sexta-feira, 7 de março de 2014

A incrível breve história do homem mesóclise



Era uma bela manhã de verão. Ele acordara refeito após uma excelente noite de sono pesado e revigorante. Espreguiçara-se com parcimônia, tomara um demorado banho com água fria. Que dia fazia lá fora! Sol reinando soberano, algumas poucas nuvens quebrando a monocromia do céu. Vestira-se e saíra para, como fazia em todas as manhãs, comprar pão quentinho na padaria que ficava há duas quadras descendo a rua. Caminhava com alegre satisfação. Cumprimentou os conhecidos, sorriu ao ver os cãezinhos se refestelando no parque, gargalhou após tropeçar em uma lajota que se sobressaía às outras na calçada. Limpou os tênis no tapete da entrada da padaria, meneou a cabeça para a senhora de óculos com grandes aros de acrílico transparente que ficava no caixa logo cedo pela manhã fazendo tricô entre um cliente e outro, deu passos leves em direção ao balcão ao fundo, postou-se em frente a ele e à moça que, atenta, aguardava o seu pedido, e disse:

“A bela senhorita poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

Saiu assim, ao natural, sem cerimônias. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A atendente, que estava no seu segundo dia naquele emprego e não o conhecia, ficou boquiaberta. Não entendera nada daquela profusão de letras e palavras, mas compreendera do que se tratava o pedido e achara aquele homem muito metido com seu palavreado rebuscado. Virou-se e foi pegar os pães, que ainda estavam no forno.

Enquanto isso, do outro lado do balcão, ele estava petrificado. Imóvel. Olhos bem abertos. Estava quase que em estado de choque. O seu cérebro não havia enviado à sua boca aquela ordem. Ou, se havia, o fizera por sua livre e espontânea vontade.  Ele não sabia o que pensar. De onde viera aquilo? Não tinha a menor ideia. Ele nem gostava de usar palavras ou construções frasais difíceis e costumava chamar de pedante quem fazia isso. Agora, assim, do nada, sem nenhuma necessidade, no balcão da padaria, vestindo bermuda e camiseta regata, ele fizera uso de uma mesóclise. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A partir daquela manhã, daquele dia, a sua vida virou um inferno. Ele já não conseguia falar uma frase sequer sem usar uma mesóclise. Não conseguia se conter. Era mais forte do que ele. Era uma força superior, incontrolável, selvagem.

Para a esposa, após uma noite de luxurioso amor. “Se, em um dia desses, eu sumisse, tu procurar-me-ia até me encontrar?”

A um transeunte que procurava uma rua nas redondezas. “Ajudá-lo-ia com prazer, mas, infelizmente, não sei onde fica essa rua.”

Para a filha, após ela fazer uma travessura. “Se tu fizeres isso de novo, eu zangar-me-ei muito, ouviste?”

No fórum, testemunhando em um caso de acidente de trânsito, após lhe perguntarem se diria a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. “Di-la-ei.”

Ao recusar uma proposta de trabalho. “Eu sei que no futuro arrepender-me-ei disso, mas não posso aceitar o emprego neste momento.”

Nem ele se aguentava mais. Passados três meses, após ser convencido pela família e amigos de que aquilo deveria ter algum tipo de tratamento, procurou um médico.

“Doutor, é muito constrangedor, já não tenho mais saído de casa, pedi licença no trabalho, ninguém consegue ficar mais de um minuto conversando comigo. Colocar-me-ei à disposição do senhor, faça os testes que quiser. Já tentei simpatia, pai de santo, sessão espírita. Nada adiantou. O senhor é a minha última esperança, doutor. O senhor ajudar-me-ia a dar fim a essa maldição que me tomou e da qual eu não consigo me ver livre?”

O médico confessou que nunca vira ou tivera ouvido falar daquilo antes. Algum tipo de síndrome que fazia com que um homem usasse a todo o momento uma forma verbal que não se usa na linguagem oral. Um caso sério e intrigante, sem dúvida. O doutor disse que iria pesquisar a respeito e o dispensou garantindo que entraria em contato quando tivesse descoberto algo. Na ficha que estava em sua mesa, no espaço reservado para o tipo de doença que acometia o paciente, ele escreveu com letras ininteligíveis: “O Incrível Caso do Homem Mesóclise.”

