domingo, 29 de maio de 2011

O Indivíduo e o Todo (ou “não fica assim, não foi nada”)

A população. A comunidade. O povo. A massa. O todo.

Somos o todo. Um por um, unidos, formamos o todo. O todo, porém, não é uma massa uniforme. O todo está mais para um mosaico. Um mosaico formado por incontáveis pedacinhos de porcelana. Todos os pedacinhos que formam a imagem são constituídos da mesma coisa: porcelana. Entretanto, cada parte é diferente da outra. Cada pequeno pedaço de porcelana se difere do outro por sua cor ou cores, por seu tamanho, por sua largura, por seu formato e, também, por sua natureza, por sua essência, sua origem. Cada parte do todo, o mosaico, foi produzida em um local diferente, em um momento diferente, por máquinas e pessoas diferentes, com matérias primas obtidas em pontos diferentes.

O todo, portanto, é composto por partes únicas. Indivíduos formam o todo e, mesmo formando o todo, mesmo fazendo parte da imagem completa, mesmo sendo integrantes da massa, não deixam de ser indivíduos. O todo são os indivíduos. Os indivíduos não são o todo. Eles são únicos.

Esse preâmbulo todo pode parecer uma grande bobagem (e talvez seja), mas se faz necessário para embasar e servir de referência para o que, de fato, pretendo dizer nas linhas que seguem. Vamos a elas, pois.

As pessoas sentem extrema necessidade de modelar e padronizar o sentimento das outras. As pessoas não gostam de ver outras pessoas com sentimentos extremos. Elas se sentem mal vendo isso. Ainda não sei ao certo o porquê. Talvez porque a maioria das pessoas se sente, cada dia menos, um indivíduo e cada dia mais o todo. E o todo não possui sentimentos extremos. O todo é a mesmice. O todo é um clichê. O todo nunca é o 0% e nunca é o 100%. O todo é o 50%. Talvez essa seja a explicação.
O fato é que qualquer tipo de sentimento mais intenso, que fuja ao padrão, que não seja mais do mesmo, incomoda as pessoas. Diante disso, muitas delas não sabem como agir e preferem se abster, não dizer nada. Encontram no silêncio um refúgio para a sua incapacidade de compreender o outro. Respeito-as. Outras criticam, colocam-se em uma posição supostamente superior e apontam o dedo inquisidor, olhando de cima, como que tentando fazer com que aquele que sente de modo extremo se sinta culpado, se sinta fazendo algo errado. Entendo-as. E tem ainda um outro grupo. Um grupo mais perigoso. Um grupo que atua sorrateiramente. Um grupo que, aparentemente, está do seu lado, que te apoia, que quer o teu bem. Aparentemente. Só aparentemente. Esse grupo é o grupo que tem o maior potencial para prejudicar. Refiro-me àqueles que no momento em que você está chateado, magoado, triste, pra baixo, enfim, seja qual for a palavra ou expressão que defina um estado de espírito melancólico, um sentimento extremo, se aproximam e dizem coisas como o seguinte: “não fica assim, não foi nada”, ou um “não é pra tanto, não fica triste, não vale a pena”. Desprezo-os.
Incomoda-me muito, para não dizer que me irrita profundamente, quando vejo uma pessoa dizer isso para outra, ou dizer para mim mesmo. E incomoda-me muito, principalmente em casos como os exemplificados acima, quando a pessoa que está sentindo um sentimento extremo está triste, está “para baixo”.

Como assim “não foi nada”? Como assim “não é pra tanto”?
Pode não ser nada para quem vê de fora, pode não ser pra tanto para quem observa de fora, mas, para quem sente, é tudo e é para tanto e é para muito mais, inclusive. Incomoda-me muito quando presencio uma pessoa desfazendo, diminuindo o sentimento de outra.

Qual o problema em estar “para baixo”?
Qual o problema em estar triste?
Qual o problema em estar muito triste?
Qual o problema?

