sexta-feira, 3 de abril de 2009

O sublime sentimento

Eram umas 20h30min mais ou menos quando eu peguei o ônibus ontem, pós-trabalho, rumo à minha casa, na zona Sul de Porto Alegre. Seria mais uma daquelas viagens maçantes de 20 minutos, de pé, tendo de aguentar as bruscas freadas do motorista que conduzia o coletivo. Seria, mas não foi.
Subi no ônibus e me coloquei ao lado de um banco em que duas meninas estavam sentadas. A minha colocação ali foi totalmente casual. O que se seguiu foram cenas sujas do mais puro preconceito e cenas lindas do amor sendo expressado sem pudores.
As duas meninas, e digo meninas porque elas deviam ter entre seus 16, 17 ou, no máximo, 18 anos, se acariciavam com um carinho comovedor. Tocavam-se, alisavam-se. Uma mexia no cabelo da outra. Uma delas, a morena, recostou a cabeça sobre o ombro da outra, a loira, enquanto esta lhe fazia cafuné. E assim foi durante todo o trajeto. Elas se olhavam ternamente nos olhos e se beijavam. Sem vergonha. Sem medo do que os outros iriam pensar. Elas se amavam e isso bastava para as duas. Estas eram as cenas lindas e comovedoras.
As cenas sujas foram estas. Pessoas se olhando e fazendo sinal de negativo com a cabeça, olhares de canto de olho para elas seguidos de cochichos. Uma mãe com seu filho, que havia entrado depois e sentou no banco atrás das meninas, quando as duas se beijaram, se levantou e foi para a parte da frente do veículo, permanecendo de pé. Duas senhoras que estavam sentadas no banco atrás de mim falavam, sem a preocupação em baixar a voz. “Que absurdo. Não se respeita mais ninguém. Duas gurias bonitas fazendo isso. Não sei como o cobrador deixa”. Isso foi o que eu ouvi e o que eu vi.
Eu fiquei ali. Parado. Não me incomodei nem um pouco com as meninas apaixonadas. Pelo contrário, achei toda a cena de uma beleza ímpar. Elas eram uma ilha de beleza cercadas por um oceano de sujeira.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O cúmulo da sacanagem

Hoje presenciei uma cena no ônibus, quando retornava para casa depois do trabalho, por volta das 20h20min, mais ou menos, que me deu nojo. Ali na avenida João Pessoa, nos corredores de ônibus que ficam em frente ao Jornal do Comércio, sempre tem algumas crianças ou adolescentes vendendo balas de goma, daquelas coloridas, que são embaladas em forma de tubinho, uma junto à outra. A cada ônibus que para, eles se dirigem para a porta e perguntam para o motorista se podem entrar e vender a sua mercadoria para os passageiros. A grande maioria dos motoristas não deixa, e eles ficam ali, vendendo para quem está na parada. Nesta quinta-feira eu fiz sinal para um ônibus da linha Restinga Velha. O coletivo parou e eu me dirigi para a sua porta de entrada. Um desses garotos chegou antes de mim à porta. Ele entrou e eu entrei logo depois. Ele perguntou se poderia vender dentro do ônibus, ao que o motorista respondeu dizendo algo que não consegui escutar direito. A cena seguinte foi a que me indignou. O garoto pôs a mão dentro de sua mochila, tirou dois tubinhos de bala e deu um para o motorista e um para o cobrador. Esse foi o salvo conduto dele para poder vender suas balas dentro do ônibus. Depois disso, ele passou por baixo da roleta e vendeu suas balas para umas três pessoas, eu entre elas (para compensar um pouco o prejuízo causado por aquela sacanagem dos funcionários da empresa de ônibus, paguei 1 real por dois pacotes, mesmo ele vendendo cada um por trinta centavos). Motoristas de ônibus extorquindo crianças que vendem balas para ajudar à família (e esse é o caso dessas crianças. Elas são educadas e usam roupas bem limpas, não usam, portanto, o dinheiro que ganham com as vendas para comprar drogas ou coisas do tipo). Tudo bem, não quer deixar o garoto vender suas balas dentro do ônibus, não deixa. Mas obrigá-lo a dar de graça dois pacotes para que ele possa fazê-lo, é o cúmulo da sacanagem. Eu pensei que já tinha visto todos os tipos de filhasdaputices humanas. Mas agora vejo que me enganei.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Igreja, o comandante e a segurança

