segunda-feira, 11 de abril de 2011

Breve relato de uma viagem de ônibus


“Atualmente, depois de tantas eras de experiência, o que conhecemos da natureza, ou de nós mesmos? O homem não deu sequer o primeiro passo no sentido de solucionar o problema de seu destino. O universo humano inteiro permanece condenado à insanidade.”

Ralph Waldo Emerson



Lá vou eu. Óculos escuros, mochila no ombro e rock nos fones de ouvido. Entro no ônibus, dirigindo-me para o trabalho, e percebo um comportamento “anormal” do casal sentado no banco à minha frente. Pause na música para ver o que ocorria. Discutiam a relação. Stop no som, fone nas mãos. Resolvi acompanhar o que estava se passando. Uma experiência antropológica. Foram 20 minutos ouvindo a discussão dos dois. Não foi preciso mais do que cinco minutos, porém, para diagnosticar o que estava faltando naquela relação conflituosa: comunicação.

Em vinte minutos de observação não é possível fazer uma análise muito profunda. Entretanto, ficou deveras claro que o problema advinha muito da essência de ambos, da natureza própria que diferencia homens de mulheres. Ela necessitava falar, dizer para ele todas as coisas que a estavam incomodando e, consequentemente, minando o namoro. Ele, com a característica postura de superioridade masculina quando este assunto está em discussão, interrompia-a a todo o momento, não deixando ela se expressar.

Era evidente a qualquer um que observava a cena que ela gostava muito dele, amava-o, provavelmente. O sentimento dele em relação a ela, novamente devido ao comportamento típico masculino, era mais difícil de ser identificado.

Senti muita vontade de intervir na conversa, diversas vezes áspera e em alto tom de voz, e dizer pra ele calar a boca e ouvi-la. Ouvi-la em silêncio, ponderar sobre as palavras dela e, depois, contra-argumentar, se fosse o caso. Mas não me senti no direito.

Impressiona-me como uma coisa tão básica como isso, a comunicação, ou a falta dela, faz com que castelos de sonhos desmoronem. E o que é pior, desmoronem lentamente, dolorosamente, deixando fortes marcas nas pessoas envolvidas.

Saber ouvir. Esse é um segredo básico, mas fundamental em qualquer tipo de relação. Olhar para o outro, escutar o que o outro tem a dizer. Às vezes, o outro só quer isso, ser ouvido. Não quer ser compreendido e muito menos entendido, quer ser ouvido.

Tentar entender, aliás, é uma batalha perdida, sempre. Não há como entender o outro. Não há como entender o outro pelo simples fato de que você vai ver com os seus olhos a realidade que o outro lhe apresenta, e não com os olhos dele. Compreender é possível, apesar de não ser fácil. No momento em que há um conflito, então, fica muito mais difícil, na medida em que ambos estão vibrando em sintonias diferentes.

Ouvir e tentar compreender.

Ele não ouvia o que ela tinha para falar e refutava com palavras proferidas para menosprezá-la. Isso a deixava ainda mais nervosa. E ele parecia se sentir, a cada minuto que passava, em um degrau mais alto, olhando para ela lá embaixo.

Os homens são idiotas por natureza.

A essência masculina é a da simplificação de questões complexas e a da complexização de questões simples. Algumas mulheres percebem isso e passam a interpretar as posições masculinas de uma maneira mais adequada à natureza dele.

Os homens são simplórios. E isso não pode ser considerado um defeito. Quase todos são assim. É evidente que existem exceções. A maioria delas, porém, parece ser uma exceção, mas não é. Basta algum período de convivência, curto que seja, e o cromossomo Y mostra que está lá. Sempre esteve lá. E que o instinto ainda se mantém soberano.

Entretanto, como disse, existem exceções. Verdadeiras exceções. São poucas, mas existem. Não perca as esperanças, pois, querida leitora. Nunca sabemos o que nos espera ao dobrarmos a próxima esquina.

A viagem se encaminhava para o fim. Levantei-me do banco e me dirigi para a porta do ônibus. Dei uma discreta olhada para os dois. Os olhos dela estavam marejados. Mas ela não chorava. Ele mantinha aquele olhar blasé de quem se sente superior.

Desci.