Seis meses se passaram. Ele abandonara o trabalho. Outros seis meses se foram. Desistira de toda e qualquer relação social. Outros seis meses. A família o deixara.

Ele não tinha mais nada. Não tinha mais ninguém. Somente tinha um vocabulário rico em variedade de conjugações verbais, mas isso não o deixava feliz.

Sofria. Ele sofria muito, e sofria calado, o que é bem pior. Sofre em dobro aquele que sofre calado. Ele sofria calado, e sofria sozinho. Muito. Sofria muito. Calado e sozinho. Era assim que ele sofria.

Durante todo um ano, viveu se mantendo com as economias de uma vida inteira. Até que elas acabaram. Teve de deixar a sua casa, pois não podia mais pagar as prestações. Pegou suas poucas coisas que haviam restado, basicamente roupas e livros, e saiu. A rua passou a ser o seu lar. Um lar hostil, mas, ainda assim, um lar.

Perambulou por entre os becos. Dormiu sob viadutos e pontes. Agasalhou-se com caixas de papelão. Comeu restos nas calçadas. Foi esquecido por todos que, em algum dia do passado, disseram que o amavam. Perdeu-se no mundo.

Esperou até seus últimos dias pelo chamado do médico que nunca ocorreu. Morreu sonhando em se ver curado da sua maldição. Ainda hoje, espalhados pelos muros da cidade, estão seus escritos de lamento. Testemunhos de sua existência.

“Procurar-me-ia?

Não importa.

Encontrar-te-ei!”


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.




Não foi nada fácil para ele admitir que estava apaixonado. Ainda mais por ela. Aquele era um momento de sua vida em que apaixonar-se já não estava em seu horizonte. Ainda mais por ela. Depois de um casamento que acabou, ele havia dito para si mesmo que iria dar um tempo nos relacionamentos. Ele era muito jovem quando decidiu que queria viver o resto da sua vida ao lado daquela mulher. Antes dos trinta, bem antes, já estava divorciado. O casamento não havia dado errado. Eles foram muito felizes enquanto se amaram.  E se amaram bastante, mas acabou. Acabou o amor e o casamento também. O fim foi uma consequência, não houve brigas, e os dois mantinham uma relação de amizade. Ele, porém, decidiu que não iria se envolver daquela forma tão cedo. Não queria namorar e sequer manter um envolvimento casual, sem compromissos, com uma mesma pessoa. Ele queria curtir a sua solteirice. Não curtir como um adolescente com os hormônios em polvorosa. Apenas curtir, poder fazer somente aquilo que tinha vontade de fazer. Mas, aí, ela surgiu na sua vida e todo o planejamento desabou feito um castelo de cartas.

Um parêntese

A essa altura, ele já havia se dado conta de que o homem é a parte mais frágil da relação. Sempre se sentira orbitando ao redor da mulher. Elas eram mais perspicazes, mais espertas, mais intuitivas, mais decididas. Elas eram mais corajosas, mais atentas. Ele sempre se sentira como um coadjuvante em suas próprias histórias de amor.

Fecha parêntese

Ela era mais jovem do que ele. Bem mais jovem. Quase 10 anos mais jovem. E era muito bonita. Tinha uma beleza incomum, com traços marcantes, rosto anguloso e olhar intenso e inquisidor.

E como era extrovertida e falante aquela menina. Puxa vida, era mesmo. E isso era outra coisa que o deixava encantado. Ela era o oposto dele. Despojada, dona de si.

Ele era mais introvertido. Mais para si do que para os outros. Mas não confunda isso com egoísmo. Ele não era egoísta. Não mais do que qualquer um de nós é. Ele era, simplesmente, mais para si do que para os outros.

