sábado, 9 de novembro de 2013

Era um domingo


Ela é sempre a mesma, mas, a cada novo dia em que acorda, ela é outra.

Outro dia pela manhã cedo, ela abriu os olhos, deu um longo e silencioso bocejo, ergueu-se da cama, ficou em pé e se viu uma palhaça, dessas de circo. Saiu fazendo estripulias e assim permaneceu durante todo o dia. Espirrou água no rosto de amigos, deu cambalhotas no corredor da escola e, sempre que pôde, falou com voz alta e estridente “hey, amiguinhos!!”. Ela estava impossível.

Noutra ocasião, acordou e era uma bailarina. Passou a manhã, a tarde e a noite dando saltos e giros, rodopios e rebuscados passos de dança. Foi dormir com os pés doendo e a cabeça nas nuvens.

Houve uma vez em que era uma atriz. Foi um dia difícil aquele. Uma hora era um drama só. Em seguida, ela ria, falava bobagens, caminhava engraçado, era pura comédia. Disso para um suspense de tirar o fôlego, era um pulo.  

Era sempre assim. A cada amanhecer, uma nova pessoa se mostrava para ela no espelho.

Teve um dia, em especial, em que ela levantou, ainda de pijama, calçou as pantufas, tomou um demorado banho, penteou os cabelos, trocou de roupa, arrumou a mochila colorida, passou na cozinha, pegou algumas coisas de comer, encheu seu cantil com água, abriu a porta e saiu.

Ela era uma andarilha. Uma desbravadora. Uma caminhante. Sem direção e sem propósitos. Somente andar. Era um domingo.

Não deixou nenhum recado. Não avisou ninguém. Não disse a que horas voltava.

Era dona de si mesma. Tinha o tempo em suas mãos. Tinha o mundo aos seus pés.

Ela tinha os cabelos amarrados às costas em um rabo de cavalo que chacoalhava de um lado para o outro, acompanhando os seus passos despreocupados.

Ela conversou com muitas pessoas. Queria ouvir as histórias da gente da rua, mendigos, ambulantes, catadores, prostitutas, beberrões, vagabundos que passavam o dia zanzando sem ter o que fazer.

Conheceu um músico no Centro da cidade. Era um rapaz jovem, com barba espessa e negra, olhos faiscantes e cabelo ondulado e comprido, logo abaixo dos ombros. Ela o ouviu tocar e cantar. Era uma música que ela não conhecia, mas gostou muito. Ela não lhe deu dinheiro, mas lhe deu atenção, a qual ele retribuiu com entusiasmo, afinal, uma boa conversa vale mais do que alguns trocados. Falaram sobre a canção, sobre a rua, sobre as pessoas ao redor, sobre sentimentos e sobre mais algumas trivialidades. Deram risadas juntos. Sorriram um para o outro. Ela se apaixonou. Mas sabia que não podia se apaixonar. Sabia que, no dia seguinte, não seria mais essa garota que se apaixonou pelo jovem cantador das ruas. Lutou contra si e contra sua paixão repentina. Foi uma luta árdua. Aquela que se apaixonara era pura emoção, puro instinto. Mas era preciso resistir. Amanhã, muito provavelmente ele não teria nenhum interesse por aquele rapaz. Ela sabia disso. Suas variações de personalidade eram muito bruscas. Não podia arriscar.

Foi com uma lágrima correndo no rosto que ela se despediu com um abraço e seguiu sua jornada do dia.

Andou por onde nunca antes houvera andado. Espantou-se com quanta coisa nova havia para ver. Quanta coisa nova. Era um velho mundo novo, uma cidade que sempre esteve ao alcance de suas mãos, mas que ela nunca tocara.

Tantos prédios, tantas árvores, tantas ruas, tanto céu, tanta gente, tanta vida.

Na praça, senhores de cabelos brancos disputavam acirradas partidas de damas e dominó. Ela admirava quem dava a si mesmo um belo tempo de um ensolarado dia como aquele para se divertir em uma partida sem objetivo algum a não ser a distração gratuita e leve.

Homens carregavam sacos de algum grão nas costas no porto. Ela nunca havia parado para prestar atenção neles. Não sabia que trabalhavam aos domingos. Eles suavam sob o sol forte. O rosto vincado pelo esforço. As costas arqueadas pelo cansaço.

Seguiu.

Seus pés doíam um pouco. Não havia escolhido os tênis mais confortáveis para a caminhada. Paciência.

Entrou em um bar. Pediu um café. “Bem forte!” Sorveu enquanto olhava uma mulher sentada em uma mesa no canto. Ela parecia exausta, aquela mulher. Carregava uma mochila batida e uma criança. A criança estava em silêncio, mas parecia ter chorado muito há pouco tempo. A mãe também parecia ter chorado recentemente. As duas dividiam uma fatia de pão tostado com manteiga. Permaneceu por algum tempo observando a mulher e a criança. Tentou imaginar o que ocorrera com elas, porque haviam chorado, para onde iriam. Imaginou algumas coisas e pensou em ir perguntar às duas. Desistiu. A imaginação, na maior parte das vezes, é mais digerível do que a realidade. Ela levantou e saiu, sem não antes deixar pago dois copos de café com leite e duas torradas reforçadas. Havia feito a sua boa ação do dia.

Saiu caminhando a esmo. Não tinha pressa. A vida não tinha pressa. Seguia serena.

Deu de comer aos pombos no largo, sentiu os cheiros das bancas do mercado.