Nessa semana estive acompanhando o lançamento, em Porto Alegre, da Campanha da Fraternidade 2009, organizada pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entidade ligada à Igreja Católica. O tema da campanha neste ano é "Fraternidade e Segurança Pública". Durante a apresentação da campanha o presidente regional da CNBB, Dom José Mário Stroeher, fez duras críticas ao sistema de segurança atual em prática no País, à Justiça e à situação das penitenciárias brasileiras. "Para combater a violência não basta combater os efeitos, é preciso discutir as causas, que são muitas. Não se pode associar pobreza com criminalidade, por exemplo, pois os grandes líderes do crime organizado não estão nas periferias. Outro ponto é o tratamento diferenciado que é dado pela justiça aos pobres e aos ricos, que dá a impressão de que as leis foram feitas somente para alguns", afirmou o religioso.
O Comandante Geral da Brigada, coronel Trindade, estava presente no acontecimento. Até aí, nada demais, e é até normal que no lançamento de uma campanha de mobilização nacional como a realizada pela CNBB, que tem como assunto principal a segurança pública, a principal figura da polícia militar do Estado esteja presente. O que chamou a atenção foi o que ele disse em entrevista para mim e para um repórter do jornal Correio do Povo. O coronel Trindade falou que gostou do que ouviu dos representantes da Igreja porque teve a impressão de que o debate se dará em torno de valores e não com viés político. Cá para nós, é inegável que a questão da segurança publica é fortemente política, depende de ações políticas, de vontade política. A impressão que deu foi de que o coronel não foi no encontro para se inteirar da campanha, saber quais propostas e sugestões a Igreja tinha, se integrar no processo de debate sobre o tema, e sim foi apenas acompanhar para ver se o governo iría ser criticado. Não foi (ou pelo menos não identificadamente) e ele saiu satisfeito.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Uma pequeníssima prática de subversão

Segue o primeiro parágrafo de uma matéria que fiz e que foi publicada na edição do dia 6 de fevereiro no Jornal do Comércio. Uma pequeníssima prática de subversão, eu diria. Mas é melhor do que nada.

"A Fundação de Assistência Social e Cidadania tem como um dos seus focos de atuação a retirada dos pedintes das ruas de Porto Alegre. O que se pôde ver na tarde desta quinta-feira, entretanto, foi algo muito parecido com o que é feito pelos moradores de rua, só que sendo realizado dentro do gabinete do secretário Kevin Krieger. Durante a apresentação do projeto do Centro Material de Reciclagem (Cemar) pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) ao secretário nacional de Transporte e Mobilidade Urbana, Luiz Carlos Bueno de Lima, o que mais se pôde ver foram pedidos de liberação de recursos por parte do Ministério das Cidades para a viabilização do projeto."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sobre o jornalismo

Não tenho escrito muita coisa por aqui. Falha minha talvez, um pouco de preguiça quem sabe, falta de assunto possivelmente. Até agora 2009 tem sido um ano bem bom. Bastante atividade no trabalho, tenho produzido bastante e ideias novas surgem com muita regularidade. Algumas surpresas muito boas e grandes expectativas para os próximos meses.
Não vou para o Litoral nesse verão e acho que ficando em Porto Alegre acabo descansando mais. O jornalismo diário fez com que algumas utopias em relação à profissão fossem deixadas de lado. A realidade é bem mais crua. É preciso produzir todos os dias, não há tempo para muitas divagações e grandes aprofundamentos. A satisfação de ter escrito uma matéria de abertura de 4 mil caracteres, com foto na capa, acaba no momento em que a pauta do dia seguinte é passada.
Entretanto, cabe ressaltar que me surpreendi muito positivamente em relação à prática da profissão. Pelo menos no veículo onde trabalho, tenho uma considerável liberdade para propor pautas, algumas, eu diria até, bastante “subversivas”, como diria aquele mestre. Existe uma certa satisfação na chefia imediata e em mim também quando a assessoria de comunicação de um órgão público liga reclamando da matéria que foi publicada, fato que já ocorreu diversas vezes. O compromisso continua sendo com o leitor e com a mais ferrenha fidelidade com a verdade factual. É lógico que na maioria das vezes se faz necessário ouvir o lado que é alvo da reclamação popular, até para que o leitor e a população saiba o que está ou o que não está sendo feito. Mas esse espaço, o da voz oficial, sempre tem der ser o estritamente necessário para que uma satisfação à sociedade seja dada. Enfim, estou gostando bastante. Não é nem aquela maravilha ideal com que sonhávamos quando estudantes, nem aquele sepulcro do jornalismo que achávamos que era. É a realidade, a força dos minutos e do dia-a-dia impedem que algo muito melhor seja feito, mas isso não é motivo para que não se tente fazê-lo. É isso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Jornalista tem de ter lado


“Jornalistas devem estar ao lado dos que mais sofrem. Se nos mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, não deveríamos dar o mesmo tratamento às opiniões do escravo e às do capitão do navio mercador de escravos. Se nos mandassem cobrir a libertação, num campo de concentração nazista, não deveríamos dar o mesmo tratamento às vítimas e ao porta-voz da SS”.

Robert Fisk, jornalista inglês

* Extraído do RS Urgente