Se a pessoa não tem tendências suicidas, não vejo nenhum problema. Ao contrário. Acho deveras natural e salutar que nossos momentos de alegria sejam permeados por momentos de tristeza. C'est la vie. É isso, aliás, que torna a caminhada tão interessante. É por isso que o mar atrai mais que o rio. As ondas. O ir e vir. Os dois sentidos de movimento. A ressaca. O repuxo.

Momentos de tristeza são necessários. Momentos de melancolia profunda são necessários. Estar triste é tão normal quanto estar alegre. Acredito, inclusive, que a tristeza nos ensina mais do que a alegria. Aprendemos mais e nos conhecemos mais na tristeza do que na alegria. E isso ocorre por uma simples razão: na tristeza, pensamos; na alegria, não.

O fato é que ninguém tem o direito de questionar o que uma pessoa sente. Ninguém tem o direito de dizer a uma pessoa que aquilo que ela está sentindo é insignificante. Não somos o todo. Somos um indivíduo. Somos um pedaço de porcelana no mosaico. O outro não vê as coisas da forma como eu vejo, ele não sente como eu sinto, assim, não posso avaliar se o que ele sente é forte ou não, se é fraco ou não, se é importante ou não. Ele sente e, se o que ele sente o faz ficar triste, é porque aquilo é um motivo suficientemente forte para gerar a tristeza. Pode não ser suficientemente forte para eu ficar triste, mas é suficientemente forte para ele ficar triste. E isso não faz de mim alguém mais “forte” do que ele. Em absoluto.

Não aceito que se tente empulhar as pessoas, pregando-lhes receitas prontas sobre qual é o modo “correto” de agir em determinada situação envolvendo algo de cunho extremamente pessoal.
Agora, por exemplo, estou com uma dor na garganta terrível. Tão forte que deixar correr uma lágrima não parece algo tão absurdo. Não mesmo. O quê? Fiasquento eu? Ahh, vsf, vai. Grato.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da difícil arte de escrever .... sobre o amor

Como transformar um sentimento em palavras?