Passou pela rua dos sebos. Cruzou a ponte de pedra. Andou e andou. Chegou ao parque.
Sentou-se na grama à sombra de um Ipê. Bebeu água, soltou os cabelos e deitou-se. Ficou ali. Depois, contando a amigos por onde andara, não soube precisar por quanto tempo, mas ficou ali até principiar o anoitecer. Estava feliz como nunca havia estado.

Não viu o sol se pôr no lago, mas viu casais jovens trocando carícias ao saírem das aulas na faculdade.

Levantou-se, pegou sua mochila, olhou ao redor e tomou o caminho de casa.

Era uma noite linda aquela. Tudo era lindo naquela noite. O céu estava lindo, brilhante. O ar estava lindo, leve. As ruas estavam lindas, movimentadas, cheias de gente, vivas.  

Ela estava linda.

Seguiu atenta. Olhava tudo. Estava elétrica, mas, ao mesmo tempo, sentia-se serena de um modo único. Passos, quadras, ruas, avenidas, bairros, pessoas. Pessoas novas, pessoas velhas, pessoas alegres, pessoas nem tão alegres. Pessoas.

Já estava bem perto de casa, podia ver a movimentação de amigos e parentes no pátio da frente. Todos preocupados com ela. Não tiveram notícia alguma durante todo o dia. Ela achou aquilo engraçado. Nunca deram muita bola para ela e, agora, pareciam formigas que tiveram seu formigueiro pisoteado por um garoto. Sorriu para si mesma e, ao mesmo tempo, imaginou toda a chateação que viria a seguir, perguntas, reprimendas, falação... enfim, sabia que não seria bom, mas sabia também que era inevitável. Tinha de voltar para casa. Amanhã, iria achar tudo isso que fez durante esse dia uma grande loucura sem sentido. Caminhou um pouco mais e, agora, já podia ouvir as vozes. Era isso. Havia chegado a hora de dar fim àquela jornada.

Deu três passos.

Parou.

De súbito, parou.

Como um relâmpago em noite de tempestade, um pensamento cruzou a sua mente.

Sim!

Era isso!

Estava tudo tão claro.

Largou a mochila no chão, girou nos calcanhares, deu meia volta e saiu correndo com uma determinação de um campeão olímpico.

Correu e correu e correu. Ela tinha pressa. Precisava correr. E mais rápido, mais rápido, mais rápido. O tempo corria ao seu lado. Os dois disputavam, um contra o outro. Ela não podia se dar ao luxo de se sentir cansada. Não podia parar, nem por um segundo. Ela corria. Tinha de chegar. Tinha de conseguir. Era preciso.

As pessoas olhavam para ela e não entendiam. Por que aquela menina corria tanto? Para onde ela ia? Qual o motivo da pressa?

Ônibus passavam ao seu lado, ela chegou a pensar, mas não podia, não naquele dia. Aquele dia era das ruas. Seguiu correndo. Os olhos bem abertos. Como um guepardo atrás de sua presa. Corria.

Pensamentos, imagens surgiam frente aos seus olhos. Tudo o que havia visto durante o dia. Pensou na mãe com a criança, nos trabalhadores no cais, no casalzinho do parque.

Corria. Estava perto. Torcia para que não fosse tarde demais. Não haveria de ser tarde demais. Tinha de conseguir.

Correu e correu e correu e correu ainda mais. Faltavam metros. Dobrou a esquina.

Encontrou o músico recolhendo seu banquinho e se preparando para ir embora. Parou em frente dele. Finalmente havia parado de correr. Arfava. Ele estava curvado, olhando para o chão. Em um primeiro momento, não a viu. Só percebeu sua presença ao sentir sua respiração ofegante e forte. Ergueu-se e ficou surpreso ao vê-la. Realmente não esperava por isso. Achava que nunca mais iria encontrá-la. Aquela era uma cidade grande.

Olhou para ela e disse um “olha só quem cruza, mais uma vez, o meu caminho! A que devo a honra?”

Ela sorriu. Ela sorriu e chorou. Ao mesmo tempo.

Sem pestanejar nem um momento sequer, deu um salto e pendurou-se no pescoço dele. Estava esfuziante. Sentia-se em outra dimensão. Uma coisa cósmica, sei lá, não sei explicar bem. Nem ela sabe.

Sem compreender direito o que se passava, mas sabendo exatamente o significado de tudo aquilo, restou a ele abraçá-la também. E ele o fez com força.

Estavam juntos. Eram um só, unidos, em uma rua no Centro da cidade.

Ela escolheu viver essa paixão.

Amanhã?...

Bom, amanhã, seria outro dia. Quem sabe, ela não seria uma artista de rua também. Quem sabe, não seria uma criança? Ou um sopro de vento? Quem sabe?

Saíram caminhando. Para onde, não sei. O braço esquerdo dele enlaçava a cintura dela e o braço direito dela, a dele.

O banquinho ficou lá. No meio da rua. Eles levavam consigo tudo o que precisavam para aquela noite.

Amanhã?

Que o amanhã venha fresco, novo. Que seja só mais um dia mágico. Isso basta. Para ela.

domingo, 13 de outubro de 2013

Lucinha Cintura Feroz

Ele queria morrer. Mas não para sempre. Simplesmente tirar umas férias da vida. Só por alguns meses. Ele estava cansado. Ele não sabia muito bem do que estava cansado, mas sabia que estava cansado. Muito cansado. Era um cansaço físico, mas também era um cansaço mental e também era um cansaço de espírito. Era cada um desses e era tudo ao mesmo tempo. Era uma massa disforme e indefinida. Não havia, portanto, como descansar de um cansaço desses, assim, meio líquido. Ele precisava de férias.

