sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Grande idiotice

Só a elite que se nega a enxergar o que ocorre nas ruas ainda apoia essa idiotice chamada "guerra às drogas". Até um velho policial yanke sabe disso.

Combate às drogas baseado na proibição é “caminho para o desastre”, diz especialista

As políticas de enfrentamento à questão do tráfico e do consumo de drogas baseadas na proibição são um caminho para o desastre. A avaliação é do detetive aposentado da Polícia de Nova Jersey, nos Estados Unidos, Jack Cole. Para ele, que trabalhou infiltrado no mundo do narcotráfico em seu país de origem por mais de dez anos, a repressão tem um custo alto para o Estado e traz pouca eficácia no dia a dia da sociedade.
Para justificar sua hipótese, Cole citou a política norte-americana de combate às drogas. “Quando a nossa política de combate começava, na década de 1970, os estudos apontavam que cerca de 1,3% da população era viciada em algum tipo de droga. Por conta disso, começamos uma guerra, com custos de aproximadamente US$ 100 milhões ao ano. Passadas algumas décadas, os gastos que temos nessa área já chegam a US$ 70 bilhões e o percentual de viciados continua nos 1,3%”, argumentou.
“Além disso, mesmo com toda essa política, as apreensões passaram de gramas a toneladas. Enquanto o grau de pureza aumentou muito, o preço das drogas se torna cada vez menor. Por tudo isso, podemos dizer que é uma política fracassada”, afirmou ele, que participou nesta sexta-feira (23) no Rio de Janeiro, da 2ª Reunião da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia.
Ele também criticou o fato de que, com a proibição do consumo, torna-se mais fácil a crianças e adolescentes adquirir essas substâncias no mercado ilegal do que as chamadas drogas lícitas, como álcool e cigarro.
“Nas ruas, eles não querem saber se o comprador tem documento de identificação, se tem idade suficiente, como ocorre nos Estados Unidos para liberar a venda de bebidas alcoólicas, por exemplo. Nas ruas, eles só querem saber se o comprador tem o dinheiro (para comprar a droga)”, acrescentou.

Fonte: Ag. Brasil.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

As casas e as ruas alagadas e o galo que corre sobre as águas

O título aqui em cima era o título original da matéria que sai nesta quarta no JC e que reproduzo logo aqui embaixo. O título teve de ser trocado, pois não coube na página, mas o texto é o mesmo. A experiência me fez ganhar o mês e acho que o texto ficou bacana, se não bom, pelo menos diferente do que é comumente publicado sobre a questão. Leiam e opinem, se quiserem.

Foto de Mauro Schaefer

Moradores vivem a rotina dos alagamentos
Residentes da Ilha dos Marinheiros se adaptam para permanecer na região