Foi quando ela sorriu para ele na mesinha do café e lhe disse um “tudo bem?” que ele percebeu que estava apaixonado. Ao mesmo tempo em que se sentiu vivo novamente, ele soube que aquilo iria bagunçar tudo o que já havia colocado no lugar após o fim do casamento. Ele se sentia calmo, tranquilo.  Saía para beber com os amigos, deixava a tampa da privada levantada, jogava videogame até tarde, vestia-se com qualquer roupa com a qual se sentisse bem. Agora acontecia isso. Logo agora que as coisas estavam se ajeitando. Precisava ela ser tão bonitinha? Precisava? Precisava ter ela aquele jeitinho todo delicado e aquele olhar tão decidido?

Seus dias de navegação em serenos mares haviam acabado. Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.

E por uma dessas coisas difíceis de explicar, e que somente uma mulher é capaz de conseguir, ali, naquele exato momento, na mesinha do café, na tarde calorenta de verão, ela soube que ele estava caidinho por ela. Ela soube de cara. A danada era bem esperta. Ele nem desconfiou.

Os dias posteriores ao encontro casual na mesinha do café foram terrivelmente angustiantes para ele e incrivelmente divertidos para ela. Enquanto ele procurava ao máximo evitar qualquer tipo de contato (um cruzar de olhares o deixava maluco), ela fazia questão de provocar. Levantava-se da cadeira e caminhava por entre as mesas com mais frequência, dava tchauzinhos para ele quando se viam olhando um para o outro à distância, aumentava o tom de voz durante as conversas para que ele a ouvisse.

Ele estava prestes a enlouquecer. Só conseguia pensar nela. O tempo todo. O dia inteiro. Ele sabia que seria assim. Desde o “tudo bem?” na mesinha do café ele sabia que seria assim. Sempre que ele se apaixona é assim. Exatamente por isso ele não queria se apaixonar. Mas aconteceu. Agora ele precisava lidar com a situação. E ele não tinha a menor de ideia de como fazer isso. Mas era preciso.

Focar no trabalho. Precisava encontrar mais atividades durante o tempo em que permaneciam no mesmo ambiente. Tentou, mas não conseguiu. Seu trabalho era mais intelectual do que braçal. Era mais pensar do que fazer. E ele só pensava nela.

Pedir férias. Ficar longe dela, longe de tudo que pudesse o fazer lembrar-se dela. Um lugar ermo. Sozinho. Ele e a natureza. O canto dos pássaros, o correr das águas do riacho, o farfalhar das folhas nas árvores. Que maravilha! Pena que o pedido foi negado de pronto. Fazia seis meses que estava naquele emprego. Não tinha direito a férias, portanto.

Era preciso encarar os fatos. Ele não tinha para onde correr. Estava apaixonado. Ela era sua colega de trabalho. Viam-se, ao menos, cinco dias por semana. Não tinha como evitá-la, a não ser que pedisse demissão, mas ele precisava daquele emprego. Estava em um beco sem saída.

Aquilo tudo passou a afetar seu desempenho no trabalho. Produzia cada vez menos e com qualidade inferior, tinha menos ideias e a maioria delas eram péssimas. Estava mais distraído, não conseguia se concentrar em nada. A cabeça sempre nas nuvens. Ia trabalhar com olheiras enormes de noites em claro ao som de jazz e saboreando uísques baratos. Ele estava acabado, feito um trapo velho encardido usado para limpar o balcão de um boteco de beira de estrada.

Passados quatro meses, ele percebeu que as coisas não poderiam continuar como estavam. Ele precisava agir. Precisava reagir. Precisava, como dizia a sua falecida avó, “tomar jeito de homem.” Ele nunca soube muito bem o que aquela expressão significava ao certo, mas, naquela noite, mais uma sem cerrar os olhos, ele conseguiu entender as palavras de dona Antônia.

Depois de tanto buscar, de tanto procurar. Depois de tanto querer, de tanto sofrer. Depois de tanto pensar, depois das noites sem dormir. Depois de tudo isso, ele encontrou a solução. Ela estava ali. Diante dos seus olhos. Ele que não percebera. Mas nunca é tarde. Nunca é tarde. E ele sabia disso. Ele sempre soube que aquela era a única solução, a única resposta.