Começou a pensar, então, em como viabilizar seu desejo. Ele não queria férias do trabalho, então não adiantava procurar seu chefe. Não queria férias da faculdade, então de nada valia pedir uma licença do curso. Ele não queria férias de sua família, portanto, viajar pra longe não era uma opção. Ele queria férias da vida.

Ele próprio não sabia como operacionalizar o descanso. Passou dias e dias pensando na questão e, ainda assim, não chegara nem perto de encontrar uma solução ou uma pista que fosse. Resolveu procurar os amigos, afinal de contas, eles sempre foram excelentes em dar ideias e sugestões estapafúrdias e ele acreditava que a resposta para o seu problema não deveria ser muito óbvia.

Sentados em uma mesa de bar, os quatro, um em cada lado, tentavam descobrir um meio de fazer com que ele obtivesse o que tanto queria. A primeira hora foi gasta com ele tentando explicar o que significava aquilo que buscava. Não adiantou muito. Um dos companheiros de mesa sugeriu um retiro espiritual, algo meio ao estilo budista. “Dizem que os budistas, quando fazem aquelas orações tântricas deles, ficam bem fora da casinha.” A sugestão foi descartada de pronto. “Cara, pelo que eu entendi, o único jeito é entrar em coma”, disse um dos colegas. A ideia não era de toda má, mas envolvia um alto grau de risco e acabou sendo abandonada também. A conversa continuou com os amigos tentando entender porque ele desejava aquilo. “Tás com algum problema de saúde?”. “É dinheiro, tá sem grana?”. “Mulher, só pode ter mulher envolvida”. E assim prosseguiram os palpites e questionamentos. Eles não passavam nem perto. Era difícil explicar uma coisa como aquela. Ele já imaginava de antemão que pouca gente ou ninguém entenderia. Mas, não custava nada tentar.

A madrugada principiava, os garçons começavam a recolher as coisas, indicando que o bar estava prestes a fechar. Todos se levantaram e iam se encaminhando em direção ao balcão do caixa quando, ainda sentado, um dos confrades, o que não tinha dito nenhuma palavra a noite toda e passou bebendo uísque com gelo de modo insaciável, ergueu a voz e disse como quem tivera a solução na ponta da língua todo o tempo. “O diabo.” Todos se viraram e ele repetiu com um ar professoral. “Faz um pacto com o diabo. É o único jeito. Ele é o cara pra te quebrar esse galho.” Os amigos em pé riram e seguiram até o caixa. Ele riu também, mas aquilo ficou na sua cabeça.

Resolveu ir para casa caminhando. Não morava longe e a noite estava deveras agradável, com céu aberto e estrelas cintilando nas alturas. A cada passo dado, aquela ideia gritava na sua cabeça. “O diabo! O diabo!” Mais alguns metros. “O diabo! O diabo!”. Um quarteirão depois. “O diabo! O diabo!” Na esquina onde ficava o seu prédio. “O DIABO! O DIABO!”

Era isso. Era a solução. Tinha de ser. O tinhoso. O cão. O coxo. O chifrudo. O belzebu. Se havia alguém com poder para fazer o que ele desejava, era ele. Deus também poderia, mas, para o barbudo, a vida é divina e não pode ser tratada com desdém. É, o cara lá de cima não iria ajudar. O negócio mesmo era recorrer para o lá de baixo.
Naquela noite, ele não conseguiu dormir. Ébrio da bebida, pensou o tempo todo em como viabilizar seu encontro com o demo. Analisando o calendário que ficava na cômoda ao lado da cama, concluiu que a segunda noite da próxima lua cheia, ou seja, a quinta-feira seguinte, dia 12, seria perfeita. Chegou a cogitar a sexta-feira 13, mas disse para si mesmo que seria muito óbvio e Lúcifer era um rebelde, um revolucionário, um cara que enfrentou o sistema e que não deveria gostar de clichês.

Passou os dias que faltavam para o grande encontro muito nervoso. A ansiedade o tomava por completo e passou a beber xícaras e xícaras de café. Buscou informações na internet sobre como fazer para se encontrar com o príncipe das trevas e fechar um acordo com ele. Encontrou algumas coisas interessantes, mas achou tudo uma grande baboseira escrita por guris de apartamento criados a Toddy e viciados em RPG. Decidiu que iria fazer do seu jeito.

Era quinta-feira e faltavam cinco minutos para a meia noite. Não fazia frio, mas também não fazia calor. A temperatura amena combinada com uma serração leve e a luz desfocada dos postes criava um clima perfeito. Ele não levava nada às mãos. Não iria acender vela, fazer oferenda, tocar tambor. Nada. À meia noite em ponto, despiu de sua calça de moleton cinza e de sua cueca samba-canção lilás. Tirou o casaco e a camiseta que vestia por baixo. Estava nu.

No cruzamento há duas quadras de seu apartamento, à meia noite de uma quinta-feira, ele estava nu, de braços abertos tal qual o Cristo Redentor, de olhos fechados e com a cabeça baixa. Ele fazia algum tipo de oração, um pedido com fé. Ele pedia para que o todo poderoso senhor do inferno aparecesse e lhe desse uma graça, lhe concedendo um pedido. Uma garoa começou a cair e, de súbito, um raio espocou à sua frente. A luz intensa o cegou por alguns instantes mesmo ele estando com os olhos fechados no momento da explosão. Quando seus olhos começaram a enxergar novamente, ele percebeu um vulto à sua frente. Um vulto com curvas. Um vulto com curvas voluptuosas. Um vulto com uma longa cauda movendo-se para lá e para cá. A nitidez do que ele via foi aumentando e então, quando conseguiu ver perfeitamente o que estava ali, diante de si, achou que algo havia dado errado.