É curioso como escrever sobre uma coisa, o amor, pode parecer tão fácil e ser tão difícil. O amor talvez seja o tema mais abordado na história universal da escrita. Possivelmente é. Muito possivelmente. Desde textos literários de todos os tipos, passando por cartas e bilhetinhos, seguindo por e-mails e “torpedos”. As pessoas que amam sentem necessidade de expressar esse amor através de palavras escritas. O amor é o tema mais universal do mundo para se falar. O amor entre duas pessoas sentido aqui não é significativamente diverso do amor entre duas pessoas sentido no Japão, ou na Rússia, ou na Romênia, ou na Índia, ou na Nigéria, ou nos EUA, ou em qualquer outro ponto deste planeta. As manifestações e demonstrações desse amor e a forma de sentir esse amor podem ser e são bem diferentes, cada uma de acordo com a personalidade de cada pessoa e com a cultura local, mas o sentimento é praticamente o mesmo.
Por ser universal é que o amor de Romeu e Julieta foi traduzido para quase todos os idiomas que você pode imaginar. A história é a mesma. Uma história de amor. Uma história que emociona há mais de 400 anos. Mas, infelizmente, há poucos Sheakespeares por aí capazes de criar algo tão vigoroso. E não há muitos Sheakespeares porque escrever sobre o amor é muito difícil. Muito mesmo. MUITO.
Se escrever ficção sobre o amor é muito difícil, imagine escrever um relato de cunho mais pessoal, tendo as suas sensações como base e fio condutor do texto. É muito difícil escrever sobre o amor porque, apesar de ser um sentimento universal, ele é único para quem sente. Antes de começar a escrever ou a falar sobre o amor, que seja, uma questão precisa ser respondida. Ter essa questão respondida é condição sine qua non para que o texto possa sair da cabeça e ir para o papel. A pergunta é a seguinte: o que é amor para você?
É indispensável que a resposta a esse questionamento exista para que você consiga criar um escrito pessoal falando sobre o amor. Assim, temos, portanto, antes da primeira letra do texto ser escrita, um grande problema. Um problema muito complicado de ser solucionado.
A primeira dificuldade para se resolver este problema reside no fato de o conceito de amor ser algo pessoal. Assim, não há como se utilizar de definições elaboradas por outros. É possível se basear na opinião de outras pessoas a respeito do que é amor, entretanto, corre-se o risco de que um conceito irreal seja criado, e de que isso acabe gerando dificuldades quando for preciso interpretar o sentimento existente em um determinado momento.
As pessoas não param para pensar sobre isso e aí está outra dificuldade. As pessoas percebem que sentem algo e que esse algo é forte e, para elas, isso é amor. E pode até ser. A questão é que ninguém para e pensa: o que estou sentindo? Já senti isso, assim, outras vezes? De onde vem isso que estou sentindo? O que aquela pessoa tem para fazer com que eu me sinta assim?
Então, esse é um requisito básico e, creio eu, indispensável para se escrever a respeito do que se está sentindo: saber o que se está sentindo e o que é aquele sentimento para mim.
Escrever sobre a paixão é mais fácil. A paixão mexe muito com o instinto. É algo que aflora mais visivelmente. O amor se sente mais com o cérebro do que a paixão. É claro que cada pessoa se apaixona de um jeito. Alguns se apaixonam mais com a pele, mais pelo físico; outros se apaixonam mais pelo jeito da pessoa; e outros se apaixonam pelo modo como a pessoa pensa. Porém, a paixão ainda é um sentimento intermediário e está deveras ligada a um encantamento. E uma pessoa encantada pode, às vezes, deixar o cérebro um pouquinho de lado na hora de sentir.
Escrever sobre o amor é muito difícil porque as pessoas conhecem pouco a si mesmas. Mas, mesmo para aquelas pessoas que se conhecem muito bem, escrever sobre o amor também é difícil. Por quê? Basicamente por que estas pessoas, as que se conhecem bem, sentem com muita intensidade. Essas pessoas sentem com mais profundidade o sentimento. E, nestes casos, elas percebem o quão complexo é escrever sobre um sentimento, principalmente um sentimento como o amor. Essas pessoas compreendem que, por mais espetaculares que sejam, por mais fantásticas e mágicas que sejam, por mais fascinantes e desbravadoras que sejam, por mais desafiadoras e esclarecedoras que sejam, por mais fortes e sensíveis que sejam, as palavras delimitam. As palavras te fazem viajar, sair do chão, sonhar, ir longe, mas elas, em si, delimitam. E limitar um sentimento é muito difícil para quem o sente. Principalmente para quem o sente de modo intenso.

Aí está o paradoxo da questão: para escrever sobre o amor que se sente, escrever mesmo, de modo profundo e pensado, é preciso saber o que é o amor para si próprio. Para saber o que é o amor é necessário se autoconhecer. As pessoas que se conhecem bem, contudo, na maioria das vezes, sentem muito o que sentem, sentem com intensidade. E, por sentirem intensamente, percebem que as palavras limitam um sentimento que, para elas, parece ser ilimitado. Daí o desconforto. Daí a dificuldade em escrever sobre o amor.
Quem consegue fazê-lo, das duas uma: ou é uma exceção, um dos privilegiados, um Sheakespeare; ou tem o enorme talento de escrever sobre algo que está sentindo sem ser influenciado por esse sentimento.
Os dois casos existem, mas são muito raros. Raríssimos.
O mais comum, portanto, é nos deparar com textos sobre o amor escritos por talentosos escritores que não sentiam aquilo sobre o qual estavam escrevendo. Ou por pessoas que acreditam estar escrevendo sobre o amor que sentem, mas na verdade não passaram da epiderme desse amor. Estão esquiando na superfície congelada de um profundo lago.

