Bom pessoal, mais um Natal se passou, muitos presentes foram dados e recebidos, o velho Noel entrou pelas chaminés enfumaçadas das casas que as tem, supermercados lotados, perus, chesters, champanhe, panetone, frutas, cantigas natalinas, abraços, estradas congestionadas, mortes, nascimentos, etc. Diante de tudo isso, presenciei uma cena no anoitecer da segunda-feira que me fez repensar um pouco tudo o que circunda esta data tão festejada pelos cristãos, e por alguns não cristãos também. Próximos a uma parada de ônibus em que eu estava, uma família, composta por um homem, uma mulher, ambos ao redor dos 50 anos, e três crianças, a mais velha com uns 10 anos e a mais nova com uns três, discutiam asperamente. Como jornalista que sou, passei a prestar atenção na discusssão e tentar descobrir a razão para a contenda. Depois de uns dois minutos, descobri que a briga se dava porque as crianças não tinham ganho nenhum presente de Natal, nenhuma "lembrancinha", e a mãe e os filhos cobravam do pai por isso, por ele não ter arranjado dinheiro para comprar presentes para os filhos. Depois do primeiro sentimento, que foi de pena, e de uma frase dita pela criança mais velha, passei a refletir sobre o nosso papel, o de comunicadores, não importa se jornalistas ou publicitários, na sociedade. A criança disse, em um dos poucos momentos em que pude distinguir a sua voz por entre os gritos dos pais, que só elas que não ganhavam presentes, que viu na televisão que todo mundo tinha saído pra comprar presentes e todo mundo iria ganhar presentes e que ela queria aquele joguinho que viu no comercial da TV. Depois de mais alguns minutos de discussão, o homem se levantou, pegou uma garrafa de cachaça que estava do seu lado, mandou todos à m.. e saiu emborcando o líquido translúcido. Entrei no ônibus e segui a viagem refletindo sobre a nossa função, coisa que ainda faço agora. Como podemos nós, com o nosso trabalho, desestruturar ainda mais famílias que já não possuem quase nada. Os telejornais mostram as ruas e avenidas repletas de compradores ávidos, as lojas vendendo e faturando como nunca, as famílias felizes levando seus presentes para a casa e as crianças contentes e ansiosas pela espera do Noel. Os comerciais de TV, e de jornal e de rádio também, por que não, estimulam e incitam o consumo de brinquedos, roupas, celulares, videogames, eletrônicos em geral, etc. Para quem pode comprar, ótimo, será um Natal alegre e feliz com todos ao redor da árvore trocando seus presentes após uma saborosa ceia. E para quem não pode? O que ocorre com esses? Discussões, brigas, violência, crimes. A conseqüência todos nós sentimos e queremos soluções rápidas para elas. As causas, uma fatia considerável delas, pelo menos, somos nós, comunicadores, jornalistas ou publicitários, os responsáveis. Eu sigo cá pensando e, depois disso tudo, confesso que ainda não digeri muito bem a ceia da noite de segunda.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Ceia entalada na garganta
Bom pessoal, mais um Natal se passou, muitos presentes foram dados e recebidos, o velho Noel entrou pelas chaminés enfumaçadas das casas que as tem, supermercados lotados, perus, chesters, champanhe, panetone, frutas, cantigas natalinas, abraços, estradas congestionadas, mortes, nascimentos, etc. Diante de tudo isso, presenciei uma cena no anoitecer da segunda-feira que me fez repensar um pouco tudo o que circunda esta data tão festejada pelos cristãos, e por alguns não cristãos também. Próximos a uma parada de ônibus em que eu estava, uma família, composta por um homem, uma mulher, ambos ao redor dos 50 anos, e três crianças, a mais velha com uns 10 anos e a mais nova com uns três, discutiam asperamente. Como jornalista que sou, passei a prestar atenção na discusssão e tentar descobrir a razão para a contenda. Depois de uns dois minutos, descobri que a briga se dava porque as crianças não tinham ganho nenhum presente de Natal, nenhuma "lembrancinha", e a mãe e os filhos cobravam do pai por isso, por ele não ter arranjado dinheiro para comprar presentes para os filhos. Depois do primeiro sentimento, que foi de pena, e de uma frase dita pela criança mais velha, passei a refletir sobre o nosso papel, o de comunicadores, não importa se jornalistas ou publicitários, na sociedade. A criança disse, em um dos poucos momentos em que pude distinguir a sua voz por entre os gritos dos pais, que só elas que não ganhavam presentes, que viu na televisão que todo mundo tinha saído pra comprar presentes e todo mundo iria ganhar presentes e que ela queria aquele joguinho que viu no comercial da TV. Depois de mais alguns minutos de discussão, o homem se levantou, pegou uma garrafa de cachaça que estava do seu lado, mandou todos à m.. e saiu emborcando o líquido translúcido. Entrei no ônibus e segui a viagem refletindo sobre a nossa função, coisa que ainda faço agora. Como podemos nós, com o nosso trabalho, desestruturar ainda mais famílias que já não possuem quase nada. Os telejornais mostram as ruas e avenidas repletas de compradores ávidos, as lojas vendendo e faturando como nunca, as famílias felizes levando seus presentes para a casa e as crianças contentes e ansiosas pela espera do Noel. Os comerciais de TV, e de jornal e de rádio também, por que não, estimulam e incitam o consumo de brinquedos, roupas, celulares, videogames, eletrônicos em geral, etc. Para quem pode comprar, ótimo, será um Natal alegre e feliz com todos ao redor da árvore trocando seus presentes após uma saborosa ceia. E para quem não pode? O que ocorre com esses? Discussões, brigas, violência, crimes. A conseqüência todos nós sentimos e queremos soluções rápidas para elas. As causas, uma fatia considerável delas, pelo menos, somos nós, comunicadores, jornalistas ou publicitários, os responsáveis. Eu sigo cá pensando e, depois disso tudo, confesso que ainda não digeri muito bem a ceia da noite de segunda.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Uma notícia reconfortante
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Uma dona
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Dá-lhe Jon Lee!
