Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesias. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de abril de 2021

 

Ao vento

 

No amanhecer dos teus cabelos,

Vou me deitar e pensar nas ondas do mar,

Em fios de ouro derramando na imensidão do céu,

Nos versos da canção que
escrevi para ti.

 

Vou navegar pelas curvas do teu corpo,

Ou velejar por verdes rios do teu olhar.

Um assovio da brisa na janela.

Folhas caindo no outono em teu jardim.

 

A luz entrando pelo quarto.

Texturas e sombras.

Cheiro da chuva que se aproxima.

Teu doce gosto em minha boca.

 

Calor do toque das mãos.

Taça de vinho sobre a mesa.

Arrepios e gotas na tua pele.

 

Histórias que contei ao teu ouvido.

Ponteiros do relógio na parede.

Café quente no fogão.

 

Sabor de vida ao despertar em movimento

No amanhecer dos teus cabelos

 

Ao vento.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020



EU


Existem partes de mim que ainda não conheço.
Lugares estranhos
Nos quais nunca estive,
Mas que se revelam nas portas fechadas.
Nas palavras não ditas.
Nos restos de memórias.
Nos sonhos lúcidos.

São salas trancadas.
Corredores estreitos.
Caminhos escuros.

São linhas cruzadas.
Rostos esquecidos.
Vozes sutis.

São sorrisos vazios.
Acenos de longe.
Sinais do passado.

Eu me desfaço e me crio.
Peça por peça.
Mas não os acho.

Vasculho minhas sombras.
Procuro no espelho.
Mas não os vejo.

Passo por passo.
Toque por toque.
Esquadrinho cada canto de quem sou.

Letras que escrevi para ninguém.
Fotos que escondi no fundo da gaveta.

Estão lá, eu sei.
Esperando por mim.

Quem sabe, um dia, eu as encontre.
Todas elas.
Uma por uma.
As minhas partes perdidas.
A minha imagem real.



segunda-feira, 5 de agosto de 2019


JORNADA


Ele olhou nos olhos dela.
E disse.

“Quero ser brisa. Com você. Quero ser brisa com você.”

Juntos, fizeram-se aragem.
Sopraram forte, nas madrugadas.
Correram suaves, pelas manhãs.
Juntos.
Foram vento de primavera.

Raio.
Fúria.
Clarão.
Rugiu o trovão.
Já eram tempestade.

Fortes. Quentes.
Caíram vivos sobre a terra.

Escorreram. Fluíram.
Brotaram verdes em uma tarde de domingo.

“Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Consegue lembrar?”, ela perguntou.

Cresceram.
Eram caule. Eram folha. Eram ramo.
Eram flor, ao amanhecer.

Primeiro, vermelha. Depois, amarela. E lilás. E rosa.
E todas as cores.
Juntos.

E viram o cinza lá nas nuvens.
E misturaram-se com os pingos de chuva.
Fizeram-se água.
Percorreram trilhas e canais. Seguiram.

Eram rio.

“Eu sinto”, ele respondeu.

Cruzaram terras distantes.
Semearam vida em campos secos.
Saciaram os que tinham sede.

Renasceram.
Já eram pássaro.

E dominaram os céus.
Riscaram o azul.
Amanhecer nos lagos do Norte.
Anoitecer nos mares do Sul.

Donos do mundo.
Tomaram o tempo para si.
Não havia mais tempo.
Tudo era para sempre.
O instante. O momento. O agora. O antes. O depois.
Tudo era para sempre.

“Eu vou te amar até enquanto eu respirar”, ela falou.

E subiram. Subiram. Subiram. Subiram.
Romperam as barreiras.
Eram estrela.

E brilharam. Brilharam. Brilharam. Brilharam.
Iluminaram a noite escura.
Guiaram os espíritos perdidos.
Velaram o sono dos poetas.

Aproximaram-se.
Uniram-se ainda mais.
Eram luz.

Percorreram as galáxias.
Velozes. Indômitos.
Fizeram do universo o seu quintal.
Alcançaram o infinito.

“Eu vou ser o ar que tu respiras”, ele disse.

Voltaram ao início.
Estavam em casa.
Olhos nos olhos.
Caíram sobre a pele.

Eram lágrima.

Retrato sobre a mesa.
Toque das mãos.
Abraço apertado.

Gota final.


domingo, 5 de maio de 2019




Antes de acabar o dia


Antes de acabar o dia,
Eu quero ouvir de novo a tua voz.
Um sussurro, apenas, que seja.
Uma palavra, uma canção.
Não quero respostas.
Não farei perguntas.
Não tenho dúvidas.
Está tudo bem.
Está tudo bem.