Caminhando, pensei em como, apesar de centenas de milhares de anos de evolução, os humanos seguem sofrendo por situações tão singelas, as quais a solução já deveria ter sido internalizada por todos. E pensei que talvez não tenhamos evoluído tanto assim. Pelo menos não naquilo que deveria ser o mais importante. Na relação com o outro.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Daquilo que não é dito

Uma palavra. Não mais do que uma palavra pode ser necessária para que tudo aconteça. Uma palavra. Não mais do que uma palavra pode ser necessária para que nada aconteça. A palavra tem esse poder. Uma palavra tem esse poder.
Algumas delas em sequência podem significar o tudo. A ausência delas, em determinado instante, pode significar o nada. Muito mais do que o que você faz, são as palavras que indicarão o que será da sua vida. Um “sim” dito na hora errada, um “não” dito no momento certo. A vida pode ser apresentada a partir das palavras que são ditas.
Mas não só delas.
A vida também pode ser apresentada a partir das palavras que não são ditas.
As consequências daquilo que não é dito são muito maiores e mais duradouras do que as consequências daquilo que é dito. À palavra dita pode se seguir um pedido de desculpas, um arrependimento. À palavra dita pode se alegar que houve uma má interpretação, que não foi aquilo que se quis dizer. Aquilo que é dito pode ser esquecido com o tempo, tanto por quem disse quanto por quem ouviu.
Aquilo que não é dito pode produzir efeitos devastadores em quem deixa de dizê-lo. Sofre em silêncio aquele que deixa de dizer. E aquele que deixa de dizer não o faz seja querendo fazer (e daí o sofrimento é maior), seja porque a oportunidade de fazer passou (ou ainda não chegou).
Aquilo que não é dito.
É uma experiência sui generis imaginar como você estaria agora se tivesse dito todas as coisas que quis dizer e não disse. Não há como recordar de todas elas, é evidente. Porém, as mais importantes, as que marcaram mesmo, estão lá, guardadas, em algum lugar. Basta um esforço, e elas brotarão.
Provavelmente você manteve alguns amigos (amigos mesmo?), alguns namoros, alguns empregos, algumas relações sociais, por não ter dito o que queria dizer. Muito provavelmente também, você deixou de fazer alguns amigos e deixou de iniciar namoros (empregos e relações sociais talvez não) em razão disso.
“As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” O escritor e poeta francês Victor Hugo tinha a noção da carga de importância e significados para a vida que as palavras têm. Nada é mais angustiante para um poeta do que não encontrar a palavra exata para descrever aquilo que está sentindo no momento em que escreve. E nada é mais torturador do que uma palavra que fica presa na garganta, que insiste em não sair, que quase te impede de respirar. A palavra que não é dita.
As palavras que não são ditas, quase sempre, são aquelas que vieram à boca depois de se ter pensado sobre o assunto. Palavras que não são ditas são palavras pensadas, são palavras maturadas. Palavras que não são ditas, geralmente, são frutos de reflexão. Por isso elas incomodam tanto, por isso machucam tanto. Por isso elas arranham a boca tentando se libertarem. As palavras que não são ditas são convicções (naquele momento são). Não são ideias passageiras, ou resultados de alguma emoção. As palavras que não são ditas ferem tanto porque não saem da cabeça de quem não as diz. Elas ficam ali, martelando, todo o tempo, como se dissessem “hey, estou aqui, só há um modo de você se livrar de mim, e você sabe como”.
Nossa vida, essa que nós vivemos e com a qual covardemente nos conformamos, é feita daquilo que é dito. A vida que queríamos viver, a vida que pulsa em nossa mente e em nosso coração, a vida libertadora e libertária, a vida desafiadora e rebelde, a vida que está nos nossos sonhos, a vida no seu sentido mais amplo e profundo, essa é feita daquilo que não é dito.
E o que fazer quando é dado o momento? O que fazer quando as palavras rompem seus casulos e se dirigem em direção à luz? O que fazer quando você quer dizer algo, mas as palavras ficam ali, presas, sufocando-o?
A resposta mais fácil e clichê seria um simples “diga-as, expulse-as do seu corpo e se liberte”. Sabemos, porém, que não é simples assim. A razão de palavras não serem ditas está, em boa parte das vezes, intrinsecamente ligada a um sentimento com o qual é difícil de se lidar: o medo.
Já disse em outra ocasião que o medo é algo natural, existe e deve existir e que, entretanto, nada que realmente se quer fazer deve deixar de ser feito por causa do medo. É assim que deveríamos agir se fôssemos pensar em algo mais próximo do ideal. Todavia, não vivemos a vida ideal.
Aquilo que não é dito não é dito por que há um motivo significativamente forte para que assim seja. Significativamente forte, pelo menos, para quem não o diz. Aquilo que não é dito não é dito por que quem não o diz teme que, se disser, o resultado de suas palavras podem não ser o que ele deseja. E, assim sendo, ele se magoará, ficará triste. Não proferindo as palavras, ele não corre esse risco. Não proferido-as, contudo, ele também não se arrisca a receber como resposta aquilo que deseja ouvir. E assim ele fica. Inerte. No mesmo lugar. Parado. Assim ele não vive. Assim ele cumpre um papel de extrema coadjuvância em sua própria existência. Ele é coadjuvante em sua própria vida.
Daquilo que não é dito se constrói uma história que não foi escrita. Daquilo que não é dito se vive uma vida que não foi vivida. Daquilo que não é dito se pinta um quadro com azuis que não lembram o céu, com vermelhos que não escorrem feito sangue, com amarelos que não queimam como o sol, com verdes que não acalmam feito os campos.
Daquilo que não é dito ficam só três coisas: a lembrança, o arrependimento e a saudade. Não há como retroceder ao passado. Não há como voltar no tempo e dizer aquilo que não foi dito.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os fatos. O tempo. As mudanças. A vida.