Apesar de todas as dificuldades, não há razão para desistir e nunca tentar escrever sobre o amor que se sente. Ao contrário. Deve-se tentar sempre. Escrever é hábito e só se adquire esse hábito escrevendo. Ao tentar escrever e não conseguir surgirão questionamentos e é a partir deles que o processo de autoconhecimento aflora e se desenvolve. Ninguém se autoconhece sem se desafiar. O amor é desafiador e escrever sobre ele também é.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Breve relato de uma viagem de ônibus


“Atualmente, depois de tantas eras de experiência, o que conhecemos da natureza, ou de nós mesmos? O homem não deu sequer o primeiro passo no sentido de solucionar o problema de seu destino. O universo humano inteiro permanece condenado à insanidade.”

Ralph Waldo Emerson



Lá vou eu. Óculos escuros, mochila no ombro e rock nos fones de ouvido. Entro no ônibus, dirigindo-me para o trabalho, e percebo um comportamento “anormal” do casal sentado no banco à minha frente. Pause na música para ver o que ocorria. Discutiam a relação. Stop no som, fone nas mãos. Resolvi acompanhar o que estava se passando. Uma experiência antropológica. Foram 20 minutos ouvindo a discussão dos dois. Não foi preciso mais do que cinco minutos, porém, para diagnosticar o que estava faltando naquela relação conflituosa: comunicação.

Em vinte minutos de observação não é possível fazer uma análise muito profunda. Entretanto, ficou deveras claro que o problema advinha muito da essência de ambos, da natureza própria que diferencia homens de mulheres. Ela necessitava falar, dizer para ele todas as coisas que a estavam incomodando e, consequentemente, minando o namoro. Ele, com a característica postura de superioridade masculina quando este assunto está em discussão, interrompia-a a todo o momento, não deixando ela se expressar.

Era evidente a qualquer um que observava a cena que ela gostava muito dele, amava-o, provavelmente. O sentimento dele em relação a ela, novamente devido ao comportamento típico masculino, era mais difícil de ser identificado.

Senti muita vontade de intervir na conversa, diversas vezes áspera e em alto tom de voz, e dizer pra ele calar a boca e ouvi-la. Ouvi-la em silêncio, ponderar sobre as palavras dela e, depois, contra-argumentar, se fosse o caso. Mas não me senti no direito.

Impressiona-me como uma coisa tão básica como isso, a comunicação, ou a falta dela, faz com que castelos de sonhos desmoronem. E o que é pior, desmoronem lentamente, dolorosamente, deixando fortes marcas nas pessoas envolvidas.

Saber ouvir. Esse é um segredo básico, mas fundamental em qualquer tipo de relação. Olhar para o outro, escutar o que o outro tem a dizer. Às vezes, o outro só quer isso, ser ouvido. Não quer ser compreendido e muito menos entendido, quer ser ouvido.

Tentar entender, aliás, é uma batalha perdida, sempre. Não há como entender o outro. Não há como entender o outro pelo simples fato de que você vai ver com os seus olhos a realidade que o outro lhe apresenta, e não com os olhos dele. Compreender é possível, apesar de não ser fácil. No momento em que há um conflito, então, fica muito mais difícil, na medida em que ambos estão vibrando em sintonias diferentes.

Ouvir e tentar compreender.

Ele não ouvia o que ela tinha para falar e refutava com palavras proferidas para menosprezá-la. Isso a deixava ainda mais nervosa. E ele parecia se sentir, a cada minuto que passava, em um degrau mais alto, olhando para ela lá embaixo.

Os homens são idiotas por natureza.

A essência masculina é a da simplificação de questões complexas e a da complexização de questões simples. Algumas mulheres percebem isso e passam a interpretar as posições masculinas de uma maneira mais adequada à natureza dele.