Entregar-se.

Essa era a única solução. Essa era a única resposta.

Ele soube naquela madrugada silenciosa que precisava sentir aquilo, aceitar aquele sentimento. Não havia outro caminho sem dor.

Precisava falar com ela. Precisava se expor, dizer a ela tudo o que sentia e que tinha passado nos últimos meses.

Mas ela era tão madura, tão segura de si.

Não importa. “Tome jeito de homem!”

Ao chegar ao trabalho no dia seguinte, antes mesmo de bater o cartão, ele se dirigiu à mesa dela. Passos confiantes. Cabeça erguida, postura militar. Expressão de conquista no rosto. Discurso decorado e um sentimento de libertação nunca dantes sentido.

A mesa estava vazia. Ela não estava lá. Ele olhou ao redor e não a viu. Olhou de novo para a mesa e notou que não havia nada do que costumava ver ali. Não viu os post-its colados no monitor do computador, não viu a caneca de porcelana, não viu as flores que sempre coloriam, viçosas, aquele ambiente. Nada estava ali. Aquela já não era a mesa dela.

A essa altura, o nervosismo já o dominava. O que será que havia ocorrido? Por que ela não estava ali? Por que as coisas dela não estavam ali? Por quê?

Tentando disfarçar seu estado de nervos, perguntou a um outro colega se ele havia visto a menina da mesa vazia. “Ahh, ela? Pediu demissão. Não sei bem a razão, mas ela andava meio triste nos últimos dias, parecia decepcionada com algo, ou cansada de esperar algo, uma coisa assim. Por quê?” “Por nada não, nada não. Só curiosidade.”

Assim, com raiva de si mesmo por ter demorado tanto para tomar uma atitude, ele caminhou com passos arrastados até a sua escrivaninha. Sentou-se deixando o corpo desabar sobre a cadeira. Ele estava exausto, mas sentia-se leve. Havia tirado um peso de suas costas. Não iria mais vê-la todos os dias. Ela não iria mais provocá-lo. Em alguns poucos dias, já não sonharia mais com ela. Teria tranquilas noites de sono. Iria render mais no trabalho. Tudo iria melhorar. Havia acabado. Sua provação havia acabado. As coisas iriam voltar à normalidade. Na verdade, ela nem era tão bonita assim, nem era tão simpática e inteligente, nem era tão atraente, pensou.Tudo iria melhorar.

Deu um suspiro longo, esboçou um sorriso amarelo no rosto e olhou para a tela do computador. Era hora de começar a trabalhar. Ali, colado no monitor, estava um daqueles post-its amarelinhos. Ele estranhou, ajeitou os óculos e leu, palavra por palavra:

“TE ESPERO ÀS 20H, NO BARZINHO DA ESQUINA. BJS, LINDINHO.”

Seu corpo amoleceu, seu coração disparou, suas mãos tremeram, e uma expressão de êxtase lhe tomou a face. O grito que lhe trancava a garganta explodiu e sua voz pôde ser ouvida em todo o universo.

“SIM!!!!!!!!!!!”

Ela o queria. Ele a queria. Estava apaixonado. Nunca se sentira tão bem na vida.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Na pequena livraria do bairro, fizeram amor pela última vez


Era véspera do aniversário dele quando um médico o chamou para uma conversa particular importante. Foi bem assim que ele disse. “Tenho de ter uma conversa particular importante com o senhor.” Devia ser algum tipo de chefe de equipe, aquele médico. Tinha cabelos grisalhos, quase brancos, e barba bem aparada. Devia beirar os 70 anos, mas estava bem conservado. Gestos firmes, passos de soldado. Voz tonitruante.
Fazia cinco dias que ela estava internada naquele hospital. A esposa sentira fortes dores de cabeça no domingo pela manhã e, à tarde, após os analgésicos não funcionarem, ele resolveu levá-la ao centro médico.
Ele não achava que era algo sério. Sua mulher costumava se queixar de enxaquecas, mas nunca sentira uma dor como aquela do domingo pela manhã. O médico disse para ele se sentar. Ele não gostou daquilo. Imaginou que seria uma conversa longa. E aquela não seria uma conversa qualquer. Era uma conversa particular importante.
Sentou-se. O médico também o fez.