Juliano Tatsch

Quem mora nas ilhas de Porto Alegre não vê o lado glamouroso do lago Guaíba. Não vê o famoso pôr do sol. O único glamour que quem vive nas ilhas do Guaíba vê são as luxuosas casas que margeiam o lago. Quem mora do lado de cá da Capital contempla a beleza do entardecer. Quem reside do lado de cá, porém, não enxerga o que quem mora nas ilhas vive, diariamente, quando dos períodos de chuva na Capital e nas cidades da Região Metropolitana.
A reportagem do Jornal do Comércio pegou carona na carroça dos papeleiros Adriano e Paulo Ramos para acompanhar, por pouco tempo, parte das dificuldades de quem vive na Ilha dos Marinheiros quando o nível do Guaíba sobe. É impossível andar a pé nas áreas mais baixas. O único modo de se locomover é através de carroças, cavalos, botes e barcos. Caso contrário, a pessoa deve ter um bom par de botas de cano longo, ser extremamente corajosa e não temer os riscos de adquirir alguma doença.
Fernando Souza mora há 16 anos na ilha. Segundo ele, o medo maior ocorre durante a noite, pois a água pode subir e pegar todos de surpresa enquanto dormem. “Nós estamos permanentemente em alerta. Essa água é imprevisível. À noite nós vamos dormir e ela está normal; quando acordamos pela manhã já está batendo na porta. Várias vezes já tivemos de sair. Nessa cheia de agora, a água só não entrou em casa porque a construção é alta”, relata.
Os moradores da Ilha dos Marinheiros, sabedores do constante risco de enchente do lago, constroem suas casas sobre pilares, a uma altura considerável. Em muitas delas, nem isso é suficiente. No caso das residências que ficam completamente ilhadas ou são tomadas pela água, a única coisa a ser feita é retirar as famílias e alojá-las em outro local, que, no caso da Ilha dos Marinheiros, é a escola.
O problema, porém, não se encerra com a retirada dos moradores de suas casas. Muitos deles não querem sair. Duas são as razões básicas para isso: uma é o medo de ter seus pertences furtados durante o período que não estiverem em casa; a outra é o fato de, ao se ausentarem de suas residências, se sentirem impotentes, não poderem fazer nada para salvar um pouco que seja de seus móveis e utensílios domésticos. “Eu não deixo minha casa. Nunca saí, mesmo quando a água subiu muito mais do que agora. É muito perigoso. O risco de voltar e não encontrar mais nada é muito grande”, diz Cacilda Rodrigues, há 44 anos moradora da ilha.
Os irmãos Ramos seguem com seu cavalo água adentro. O animal dá sinais de cansaço, afinal de contas, carrega na carroça os dois irmãos, o repórter e o fotógrafo. Caminhar com água batendo no joelho exige muito mais do físico do animal que, valente, segue sem parar, a não ser quando Paulo faz uma breve parada para que as histórias dos moradores possam ser ouvidas e as imagens possam ser registradas. Não se vê muitas pessoas nas ruas e as que estão, em sua maioria, ou trabalham ou aproveitam o sol da tarde de terça-feira para pôr algumas roupas e móveis para secar. Não se nota tristeza nos rostos. A única explicação para tal é dada por Souza. “Já esteve muito pior. Hoje está até bom aqui”, ressalta.
Crianças brincam. Duas correm atrás de um galo que, tentando voar, parece caminhar sobre as águas. “Vai para a panela, vai para a panela”, diz o menino após conseguir apanhar a ave. A carroça segue e mais adiante é possível ver um outro menino se equilibrando sobre um pedaço de isopor, utilizando um galho que leva em uma das mãos como remo. Em um dos pátios alagados, outra criança demonstra muita destreza indo de um lado para o outro e dando giros completos com um barco. Mesmo em meio à tragédia, ainda há lugar para sorrisos e brincadeiras.

- http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=8988&codp=104&codni=3

sábado, 26 de setembro de 2009

"É um assunto de classe"

Noam Chomsky é mestre. Depois que li “O Lucro ou as Pessoas?” para fazer meu trabalho de conclusão de curso passei a me interessar bastante pelos seus escritos e opiniões. Passando por alguns site na Internet achei uma entrevista dele ao jornal mexicano La Jornada, reproduzida pela Agência Carta Maior. Destaco um trecho em especial. Em época de campanhas contra as drogas, especialmente uma delas, vale a pena dar uma lida. O texto completo pode ser lido aqui.

A guerra contra o narcotráfico
Noam Chomsky

A guerra contra a droga, que se espalha por vários países da América Latina, entre eles o México, tem velhos antecedentes. Revitalizada por Nixon, foi um esforço para superar os efeitos da guerra do Vietnã, nos EUA. A guerra foi um fator que levou a uma importante revolução cultural nos anos 60, a qual civilizou o país: direitos da mulher, direitos civis. Ou seja, democratizou o território, aterrorizando as elites. A última coisa que desejavam era a democracia, os direitos da população, etc., razão pela qual lançaram uma enorme contraofensiva. Parte dela foi a guerra contra as drogas.
Ela foi desenhada para transportar a concepção da guerra do Vietnã: do que nós estávamos fazendo aos vietnamitas ao que eles não estavam fazendo a nós. O grande tema no final dos anos 60 nos meios de comunicação, inclusive os liberais, foi que a guerra do Vietnã foi uma guerra contra os EUA. Os vietnamitas estavam destruindo nosso país com drogas. Foi um mito fabricado pelos meios de comunicação nos filmes e na imprensa. Inventou-se a história de um exército cheio de soldados viciados em drogas que, ao regressar para casa, converteram-se em delinquentes, aterrorizando nossas cidades. Sim, havia uso de drogas entre os militares, mas não era muito diferente do que existia em outros setores da sociedade. Foi um mito fabricado. É disso que se tratava a guerra contra as drogas. Assim se mudou a concepção da guerra do Vietnã, transformando-a em uma guerra na qual nós éramos as vítimas.
Isso se encaixou muito bem com as campanhas em favor da lei e da ordem. Dizia-se que nossas cidades se desgarravam por causa do movimento anti-guerra e dos rebeldes culturais, e que por isso era preciso impor a lei e a ordem. Ali cabia a guerra contra a droga.
Reagan ampliou-a de maneira significativa. Nos primeiros anos de sua administração intensificou-se a campanha, acusando os comunistas de promover o consumo de drogas. No início dos anos 80, os funcionários que levavam a sério a guerra contra as drogas descobriram um incremento significativo e inexplicável de fundos em bancos do sul da Flórida. Lançaram uma campanha para detê-lo. A Casa Branca interveio e suspendeu a campanha. Quem o fez? George Bush pai, neste período o encarregado da guerra contra as drogas. Foi quando a taxa de prisões aumentou de maneira significativa, principalmente a prisão de negros. Agora o número de prisioneiros per capita é o mais alto do mundo. No entanto, a taxa de criminalidade é quase igual a dos outros países. É um controle sobre parte da população. É um assunto de classe. (grifo meu)
A guerra contra as drogas, como outras políticas, promovidas tanto por liberais como por conservadores, é uma tentativa para controlar a democratização das forças sociais. (grifo meu)
Há alguns dias, o Departamento de Estado emitiu sua certificação de cooperação na luta contra as drogas. Os três países que foram “descertificados” são Myamar, uma ditadura militar – não importa, está apoiada por empresas petroleiras ocidentais -, Venezuela e Bolívia, que são inimigos dos EUA. Nem México, nem Colômbia, nem Estados Unidos, em todos os quais há narcotráfico.