Uma semana. Uma semana foi o suficiente para a vida de uma amiga muito querida sofrer grandes transformações. No caso dela, as transformações foram positivas. Conversamos sobre isso e sobre como o inesperado é o que dá o tempero aos nossos dias. Conversamos sobre como um fato ocorrido em um pequeno espaço de tempo pode resultar em mudanças que vão fazer a sua vida tomar outra direção, ou outro caminho. Os fatos, o tempo, as mudanças e a vida.
Os fatos. Os fatos por si só podem não possuir um valor definitivo. O que torna um fato importante ou não é a nossa percepção a respeito dele. Um mesmo fato acontecendo para duas pessoas pode ser encarado como positivo por uma e como negativo por outra. O fato precisa ser interpretado para que possa ter significado e interpretação é um ato individual.
O tempo. O tempo que algo dura não possui nenhuma relação com a importância desse algo. Vivemos o segundo, o minuto, a hora, o dia. Não vivemos a semana, não vivemos o mês, não vivemos o ano. O inesperado é o que nos surpreende e o que nos surpreende é o que mais nos marca. O inesperado não é planejado. O inesperado apenas acontece e, geralmente, acontece em um curtíssimo período de tempo.
As mudanças. As mudanças não ocorrem sem que algo seja feito para que elas ocorram. Esse impulso pode ser próprio ou pode ser oriundo de uma fonte externa. A pessoa pode não querer a mudança, mas tem de aceitá-la. Essas, geralmente, são as más mudanças, pelo menos em curto prazo. À ausência de mudanças denominamos rotina. É impossível fugir totalmente das rotinas. Não há como. Algumas rotinas já estão tão internalizadas na nossa cultura e, consequentemente, em nosso comportamento, que elas se tornaram essenciais, quase como respirar. Entretanto, um fato, ocorrido inesperadamente e, por isso, em pouco tempo, pode resultar em uma mudança. Esse fato pode resultar em uma pequena mudança, assim como pode resultar em uma mudança drástica.
A vida. A vida está intrinsecamente ligada ao movimento. Desde a concepção até a morte, a vida não existe sem movimento. E movimento significa a alteração de um estado para outro. Movimento significa mudança. Na vida, nenhuma mudança representativa demora muito tempo para ocorrer (desconsideremos o envelhecimento, pois é natural e, assim, independe das ações do indivíduo). As mudanças que marcam ocorrem de repente, num estalar de dedos, em um erro ou em um acerto, em uma escolha. E essa mudança pode alterar os caminhos que a nossa vida vai tomar. Essa mudança não necessariamente mudará o destino, mas mudará os caminhos até ele.

