capa de chuva, umas luvas que sua mãe usava para cozinhar e umas botas velhas de seu pai. Já tinha a roupa completa. Durante um bom tempo, quisera pisar em marte. Depois que descobriu que o planeta vermelho era um grande deserto de rochas sem graça, passou a preferir vagar livre pelo cosmos. Gravidade zero, aventuras mil. Apenas flanar, somente flanar.

Por poucas semanas apenas, quisera ser mágica. Coelho na cartola, pomba sob o lenço, cartas na manga. Perdeu o entusiasmo quando seus pais não deixaram que colocasse seu irmão mais novo dentro de uma caixa de papelão para que pudesse cortá-lo ao meio. Era seu maior truque. Desinteressou-se e aposentou a capa, a varinha e as palavras cabalísticas. Uma pena, tinha muito talento para a coisa.

Nos primeiros anos da adolescência, quisera ser artista circense. Aquela foi uma ideia bem maluca. Era um calorento sábado quando seu pai a levou ao circo. Inicialmente, odiou aquilo. Ninguém na sua idade ia a circos. Se seus colegas na escola descobrissem, viraria motivo de chacota por todo o resto do ano. Ninguém descobriu e ela pirou no que viu sob a lona amarela. Primeiro, quis ser malabarista. Destruiu o vasilhame de garrafas de cerveja do seu pai. Depois, tentou o trapézio. Esfolou mãos e braços na terra. Por fim, em um ato de desafiadora coragem irresponsável, amarrou a ponta de uma corda no galho da goiabeira do jardim e a outra em um ipê que ficava na calçada, do lado de fora do pátio. Tentou ir de uma árvore à outra, caminhando na corda bamba. Deslocou a clavícula e quebrou o pulso da mão direita. Depois disso, achou que seria sensato abandonar a ideia. Por enquanto, pelo menos.

Não seria, porém, um fracasso qualquer que faria com que ela deixasse de ser quem quisesse ser. Com 15 anos, desejou ser policial. Defender a lei, garantir a ordem. Um distintivo no peito e uma pistola na cintura. O símbolo ela fez com um pedaço de latão qualquer. A arma esculpira em madeira. Fizera um ótimo trabalho. Tinha talento com a talhadeira. Era um revolver pequeno, de cano curto, mas com grande poder de fogo. Ela era uma policial firme, mas justa. Era conhecida por todos no bairro que patrulhava por sua dedicação e perspicácia. Seu trabalho duro e diuturno deu fim à alta criminalidade do local. Não restava mais um bandido sequer. A paz havia sido alcançada graças à sua competência, destreza e olhar apurado. Sem mais malfeitores a combater, abandonou a farda. Sua missão havia sido cumprida.

Durante toda a sua vida, foi bombeira, foi astronauta, foi mágica, foi artista de circo, foi policial. Foi médica, foi advogada, foi cientista, foi juíza, foi general, foi presidente... Foi tudo aquilo que um dia quis ser. Foi ela mesma. Nunca deixou de ser ela mesma. Foi menina, foi moça, foi mulher.

Foi mulher, e isso já era ser tudo.

#8m

domingo, 20 de janeiro de 2019

Ainda que fosse apenas um sonho



Ele se esforçara. Só ele sabia como se esforçara. Tentara de tudo. Buscara caminhos que não conhecia. Tentara esvaziar sua cabeça de tudo o que lembrasse ela, de tudo que fosse ela. Nada funcionara. Se desfez e se reconstruiu. Ele, que não era de beber, procurou no álcool a solução daquilo que lhe atormentava. Não adiantou também. Experimentara o isolamento e a companhia. Nada. Ela permanecia lá. Impassível. Dona de si mesma, como sempre fora. Iria sair quando quisesse. Não seria ele, com suas tentativas vãs de expulsá-la, que conseguiria desalojá-la de onde ela estava tão confortavelmente instalada. Na verdade, parecia ter sempre vivido ali. Era como se tivesse ali nascido, crescido, se desenvolvido, e dali não pretendesse sair tão cedo.

Ela estava nos pensamentos dele.

A muito custo, conseguira deixar de pensar nela o tempo todo. Descobrira empiricamente que o difícil não é esquecer – sequer queria isso. O difícil é deixar de lembrar. Por muitos meses, procurou maneiras de libertar-se. Por vezes, conseguia dias de alívio. Não demorava, porém, para ela retornar. Ora era o seu rosto ímpar, ora seus negros cabelos em ondas, ora era seu cheiro, ora era a mistura de frases que ele tinha dito apenas para ela com a recordação do que as palavras representaram – “o beijo mais doce do mundo”.