sábado, 15 de agosto de 2009

O pescador


Eu eu o meu celular, sozinhos, em um desses dias frio que tivemos, não me recordo quando, na beira do Guaíba. O pescador e a sua pequena canoa. Gostei da foto.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Aquele mestre

Realizei ontem, durante cerca de uma hora e meia, uma entrevista com um professor da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul sobre um trabalho que ele realiza para combater a prática do bullying. Matéria de gaveta, é lógico, porque se fosse do dia a conversa não passaria de meia hora. O professor contou-me diversas histórias de adolescentes que sofriam agressões, sejam elas físicas ou verbais, na escola e sofriam, na maior parte das vezes calados, por serem "diferentes". Em certa altura da conversa, enquanto me contava mais uma das emocionantes histórias, o professor não conseguiu conter as lágrimas e caiu no choro. E eu ali, na frente dele. O que fazer? Foi nessa hora que eu pensei naquilo que nos é dito na faculdade, da importância do distanciamento do repórter, de ele não se envolver além do necessário. Pensei, pensei, e conclui uma coisa: que se foda o distanciamento. Foi impossível controlar a emoção diante daquele homem que ganha uma miséria, que tem uma estrutura super deficiente para trabalhar, que é chamado de torturador pela governante maior do Estado, e que se importa com seus alunos, quer fazer deles pessoas melhores, que os ouve. Confesso que caíram-me algumas lágrimas, também. Mais contidas do que as dele, claro, mas extremamente tocadas pelas palavras daquele professor. Não me orgulho de tê-lo feito chorar, como alguns colegas de profissão gostam de espalhar aos quatro cantos. Orgulho-me, sim, de ter chorado também, de ter percebido que o materialismo e a rotina do jornalismo ainda não me embruteceram. Orgulho-me de ter escolhido uma profissão que me dá a possibilidade de conhecer e de ouvir pessoas como aquele mestre.