Ele tinha 21 anos quando a conheceu. Foi em uma livraria, dessas acanhadas, de bairro. Ele era amigo do dono e costumava passar por ali uma vez por semana para saber das novidades e conversar um pouco. Ele gostava daquele velho livreiro. Um homem digno, não restavam dúvidas. Um resistente. Mantinha com afinco aquele negócio apesar da concorrência das grandes redes e das vendas pela internet. Não tinha pretensões de riqueza ou de faturar muito com a venda de livros. Mas gostava daquilo. Fazia aquilo há quase 50 anos, sempre no mesmo lugar. Era um homem culto e um grande leitor. Isso fazia dele o melhor livreiro da cidade. Pelos menos quem o conhecia achava isso. Ele estava olhando algumas obras que o livreiro havia separado para ele ver. Estava sentado em um baú antigo de carvalho que estava encostado na parede e que servia para guardar os livros reservados. Foi quando ela adentrou na loja e passou na sua frente.

O médico tinha um semblante sério. Difícil saber se ele estava realmente triste e preocupado ou se era a cara teatral que fazia sempre que tinha de dar uma notícia ruim para um paciente ou parente de paciente. Devia ser um pouco das duas coisas, provavelmente. Sabedor de que prolongar a conversa com palavras consoladoras e solidárias não faria com que a notícia fosse recebida com menos dor, ele foi direto ao assunto, como costumava fazer sempre que uma situação como aquela se repetia.

“Ela tem um tumor no cérebro.”

Ele não ouviu mais nada do que o velho médico disse depois disso. Ele não ouviu o médico dizer que era um tumor grande, maligno, localizado em um local impossível de ser operado e que os procedimentos médicos existentes e conhecidos não poderiam fazer nada para evitar o seu desenvolvimento, muito menos fazer com que ele regredisse. Ele não ouviu nada isso. Ele só ouviu o “ela tem um tumor no cérebro”. O médico explicou mais algumas coisas, o consolou com dois rápidos tapinhas no ombro esquerdo, se levantou, ajeitou o jaleco e foi embora. Devia ter mais notícias ruins para dar. Ou notícias boas. Tanto faz. “Ela tem um tumor no cérebro.” Ele ouviu apenas isso.

Ela passou à sua frente na livraria. Ele só viu uma pequena parte de suas pernas, seus tornozelos e seus pés. Ele estava passando os olhos pelas páginas de um livro. Era Sartre. Ela passou, com suas sandálias frescas, seus tornozelos finos e suas canelas alvas. E seu perfume. Era um perfume vivo, de flores do campo. Ele quase podia tocar aquelas pétalas. Levantou a cabeça e olhou para ela. Estava de costas, remexendo em uma estante. Cabelos negros. Blusinha preta de alças e uma saia que batia pouco abaixo dos joelhos. Ela virou a cabeça, de repente, e notou que ele a observava. Ela pareceu não se importar muito, mas tinha gostado daquele sujeito. Não sabia a razão, mas tinha gostado dele. Ele se sentiu envergonhado. Voltou a olhar para o livro de Sartre. Sua cabeça, porém, já não estava nas páginas. Enquanto ela estivesse por perto, nunca mais iria estar. De longe, o velho livreiro percebia tudo.