Ele já não lembrava do tempo em que ela não estivera em sua cabeça. Talvez tenha se acomodado ali ainda muito pequena, sem ele perceber. Talvez tenha ficado assim, quietinha, sem se fazer notar, por tantos e tantos anos, conhecendo o terreno, se acostumando com o lugar, construindo seu ninho.

E ela o construiu. Vivia, agora, no seu inconsciente. Quando ele menos esperava, quando seus pensamentos estavam longe de tudo aquilo que poderia fazer a imagem dela se materializar diante de seus olhos, mesmo que fechados, ela surgia.

Passados muitos meses que ela se fora fisicamente, sua presença tornou-se constante em seus sonhos. Nem quando estavam juntos, sonhava tanto com ela. Seu cérebro, sábia e ardilosamente, tratou de compensar a ausência do corpo com a presença da ilusão.

Não passava um dia sem que sonhasse com ela. Em boa parte deles, tinha sonhos múltiplos na mesma noite de sono. Em seus sonhos, ela continuava igual à última vez em que se viram. No rosto, porém, não carregava a expressão pesada daquela tarde de quarta-feira. Tudo, quem sabe, já estivesse decidido ali. Nunca iria saber ao certo. Nos sonhos, ela sorria. Sorria como na tarde de piquenique no jardim florido. Nos sonhos, estavam apaixonados. Nos sonhos, ele era feliz.

Mas ela o deixara. Ela se fora. Nele permanecia, porém, a lembrança de tudo aquilo que viveram juntos. Os momentos bons lhe tiravam lágrimas ao sussurrarem ao seu ouvido “veja o que perdeste, rapaz”. Os momentos ruins já não pareciam ter sido tão ruins. Até os momentos ruins, com ela, eram bons.

Nos sonhos, no entanto, não havia momentos ruins. Nos sonhos, ele vivia aquele quadro que pintara para si mesmo. Colorido, instigante, cheio de energia.

Vivia em um paradoxo de difícil solução. A queria de volta em sua vida, mesmo sabendo que não a teria. A queria longe dos seus sonhos, ainda que soubesse que ela iria permanecer ali.

Desassossego, angústia, incompreensão.

Não tinha com quem dividir o peso que carregava. Teria de lidar com aquilo sozinho. Teria sido mais fácil, muito mais fácil, se tivesse nutrido algum sentimento negativo em relação a ela. Raiva, ódio, ressentimento. Nada disso ele sentiu, porém. Teria sido muito mais fácil.

Um dia, ela lhe disse que o amor fica. Que independentemente do que acontecesse, se nunca mais se vissem de novo, o amor que um dia sentiram um pelo outro permaneceria. Para sempre. Talvez ela tivesse dito da boca para fora, apenas para consolá-lo após o fim. Era possível. Ele acreditara naquilo, porém. Levara aquelas palavras ao pé da letra.

Ainda a amava.

Assim, mesmo que tentasse deixar para trás, ainda que soubesse que ela nunca mais iria voltar, ele se via preso ao que viveu, e ao que sentiu, preso à lembrança, ao toque, ao cheiro, à voz, ao olhar. Ela plantara nele algo que ele nunca vira antes florescer em si. Quando o deixou, levou consigo as flores, mas esqueceu de arrancar as raízes.

Para ele, havia acabado antes do fim. Era como se a linha do tempo tivesse sido rompida. Ficara um vazio. Um vazio que os sonhos constantes tentavam preencher. Ela vivia em seus sonhos assim como vivera em sua realidade. Era a mesma por quem se apaixonara. Inteligente, esperta, culta. O mesmo rosto que lhe acalmava só de olhar.

Durante todo o dia, ele contava as horas para a noite chegar.


Só queria fechar os olhos e tê-la novamente junto de si. Nem que fosse só por uma noite. Ainda que fosse apenas um sonho.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os mesmos olhos castanhos, as mesmas mãos miúdas




Foi quando percebeu que já não havia mais o que ser feito, que ele se acalmou. Era inevitável. Ocorreria independentemente do que fizesse ou deixasse de fazer. Sequer demoraria muito. Uma semana ou duas no máximo. Nessa noite, dormiu o sono mais tranquilo e profundo dos últimos dois anos.