Uma mulher, vestida com um macacão vermelho de couro reluzente, colado ao corpo luxurioso, com um rabo sacolejante, dois pequenos chifres sobre a cabeça, a mão direita segurando firme um tridente e a esquerda junto à cintura. Um sorriso insinuante no rosto lindo e um cheiro de perfume barato que tomava conta do ar. Em suma, era o retrato da lascívia e do desejo. Com chifres e cauda.

Ele esfregou os olhos como quem acorda de um sono profundo e conferiu, mais uma vez, aquele ser postado há dois metros de si. Tão logo percebeu que estava nu diante de uma mulher, cobriu com as mãos suas vergonhas.

- “Que... quem é você?”, perguntou. 

- “Como assim ‘quem é você’? Foi você que me chamou. Não estou aqui porque gosto desta cidade horrorosa. Fale logo de uma vez, o que você quer de mim?”

- “Não pode ser, deve ter havido algum engano. Eu invoquei Satanás, eu exigi a presença do próprio Diabo, e não de uma assistente ou ‘diabete’ ou o que quer que você seja.”

- “Em primeiro lugar, querido, insetos não exigem nada, imploram. Em segundo lugar, ‘diabete’ é a grandessíssima puta que o pariu. E, em terceiro lugar, eu sou aquela a quem você queria ver e, portanto, fale de uma vez o que deseja, pois tenho muitas coisas mais divertidas para fazer do que ficar aqui embaixo dessa chuva, nesse fim de mundo, olhando para essa sua cara feia.”

- “Mas você é mulher! Ou, pelo menos, parece ser.”

- “Sim, sou mulher, e daí? Quem é que disse que quem manda lá embaixo tinha de ser homem? Sou mulher, gostosa, linda, poderosa e sadomasô. Sou a rainha das trevas, a maioral do submundo, a manda-chuva do inferno. Qual o problema?”

- “Nenhum problema não, senhora, mas... bom, ... hã,... se o Diabo é mulher, Deus também é?”

- “Não, chéri, ele é um traveco.”

- “Traveco!! Como assim, um traveco?”

- “Um traveco, bebê. Uma mulher com pica, gogó e bunda sem celulite. E não vem me dizer que não sabe como é, pois, assim como a tia lá de cima, eu também sou onipresente e me lembro muito bem do Carnaval de 2007, em Camboriu, o senhor bebaço, quatro e meia da manhã, atrás do posto de gasolina.”

- "Hmm... err... mas todo mundo te chama de Lúcifer! E você é mulher!”

- "Ahhh... essa história é antiga, mon petit. Isso remonta a um réveillon lá no céu. Eu era uma anjinha rebelde, que adorava dançar. A festa estava ótima, a bebida estava, literalmente, divina, eu me empolguei e rebolei loucamente, como se não houvesse amanhã. Pessoal parou pra me olhar. Foi demais! A Banda de Harpas parou de tocar também, ficaram embasbacados. Eu fui até o chão, linda, leve e louca.”

- “E o que isso tem a ver com o nome Lúcifer? Qual o seu nome de verdade?”

- “Pois então. Depois disso, a galera me deu um apelido. Como o meu nome é Lúcia, começaram a me chamar de Lucinha Cintura Feroz. Daí para contraírem o apelido e transformarem em Lúcifer foi um pulo.”

- “Puxa vida, que coisa. Mas, me conta, como é que saíste do céu e foste parar no inferno?”

- “Ahh, mas que cara chato do caralho. Tá bom, essa é última que eu respondo. Eu andei jogando charme pro Gabriel, o bofe da chefia. Sempre quis saber se havia nele algo mais do que aqueles cachinhos louros e olhos azuis. Ele resistiu por um tempo, mas eu manjo do negócio. Acabou que eu peguei ele, a biba mor descobriu, deu um piti e me chutou de lá. Acabei indo parar onde parei. No final das contas, apesar do Gabi ser meio fraco, não ter pegada, eu acabei no lucro. Lá embaixo é muito mais legal. Satisfeito?”

- “Sim, sim, muito.”

- “Tá, seguinte, o que você quer, afinal? Já perdi muito tempo aqui. Vamos, fala de uma vez.”

- “Sim, sim, ok. É que eu queria tirar umas férias da minha vida, sabe? Basicamente, deixar de existir por alguns meses, uns três, mais ou menos. Seria, tipo, morrer, só que por pouco tempo. Só pra descansar a cabeça, aliviar a tensão, relaxar de verdade. Entende?”

- “Hmmm, interessante, bem interessante. Confesso que seu pedido é bem original. Nunca fiz nada igual, mas acho que posso dar um jeito. Bom, você sabe como funciona comigo né?”

- “Sim, sei. Vou ter de te vender a minha alma né? Sem problemas. É sua, pode pegar.”

- “Nã-na-ni-na-não. Esse negócio de alma a minha assessoria espalhou na imprensa pra manter uma aura mística na coisa. Comigo é diferente. Sou mais hot, se é que me entendes.”

- “Tudo bem, pra mim tanto faz. O que eu vou ter de te dar, então?”

- “O cu.”

- “O quê??!!”