Os homens são simplórios. E isso não pode ser considerado um defeito. Quase todos são assim. É evidente que existem exceções. A maioria delas, porém, parece ser uma exceção, mas não é. Basta algum período de convivência, curto que seja, e o cromossomo Y mostra que está lá. Sempre esteve lá. E que o instinto ainda se mantém soberano.

Entretanto, como disse, existem exceções. Verdadeiras exceções. São poucas, mas existem. Não perca as esperanças, pois, querida leitora. Nunca sabemos o que nos espera ao dobrarmos a próxima esquina.

A viagem se encaminhava para o fim. Levantei-me do banco e me dirigi para a porta do ônibus. Dei uma discreta olhada para os dois. Os olhos dela estavam marejados. Mas ela não chorava. Ele mantinha aquele olhar blasé de quem se sente superior.

Desci.

Caminhando, pensei em como, apesar de centenas de milhares de anos de evolução, os humanos seguem sofrendo por situações tão singelas, as quais a solução já deveria ter sido internalizada por todos. E pensei que talvez não tenhamos evoluído tanto assim. Pelo menos não naquilo que deveria ser o mais importante. Na relação com o outro.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Daquilo que não é dito

Uma palavra. Não mais do que uma palavra pode ser necessária para que tudo aconteça. Uma palavra. Não mais do que uma palavra pode ser necessária para que nada aconteça. A palavra tem esse poder. Uma palavra tem esse poder.
Algumas delas em sequência podem significar o tudo. A ausência delas, em determinado instante, pode significar o nada. Muito mais do que o que você faz, são as palavras que indicarão o que será da sua vida. Um “sim” dito na hora errada, um “não” dito no momento certo. A vida pode ser apresentada a partir das palavras que são ditas.
Mas não só delas.
A vida também pode ser apresentada a partir das palavras que não são ditas.
As consequências daquilo que não é dito são muito maiores e mais duradouras do que as consequências daquilo que é dito. À palavra dita pode se seguir um pedido de desculpas, um arrependimento. À palavra dita pode se alegar que houve uma má interpretação, que não foi aquilo que se quis dizer. Aquilo que é dito pode ser esquecido com o tempo, tanto por quem disse quanto por quem ouviu.
Aquilo que não é dito pode produzir efeitos devastadores em quem deixa de dizê-lo. Sofre em silêncio aquele que deixa de dizer. E aquele que deixa de dizer não o faz seja querendo fazer (e daí o sofrimento é maior), seja porque a oportunidade de fazer passou (ou ainda não chegou).
Aquilo que não é dito.
É uma experiência sui generis imaginar como você estaria agora se tivesse dito todas as coisas que quis dizer e não disse. Não há como recordar de todas elas, é evidente. Porém, as mais importantes, as que marcaram mesmo, estão lá, guardadas, em algum lugar. Basta um esforço, e elas brotarão.
Provavelmente você manteve alguns amigos (amigos mesmo?), alguns namoros, alguns empregos, algumas relações sociais, por não ter dito o que queria dizer. Muito provavelmente também, você deixou de fazer alguns amigos e deixou de iniciar namoros (empregos e relações sociais talvez não) em razão disso.
“As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” O escritor e poeta francês Victor Hugo tinha a noção da carga de importância e significados para a vida que as palavras têm. Nada é mais angustiante para um poeta do que não encontrar a palavra exata para descrever aquilo que está sentindo no momento em que escreve. E nada é mais torturador do que uma palavra que fica presa na garganta, que insiste em não sair, que quase te impede de respirar. A palavra que não é dita.
As palavras que não são ditas, quase sempre, são aquelas que vieram à boca depois de se ter pensado sobre o assunto. Palavras que não são ditas são palavras pensadas, são palavras maturadas. Palavras que não são ditas, geralmente, são frutos de reflexão. Por isso elas incomodam tanto, por isso machucam tanto. Por isso elas arranham a boca tentando se libertarem. As palavras que não são ditas são convicções (naquele momento são). Não são ideias passageiras, ou resultados de alguma emoção. As palavras que não são ditas ferem tanto porque não saem da cabeça de quem não as diz. Elas ficam ali, martelando, todo o tempo, como se dissessem “hey, estou aqui, só há um modo de você se livrar de mim, e você sabe como”.
Nossa vida, essa que nós vivemos e com a qual covardemente nos conformamos, é feita daquilo que é dito. A vida que queríamos viver, a vida que pulsa em nossa mente e em nosso coração, a vida libertadora e libertária, a vida desafiadora e rebelde, a vida que está nos nossos sonhos, a vida no seu sentido mais amplo e profundo, essa é feita daquilo que não é dito.
E o que fazer quando é dado o momento? O que fazer quando as palavras rompem seus casulos e se dirigem em direção à luz? O que fazer quando você quer dizer algo, mas as palavras ficam ali, presas, sufocando-o?
A resposta mais fácil e clichê seria um simples “diga-as, expulse-as do seu corpo e se liberte”. Sabemos, porém, que não é simples assim. A razão de palavras não serem ditas está, em boa parte das vezes, intrinsecamente ligada a um sentimento com o qual é difícil de se lidar: o medo.
Já disse em outra ocasião que o medo é algo natural, existe e deve existir e que, entretanto, nada que realmente se quer fazer deve deixar de ser feito por causa do medo. É assim que deveríamos agir se fôssemos pensar em algo mais próximo do ideal. Todavia, não vivemos a vida ideal.
Aquilo que não é dito não é dito por que há um motivo significativamente forte para que assim seja. Significativamente forte, pelo menos, para quem não o diz. Aquilo que não é dito não é dito por que quem não o diz teme que, se disser, o resultado de suas palavras podem não ser o que ele deseja. E, assim sendo, ele se magoará, ficará triste. Não proferindo as palavras, ele não corre esse risco. Não proferido-as, contudo, ele também não se arrisca a receber como resposta aquilo que deseja ouvir. E assim ele fica. Inerte. No mesmo lugar. Parado. Assim ele não vive. Assim ele cumpre um papel de extrema coadjuvância em sua própria existência. Ele é coadjuvante em sua própria vida.
Daquilo que não é dito se constrói uma história que não foi escrita. Daquilo que não é dito se vive uma vida que não foi vivida. Daquilo que não é dito se pinta um quadro com azuis que não lembram o céu, com vermelhos que não escorrem feito sangue, com amarelos que não queimam como o sol, com verdes que não acalmam feito os campos.
Daquilo que não é dito ficam só três coisas: a lembrança, o arrependimento e a saudade. Não há como retroceder ao passado. Não há como voltar no tempo e dizer aquilo que não foi dito.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os fatos. O tempo. As mudanças. A vida.