Uma amiga estava com ele no quarto quando recebeu a notícia. Os familiares deixaram de visitá-lo já faziam três meses. Sentiram-se ofendidos quando ele disse que, se não queriam estar ali, não deveriam estar e, se não deveriam estar, ele não permitiria que estivessem. Como todos realmente não queriam, aproveitaram a deixa e partiram para não voltar mais.

Eram amigos há pouco tempo. Uns três anos, mais ou menos. Trabalharam juntos por um período, mas ela recebeu um convite tentador de uma empresa concorrente e saiu depois de pouco mais de seis meses de trabalho. Isso, porém, não fez com que se distanciassem. Ao contrário, ao não trabalharem juntos, tinham mais assunto quando se falavam e nunca ficavam com tédio quando estavam um com o outro.

O diagnóstico final foi dado por um médico rechonchudo de bochechas rosadas, cabelo ralo e óculos de aros grossos na ponta do nariz. Segurou a sua mão magra. A pele enrugada e áspera, as veias saltadas. Pôde sentir os ossos finos. Parecia que se quebrariam a qualquer aperto mais forte.

Ele todo era apenas uma imagem apagada daquele homem que um dia fora. Já não tinha mais forças para se levantar sozinho da cama. Circulava pelos corredores e tomava seu banho de sol diário sentado na cadeira de rodas. Perdera trinta quilos desde que recebera o diagnóstico. Alimentava-se por sonda. O câncer no estômago aniquilara com a figura sempre disposta, atlética e divertida de outrora.

Foi tudo muito rápido. Era uma terça-feira quando sentiu um mal-estar digestivo no meio da tarde quando estava no trabalho. Se automedicou e foi para casa já um pouco melhor. No dia seguinte, pela manhã, não conseguiu tomar o café reforçado com leite, pão e frutas. Tomara um iogurte apenas. Passara a quarta e a quinta-feira assim. Na sexta, resolveu ir ao hospital. Fez alguns exames clínicos e viu nos olhos do médico que lhe atendia um ar de hesitação. Foi para casa e, no sábado pela manhã, recebeu uma ligação pedindo que retornasse ao hospital para que mais exames fossem feitos. Estranhou a urgência, mas foi. Testes de imagem, primeiro, e uma biópsia, depois. Era melhor que passasse a noite ali, em observação, lhe disse o doutor. Ficou sem muitos questionamentos. Não havia ninguém lhe esperando em casa mesmo. Na tarde de domingo, pouco depois das cinco horas, três médicos entraram no quarto. As faces tentando esconder algo. Enquanto falavam em tom de tristeza, tentavam transmitir um otimismo que ele percebia que não sentiam. Nunca soubera de um caso de câncer sequer na família. Fora o premiado. Tinha 34 anos.

Era um homem jovem, o tumor era pequeno, não parecia muito agressivo. A equipe médica lhe dizia que um câncer sempre é ruim, mas, se fosse para ter, que ocorresse sempre assim. Ele iria se curar. As chances eram superiores a 90%.

O problema é que ele nunca estivera entre os 90%. Sempre fizera parte dos 10%. Na maioria das vezes, dos 10% melhores. Seja na escola, no vestibular, na faculdade, nas aulas de língua estrangeira, seja nas avaliações no trabalho ou nas estatísticas obtidas em testes cientificamente questionáveis da internet. Desta vez, não era diferente. Estava entre os 10%.

Durante dois anos inteiros, se submeteu aos mais torturantes tratamentos. Tudo o que a medicina tinha para oferecer, passou pelo seu corpo. Um amigo insistiu para que fosse a um médium que incorporava o espírito de um médico alemão e fazia cirurgias milagrosas. Cético como sempre fora, recusou a sugestão. Não desacreditava de todo em milagres. Jamais entenderia, porém, como uma pessoa deixaria um maluco qualquer se dizendo incorporado por um espírito de um médico que vivera em uma época em que não se sabia quase nada sobre doenças enfiar tesouras pelo seu nariz à procura de um tumor. Estava morrendo, mas não perdera a razão.

A medicina, que, para tentar curá-lo, o massacrou durante tanto tempo, foi incapaz de evitar a sua morte. Tão jovem. Jazia na cama do hospital. Fraco, era um rascunho daquele que um dia fora. Um resto mastigado e cuspido fora. Vivia uma semivida, uma vida de mentira.