Falo sobre isso porque percebo cada vez mais o instante sendo colocado de lado, sendo relegado a uma instância secundária, enquanto o futuro, os planos, enfim, o que ainda não veio, é o que recebe a atenção principal. Inclusive faço isso às vezes, mas tenho tentado fazer sempre menos.
Não que não seja legal tentar visualizar como, onde, com quem estaremos daqui a um, dois, três, cinco, dez anos. É legal, e acho que até deve ser feito, desde que não se viva o hoje em razão desse futuro. Ou melhor, desde que não se viva o hoje de modo metódico e, como que cumprindo um cronograma, para se chegar onde se deseja no futuro.
Se quero algo, quero agora. Sabedor de que obter esse objeto de desejo agora não é possível, deixo para depois, e posso até determinar um tempo para que obtenha isso, ou determinar uma data para que algo ocorra. Mas isso não muda o fato de eu querer agora.
É importante deixar claro que não vejo nenhum problema em fazer planos. Nenhum mesmo. Ao contrário. Acho o máximo. Sério. Eu inclusive, estou planejando fazer um tipo de aventura, viagens de observação, só eu, uma mochila com algumas coisas e a câmera fotográfica. Chegar aos lugares e ir onde quiser ir, onde as conversas com os moradores locais me levarem. Nada de guias ou listas de “pontos turísticos” a se visitar. A intenção, inclusive, é não visitar metrópoles e locais cheios de turistas. Aliás, se alguém quiser, cabe mais um(a) na indiada, mas só mais um(a), pois três já vira gandaia.
Deixando de lado os meus planos e voltando ao tema do post, o problema não está nos planos. O problema, creio eu, está em viver os planos e viver para os planos, viver para o futuro, viver para um futuro que não se sabe se irá existir. As escolas fazem isso. As escolas ensinam para o futuro, preparam para o futuro. Talvez esteja aí a razão, ou uma das principais razões, para o pouco interesse dos jovens.
Assim sendo, de tudo o que falei até aqui, fica uma certeza para mim. Não devemos ignorar o fato que ocorre repentinamente, em um segundo. Ele pode trazer a mudança que nos fará percorrer outras estradas e conhecer o desconhecido. Eu e a minha querida amiga conversamos brevemente sobre isso. Muito brevemente. E o assunto surgiu, não foi programado. Foi uma das coisas que mais me marcou nos últimos dias.

PS: sobre o meu plano aí de cima, nele não está incluída a data em que ocorrerá. Quando surgir a oportunidade, será a hora.

PS 2: passo por um momento de sucessivas reflexões a respeito da vida. Estou quase me tornando um transcendentalista. Perdoem a minha chatice por esses dias.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A lição da bicicleta

Antes de saber andar de bicicleta eu tinha medo de tentar aprender. Isso se dava porque eu sabia que se seu subisse na bicicleta sem saber andar e, mesmo assim, tentasse andar, eu iria cair e, em algumas vezes, iria me machucar. Por um bom tempo evitei me aproximar daquilo que eu desejava tanto com medo de que aquele objeto de desejo me machucasse e me causasse dor.
Enquanto isso, eu via meus amigos tentando aprender também a se equilibrar sobre as duas rodas e a andar de bicicleta. Eu vi muitos deles caírem e se machucarem. Eu vi a bicicleta causar choro em quase todos eles. E eu pensava comigo mesmo, que aquilo não iria ocorrer comigo. Eu não iria me machucar. Eu não iria cair da bicicleta. Eu não iria chorar por causa daquilo que eu tanto queria.
Com o tempo, porém, eu vi meus amigos caírem menos, e pouco tempo depois, caiam ainda menos, e muito pouco tempo depois, não caiam mais. E também vi que alguns deles caiam uma ou duas vezes e paravam de cair, já saiam andando, enquanto outros sofriam muito mais percalços durante os seus processos de aprendizagem. E então, em muito pouco tempo, eu vi que todos os meus amigos sabiam andar de bicicleta e vi como eles se divertiam com aquilo. Vi como aquilo lhes dava alegria. Uma alegria que suplantava em muito todo o sofrimento que eles tiveram até conseguir dominar a arte de andar de bicicleta. E percebi que a bicicleta daria alegrias para eles por todo o resto de suas vidas. E foi aí que eu tive uma das primeiras grandes lições da minha vida. Foi aí que eu aprendi que um tombo de bicicleta que eu sofresse, seria um tombo a menos que eu iria sofrer. Foi aí que eu aprendi que um choro em razão de um machucado, seria um choro a menos que eu iria chorar. Foi aí que eu aprendi que o sofrimento faz parte do caminho para se aprender e se obter as coisas as quais nós desejamos. E que esse sofrimento varia, podendo ser maior para algumas coisas e menor para outras ou que mesmo para a mesma coisa ele poderia variar, dependendo da ocasião. A vontade de aprender a andar de bicicleta e as alegrias, os sorrisos, os momentos inesquecíveis que eu iria passar junto dela era e seriam incomparavelmente maiores do que os riscos que eu correria ao tentar conseguir o que eu queria conseguir. Foi aí que eu aprendi que, em razão do medo, eu nunca deveria deixar de fazer algo que eu desejasse muito fazer. As quedas anteriores só me ensinaram. Com as quedas anteriores eu aprendi como não cair. E, depois que eu aprendi, eu nunca mais cai de bicicleta. Eu passei a me antecipar às quedas iminentes e, assim, evitei-as. A bicicleta nunca mais me causou sofrimento e dor. No máximo, eu tive alguns desequilíbrios, mas nunca mais sofri um tombo feio. Nunca mais.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sobre como a superior sabedoria feminina faz dos homens pobres coitados simplórios (ou O Amor (in) Condicional)

