terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A lição da bicicleta

Antes de saber andar de bicicleta eu tinha medo de tentar aprender. Isso se dava porque eu sabia que se seu subisse na bicicleta sem saber andar e, mesmo assim, tentasse andar, eu iria cair e, em algumas vezes, iria me machucar. Por um bom tempo evitei me aproximar daquilo que eu desejava tanto com medo de que aquele objeto de desejo me machucasse e me causasse dor.
Enquanto isso, eu via meus amigos tentando aprender também a se equilibrar sobre as duas rodas e a andar de bicicleta. Eu vi muitos deles caírem e se machucarem. Eu vi a bicicleta causar choro em quase todos eles. E eu pensava comigo mesmo, que aquilo não iria ocorrer comigo. Eu não iria me machucar. Eu não iria cair da bicicleta. Eu não iria chorar por causa daquilo que eu tanto queria.
Com o tempo, porém, eu vi meus amigos caírem menos, e pouco tempo depois, caiam ainda menos, e muito pouco tempo depois, não caiam mais. E também vi que alguns deles caiam uma ou duas vezes e paravam de cair, já saiam andando, enquanto outros sofriam muito mais percalços durante os seus processos de aprendizagem. E então, em muito pouco tempo, eu vi que todos os meus amigos sabiam andar de bicicleta e vi como eles se divertiam com aquilo. Vi como aquilo lhes dava alegria. Uma alegria que suplantava em muito todo o sofrimento que eles tiveram até conseguir dominar a arte de andar de bicicleta. E percebi que a bicicleta daria alegrias para eles por todo o resto de suas vidas. E foi aí que eu tive uma das primeiras grandes lições da minha vida. Foi aí que eu aprendi que um tombo de bicicleta que eu sofresse, seria um tombo a menos que eu iria sofrer. Foi aí que eu aprendi que um choro em razão de um machucado, seria um choro a menos que eu iria chorar. Foi aí que eu aprendi que o sofrimento faz parte do caminho para se aprender e se obter as coisas as quais nós desejamos. E que esse sofrimento varia, podendo ser maior para algumas coisas e menor para outras ou que mesmo para a mesma coisa ele poderia variar, dependendo da ocasião. A vontade de aprender a andar de bicicleta e as alegrias, os sorrisos, os momentos inesquecíveis que eu iria passar junto dela era e seriam incomparavelmente maiores do que os riscos que eu correria ao tentar conseguir o que eu queria conseguir. Foi aí que eu aprendi que, em razão do medo, eu nunca deveria deixar de fazer algo que eu desejasse muito fazer. As quedas anteriores só me ensinaram. Com as quedas anteriores eu aprendi como não cair. E, depois que eu aprendi, eu nunca mais cai de bicicleta. Eu passei a me antecipar às quedas iminentes e, assim, evitei-as. A bicicleta nunca mais me causou sofrimento e dor. No máximo, eu tive alguns desequilíbrios, mas nunca mais sofri um tombo feio. Nunca mais.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sobre como a superior sabedoria feminina faz dos homens pobres coitados simplórios (ou O Amor (in) Condicional)

- “E se eu fosse aí te buscar?”, perguntou ele, com o característico tom vocal adocicado de quem se diz apaixonado.
- “Bom, daí talvez eu fosse com você”, ela respondeu, com um ar um tanto quanto blasé.
Confuso, ele a questionou novamente.
- “Como assim ‘talvez’? Você viria comigo ou não?.”
Com a tranquilidade no rosto e a sabedoria que ele não tinha, ela esclareceu.
- “É simples. ‘Se’ você vier me buscar, ‘talvez’ eu vá com você. Agora, você vem me buscar e eu vou com você. Não posso dar certeza para quem coloca seu amor no condicional.”

Conversa encerrada.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre distâncias e proximidades