sábado, 18 de julho de 2009

Vai pra página

Os últimos dias têm sido deveras agitados. Ideias e mais ideias. Várias pautas na cabeça e mais algumas para fazer (calma chefa, todas serão feitas!). Boas surpresas e uma decepção. Tenho andado meio confuso, caminhos surgem e ainda não sei qual escolher. Nada como o tempo para resolver.
Tenho encarado o jornalismo como uma grande diversão. Algo extremamente prazeroso de se fazer. É tão bom chegar da rua e ter 15 minutos para escrever um texto de abertura de página de 3,5 mil caracteres. Acho isso sensacional. A pressão. O desafio. A cobrança. Ver o pessoal baixando as páginas. A correria. Estou vivendo um caso de amor com o jornalismo diário. Não é o jornalismo ideal, aquilo que entendemos como o perfeito da profissão. Não. Não é. Mas é fascinante, mesmo assim. Perde-se a capacidade de analisar profundamente um assunto, pesquisar mais, buscar mais fontes. De fato, perde-se. Não há como se fazer no jornalismo diário o que se faz na Rolling Stone, na Piauí ou no Le Monde. Pelo menos não quando escrevemos sobre um assunto do dia. No caso das matérias de gaveta, são outros quinhentos. Isso é ruim? Por um lado sim, por outro não. É ruim porque, em boa parte das vezes perde-se a oportunidade de se explorar mais um tema, buscar outras nuances do assunto, trabalhar e burilar o texto. Por outro é muito bom, pois o texto sai mais vivo, pulsante, não há muito tempo para pensar sobre o que se está dizendo, escreve-se o que se viu e ouviu, não há muito tempo para ser político. Diz-se o que se quer dizer. O que se quer dizer é publicado. No outro dia que se aguente as ligações de leitores e de interessados reclamando (ou ameaçando) ou, algumas vezes, elogiando pela coragem de ter dito aquilo. Vejam bem, estou falando da minha experiência no veículo em que trabalho. Não posso falar sobre como funciona nos outros.
Conhecer pessoas. Fazer amigos. Outro grande bem que a profissão tem me feito. Assim como com os amigos que passam por aqui, tenho os colegas de editoria do jornal como grandes irmãos. Divirto-me muito lá e tento fazer com que eles se distraiam também. Sabidamente tenho uma veia cômica. Acompanhando repórteres dos outros veículos durante as coberturas e vendo o que é produzido depois, cheguei à conclusão de que isso é uma das coisas que mais falta para o jornalismo e para os colegas jornalistas: enxergar o trabalho como uma grande diversão e não como uma obrigação advinda de um contrato de trabalho. O texto reproduz em muito o estado de espírito de quem o escreve. Chega a ser animalesca a atitude de alguns colegas jornalistas durante as coberturas. Empurram-se, discutem uns com os outros, brigam. Estão sempre em um estado de tensão tremendo. Falam, falam, falam e falam. Não param de perguntar. Não ouvem as respostas, não as analisam. Pra que, afinal, se o gravador está guardando tudo? Depois é só degravar.
Não uso gravador nas pautas diárias. Duas são as razões: 1) não teria tempo para ouvir toda a entrevista e depois fazer a transcrição; 2) sem ele, presto mais atenção no que a fonte está falando, afinal de contas, tenho de anotar certinho o que ela diz e, assim, ouvindo atentamente, consigo perceber suas contradições, pensar sobre as respostas, formular perguntas que possam tirar mais da fonte ou desconcertá-la. Constantemente vejo colegas sem uma caneta cobrindo uma pauta. O gravador está sempre lá.
Enfim, como disse, estou meio confuso (no momento estou completamente sóbrio, amigos). Fazia tempo que não escrevia nada aqui. O assunto veio à cabeça e resolvi escrever. O texto saiu meio que escarrado. Talvez amanhã eu receba alguma ligação descendo o pau em mim. Fazer o que? O dead line bateu, está na hora de entregar o escrito. Não há tempo para pensar muito mais. Vai pra página. Tchau.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Palma, palma, não priemos cânico

Não ia me manifestar sobre isso, mas resolvi dizer alguma coisa. Não há como negar que a decisão do STF me deixou um pouco chateado. Para quem usou e usa os anos de faculdade para realmente se enriquecer culturalmente, adquirir uma bagagem teórica consistente e, acima de tudo, pensar em jornalismo, nas suas consequências, na responsabilidade e nos compromissos de quem trabalha na área, a decisão é um pouco frustrante. Acho que o argumento de que a maior parte dos jornalistas é desinformado e que, quando escreve sobre um assunto que não domina, acaba falando bobagem, não é valido. Esse profundo conhecimento que um bacharel em Direito teria para fazer uma entrevista com um jurista famoso, por exemplo, faz com que esse “jornalista” da prática não tenha algo essencial para a prática da profissão: humildade. O argumento da liberdade de expressão é mais racional e aceitável.
Não gostaria de trabalhar em uma redação repleta de advogados, psicólogos, médicos, economistas, sociólogos, e todos os outros sabidões existentes. Daqui a pouco não será preciso nem mais se fazer entrevistas, pois o próprio “jornalista” será entrevistador e entrevistado.
Enfim, na real, acho que não vai mudar quase nada. Primeiro porque os veículos de comunicação vão continuar buscando seus profissionais amestrados tecnicamente nas escolas de jornalismo. Os jovens focas são perfeitos para o que eles precisam. Segundo, porque não creio que qualquer um desses outros profissionais que citei anteriormente trabalharia por R$ 1.314,00 mensais. Colegas, tranquiliza-vos, portanto.