Agora, porém, tudo isso havia passado. Já não alimentava esperanças de cura. Não iria se safar desta. Morreria. Perderia a batalha contra a doença que tanto o maltratou. Fora uma adversária difícil. Aquele câncer que iria matá-lo fora atacado de todas as formas, por todos os lados, em todos os momentos. E resistira. Fraquejara em alguns momentos, mas voltara ainda mais obstinado. Fora bombardeado por tudo o que o conhecimento humano descobrira e criara para eliminá-lo e não fora derrotado. Era um inimigo valente, corajoso e, sobretudo, forte. Ele respeitava aquele câncer. Aprendeu a respeitá-lo. Não raro, se via conversando com o tumor que lhe deixara naquele estado, que lhe fizera tanto mal. Acostumara-se a ele. Tornaram-se parceiros de uma jornada longa e dolorosa, mas que somente eles sabiam realmente o que ela representava. Para ambos.

A doença havia lhe proporcionado um estado de lucidez que nunca experimentara antes. Distinguia muito bem todas as coisas. Sem a perspectiva de um futuro, já não mais vivia o momento em razão do que estava por vir. Apenas vivia o momento. Era o instante em si que importava, e não mais o que ele representaria para o dia seguinte.

Acordou bem cedo na primeira manhã após o definitivo anúncio do fim. Pediu para uma enfermeira buscar na cantina no térreo um café da manhã dos campeões. Suco de laranja, torradas com mel, iogurte natural, uma omelete e mamão fresco. Não era política do hospital servir refeições especiais para paciente algum, mas aquela enfermeira o acompanhava desde o diagnóstico. Tornaram-se amigos. Muito amigos. Nessa relação, de um lado, ela cedia às excentricidades dele, e, de outro, ele seguia às suas recomendações e cumpria tudo o que era acertado no tratamento. Agora, além de ser um amigo, ele era um amigo em fase terminal. Não havia motivos para lhe negar um belo desjejum sempre que pedisse e pagasse.

Comeu com a sutil tranquilidade de quem já não se alimentava para matar a fome, e sim para sentir os sabores em sua boca. Decidira ainda naquela manhã que não mais comeria a papa insossa que o hospital lhe servia nas refeições. Iria comer aquilo que tivesse vontade de comer, na quantidade que quisesse comer. Sem restrições. A medicina não salvara a sua vida, e não seria ela a lhe privar de comer uma gordurosa omelete de bacon com presunto e queijo logo cedo. Não mesmo.

No decorrer de toda aquela jornada, sempre manteve viva a esperança de que iria vencer a doença. Nunca deixou de acreditar. Levou a vida com o câncer do mesmo modo com que levara toda ela antes do mal lhe colocar naquela cama de hospital. Era um otimista. Sempre fora um otimista. Com seus olhos míopes, via ao seu redor um mundo cheio de cores e de possibilidades. Era tudo uma questão de acalmar os ânimos, respirar fundo, erguer a cabeça, e seguir em frente.

A cada novo fracasso de um tratamento, dizia para si mesmo e para a equipe médica que isso não era um problema, ao contrário. A conclusão de que um medicamento falhara era uma porta que se abria e lhes deixava seguir outro caminho. Um tratamento que não dava certo era um passo a mais em direção à combinação de remédios e terapias que o iriam curar.

Tudo iria dar certo. Ao fim, tudo iria dar certo.

- Coisas boas passam. Coisas ruins também. Vamos com calma que logo, logo os doutores vão achar a solução -, costumava dizer para a amiga que estivera ao seu lado durante todo o tempo.

Ela, por sua vez, não compartilhava da percepção positiva do amigo. Lera bastante sobre aquele tipo de tumor e conversara ainda mais com os médicos. As perspectivas não eram boas. Em nenhum momento houve uma remissão do câncer. O máximo de notícia boa que receberam foi de que a doença havia se estabilizado. Mas isso durou pouco mais de dois meses. Depois, o tumor continuou a crescer e se espalhar por outros órgãos.

Primeiro o fígado, depois o intestino, depois a bexiga e, por fim, os pulmões. Um após o outro, foram sendo invadidos e corroídos. Agora, ele respirava com dificuldade, uma sonda recolhia sua urina e uma bolsa externa, suas fezes.