Isto está perto. Aquilo está longe. Perto e longe. Distâncias e proximidades. Como quase tudo na vida, o significado do que é perto e do que é longe não é definitivo. Distâncias e proximidades estão muito mais relacionadas com sentimentos do que com localizações físicas. Digo isto sem considerar aquela sensação clichê (mas muito verdadeira) de que estando em um lugar podemos, através da imaginação, ir longe, viajar.
Refiro-me mais especificamente à real sensação de estar em outro lugar. Sensação esta que está intimamente ligada a pessoas. É difícil, para não dizer muito difícil (para não dizer impossível), sentir-se e visualizar-se em outro lugar que não o que se está fisicamente sem que uma pessoa seja a razão para isso. Você não vai se perceber em outro lugar somente porque gosta daquele lugar, porque aquele é um lugar bonito e agradável. O máximo que pode ocorrer é você se sentir em outro lugar porque aquele lugar faz você relembrar de momentos em que passou ao lado de alguém. Assim, você não se sentirá em outro lugar por causa de uma pessoa, e sim em razão de esse lugar te lembrar uma pessoa.
Perto e longe. Distâncias e proximidades.
Da mesma forma como os quilômetros impedem o aperto de mãos, impossibilitam o abraço apertado e tornam impossível um simples beijo no rosto, eles inflamam sentimentos. A distância funciona como uma dose a mais de oxigênio para o fogo.
Esse sentimento inflamado não é, porém, um sentimento irreal, surgido a partir da criação de expectativas sobre o outro, sobre o desconhecido. Ele pode até ser, mas não necessariamente é. Como disse, a distância é uma dose a mais de oxigênio, um extra. A faísca já tinha ocorrido e o fogo já existia.
Falo sobre isso porque tenho me sentido e me visto cada vez mais em outros lugares que não o que eu estou. Seguidamente me percebo ao lado de amigos queridos que não encontro há algum tempo e mais seguidamente ainda tenho estado junto a alguém que nunca estive sequer perto fisicamente. Não sei se isso é normal, mas o fato é que tem ocorrido e que não vejo problema. Ao contrário. Gosto quando isso ocorre. É uma fuga à realidade (e um encontro com o que é real pra mim) que tem me feito bem.
As coisas à minha volta tem ocorrido de um modo muito convencional para o meu gosto. Muito mesmo. Sinto uma tremenda vontade de jogar tudo pro ar e sair por aí. Até motivo eu tenho. Ir atrás do que eu quero. Encontrar o que eu quero e quem eu quero. Não importando os empecilhos que essa realidade falida me apresenta. Não importando as distâncias e os caminhos. Não importando nada.
Não sei o que falta para eu fazer isso. Não sei, ainda, o que é, mas sinto que falta alguma coisa. Sinto que falta alguma simples coisa (simples, mas gigante). Hoje falta menos do que ontem e amanhã faltará menos ainda. Quando não faltará nada? Não sei. Talvez nunca. Talvez já não falte e eu crio motivos por medo. Talvez. Enquanto isso, eu sigo aqui, mas estou longe. Bem longe.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os últimos 30 dias

E se os próximos 30 dias fossem os últimos da sua vida? O que você faria? O que você diria? Para quem você diria?
Pensei nisso. E pensei muito nisso. Fiquei um tempo exageradamente grande pensando nisso. Não é fácil pensar nisso quando se pensa seriamente nisso. Pensar nisso é pensar na morte, mas, pensar nisso, é, sobretudo, pensar na vida. E isso é muito difícil. Doloroso até.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida (e eu soubesse disso), eu iria agradecer a todas as pessoas que foram e são parte importante dos meus dias; eu iria dar os meus livros e cds e todas as coisas das quais eu mais gosto para as pessoas as quais eu mais gosto; eu queimaria as minhas calças e só usaria bermudas; eu diria a todas as pessoas com as quais me relaciono o que sinto por elas; eu compilaria em um único meio tudo o que, querendo escrever, eu escrevi em diversos lugares e deixaria para a minha mãe; eu faria uma fogueira com o meu computador e dançaria ao redor dela.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu iria ao Sul da Bahia, ah..., certo que eu iria e levaria livros nas mãos; eu diria aos meus irmãos que, apesar de, às vezes, sentir vontade de matá-los, em qualquer momento, eu mataria por eles; eu subiria na minha moto e sairia por aí, pegaria a estrada e iria parar onde me desse na telha, andaria e conheceria lugares e conheceria pessoas e experimentaria sensações e sorriria e faria sorrir e choraria e faria chorar.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu tentaria vivê-los do modo mais humano, emocional e instintivo possível, despreocupado com as conveniências, despreocupado com a razão; eu saltaria de para-quedas, eu voaria de asa delta; eu me aproximaria de quem quero me aproximar (e iria aonde fosse preciso para isso).
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu destruiria todos os relógios; eu não me preocuparia nem um pouco com o tempo, eu faria o meu tempo passar lento quando eu assim quisesse e rápido quando tivesse vontade; eu ficaria a maior parte possível dos dias sem um teto sobre a minha cabeça, eu ficaria na rua, caminhando, olhando, falando, ouvindo.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu não buscaria respostas. Para que elas me serviriam? O único motivo de se viver é não saber o que está atrás da próxima porta. Eu iria a um jogo do Grêmio com o meu pai e faria daqueles minutos uma eternidade e, depois, iria pescar com ele, passando a noite sob as estrelas ouvindo-o contar suas histórias.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu os viveria com paixão. Eu viveria uma paixão. Eu me apaixonaria. A cada dia uma paixão nova. Eu não odiaria, se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu faria tudo isso nos primeiros 29. No último, no trigésimo dia, eu sumiria. No trigésimo dia eu iria para um lugar em que ninguém, mas ninguém mesmo, pudesse me encontrar. Eu não gostaria que ninguém me visse nos instantes finais, eu não gostaria que ninguém chorasse por mim, eu não gostaria que ninguém sentisse pena de mim; eu gostaria que meus amigos lembrassem de mim enquanto tomassem um chopp em uma mesa de bar; eu gostaria que meus pais e irmãos almoçassem juntos e fizessem um brinde para mim, rindo das bobagens que falei; eu gostaria que alguém lesse algo que lhe escrevi, pensasse em mim e desse um sorriso (uma gargalhada seria ainda melhor). Passadas as 23 horas iniciais do trigésimo dia, eu deitaria em um relvado e ficaria olhando as estrelas. Eu ficaria olhando para o céu, pensando em tudo o que eu fiz e em tudo o que deixei de fazer. Pensando em tudo o que eu disse e em tudo o que deixei de dizer, em tudo o que senti e em tudo o que deixei de sentir. Eu ficaria ali, imóvel, sereno, pacientemente, esperando a inevitável chegar, pegar na minha mão e me levar. Eu iria satisfeito. Eu iria feliz, se assim fossem os últimos 30 dias da minha vida.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A pitada subversiva do dia