Antes de acabar o dia,
Vou pegar a estrada e partir.
Horizonte em frente.
Sem olhar para trás.
Sem pressa.
O tempo é meu companheiro.
O caminho, minha redenção.
Mais uma vez.
Mais uma vez.


Antes de acabar o dia,
Espero sentir meus pés na areia.
Água salgada em minhas mãos.
Luz queimando minha pele.
Nenhum arrependimento.
Nenhuma dor.
Nenhum medo.
Já passou.
Já passou.


Antes de acabar o dia,
Vou escrever versos sobre nós.
Vou revirar as fotos na gaveta.
Lembrar de quando te perdi.
Não haverá lágrima.
Nenhum remorso.
Eu não direi o seu nome.
Acabou.
Acabou.


Antes de acabar o dia,
Quero voltar para casa.
Para dentro de mim.
Ficar só.
O silêncio ao meu lado.
Um adeus na memória.
Um sonho perdido.
Apenas saudade.
Apenas saudade.
De nós.

sábado, 23 de fevereiro de 2019






Reencontro

Ela disse que havia perdido a fé no amor.
Ele disse que o amor era a própria fé.
Ela disse que não acreditava mais em um príncipe encantado.
Ele disse que a nobreza não estava em coroas e cavalos brancos.
Ela disse que não queria aventuras.
Ele disse que viver era a maior aventura.
Ela disse que estava cansada de promessas vazias.
Ele disse que não lhe faria promessas.
Ela disse que queria um tempo para si.
Ele disse que não tinha pressa.

Olhos para o céu. Respiração forte

Ela disse que não era mais a mesma garota de outrora.
Ele disse que também havia mudado.
Ela disse que não podia mais se arriscar.
Ele disse que se arriscaria por ela.

Voz embargada. Suor correndo nas costas.

Ela disse que tinha um filho.
Ele disse que “tudo bem”.
Ela disse que mataria quem fizesse algo de ruim para o seu menino.
Ele disse que daria o primeiro tiro.

Sorrisos sutis.

Ela disse que já não tinha a beleza de antigamente.
Ele disse que ela nunca fora tão bela.
Ela disse que jamais o esquecera.
Ele disse que se lembrava de cada momento.

Toque das mãos.

Ela disse que, dessa vez, teria de ser para sempre.
Ele disse que sempre fora para sempre.

Levantaram-se, se abraçaram, se despediram e foram embora.

Ela, cheia de dúvidas.
Ele, com a mesma certeza.

domingo, 4 de novembro de 2018

Ainda não é tarde



Ainda não é tarde


Correu o tempo.
Choveu e fez sol.
Nasceu e morreu.
Chorou e sorriu.
Plantou e cresceu.
Chegou e partiu.

Ouviu e cantou.
Sonhou e fugiu.
Imaginou as horas.
Correu e pulou.
Amanheceu e dormiu.
Aprendeu e errou.

Já não toca as mãos.
Não sente o cheiro.
Já não escuta a voz.
Não tem ao lado.

Correu o tempo.
Feito moinho.
Viveu.
Voou pra longe.
Um passarinho.
Mas ainda não é tarde.

(pra voltar)



quarta-feira, 29 de agosto de 2018




Areia do tempo

Não ouviu a voz ao redor.
Não sentiu o pulsar no peito.
Caminhando por entre sombras ele estava.
Livre de toda a dor que um dia carregou consigo.


Distante de tudo, olhou para dentro de si.
Encontrou resquícios de inocência,
Restos de confiança,
Retalhos de saudade.

Nas mãos, impressas na carne, memórias que não pode apagar.
Irá levar para aonde for.
Como troféus.
Conquistas de uma vida de derrotas e vitórias.
De lágrimas e sorrisos sobrepostos.

Foi barqueiro de sua jornada.
Origem, caminho e destino da travessia.
Foi passo na estrada, vela ao mar.
Linha reta por entre curvas livres.

Os amores que teve,
Os lábios,
Os corpos,
Os olhares,
Eram ele.

Estavam em sua pele e ossos.
Estavam em seu sangue e músculos.
Estavam em suas células.
Em cada uma de suas células.

Não se despediu quando foi embora.
Não disse “adeus” nem “olá”.
Não havia início.
E não havia fim.

Sentiu saudade dos dias que não viveria mais.
O ponteiro correu.
O vento soprou.
A janela bateu.
A vida passou.