Caberia a ele informar a ela sobre o que causara a dor de cabeça. O médico disse que poderia fazer isso, mas ele achou melhor negar a “ajuda” profissional. Essa não iria ser uma hora de profissionais. Ele ficou por alguns vários minutos sentado naquele sofá. Talvez horas. Ele ficou tentando achar o jeito certo de contar aquilo. Desistiu. Não havia um jeito certo. Teria de ser do seu jeito. Certo ou errado, teria de ser do seu jeito. Levantou-se e saiu. Resolveu dar uma volta. Espairecer. O dia estava realmente lindo lá fora. Era a terceira semana da primavera. Ele foi ao parque. Precisava ver gente. Precisa descansar um pouco. Deitou-se sob a sombra de um ipê, entrelaçou os dedos embaixo da cabeça e, olhando para o azul do céu, misturado com o lilás das flores e o branco das nuvens, refez os passos da sua vida, desde aquele dia na pequena livraria do bairro, até o momento em que o médico lhe disse o que ela tinha. Havia sido tudo tão belo. Os olhares foram belos. Os abraços foram belos. Os beijos foram belos. Eles tiveram belíssimas discussões. O modo como ela arrumava a gravata dele era belo. A maneira como ele fechava o zíper do vestido dela era bela. Ele não estava triste pela doença. As pessoas adoecem, é normal. Ele estava triste com o sentimento que lhe tomava por inteiro e lhe dizia que aqueles momentos tão únicos, tão mágicos, poderiam não se repetir novamente. Ele estava triste. Levantou-se e iniciou a caminhada de volta ao hospital. Era preciso falar com ela.

Ela pediu ajuda para ele. Não conseguia encontrar um livro específico. Ele ficou um pouco desconcertado, meio sem saber como agir, se atrapalhou, deixou cair o Sartre no chão. Ergueu-se e encarou-a. Nossa, ela era linda. Ela falou algumas coisas que ele não prestou muita atenção. Seus olhos eram verdes feito as águas do Caribe. Ele ajeitou os óculos e a ouviu falar em Hermann Hesse. “Sim, Hermann Hesse!”, ele disse, abruptamente. Ele sabia exatamente onde estavam os livros de Hermann Hesse. Como não iria saber? Era Hermann Hesse, e, por alguns anos, no período logo depois da faculdade, quando ele estava desempregado, aquela livraria de bairro era a sua segunda casa. Na verdade, ele se sentia mais à vontade ali do que no apartamento que dividia com outros dois jovens estudantes. Sabia tudo sobre aquela livraria. Onde estavam os livros, quais os preços, se tinha edições específicas de algumas obras. Indicou com a mão a direção a ser tomada e pediu para ela o acompanhar. Faziam, ali, o seu primeiro passeio juntos.

Na porta, do lado de fora, pouco antes de entrar no quarto do hospital, ele respirou fundo e pensou brevemente e pela última vez em como falar aquilo. Ele não queria aparentar muita tristeza, pois isso não faria bem a ela. Mas ele estava triste, muito triste, e sabia que sua expressão o iria denunciar, de uma forma ou de outra. Passou as mãos no rosto, deu um suspiro, e entrou. Ela estava deitada de lado, olhando complacentemente para a janela, que estava aberta e mostrava um céu ainda claro de fim de tarde primaveril. Ele entrou devagar, em silêncio e a admirou por alguns segundos. Ela estava muito bonita. Os últimos raios de sol do dia riscavam o seu rosto e faziam seus cabelos cintilarem. Era uma pintura. Ele nunca mais esqueceria aquela imagem. Aproximou-se e sentou ao pé da cama. Ela se virou, olhou para ele, e sorriu. Ela costumava sorrir muito. Era uma otimista. Sempre procurava ver o lado bom das coisas. Sempre. Ele perguntou como ela estava, como se sentia. Ela disse que a dor de cabeça tinha passado com o efeito dos medicamentos. E disse para ele nunca mais deixá-la sozinha naquele quarto. E disse ainda que os médicos não tinham conversado com ela sobre a causa da forte dor de cabeça e que achava que não deveria ser nada demais, apenas mais uma crise de enxaqueca, só que mais intensa desta vez. Ele ficou em silêncio. Apenas ouvindo-a. Ele adorava ouvi-la. Saber como havia sido o dia dela, seus feitos, suas conquistas, seus problemas. Somente ouvi-la. Sem pressa. Sempre preferiu ouvir a falar. Ela era o seu equilíbrio. Sempre preferiu ouvir a falar.