Nunca havia pensado na morte. Em nenhum momento. Só racionalizou a respeito da possibilidade de morrer naquele fim de tarde em que os médicos o desenganaram. A amiga se dispôs a passar a noite ali, ao seu lado, mas ele não quis. Agradeceu a boa intenção, mas não quis. Precisava ficar sozinho.

O grande hospital silenciara. Todo o vai e vem do dia findava nas noites e madrugadas. Quando alguém caminhava pelo corredor, era possível escutar de longe o barulho dos passos no piso. Era disso que ele necessitava naquela noite. Silêncio para poder pensar.

Do que se tratara a sua vida? O que fizera dela? Como seria lembrado depois que morresse? Fizera algo de único durante o tempo em que caminhara pela Terra? Quem iria sentir a sua falta?

Quem iria sentir a sua falta?

Não tinha respostas convincentes para dar a si mesmo. A vontade de se iludir com palavras que o fariam acreditar que tudo valera a pena o seduzia. Morreria feliz e satisfeito. Teria tido uma vida plena.

Sozinho, ouvindo apenas seus pensamentos, ele sabia, porém, que não havia motivos para se enganar. Tivera amigos, mas quase todos haviam ficado pelo caminho. Tivera amores, mas nenhum permanecera. Um deles em especial o marcara deveras. Foi bem curto. Do dia em que se conheceram ao dia em que terminaram passaram pouco mais de cinco meses. Ela fora a melhor coisa que acontecera na sua vida. Fora o toque de extraordinário em sua jornada até então comum. Amara mais do que achara ser possível amar. Mas acabou. Levou algum tempo para se recuperar daquilo. Quando estava livre de toda a culpa e de toda a dor, a doença aparecera.

O câncer fez com que ela deixasse de habitar regularmente seus pensamentos. Achava que a tinha esquecido. Não havia espaço para um amor perdido em uma mente que lutava pela vida. Enganara-se, porém. Estava tão viva e bela quando da última vez em que a tinha visto. Os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos castanhos, as mesmas mãos miúdas.

A morte próxima a fizera ressurgir em sua cabeça. A certeza do definitivo fim trouxera calma às suas lembranças dos dias em que passaram juntos. Percebera seus erros mais claramente e os dela também. Erraram ambos. Fora um tolo, mas quem não o é quando se apaixona?

Pegou-se imaginando onde ela estaria agora, o que andava fazendo, qual livro estava lendo, qual fora o último filme que vira, o que sonhara na noite passada. Amava-a ainda e sentia-se bem ao pensar que ela estava melhor e feliz sem ele.

Naquela noite, a noite em que o médico rechonchudo de bochechas rosadas lhe disse que não havia mais nada que pudesse ser feito para lhe salvar a vida, ele lembrou dela e percebeu que vivera um amor. O amor de sua vida. Um grande amor. O perdera no meio do caminho, mas quantas pessoas podem morrer com a certeza de que encontraram o amor da vida? Ele tinha. Desde o dia em que recebera o diagnóstico do câncer no estômago, nunca tivera uma noite de sono tão tranquila como aquela.

Nos dias que se passaram até a noite em que deixara de respirar, tratou de fazer seus últimos momentos terem algum significado. Os aproveitaria na rua, procurando divertir-se o máximo possível. Percebeu, porém, que, ao fazer isso, teria apenas alguma alegria passageira. Uma diversão vazia. Não. Isso não daria um sentido aos seus derradeiros instantes na Terra.


Por mais que tentasse desviar sua atenção, fazer suas ideias tomarem um rumo diferente, ele só conseguia pensar em uma coisa. Precisava vê-la mais uma vez, uma única vez, uma última vez.

Sabia, no entanto, que sua condição de saúde o limitava. Sem os equipamentos que o ajudavam a respirar, que faziam o trabalho que seus rins já não conseguiam fazer, que controlavam seus batimentos cardíacos, não teria muito tempo, algumas poucas horas, provavelmente.

Tinha, assim, em uma mão, a manutenção da sua vida e, na outra, a plenitude da sua existência. Cada vez que o ponteiro do grande e empoeirado relógio que ficava sobre a porta do quarto do hospital cruzava o número doze, ele via-se mais próximo do fim. Perdera aquele minuto. Não havia como recuperá-lo. Aquele minuto escapou por entre seus dedos esquálidos. Mal se dera conta disso e outra fração de tempo se fora.