No JC de hoje está publicada uma matéria minha falando sobre como funcionam as UPPs. Fiz uma entrevista com o sub-secretário de Segurança carioca um tempo atrás e aproveitamos o momento para lançá-la. No meio do texto, coloquei uma passagem para saciar a minha veia subversiva. Não sabia se ia passar, mas, como eu não costumo me auto-censurar escrevi e, bom, tá na página. Reproduzo abaixo o trecho.


"Enquanto a violência estava localizada nas periferias, nas favelas, vitimando jovens pobres e, em sua maioria, negros, nada, ou muito pouco, se fez. Quando ela começou a descer dos morros e chegar ao asfalto, às zonas nobres, ao Leblon, a Copacabana, a Ipanema, atitudes tiveram de ser tomadas. Foi assim no Rio de Janeiro e foi assim também em Porto Alegre, com ações sendo adotadas somente quando o crack saiu das vilas e de baixo das pontes e começou a chegar às classes médias, na Bela Vista, no Moinhos de Vento e no Menino Deus.
No Rio de Janeiro, o Estado abandonou as favelas. Não ocupou o seu espaço. As facções criminosas, por sua vez, não bobearam e passaram a ditar as suas regras nas comunidades pobres cariocas. O Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando (TC), o Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando Puro (TCP), união entre o TC e o ADA, assumiram, às avessas, o papel governamental e começaram a comandar muitas das favelas do Rio.
Com o tempo, se aproximaram dos moradores, prestando serviços que seriam de obrigação dos governos, e fazendo com que eles passassem a sentir medo da polícia, que subia os morros e deixava para trás um rastro de sangue, não distinguindo inocentes de criminosos."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A adolescência (ou onde foram parar aqueles quatro anos?)