Uma semana. Uma semana foi o suficiente para a vida de uma amiga muito querida sofrer grandes transformações. No caso dela, as transformações foram positivas. Conversamos sobre isso e sobre como o inesperado é o que dá o tempero aos nossos dias. Conversamos sobre como um fato ocorrido em um pequeno espaço de tempo pode resultar em mudanças que vão fazer a sua vida tomar outra direção, ou outro caminho. Os fatos, o tempo, as mudanças e a vida.
Os fatos. Os fatos por si só podem não possuir um valor definitivo. O que torna um fato importante ou não é a nossa percepção a respeito dele. Um mesmo fato acontecendo para duas pessoas pode ser encarado como positivo por uma e como negativo por outra. O fato precisa ser interpretado para que possa ter significado e interpretação é um ato individual.
O tempo. O tempo que algo dura não possui nenhuma relação com a importância desse algo. Vivemos o segundo, o minuto, a hora, o dia. Não vivemos a semana, não vivemos o mês, não vivemos o ano. O inesperado é o que nos surpreende e o que nos surpreende é o que mais nos marca. O inesperado não é planejado. O inesperado apenas acontece e, geralmente, acontece em um curtíssimo período de tempo.
As mudanças. As mudanças não ocorrem sem que algo seja feito para que elas ocorram. Esse impulso pode ser próprio ou pode ser oriundo de uma fonte externa. A pessoa pode não querer a mudança, mas tem de aceitá-la. Essas, geralmente, são as más mudanças, pelo menos em curto prazo. À ausência de mudanças denominamos rotina. É impossível fugir totalmente das rotinas. Não há como. Algumas rotinas já estão tão internalizadas na nossa cultura e, consequentemente, em nosso comportamento, que elas se tornaram essenciais, quase como respirar. Entretanto, um fato, ocorrido inesperadamente e, por isso, em pouco tempo, pode resultar em uma mudança. Esse fato pode resultar em uma pequena mudança, assim como pode resultar em uma mudança drástica.
A vida. A vida está intrinsecamente ligada ao movimento. Desde a concepção até a morte, a vida não existe sem movimento. E movimento significa a alteração de um estado para outro. Movimento significa mudança. Na vida, nenhuma mudança representativa demora muito tempo para ocorrer (desconsideremos o envelhecimento, pois é natural e, assim, independe das ações do indivíduo). As mudanças que marcam ocorrem de repente, num estalar de dedos, em um erro ou em um acerto, em uma escolha. E essa mudança pode alterar os caminhos que a nossa vida vai tomar. Essa mudança não necessariamente mudará o destino, mas mudará os caminhos até ele.