- “Vais ter de me dar o cu, ora.”

- “Como assim?”

- “É um fetiche que eu tenho. Usar um cinto desses com uma pica de borracha e mandar ver. E aí, vâmo ou não vâmo? Você que decide.”

- “Caramba, por essa eu não esperava...”

- “Decide de uma vez porque eu não tenho todo o tempo do mundo. Quem controla o tempo é ela lá de cima.”

- “Seria tão mais fácil se desfazer da alma. Mas, se desfazer das pregas é complicado... que coisa... bom, acho que é um sacrifício que vai valer a pena.”

- “Negócio fechado, então?”

- “Negócio fechado!”

- “Ótimo! Aperta a minha mão aqui e que seja feita a vossa vontade.”

Ela estendeu a mão esquerda e ele fez o mesmo. As mão se uniram e, então, a Capeta puxou com força o braço de sua vítima fazendo com que ele, como em um passo de dança de salão, ficasse, de súbito, de costas para si. Com uma batida rápida do tridente no chão, um cinto com um tremendo de um cacete surgiu ao redor da cintura dela que, na mesma hora, cravou o instrumento no orifício anal do homem que, só teve tempo de arregalar os olhos e dar um uivo que varreu a escuridão da noite. Uma lágrima escorreu solitária na sua face alva.

Para a frustração dele, toda a história do acordo era mentira. Ele não ganhou as férias da vida e ficou por mais de mês sem poder sentar direito. A tristeza tomou conta dos seus dias e a prostração, do seu corpo. Deixou de comer, não saiu mais do apartamento. Abandonou os amigos e a família. A bebida lhe corroeu a carne. Definhou. Ao fim dos três meses que havia pedido de férias vitais e que passou sozinho entre quatro paredes, estava caído no chão da sala. A vida, enfim, lhe daria o descanso que tanto queria. Por um instante, lembrou do encontrou que selou seus últimos dias, pensou em como era bonita, a danada, e expirou. Segundo relatos, até hoje, pelas bandas daquele bairro, ainda se ouve aquele uivo desesperado nas noites de lua cheia.

Ao fim das contas, a emenda acabou saindo pior do que o soneto. A solução rápida e fugaz, o esquecimento, a substituição simples, nenhum deu resultado. No fundo, bem lá no fundo, ele sabia que não devia confiar no diabo. Ou na diaba. Ainda mais em uma diaba chamada Lucinha Cintura Feroz.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Jornada





JORNADA


Ele olhou nos olhos dela.
E disse.

“Quero ser brisa. Com você. Quero ser brisa com você.”

Juntos, fizeram-se aragem.
Sopraram forte, nas madrugadas.
Correram suaves, pelas manhãs.
Juntos.
Foram vento de primavera.

Raio.
Fúria.
Clarão.
Rugiu o trovão.
Já eram tempestade.

Fortes. Quentes.
Caíram vivos sobre a terra.

Escorreram. Fluíram.
Brotaram verdes em uma tarde de domingo.

“Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Consegue lembrar?”, ela perguntou.

Cresceram.
Eram caule. Eram folha. Eram ramo.
Eram flor, ao amanhecer.

Primeiro, vermelha. Depois, amarela. E lilás. E rosa.
E todas as cores.
Juntos.

E viram o cinza lá nas nuvens.
E misturaram-se com os pingos de chuva.
Fizeram-se água.
Percorreram trilhas e canais. Seguiram.

Eram rio.

“Eu sinto”, ele respondeu.

Cruzaram terras distantes.
Semearam vida em campos secos.
Saciaram os que tinham sede.

Renasceram.
Já eram pássaro.

E dominaram os céus.
Riscaram o azul.
Amanhecer nos lagos do Norte.
Anoitecer nos mares do Sul.

Donos do mundo.
Tomaram o tempo para si.
Não havia mais tempo.
Tudo era para sempre.
O instante. O momento. O agora. O antes. O depois.
Tudo era para sempre.

“Eu vou te amar até enquanto eu respirar”, ela falou.

E subiram. Subiram. Subiram. Subiram.
Romperam as barreiras.
Eram estrela.

E brilharam. Brilharam. Brilharam. Brilharam.
Iluminaram a noite escura.
Guiaram os espíritos perdidos.
Velaram o sono dos poetas.

Aproximaram-se.
Uniram-se ainda mais.
Eram luz.

Percorreram as galáxias.
Velozes. Indômitos.
Fizeram do universo o seu quintal.
Alcançaram o infinito.

“Eu vou ser o ar que tu respiras”, ele disse.

Voltaram ao início.
Estavam em casa.
Olhos nos olhos.
Caíram sobre a pele.

Eram lágrima.

Retrato sobre a mesa.
Toque das mãos.
Abraço apertado.

Gota final.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Era uma vez, no verão de 1969

Ela (foto by Vernom Merritt III - Life)

Eu me apaixonei por ela. Por Deus, como ela é bela. Eu me apaixonei por tudo nela. Apaixonei-me por seu jeito de andar despreocupado, leve. Eu me apaixonei pelo seu vestir, sua minissaia lilás que deixa seus joelhos e parte das suas coxas à mostra, sua blusa branca rendada, suas sandálias de guria brejeira, os óculos escuros no alto da cabeça. Eu me apaixonei por sua mão direita às costas carregando uma bolsa e por sua mão esquerda pendente levando um jornal. O que será que ela gosta de ler? Será a seção de moda? Ou a de esportes? Ou seria o noticiário internacional? Ahh... como eu gostaria de saber. Ela tem cabelos lisos castanhos. Não são cabelos muito longos, nem muito curtos. Eles estão logo abaixo dos ombros e balançam a cada passo que ela dá. E ela caminha. Todos olham para ela. Ela sabe que todos estão olhando. Ela gosta disso. Ela faz das ruas a sua passarela. E ela desfila. Ela é como uma deusa entre os mortais. Eu a vejo assim, pelo menos. Mas eu estou apaixonado. E o olhar de um apaixonado é sempre mais colorido, mais doce. Deem esse desconto, portanto.