Estava eu alguns dias atrás tentando dar uma organizada nas minhas gavetas quando encontrei por acaso alguns álbuns de fotografias meus. Olhei todos, página por página e, após repassar muitos anos da minha vida, lembrando com saudade de alguns daqueles instantes registrados e com não tanta saudade outros, percebi uma coisa que nunca havia notado, mas que depois, pensando bem, vi que fazia sentido: não tenho nenhuma foto da minha adolescência, mais especificamente do período entre meus 15 aos 19 anos, naqueles álbuns.
No início me espantei e comecei a procurar fotos do meu tempo de imberbe adolescente para colocar, uma que fosse, em algum daqueles depositórios de imagens. Depois de vasculhar em todos os lugares em que tenho fotos guardadas me espantei mais ainda. Não tenho nenhuma foto minha de quando eu era adolescente. Comecei a pensar, tentando encontrar uma razão para isso. Nem demorei muito para encontrá-la, a razão. O fato é que esse período da minha vida não me deixou nenhuma marca indelével. Nada. Não tenho nenhuma lembrança de algum acontecimento importante que tenha ocorrido nessa época. Nada. Aprofundando-me um pouco mais na questão, percebi outra coisa: de todos os amigos que eu tenho hoje, que na verdade não são tantos assim, (mas, sinto dizer a você que está lendo e que tem muitos amigos, são, indiscutivelmente, os melhores amigos que uma pessoa pode ter, sem dúvida nenhuma melhores que os seus amigos, até porque, para você estar lendo isso, eu devo ser um deles e os meus amigos são beeem melhores do que eu), nenhum eu conheci entre os 14 e os 18 anos. Não fiz amigos, não tive amores nem paixões. Não fiz sequer inimigos.
Até hoje eu sei o sobrenome de quase todos os meus colegas de Ensino Fundamental. Dos meus colegas de Ensino Médio, não sei o nome de nenhum. A impressão que tenho é que eu saltei do último ano do Ensino Fundamental direto para o primeiro ano da faculdade. Há um vácuo nesse período intermediário. E acho que esses anos me fazem falta de vez em quando. Não sei de que forma nem quando nem porque, ma sinto que falta alguma coisa às vezes, algo na formação. Não sei ao certo, mas acho que pode ser isso.
Tentando buscar uma explicação para esse buraco negro que separa meus 15 dos meus 19 anos, achei uma que me pareceu a mais plausível. A minha extremíssima dificuldade de me relacionar com as pessoas. Quando falo extremíssima não uso de um superlativo clichê ou de uma força de expressão. Era extremíssima mesmo. Recordo-me que, nesse ínterim de tempo, quando conversava com alguém, eu não conseguia olhar nos olhos dessa pessoa. Simplesmente não conseguia. Ficava a conversa toda ou olhando para baixo ou buscando algo ao redor para me chamar a atenção. Para quem me conhece hoje e me conheceu depois que eu entrei na faculdade, em 2003, pode parecer algo imaginável, mas eu era o tímido mais tímido do que o tímido mais tímido que vocês conhecem.
Na faculdade eu encontrei uma forma de me relacionar mais e melhor com as pessoas. O humor. Sempre gostei de fazer os outros rirem. Na faculdade, porém, acho que percebi que essa poderia ser uma boa maneira de me comunicar. Não que eu seja um Grouxo Marx, mas acho que tenho talento para fazer as pessoas rirem. Não sei contar piadas, não sou um grande imitador, mas sempre fui bom em aproveitar as deixas, em fazer alguma observação divertida no momento correto, de fazer trejeitos para falar, enfim. Para um colega, sou o “maior humorista vivo” (abraço Ponsito). Um outro amigo sempre me diz que um dia ainda me verá na TV em algum programa relacionado ao humor (abraço Adorno). Sei que os dois são grandes amigos e exageraram, mas, sem falsa modéstia, sei divertir. O fato é que esse artifício fez com que eu mudasse muito. Hoje, a minha timidez se restringe às relações com pessoas que eu não conheço e a algumas situações bem específicas. Com os amigos e colegas de trabalho, às vezes, sou expansivo até demais.
A minha retração entre os 15 e os 19 anos fez com que esse espaço de tempo não ficasse registrado, nem na memória, nem em escritos, nem em fotografias. É como se um prédio de, até agora 26 andares, tivesse um alicerce muito sólido, com os primeiros quatorze andares bem construídos com cada um deles estando repletos de momentos, de lembranças, de histórias, de pessoas. Daí, do décimo quinto ao décimo nono andares, só há espaço vazio. Quatro andares sem nada, nenhum móvel, nenhuma cortina, nenhum bilhete sequer. Alguma poeira no vidro das janelas, talvez. A partir do décimo nono, os andares voltam a estar cheios.
É engraçado, ao mesmo tempo que é triste, ao mesmo tempo que é curioso, ao mesmo tempo que é difícil. Essa fase da vida talvez seja a que mais se faz besteira, mais se faz loucuras, mais se chora, mais se ama, mais se odeia. É uma fase da vida que, geralmente, deixa pouco de conteúdo para o restante que segue. O pouco às vezes, porém, faz muita diferença. Em alguns casos, faz toda a diferença.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Uma aula pós beatle Paul