- “E se eu fosse aí te buscar?”, perguntou ele, com o característico tom vocal adocicado de quem se diz apaixonado.
- “Bom, daí talvez eu fosse com você”, ela respondeu, com um ar um tanto quanto blasé.
Confuso, ele a questionou novamente.
- “Como assim ‘talvez’? Você viria comigo ou não?.”
Com a tranquilidade no rosto e a sabedoria que ele não tinha, ela esclareceu.
- “É simples. ‘Se’ você vier me buscar, ‘talvez’ eu vá com você. Agora, você vem me buscar e eu vou com você. Não posso dar certeza para quem coloca seu amor no condicional.”

Conversa encerrada.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre distâncias e proximidades

Isto está perto. Aquilo está longe. Perto e longe. Distâncias e proximidades. Como quase tudo na vida, o significado do que é perto e do que é longe não é definitivo. Distâncias e proximidades estão muito mais relacionadas com sentimentos do que com localizações físicas. Digo isto sem considerar aquela sensação clichê (mas muito verdadeira) de que estando em um lugar podemos, através da imaginação, ir longe, viajar.
Refiro-me mais especificamente à real sensação de estar em outro lugar. Sensação esta que está intimamente ligada a pessoas. É difícil, para não dizer muito difícil (para não dizer impossível), sentir-se e visualizar-se em outro lugar que não o que se está fisicamente sem que uma pessoa seja a razão para isso. Você não vai se perceber em outro lugar somente porque gosta daquele lugar, porque aquele é um lugar bonito e agradável. O máximo que pode ocorrer é você se sentir em outro lugar porque aquele lugar faz você relembrar de momentos em que passou ao lado de alguém. Assim, você não se sentirá em outro lugar por causa de uma pessoa, e sim em razão de esse lugar te lembrar uma pessoa.
Perto e longe. Distâncias e proximidades.
Da mesma forma como os quilômetros impedem o aperto de mãos, impossibilitam o abraço apertado e tornam impossível um simples beijo no rosto, eles inflamam sentimentos. A distância funciona como uma dose a mais de oxigênio para o fogo.
Esse sentimento inflamado não é, porém, um sentimento irreal, surgido a partir da criação de expectativas sobre o outro, sobre o desconhecido. Ele pode até ser, mas não necessariamente é. Como disse, a distância é uma dose a mais de oxigênio, um extra. A faísca já tinha ocorrido e o fogo já existia.
Falo sobre isso porque tenho me sentido e me visto cada vez mais em outros lugares que não o que eu estou. Seguidamente me percebo ao lado de amigos queridos que não encontro há algum tempo e mais seguidamente ainda tenho estado junto a alguém que nunca estive sequer perto fisicamente. Não sei se isso é normal, mas o fato é que tem ocorrido e que não vejo problema. Ao contrário. Gosto quando isso ocorre. É uma fuga à realidade (e um encontro com o que é real pra mim) que tem me feito bem.
As coisas à minha volta tem ocorrido de um modo muito convencional para o meu gosto. Muito mesmo. Sinto uma tremenda vontade de jogar tudo pro ar e sair por aí. Até motivo eu tenho. Ir atrás do que eu quero. Encontrar o que eu quero e quem eu quero. Não importando os empecilhos que essa realidade falida me apresenta. Não importando as distâncias e os caminhos. Não importando nada.
Não sei o que falta para eu fazer isso. Não sei, ainda, o que é, mas sinto que falta alguma coisa. Sinto que falta alguma simples coisa (simples, mas gigante). Hoje falta menos do que ontem e amanhã faltará menos ainda. Quando não faltará nada? Não sei. Talvez nunca. Talvez já não falte e eu crio motivos por medo. Talvez. Enquanto isso, eu sigo aqui, mas estou longe. Bem longe.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os últimos 30 dias