Twiggy
Ela recém saiu de um café, onde folheara o periódico e olhara o vai e vem das pessoas lá fora. Acho que é o seu dia de folga no trabalho. Ela acordou cedo, tomou um banho morno, quase frio, vestiu-se e saiu. Ela mora em um apartamento modesto. Um quarto, sala, cozinha e banheiro. Tudo naquele apartamento é ela. Aquele apartamento é único em toda a metrópole. Que bom gosto na decoração, com toques retrô e, ao mesmo tempo, super contemporâneo. No café, ela folheou o jornal e leu as notícias da guerra. Ela não gosta da guerra. Ela não gosta nem um pouco. Ela tomou o seu café, pagou a conta e saiu andando. (o atendente cochichou para o colega que nunca vira uma mulher tão bonita por aquelas bandas).

Ela sente o sol banhar seu corpo e fica feliz por ter escolhido a minissaia lilás. É um bom dia para bronzear as pernas. Ela passa por um muro e vê um cartaz, anunciando um grande festival de música e arte que irá acontecer no próximo mês no Estado. “Parece que vai ser legal”, ela diz para si mesma. Ela segue caminhando e chega ao parque. Como ela gosta daquele parque. Ela percorre algumas trilhas e senta em um banco. Olha as pessoas passarem e os pombos comendo migalhas de pão que um senhorzinho com um chapéu na cabeça e um saco de papel na mão jogou. Olha um menino correndo atrás de sua irmã. Eles estavam brincando. Ela também brincou assim naquele parque quando era criança. Ela se levanta e segue seu passeio. O dia continua perfeito.

The who
Ela para em uma livraria e dá uma olhada nas novidades. Nada muito interessante. Pensou em ir ao cinema, mas desistiu. Um filme sobre uns motociclistas a interessava, mas o dia estava muito bonito ali fora para se gastar duas horas dentro de uma sala escura. Na rua, ela ouviu as pessoas conversando. O assunto era quase sempre o mesmo. Diziam que, nos próximos dias, um foguete iria levar o homem à lua. Algumas pessoas achavam aquilo o máximo e outras duvidavam. Ela acreditava que iria acontecer, mas não achava nada demais.

Ela gosta de ouvir The Who. Ela gosta de Walt Whitman e de Emily Dickinson. Ela não gosta muito da Twiggy, pois acha ela magra demais. Ela gosta de sorvete de baunilha e do Marvin GayeEla gosta de ir aos jogos do New York Nicks no Madison Square Garden.

Dois rapazes, estudantes, eu acho, deram uma bela olhada quando ela passou. Um deles chegou a falar uma gracinha difícil de compreender. Ela passou e nem olhou para o lado. Apenas deu um sorriso discreto. Seguiu altiva. Cabeça erguida e cabelos balançando. Ela enxerga uma amiga ao longe, mas atravessa a rua e entra na primeira transversal. Ela não queria conversar naquela tarde. Fazia muito calor e aquele era um dia para ver, não para falar. E ela olhava tudo. Olhos bem abertos. E ela viu gente e viu coisas. E viu um cachorrinho perdido e um papagaio em uma gaiola na janela do terceiro andar de um prédio bem antigo. E viu uma plantinha verde brotando em uma rachadura na calçada. E viu um jovem casal tendo uma discussão e um velho casal de mãos dadas cruzando a avenida. Ela gostou disso.

As horas passaram bem rápido naquele dia. Ela nem percebeu, mas o tempo correu e correu e, quando deu por si, a tarde se encaminhava para o final. Seus pés já doíam um pouco. Aquela sandália não foi a melhor pedida para quem pretendia apenas caminhar. Um tênis seria melhor. Ela espera se lembrar disso da próxima vez. E, então, ela resolveu voltar para casa. Com a mão direita levando a bolsa às costas e a esquerda pendente, levando o jornal. Assim ela desfilou e a cidade parou para vê-la passar.

New York Knicks
Há 44 anos, ela passeava pelas ruas nova-iorquinas. E eu me apaixonei por ela. Hoje, ela continua jovem na imagem da fotografia. Onde será que ela anda? Como será que ela está? Eu acho que ela ainda se move pelas ruas da cidade. Prefiro pensar assim. E as pessoas ainda olham para ela. Como ela é bela... como eu gostaria de tê-la visto passar perto de mim. Eu acho que a cidade ainda para quando ela está por aí, desfilando. E os lugares por onde ela passa recendem a perfume de jasmim.