A segunda-feira pós beatle Paul foi de alegria por ter presenciado O show, muito cansaço e de uma bela aula sobre violência, criminalidade e segurança pública.
Luiz Eduardo Soares é antropólogo, mestre em Antropologia Social e doutor em Ciência Política. Ele ficou bastante conhecido por ser um dos autores dos livros Elite da Tropa, 1 e 2, que deram origem aos dois filmes Tropa de Elite. Soares esteve em Porto Alegre, participando de dois eventos, na Ufrgs e na Esade, e autografando seu livro na Feira.
Conversei com ele e assisti a toda a sua apresentação na Esade. O antropólogo não falou dos livros ou dos filmes, e sim sobre violência e segurança. O cara sabe muito sobre o assunto e tem opiniões bem interessantes.
Fiz uma matéria para o JC que está publicada na desta terça-feira e os caríssimos amigos leitores podem conferir no link lá embaixo. Porém, como o espaço da página do jornal é restrito, sobrou muita coisa legal que eu não poderia descartar. Assim, segue abaixo outros trechos do que o Luiz Eduardo falou que, junto com a matéria do JC, formam um panorama bacana sobre a questão.

Como você analisa o modo como a questão da violência é tratada hoje no Brasil?
Luiz Eduardo Soares
- O tratamento conferido pelas autoridades e pelas lideranças políticas não é compatível com a magnitude e com a gravidade do problema. Nós precisamos muito mais do que ações tópicas e reativas. As autoridades se debruçam sobre o problema na crise. Quando o doente vai para o CTI há alguma ação e a ação que se pode fazer no CTI é muito limitada. Para que se previna o problema nós vamos precisar de uma profunda reforma institucional.


Houve uma maior preocupação em levar políticas sociais para as periferias depois que a violência saiu delas e passou a fazer parte do cotidiano das zonas nobres das cidades? O mesmo vale para as drogas?
Luiz Eduardo Soares -
No Rio há uma confluência entre áreas pobres e nobres e os problemas sempre foram sentidos por todos. Em outras cidades, como São Paulo, onde o cinturão da periferia fica distante e fora do centro urbano que era objeto da atenção midiática, esses problemas não eram visíveis até o início dos anos 1990. E se tornaram mais visíveis e sentidos não porque houve um crescimento, mas, sobretudo, porque os problemas se derramaram sobre as áreas mais nobres da cidade que constituem o foco de interesse e atenção da mídia.

Em curto prazo, a algo que possa ser feito?
Luiz Eduardo Soares
- Não há como inventar soluções rápidas, pois os instrumentos disponíveis são muito precários. Infelizmente as respostas rápidas são as que vem sendo dadas e são insuficientes. Para que seja possível mudar a qualidade do problema e a qualidade da nossa resposta temos pensar em logo prazo. Para que isso ocorra temos de transformar o modelo policial, reestruturar as organizações policiais e todo o quadro das instituições da segurança pública, que é um quadro montado para atender a realidade da Ditadura. Parte do nosso problema tem a ver com a incapacidade do Estado de garantir a legalidade e respeitar a Constituição e a incapacidade de operar as mudanças necessárias para que as policias funcionem de acordo com os mandamentos constitucionais e suprir as exigências de uma sociedade tão complexa.

Sobre a atuação das policias
“A tarefa fundamental não é proteger a vida, pois, se estando em uma guerra, a tarefa fundamental é matar o inimigo.”

Sobre as carências nas investigações
“A taxa de esclarecimento de crimes letais no Rio de Janeiro varia de 1,5% a 7,8%. Isto é, apenas esta porcentagem de inquéritos são aceitos pelo MP. Nos países desenvolvidos, esse percentual varia de 80% a 90%.”

Sobre o foco das ações policiais
“O foco da atuação policial está no flagrante. Isto configura uma seletividade, resultando no processo que chamamos de criminalização da pobreza.”

Sobre a “guerra às drogas”
“A partir dos anos 1990, há uma atenção muito grande à questão da droga. Porém, mais uma vez, está nos jovens pobres e negros.”

Sobre o oportunismo em tempos difíceis
“Na crise só há resposta para a crise. É preciso reconstruir as instituições, mas isto requer tempo.”

Sobre o papel da polícia
“As estruturas organizacionais das nossas polícias são incompatíveis com as nossas necessidades democráticas. As policias brasileiras funcionam sem gestão como máquinas burocráticas. Elas são reativas e não proativas. O policial tem de ser um gestor local da violência, com capacidade de interpretar os acontecimentos, não agindo reativamente.”

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=45866