Pra quem ainda acredita que o bom jornalismo existe e pode, quem sabe, um dia, talvez, tornar-se a maioria do que vemos por aí, reproduzo a troca de e-mails entre Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, e Diogo Schelp, editor da revista Veja, sobre a tão falada capa de 3 outubro último.
Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou — como é o seu caso — uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.
Cordialmente, Jon Lee Anderson.
Caro Anderson,
Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um e-mail pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua 'carta' — talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos — um e-mail circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não — mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.
Sem mais, Diogo Schelp
Prezado Diogo Schelp,
Agradeço pelo sua 'gentil' resposta. Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu e-mail inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem. Muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez devesse configurar seu sistema como 'moderado' e não 'extremo'. Se o fizer, talvez comece a receber seus e-mails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não 'extremo'. Esta é a chave.
Você me acusa de ser antiético, um 'mau jornalista'. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem? Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu: Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele — incluindo a minha — para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: 'Che, a farsa do herói'.
Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. Os outras seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operaçãoque culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Com os outros, parece, Veja só falou por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja! Como disse em minha 'carta aberta' a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivalente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que 'Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano' passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é 'a mais completa biografia' de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizações, caso de seu texto.
Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser 'editor de internacional'.
Cordialmente, Jon Lee Anderson.
Fonte: blog Cantofabule
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Não fui e não vou
Não. Eu não fui e não vou à Feira do Livro de Porto Alegre. E isso não é por não gostar de livros, de ler, do Centro, da movimentação ou do calor. Não vou à Feira do Livro exatamente pelo que ela é: uma feira do livro. Ela não é uma feira de literatura, com atrações culturais, debates, eventos e atividades. Ela é uma feira do livro. Uma feira onde se compram e se vendem livros, só isso. O mais tradicional “evento cultural” da capital gaúcha se tornou no maior evento comercial da cidade. O que importa é vender e vender. Não importa o que e para quem. Importa vender. Isso é claro quando o sucesso da feira é medido pelo número de livros vendidos, sendo que a grande maioria destes são de culinária, auto-ajuda e mais algumas bobagens. O preço não é um chamativo. Livros que custam R$ 30,00 em uma livraria no shopping, saem por R$ 28, no mínimo, na feira. Juntamos a isso o enorme número de pavões que passam o ano sem tocar em um livro e só vão à feira para aparecer, dar entrevistas e encher o saco. A feira do livro de Porto Alegre não é um evento cultural. É, sim, um evento comercial e social. Somente isso. Como estou sem grana e não tenho tempo de fazer um social, não irei.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
As vaias do Maracanã
Quem assistiu ao jogo de ontem à noite da seleção brasileira contra o Equador viu um primeiro tempo sonolento e um segundo tempo muito bom do Brasil. O fato que chamou a atenção foram as constantes vaias da torcida, começando aos 6 minutos de jogo. Creio que existe uma explicação para isso: o público que vais aos estádio assistir os jogos da seleção não é um público habitual do futebol. Quem comparece aos jogos da seleção são aquelas pessoas que normalmente não vão aos estádios, em razão da violência, do tipo de pessoas que comparecem e de outras tantas causas e preferem ficar em casa, no conforto do ar condicionado, com uma cerveja na mão e vendo jogo passando na TV, e , quando vão ao ver o jogo ao vivo, querem assistir ao espetáculo que a imprensa diz que a seleção vai dar. Como não enxerga isso, vaia. O cara que vai normalmente aos estádio torcer para o seu time não vai aos jogos da seleção, principalmente porque o ingresso é muito caro. A bobagem criada pelo Galvão Bueno do "jogo das famílias" foi uma das maiores excrescências da imprensa esportiva brasileira dos últimos anos. Durante a transmissão, o narrador da Globo chegou a afirmar que é desse público que o futebol brasileiro precisa, das famílias, das pessoas de bem. Ou seja, para o Galvão, quem só vai aos estádios em jogos da seleção porque o ingresso é caro, porque o público é mais selecionado, e que aos 6 minutos de jogo já vaia o time, são as pessoas de bem. O cara que trabalha a semana toda, de Sol a Sol, deixa faltar comida na mesa da família para ir torcer para seu time de coração não é uma pessoa de bem. Ontem foi duro de assistir a isso e continuar vendo o jogo normalmente. Parafraseando o Romário: o Galvão calado é um poeta.terça-feira, 9 de outubro de 2007
O resto é acessório
Estava pensando eu o que realmente significaria a formatura da faculdade. O fim de uma etapa da vida? Talvez. O início de outra? Quem sabe. O momento no qual passamos a ser profissionais? Quiçá. Toda estas possibilidade são válidas, entretanto, não tenho a menor dúvida que o maior significado para mim dessa formatura é o seguinte: pela primeira vez na vida vou deixar de ser estudante e, assim, não estenderei mais mão para o cobrador do ônibus para lhe passar a carteirinha escolar.