As ruas da cidade e ela são um só. Eles se misturam, se completam, se refazem. Ela é a cidade e a cidade é ela. Que bela é aquela moça pela qual eu me apaixonei e que em um dia, no verão nova-iorquino de 1969, flanava, despreocupadamente, pelas ruas da cidade. Acho que ela ainda vai aos jogos do Knicks. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Lilás

Ela estava sentada à minha frente. Sentada à minha frente e de costas para mim. Ela estava sentada à minha frente. Três bancos à frente. Ela tinha cabelos negros como o carvão e brilhantes como um cometa. Ela vestia uma blusa de lã lilás. Eu só podia ver isso. Seus cabelos, seus ombros e uma parte da blusa de lã lilás. Ela olhava para a frente e para o lado esquerdo. Movia a cabeça com leveza para observar o movimento lá fora. Enquanto isso, o ônibus seguia. Éramos ela, eu e mais quatro pessoas. Não prestei atenção neles, mas vi que um usava boné. Passava das oito da noite. Eu levava os fones nos ouvidos, mas não escutava, de fato, música alguma. Não tenho a menor ideia do que tocou naqueles vinte minutos. O ônibus freou bruscamente e ela apoiou o braço esquerdo no banco da frente. Devia ser canhota. Fazia calor. A blusa dela era de mangas compridas. Talvez tivesse saído de casa bem cedo, quando a temperatura era mais baixa. Quando eu entrei no coletivo, ela já estava ali, sentada, sozinha. Eu não olhei pra ela. Acho que minha mochila escorregou do ombro e eu me atrapalhei um pouco para não deixar que ela caísse no chão. Quando dei por mim, estava sentado. Atrás dela. Sentado três bancos atrás dela. O ônibus andou e andou e eu tive de me levantar. Puxei a corda da campainha e fiquei junto à porta. Olhando para aqueles cabelos negros. Ela não prestou atenção em mim. Para falar a verdade, acho que ela nem me viu. Não importa. Coloquei a mochila às costas e aguardei o veículo parar. A porta se abriu. Desci um degrau. Voltei a olhar pra ela. Desembarquei. O ônibus se foi. Acho que nunca mais vou reencontrá-la. Andei. Fazia calor naquela noite.


Eu não vi os seus olhos.


Ela vestia uma blusa lilás. Uma blusa de lã. Lilás.


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Vitória



Aquela era uma cidade pequena, bem pequena, pequena demais. Nela, vivia pouca gente, bem pouca. Todos se conheciam. Todos conheciam o nome de todos, o sobrenome de todos, onde haviam nascido, crescido, estudado, trabalhado e onde moravam. Todos sabiam tudo sobre todos. Todos sabiam quem estava doente e quem estava de namoricos. Todos sabiam quem traia a esposa e quem era a amante. Até as esposas traídas sabiam quem eram as amantes. Todos conheciam o que todos conheciam. Naquela pequena cidade, não existia vida privada, não existia assunto privado, não existia nada privado. Tudo era público. Naquela pequena cidade, todos sabiam que saber tudo sobre todos não era uma exclusividade de ninguém. Todos sabiam tudo sobre todos. Ou, pelo menos, achavam que sabiam.

A vida era boa naquele lugarejo distante. O fato de não haver segredos, deixava as pessoas livres. Elas podiam fazer o que quisessem. Não havia vergonhas a serem escondidas. Ali, naquela pequena cidade, o adágio bíblico se fazia real: a verdade vos libertará.
Não havia problema algum naquele pedaço de fim de mundo. Tudo funcionava de modo perfeito. Uma praça, uma igreja, uma farmácia, um açougue, um mercadinho. Um médico, um dentista, um veterinário. Um barbeiro, um advogado e um carteiro. Não existia criminalidade naquele lugar. Os mais velhos diziam que, uma vez, há muito tempo, ocorrera um furto. Um menino teria pegado uma laranja de uma laranjeira que existia no pátio de uma casa sem pedir para o dono. Mas ninguém estava muito certo disso.

Os jovens pequenos e os não tão pequenos estudavam na escola da cidade. Era uma escola pequena, por óbvio. Os jovens maiores passavam a semana em cidades próximas, cursando suas faculdades ou seus cursos ou coisas do tipo. Eles retornavam nos finais de semana, que passavam junto com suas famílias. Não se tinha notícias de que alguém que tenha nascido naquele lugar não tenha, também, vivido e morrido nele. Ninguém estudava e se formava em uma profissão senão para substituir a quem a ocupava momentaneamente. Ou seja, ninguém se formava em uma profissão pensando em não praticá-la na cidade. E, como é costume em famílias tradicionais, os filhos seguiam a profissão dos pais. Isso era natural e não passava pela cabeça de alguém que vivia naquele povoado uma mudança nesse estado de coisas. Sempre foi assim, sempre funcionou e, portanto, não havia porque mudar. Assim pensavam todos.

Assim pensavam todos até que alguém resolveu pensar diferente.

Desde que nasceu, Vitória foi uma contestadora. Seu pai, o médico da cidade, queria que a perpetuação da tradição familiar fosse garantida por um homem. Não aconteceu. Ele, então, despendeu seus esforços para fazer da filha a sua sucessora no ofício médico. A menina cresceu em um ambiente que mais parecia um longo e constante curso preparatório para o futuro profissional. Seu pai a levava quase que diariamente para o seu consultório. Dava-lhe livros com desenhos do corpo humano, passava lições e fazia com que ela acompanhasse o maior número de consultas que fosse possível. Em casa, a doutrinação seguia com filmes, documentários e séries que abordassem o mundo da medicina. “Um bom médico já nasce médico” e “se reconhece um médico de verdade já na primeira infância, no jeito de segurar o lápis” eram duas das frases que ele dizia com mais frequência.