De súbito, ergueu-se da cama, descolou de sua pele pálida os fios que o conectavam aos aparelhos e, demonstrando uma força que nem ele mais imaginara ter, caminhou com passos firmes pelo corredor rumo à porta de saída do hospital.

Estava decidido a não morrer deitado em uma cama estéril em um quarto onde apenas sofrera. Não tivera um bom dia sequer ali. Aquele lugar era sinônimo de sofrimento e dor. Não iria levar aquelas paredes e teto brancos como imagem última gravada em suas retinas.

Existem certos momentos na vida de uma pessoa em que todas as coisas – os astros, os deuses, os espíritos, as coincidências, enfim, toda a sorte possível – conspiram ao seu favor. São poucas as vezes em que isso ocorre. Para algumas pessoas, é um acontecimento único. Pois, para ele, aconteceu naquela madrugada. Um assistente novato pegou no sono e não percebeu quando, na tela do computador à sua frente, uma mensagem pipocava informando que os aparelhos do quarto 221 haviam sido desconectados do paciente. Percorreu os corredores sem encontrar uma viva alma, pois as equipes de enfermagem de plantão tiveram de, às pressas, correr para tentar conter um paciente que estava tendo um surto psicótico e gritava desesperadamente dizendo que extraterrestres estavam chegando para lhe abduzir. Já no saguão, encontrara a portaria vazia, visto que o guarda e a moça da cafeteria estavam dando uns amassos atrás do balcão.

Tudo deu certo. Saiu do hospital pela porta da frente com as vestimentas de paciente sem 
ser interpelado por ninguém. Tomou um ônibus, pulou a catraca e contou com a compreensão de um senhor idoso que lhe cedeu o lugar para dar fim ao constrangimento de ter um homem vestido com roupas de hospital – abertas na parte de trás – em pé no corredor do coletivo.

Durante o caminho, tentou pensar em o que dizer quando chegasse a hora. Fracassou miseravelmente. Estava tão elétrico, tão excitado, tão cheio de adrenalina, que pensar em algo qualquer coisa, não era possível. Respirava rápido, transpirava por lugares que sequer sabiam que transpiravam. Estalava os dedos, roía as unhas, batia os pés, rangia os dentes, engolia em seco.

Cada ponto de ônibus que ficava para trás, era um ponto de ônibus que estava mais perto do seu destino. Precisava se acalmar, mas não queria ficar calmo. Sentia-se vivo. A morte já não lhe ameaçava.

Desembarcou na avenida. Dali até o prédio onde ela morava, teria de caminhar por duas longas quadras. Se alguém lhe dissesse que teria de fazer isso há alguns dias, riria da piada. Mal conseguia se manter em pé para ir ao banheiro no hospital. Não tinha mais forças para manter seu corpo esquelético ereto. No entanto, a certeza de que não tinha mais volta, de que não havia saída, somada a um propósito real, lhe enchera de uma energia que não havia como explicar de onde saíra. Talvez, estivesse dentro dele durante todo o tempo. Talvez, fosse aquela última reserva de força, aquela fagulha que o corpo guarda para lutar pela sobrevivência até o momento final.

Mas ele já não queria mais lutar contra a morte. Fora derrotado naquela disputa e iria sair de cena como um bom perdedor.

Respirava com dificuldade. Dava passos lentos e arrastados. As mãos, trêmulas, pendiam feito galhos secos de uma árvore prestes a tombar.

Fazia calor naquela noite. Sua boca suplicava por um gole de água. Mas ninguém prestava atenção nele. Estava sozinho e tudo bem. Não queria auxílio de ninguém mesmo. Aquela era a sua missão. Tinha de ser assim.

Quando, depois de longos minutos de caminhada trôpega, viu-se em frente ao condomínio de prédios amarelos, deteve-se. Respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Mais do que retomar o fôlego, queria entender o que estava para acontecer. Sempre fora assim. Apaixonava-se e envolvia-se até a medula, mas nunca deixava de raciocinar a respeito do que vivia. Brincava com a amiga leal dizendo-se um cientista do amor. Um exagero, sem dúvida. Mas viver sem exageros é navegar permanentemente em águas calmas. E ele adorava as tempestades.