E se os próximos 30 dias fossem os últimos da sua vida? O que você faria? O que você diria? Para quem você diria?
Pensei nisso. E pensei muito nisso. Fiquei um tempo exageradamente grande pensando nisso. Não é fácil pensar nisso quando se pensa seriamente nisso. Pensar nisso é pensar na morte, mas, pensar nisso, é, sobretudo, pensar na vida. E isso é muito difícil. Doloroso até.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida (e eu soubesse disso), eu iria agradecer a todas as pessoas que foram e são parte importante dos meus dias; eu iria dar os meus livros e cds e todas as coisas das quais eu mais gosto para as pessoas as quais eu mais gosto; eu queimaria as minhas calças e só usaria bermudas; eu diria a todas as pessoas com as quais me relaciono o que sinto por elas; eu compilaria em um único meio tudo o que, querendo escrever, eu escrevi em diversos lugares e deixaria para a minha mãe; eu faria uma fogueira com o meu computador e dançaria ao redor dela.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu iria ao Sul da Bahia, ah..., certo que eu iria e levaria livros nas mãos; eu diria aos meus irmãos que, apesar de, às vezes, sentir vontade de matá-los, em qualquer momento, eu mataria por eles; eu subiria na minha moto e sairia por aí, pegaria a estrada e iria parar onde me desse na telha, andaria e conheceria lugares e conheceria pessoas e experimentaria sensações e sorriria e faria sorrir e choraria e faria chorar.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu tentaria vivê-los do modo mais humano, emocional e instintivo possível, despreocupado com as conveniências, despreocupado com a razão; eu saltaria de para-quedas, eu voaria de asa delta; eu me aproximaria de quem quero me aproximar (e iria aonde fosse preciso para isso).
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu destruiria todos os relógios; eu não me preocuparia nem um pouco com o tempo, eu faria o meu tempo passar lento quando eu assim quisesse e rápido quando tivesse vontade; eu ficaria a maior parte possível dos dias sem um teto sobre a minha cabeça, eu ficaria na rua, caminhando, olhando, falando, ouvindo.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu não buscaria respostas. Para que elas me serviriam? O único motivo de se viver é não saber o que está atrás da próxima porta. Eu iria a um jogo do Grêmio com o meu pai e faria daqueles minutos uma eternidade e, depois, iria pescar com ele, passando a noite sob as estrelas ouvindo-o contar suas histórias.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu os viveria com paixão. Eu viveria uma paixão. Eu me apaixonaria. A cada dia uma paixão nova. Eu não odiaria, se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida.
Se os próximos 30 dias fossem os últimos da minha vida, eu faria tudo isso nos primeiros 29. No último, no trigésimo dia, eu sumiria. No trigésimo dia eu iria para um lugar em que ninguém, mas ninguém mesmo, pudesse me encontrar. Eu não gostaria que ninguém me visse nos instantes finais, eu não gostaria que ninguém chorasse por mim, eu não gostaria que ninguém sentisse pena de mim; eu gostaria que meus amigos lembrassem de mim enquanto tomassem um chopp em uma mesa de bar; eu gostaria que meus pais e irmãos almoçassem juntos e fizessem um brinde para mim, rindo das bobagens que falei; eu gostaria que alguém lesse algo que lhe escrevi, pensasse em mim e desse um sorriso (uma gargalhada seria ainda melhor). Passadas as 23 horas iniciais do trigésimo dia, eu deitaria em um relvado e ficaria olhando as estrelas. Eu ficaria olhando para o céu, pensando em tudo o que eu fiz e em tudo o que deixei de fazer. Pensando em tudo o que eu disse e em tudo o que deixei de dizer, em tudo o que senti e em tudo o que deixei de sentir. Eu ficaria ali, imóvel, sereno, pacientemente, esperando a inevitável chegar, pegar na minha mão e me levar. Eu iria satisfeito. Eu iria feliz, se assim fossem os últimos 30 dias da minha vida.