Vitória nunca gostou muito de lápis ou canetas. Vitória gostava de dançar. A mãe costumava dizer que os primeiros passos da menina foram ao som de Danúbio Azul. A valsa, aliás, sempre foi uma de suas danças prediletas. Gostava da elegância, do ritmo e da imagem que um casal dançando formava. Vitória, porém, dançava de tudo. Não tinha preconceito contra estilos. Bastava que o som lhe tocasse a alma e lá estava a garota movendo as pernas e remexendo o corpo. Não havia hora nem lugar para Vitória dar saltos e giros, balançar cabelos e braços, esquecer do mundo ao seu redor e sentir o som.
A menina espoleta dava trabalho aos pais. Não parava quieta um minuto sequer. Mesmo não demonstrando interesse algum na medicina, o pai nutria uma esperança inquieta de que o espírito de Hipócrates despertasse nela quando fosse a hora certa. Não aconteceu.

Era um domingo pela manhã. A família tomava o café. O pai preparava-se para se levantar após ter concluído o desjejum quando, como quem perde as forças e o controle sobre os músculos do corpo, deixou-se cair sobre a cadeira. Aos 16 anos, quase 17, Vitória disse “vou pra Capital fazer faculdade de dança.” Simples assim. A mãe, calada, fixava o olhar no pai que, impassível, parecia ter entrado em um estado de transe. Não expressava reação alguma. Assim ficou por quase meio minuto. “O que disseste?” perguntou, olhando nos olhos da filha, que comia com indizível prazer um pão de queijo. Ele conjugava os verbos na segunda pessoa do singular com perfeição. Orgulhava-se disso. “Eu vou estudar dança na Capital”, repetiu Vitória. A mãe se levantou e começou a levar talheres, xícaras e pires e pratos para a pia. Não falou nada. O pai ajeitou os óculos, pôs a mão o queixo e disse “tu não estás falando sério, né?” Vitória, com uma gota de surpresa encenada na expressão, retrucou: “claro que estou, ora.” O pai fez o escândalo que se esperava que fizesse diante de tal situação. Bateu na mesa, esbravejou, xingou, sentou ao lado da filha, pôs a mão sobre a cabeça dela, falou palavras de carinho, fez cafuné, levantou e gritou de novo, culpou a mãe, a sogra, os amigos, a escola e a mídia. A menina seguiu comendo. O pai, ainda mais descontrolado, girou nos calcanhares e saiu da cozinha pisando firme, sem não antes apontar o indicador da mão direita para filha e sentenciar um “tu não vais fazer isso! Ouviste? Não vais!”. Vitória deu de ombros e sorveu um belo gole do suco de laranja que bebia. Fazia calor.

Antes do fim da tarde, toda a cidade já sabia que a menina não queria ser médica como haviam sido o pai, o avô e o bisavô, e, sim, dançarina. O padre achou um descalabro moral resultado da pouca fé da juventude. O advogado disse que a escolha não era ilegal, mas que poderia representar jurisprudência para outros jovens e era aí que morava o perigo. O barbeiro disse que estava com os cabelos em pé diante de tal surpresa e o farmacêutico afirmou que tinha uns “remedinhos” que podiam fazer com que a garota retomasse o juízo. O carteiro seguiu entregando as correspondências e espalhando a notícia. A falação aumentou e aumentou. No dia seguinte, não se comentava outra coisa naquela pequena cidade. O assunto de todas as conversas era o mesmo. E assim seguiu por dias e dias e dias e dias e semanas e semanas.

...

Passaram-se três meses em que não houve um dia sequer sem que o pai de Vitória tentasse convencê-la de que a decisão da menina era um erro, de que a Medicina era o seu destino e de que dançar não dava dinheiro pra ninguém. Não adiantou. Não adiantou nem um pouco.

O ano em curso findou-se e o novo ano teve início. Era uma manhã ensolarada quando a filha do médico da cidade cruzou o portão de casa e, carregando duas malas, uma em cada mão, iniciou a breve caminhada até a pequena estação rodoviária do povoado. Ainda dentro de casa, a mãe havia lhe dado um carinhoso beijo na testa e lhe desejado boa sorte. O pai não se despediu. Seguiu lendo o jornal sentado no sofá da sala, como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Sob os olhares curiosos, inquisidores e reprovadores de quase toda a gente que vivia naquele lugar, Vitória caminhava serena e decidida. Passos firmes e olhar tranquilo. Seu vestido balançava no ritmo de seus passos. Não se ouvia uma voz. Alguns cochichos inaudíveis podiam ser percebidos, mas eram poucos. Após alguns minutos, o ônibus chegou e a porta se abriu. A filha do médico deu uma rápida olhadela para trás e encarou seus conterrâneos e vizinhos por alguns instantes. Um sorriso de satisfação e orgulho incontido brotou em sua face e ela subiu os degraus. Sentou-se, recostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos. O ônibus arrancou e partiu. Durante toda a viagem, a garota dormiu. Sem culpa e feliz.

Vitória queria ser dançarina. Não havia problema algum nisso. A saúde dos moradores daquele lugar não ficaria sem atenção. O filho do açougueiro sempre sonhou em ser médico mesmo. Vitória abriu as janelas e deixou o ar entrar. A vida nunca mais foi a mesma naquela pequena cidade. Nunca mais.

sábado, 27 de abril de 2013

Queima, feito clarão, na tempestade


Tempo


Queima,
Feito clarão,
Na tempestade.

Fere
Como ilusão.
Sufoca e arde.

Corre
Com os pés no chão.
Sente saudade.

Grita
Sua paixão
Em liberdade.

Surge
Na escuridão
E, sem alarde,

Toca
Teu coração,
Mas já é tarde.