Ir àquela pequena livraria se tornou um hábito na vida deles. Foi ali que tudo começou. Iam todas as semanas. Na maior parte das vezes nada compravam. Mas folheavam muito, tocavam muito, conversavam muito. Conheciam muito dos autores e muito de si mesmos. Foi ali que se encontraram pela segunda vez. Ela estava sentada no chão, lendo, com as costas escoradas na estante. Foi ali que deram o primeiro beijo. Foi ali que ele a pediu em casamento. Foi ali que tudo começou. Foi ali que tudo cresceu.

Ele se aproximou dela, sentou-se mais perto. Tomou-lhe as mãos entre as suas e lhe deu um beijo na testa. Ela deixou escapar uma lágrima do olho direito. Ele aparou a gota com o dedo. Ela sabia que ele não tinha boas notícias para dar. Ela o conhecia bem. Ele sabia que ela já havia percebido tudo. Ele a conhecia bem. Adormeceram. Lá fora, a chuva caía quente.

Era bem cedo pela manhã quando ele a acordou. Era madrugada, na verdade. A lua brilhante deixava a noite clara. Saíram em silêncio pelo corredor. Passo após passo. Cruzaram o saguão e ganharam a rua. Seguiram caminhando. Cruzaram o parque. Pularam sobre as poças d’água. Correram de mãos dadas. Pararam em frente à pequena livraria do bairro. A porta estava aberta, pois ele havia acordado no meio da noite e feito um telefonema para o velho livreiro, pedindo um favor. Entraram em silêncio. Transformaram aquilo em um ritual. Percorreram os corredores. Tocaram. Cheiraram. Sentiram. Fizeram amor pela última vez. O sol aparecia tímido quando eles fechavam a porta da pequena livraria. A vida havia valido a pena. A história havia sido escrita. Ponto final.

sábado, 7 de dezembro de 2013


Tarde de inverno em uma cidade ao Sul

Brisa leve.
Chuva fina.
Tarde de inverno
Em uma cidade ao Sul.

Beijo doce
De menina.
Pedaço de pano
Pintado de azul.

Nuvem cinza
Lá em cima.
Sorriso tímido.
Aperto de mão.

Olhos fechados.
Passo de dança.
Gota que cai.
Poça no chão.

Rua vazia.
Música ao longe.
Resto de vida.
Terra e pó.

Abraço apertado.
Aceno distante.
Lágrima fria.

E só.

sábado, 9 de novembro de 2013

Era um domingo


Ela é sempre a mesma, mas, a cada novo dia em que acorda, ela é outra.

Outro dia pela manhã cedo, ela abriu os olhos, deu um longo e silencioso bocejo, ergueu-se da cama, ficou em pé e se viu uma palhaça, dessas de circo. Saiu fazendo estripulias e assim permaneceu durante todo o dia. Espirrou água no rosto de amigos, deu cambalhotas no corredor da escola e, sempre que pôde, falou com voz alta e estridente “hey, amiguinhos!!”. Ela estava impossível.

Noutra ocasião, acordou e era uma bailarina. Passou a manhã, a tarde e a noite dando saltos e giros, rodopios e rebuscados passos de dança. Foi dormir com os pés doendo e a cabeça nas nuvens.

Houve uma vez em que era uma atriz. Foi um dia difícil aquele. Uma hora era um drama só. Em seguida, ela ria, falava bobagens, caminhava engraçado, era pura comédia. Disso para um suspense de tirar o fôlego, era um pulo.  

Era sempre assim. A cada amanhecer, uma nova pessoa se mostrava para ela no espelho.

Teve um dia, em especial, em que ela levantou, ainda de pijama, calçou as pantufas, tomou um demorado banho, penteou os cabelos, trocou de roupa, arrumou a mochila colorida, passou na cozinha, pegou algumas coisas de comer, encheu seu cantil com água, abriu a porta e saiu.

Ela era uma andarilha. Uma desbravadora. Uma caminhante. Sem direção e sem propósitos. Somente andar. Era um domingo.

Não deixou nenhum recado. Não avisou ninguém. Não disse a que horas voltava.

Era dona de si mesma. Tinha o tempo em suas mãos. Tinha o mundo aos seus pés.