Por entre os dedos.
Feito areia
Do tempo
Que não volta mais. 


sábado, 5 de maio de 2018



O fim


Difícil não é esquecer,
Deixar passar,
Guardar memórias sob a pele.
Riscar um nome.
Rasgar retratos.

Difícil é deixar de lembrar.
Não mais sentir o cheiro nem sorrir ao ouvir a voz.
Não mais tocar e perceber que o gosto na boca se foi.
Fechar os olhos e não ver o rosto.

O fim não está na ausência do corpo.
O não ter é a casa do desejo.

O fim chega quando já não se sente falta,
Quando a mente serena e não pede mais a presença,
Quando não faz mais diferença.
O fim está no ‘tanto faz’.

Quando não há mais arrependimentos,
Nem mágoa, raiva, dor, esperança ou saudade,
O fim bate à porta pedindo abrigo.

O fim está na ausência tranquila,
No sublime vazio,
No sono sem sonhos.

O fim está na indiferença que grita.
O fim mora no silêncio
Que fica.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017



Calmaria

Se já não há mais dor,
Ainda que a dor não tenha ido embora,
O que resta é um querer esquecer,
Um não querer lembrar,
Uma calmaria.

Se a saudade definha a cada palavra não dita,
A luz que entra pela fresta da janela
Não traz mais culpa
Nem remorso.

A espera sem pressa.
A voz meio cantada.
O verso escrito em uma folha avulsa de papel
(que ninguém vai ler).

O silêncio não mais sussurra um nome no ouvido,
E o sono chega cedo.
O rosto vai sumindo aos poucos.
Já não sente mais o cheiro ao sonhar.
Memórias em imagens cada vez menos nítidas.

Ainda está tudo lá.
Tudo permanece,
Mas não na superfície.

Está tudo lá.
Guardado.
Escondido sob os escombros
Do que um dia foi um amor.

sábado, 15 de julho de 2017

Espelho


Não quis dizer
Palavra alguma
Apenas papel e caneta
Lembrança e presença
Em suas mãos
Juntas
Em prece

Memória guardada entre retalhos
Restos e pedaços de dias sem cor

Ninguém por perto

Um grito agudo
Janela fechada
Porta com tranca
Tempestade presa
Dentro de si

Um muro ao redor
Ninguém entra nada sai
Tudo persiste na boca estômago vísceras
E vai e volta e percorre
Está em suas veias e sangue e ossos e pele


Não foi nada já passou estou bem obrigada até logo
Silêncio na casa vazia
Olhos no espelho
Corpo nu
Contornos e curvas
Sorriso sincero

Expurgo da dor que ali fez morada

Nada do que ouviu restou
Nada do que foi dito restou
Nada restou
A não ser ela mesma

Nem medo nem fúria nem ódio

Abraço no amor
Que não conhecia

Prazer,sou eu
Estou aqui
Contigo
Para sempre
Teu lar
Em ti

domingo, 4 de junho de 2017




Da saudade


Não ouviu a voz.
Não sentiu na pele.
Lembrança que insiste em ficar.
E fica.

Presença que pulsa.
E fala a todo instante


"Estou aqui, estou aqui"


Tempo que não é mais tempo.
Sorrisos e memórias.
Nada em seu lugar.
Retrato caído no chão.
Copo vazio.
Livro fechado.
Páginas que não foram lidas.
Palavras que não dizem.
Imagem nítida.
Constante.

Um grito que não deixa dormir.
E que, dormindo, sussurra baixinho


"Estou aqui, estou aqui"


No silêncio, silencia
E mostra que a ausência
É só passagem.

O cheiro.

Negros cabelos escorrendo entre os dedos.
O toque das mãos.
Os olhos que carregam o universo.
Aqueles olhos que carregam o universo.

Todos os minutos.
A toda hora.
Em todos os dias.


“Estou aqui, estou aqui”


E já não há o que separe.
Não há distância que esmaeça
As cores no jardim do teu sorriso.

Nome riscado sobre a mesa.
Desenho na parede.
Laço desfeito.
Linha cortada antes do fim.
Do fim.

Sete luas e sóis.
Um rosto nas nuvens.
Espaço entre nós.
Ruas sem gente.
Tarde no parque.
Caminhos cruzados.
Gota que cai sobre a testa.
Vento que faz as folhas dançarem no ar.
Restos de luz. 

A falta que faz
O agora,
O antes
E o depois que não veio (ainda).

Na despedida.
No adeus que não foi dito.
No sonho de todas as noites.
Na lágrima que escorre pela face.
No amor que espera o reencontro.
Estás aqui.

Aqui.

Em mim.