Aproveitou um descuido do porteiro e esgueirou-se silenciosamente por um estreito espaço que ficara aberto no grande portão por onde entravam e saiam veículos. Seguiu até a entrada do bloco onde ficava o apartamento dela. Sentados em cadeiras na rua sorvendo seu mate, alguns moradores trocavam olhares e cochichos sobre aquela estranha figura que, cambaleante, cruzava o pátio, feito um espectro errante.

Entrou no prédio e, apoiando-se nas paredes, se arrastou até o elevador. Quinto andar.

Em frente à porta do apartamento dela, ameaçou tocar a campainha, mas desistiu. Com as costas arqueadas, o peito arfante, e os olhos semicerrados, sentia a vida fugir a cada dolorosa tentativa de respirar. Esforçava-se para puxar o ar que teimava em não inflar seus pulmões. Apoiando uma mão na parede, usou a outra para bater à porta. A tentativa pareceu mais uma carícia – as suas mãos entre os cabelos negros dela. Na segunda tentativa, fez o melhor possível.

TOC

...

TOC

Espera. Espera. Espera

Um barulho seco.

Silêncio.

A porta se abrindo.

Os mesmos olhos castanhos, as mesmas olheiras feito nuvens negras sob eles. As mesmas mãos miúdas levadas à boca após um grito.

Caído aos seus pés, lá estava ele. O que restara dele.

A morte chegara antes de ela enchê-lo de vida como sempre fazia quando estavam juntos.

Não vivera longamente, mas experimentara o intenso sabor doce de um amor verdadeiro.

Fora feliz.

Na vida e na morte.

sábado, 28 de julho de 2018





Elíseos

   Eu queria ouvir uma sinfonia de flautas e harpas enquanto caminhava sem pressa pelos campos floridos dos Elíseos. Eu estaria cercado por borboletas coloridas e pássaros cantantes me despertariam em todas as manhãs. Um perfume agridoce tomaria o ar. Na boca, levaria para sempre o gosto dos lábios dela.

   Eu queria cantar a eternidade dos momentos bons, sorrir sem motivos, deixar correr por entre os dedos as águas cristalinas que brotam da terra cheia de vida. Por todos os lugares, em todos os momentos, eu seria aquele que sempre fui, mas seria diferente. A cada amanhecer, eu seria diferente, feito uma aquarela em construção pelas mãos do artista. As cores explodindo em harmonia e caos, formando sonhos lúcidos diante dos meus olhos. Ela estaria neles. Ela sempre estaria neles. Viva. Calor a aquecer minhas noites, presença a iluminar meus dias.

   Eu queria dançar sob as estrelas de um infinito céu azul. No chão, meus passos contariam nossa história, seriam letra e canção da música que escrevi para nós dois. Seria carne, seria espírito, seria toque e memória, lembrança e saudade. Não haveria medo, não haveria certezas. Tudo seria uma descoberta, uma permanente descoberta. Dentro de mim, amor. A transbordar, feito chuva de verão sobre a pele quente.

   Eu queria ser a poesia do olhar, queria ser a alma livre dos que sentem sem limites. Sem ter para onde ir, apenas iria. Até aonde quisesse, até aonde pudesse, até o fim do mundo, até o início de tudo. Barco a vela, avião de papel. Sinos ao longe, mãos dadas. Um universo ao alcance do toque, uma viagem ao interior de mim. Uma jornada para perto dela.

   Eu queria que fosse assim. Simples assim. A felicidade de um amor tranquilo. A tranquilidade de uma paz perene. Nada mais. Que a vida seja doce e que a morte traga consigo a leveza de um fim sereno. Eu queria que fosse assim. Eu queria que fosse.

   Mas, se assim não for, se não for feito um flanar por entre as nuvens, se não for feito relâmpago, não for feito trovão, que seja como tiver de ser. Que seja real, que seja duro. Que seja doloroso, até. Que seja perigoso, que seja cheio de tropeços. Que seja amargo. Que seja quente, que seja elétrico. Mas que seja calmo também. Que seja uma manhã de domingo, que seja um passeio no parque, que seja um sussurro no ouvido. Que seja um aceno ao futuro, que seja um lugar do passado. Que seja palavra riscada na areia, que seja onda do mar. Que seja amar.


Que seja vivo.

Que seja vida.

Que seja verso.

Que seja horizonte.

Que seja utopia.

Que seja travessia.

Que seja sutil.

Que seja humano.

Que seja singela.

Que seja eu.

Que seja nós.

Que seja ela.