Falo sobre isso porque percebo cada vez mais o instante sendo colocado de lado, sendo relegado a uma instância secundária, enquanto o futuro, os planos, enfim, o que ainda não veio, é o que recebe a atenção principal. Inclusive faço isso às vezes, mas tenho tentado fazer sempre menos.
Não que não seja legal tentar visualizar como, onde, com quem estaremos daqui a um, dois, três, cinco, dez anos. É legal, e acho que até deve ser feito, desde que não se viva o hoje em razão desse futuro. Ou melhor, desde que não se viva o hoje de modo metódico e, como que cumprindo um cronograma, para se chegar onde se deseja no futuro.
Se quero algo, quero agora. Sabedor de que obter esse objeto de desejo agora não é possível, deixo para depois, e posso até determinar um tempo para que obtenha isso, ou determinar uma data para que algo ocorra. Mas isso não muda o fato de eu querer agora.
É importante deixar claro que não vejo nenhum problema em fazer planos. Nenhum mesmo. Ao contrário. Acho o máximo. Sério. Eu inclusive, estou planejando fazer um tipo de aventura, viagens de observação, só eu, uma mochila com algumas coisas e a câmera fotográfica. Chegar aos lugares e ir onde quiser ir, onde as conversas com os moradores locais me levarem. Nada de guias ou listas de “pontos turísticos” a se visitar. A intenção, inclusive, é não visitar metrópoles e locais cheios de turistas. Aliás, se alguém quiser, cabe mais um(a) na indiada, mas só mais um(a), pois três já vira gandaia.
Deixando de lado os meus planos e voltando ao tema do post, o problema não está nos planos. O problema, creio eu, está em viver os planos e viver para os planos, viver para o futuro, viver para um futuro que não se sabe se irá existir. As escolas fazem isso. As escolas ensinam para o futuro, preparam para o futuro. Talvez esteja aí a razão, ou uma das principais razões, para o pouco interesse dos jovens.
Assim sendo, de tudo o que falei até aqui, fica uma certeza para mim. Não devemos ignorar o fato que ocorre repentinamente, em um segundo. Ele pode trazer a mudança que nos fará percorrer outras estradas e conhecer o desconhecido. Eu e a minha querida amiga conversamos brevemente sobre isso. Muito brevemente. E o assunto surgiu, não foi programado. Foi uma das coisas que mais me marcou nos últimos dias.

PS: sobre o meu plano aí de cima, nele não está incluída a data em que ocorrerá. Quando surgir a oportunidade, será a hora.

PS 2: passo por um momento de sucessivas reflexões a respeito da vida. Estou quase me tornando um transcendentalista. Perdoem a minha chatice por esses dias.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A lição da bicicleta

Antes de saber andar de bicicleta eu tinha medo de tentar aprender. Isso se dava porque eu sabia que se seu subisse na bicicleta sem saber andar e, mesmo assim, tentasse andar, eu iria cair e, em algumas vezes, iria me machucar. Por um bom tempo evitei me aproximar daquilo que eu desejava tanto com medo de que aquele objeto de desejo me machucasse e me causasse dor.
Enquanto isso, eu via meus amigos tentando aprender também a se equilibrar sobre as duas rodas e a andar de bicicleta. Eu vi muitos deles caírem e se machucarem. Eu vi a bicicleta causar choro em quase todos eles. E eu pensava comigo mesmo, que aquilo não iria ocorrer comigo. Eu não iria me machucar. Eu não iria cair da bicicleta. Eu não iria chorar por causa daquilo que eu tanto queria.
Com o tempo, porém, eu vi meus amigos caírem menos, e pouco tempo depois, caiam ainda menos, e muito pouco tempo depois, não caiam mais. E também vi que alguns deles caiam uma ou duas vezes e paravam de cair, já saiam andando, enquanto outros sofriam muito mais percalços durante os seus processos de aprendizagem. E então, em muito pouco tempo, eu vi que todos os meus amigos sabiam andar de bicicleta e vi como eles se divertiam com aquilo. Vi como aquilo lhes dava alegria. Uma alegria que suplantava em muito todo o sofrimento que eles tiveram até conseguir dominar a arte de andar de bicicleta. E percebi que a bicicleta daria alegrias para eles por todo o resto de suas vidas. E foi aí que eu tive uma das primeiras grandes lições da minha vida. Foi aí que eu aprendi que um tombo de bicicleta que eu sofresse, seria um tombo a menos que eu iria sofrer. Foi aí que eu aprendi que um choro em razão de um machucado, seria um choro a menos que eu iria chorar. Foi aí que eu aprendi que o sofrimento faz parte do caminho para se aprender e se obter as coisas as quais nós desejamos. E que esse sofrimento varia, podendo ser maior para algumas coisas e menor para outras ou que mesmo para a mesma coisa ele poderia variar, dependendo da ocasião. A vontade de aprender a andar de bicicleta e as alegrias, os sorrisos, os momentos inesquecíveis que eu iria passar junto dela era e seriam incomparavelmente maiores do que os riscos que eu correria ao tentar conseguir o que eu queria conseguir. Foi aí que eu aprendi que, em razão do medo, eu nunca deveria deixar de fazer algo que eu desejasse muito fazer. As quedas anteriores só me ensinaram. Com as quedas anteriores eu aprendi como não cair. E, depois que eu aprendi, eu nunca mais cai de bicicleta. Eu passei a me antecipar às quedas iminentes e, assim, evitei-as. A bicicleta nunca mais me causou sofrimento e dor. No máximo, eu tive alguns desequilíbrios, mas nunca mais sofri um tombo feio. Nunca mais.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sobre como a superior sabedoria feminina faz dos homens pobres coitados simplórios (ou O Amor (in) Condicional)

- “E se eu fosse aí te buscar?”, perguntou ele, com o característico tom vocal adocicado de quem se diz apaixonado.
- “Bom, daí talvez eu fosse com você”, ela respondeu, com um ar um tanto quanto blasé.
Confuso, ele a questionou novamente.
- “Como assim ‘talvez’? Você viria comigo ou não?.”
Com a tranquilidade no rosto e a sabedoria que ele não tinha, ela esclareceu.
- “É simples. ‘Se’ você vier me buscar, ‘talvez’ eu vá com você. Agora, você vem me buscar e eu vou com você. Não posso dar certeza para quem coloca seu amor no condicional.”

Conversa encerrada.