Ela tinha os cabelos amarrados às costas em um rabo de cavalo que chacoalhava de um lado para o outro, acompanhando os seus passos despreocupados.

Ela conversou com muitas pessoas. Queria ouvir as histórias da gente da rua, mendigos, ambulantes, catadores, prostitutas, beberrões, vagabundos que passavam o dia zanzando sem ter o que fazer.

Conheceu um músico no Centro da cidade. Era um rapaz jovem, com barba espessa e negra, olhos faiscantes e cabelo ondulado e comprido, logo abaixo dos ombros. Ela o ouviu tocar e cantar. Era uma música que ela não conhecia, mas gostou muito. Ela não lhe deu dinheiro, mas lhe deu atenção, a qual ele retribuiu com entusiasmo, afinal, uma boa conversa vale mais do que alguns trocados. Falaram sobre a canção, sobre a rua, sobre as pessoas ao redor, sobre sentimentos e sobre mais algumas trivialidades. Deram risadas juntos. Sorriram um para o outro. Ela se apaixonou. Mas sabia que não podia se apaixonar. Sabia que, no dia seguinte, não seria mais essa garota que se apaixonou pelo jovem cantador das ruas. Lutou contra si e contra sua paixão repentina. Foi uma luta árdua. Aquela que se apaixonara era pura emoção, puro instinto. Mas era preciso resistir. Amanhã, muito provavelmente ele não teria nenhum interesse por aquele rapaz. Ela sabia disso. Suas variações de personalidade eram muito bruscas. Não podia arriscar.

Foi com uma lágrima correndo no rosto que ela se despediu com um abraço e seguiu sua jornada do dia.

Andou por onde nunca antes houvera andado. Espantou-se com quanta coisa nova havia para ver. Quanta coisa nova. Era um velho mundo novo, uma cidade que sempre esteve ao alcance de suas mãos, mas que ela nunca tocara.

Tantos prédios, tantas árvores, tantas ruas, tanto céu, tanta gente, tanta vida.

Na praça, senhores de cabelos brancos disputavam acirradas partidas de damas e dominó. Ela admirava quem dava a si mesmo um belo tempo de um ensolarado dia como aquele para se divertir em uma partida sem objetivo algum a não ser a distração gratuita e leve.

Homens carregavam sacos de algum grão nas costas no porto. Ela nunca havia parado para prestar atenção neles. Não sabia que trabalhavam aos domingos. Eles suavam sob o sol forte. O rosto vincado pelo esforço. As costas arqueadas pelo cansaço.

Seguiu.

Seus pés doíam um pouco. Não havia escolhido os tênis mais confortáveis para a caminhada. Paciência.

Entrou em um bar. Pediu um café. “Bem forte!” Sorveu enquanto olhava uma mulher sentada em uma mesa no canto. Ela parecia exausta, aquela mulher. Carregava uma mochila batida e uma criança. A criança estava em silêncio, mas parecia ter chorado muito há pouco tempo. A mãe também parecia ter chorado recentemente. As duas dividiam uma fatia de pão tostado com manteiga. Permaneceu por algum tempo observando a mulher e a criança. Tentou imaginar o que ocorrera com elas, porque haviam chorado, para onde iriam. Imaginou algumas coisas e pensou em ir perguntar às duas. Desistiu. A imaginação, na maior parte das vezes, é mais digerível do que a realidade. Ela levantou e saiu, sem não antes deixar pago dois copos de café com leite e duas torradas reforçadas. Havia feito a sua boa ação do dia.

Saiu caminhando a esmo. Não tinha pressa. A vida não tinha pressa. Seguia serena.

Deu de comer aos pombos no largo, sentiu os cheiros das bancas do mercado.

Passou pela rua dos sebos. Cruzou a ponte de pedra. Andou e andou. Chegou ao parque.
Sentou-se na grama à sombra de um Ipê. Bebeu água, soltou os cabelos e deitou-se. Ficou ali. Depois, contando a amigos por onde andara, não soube precisar por quanto tempo, mas ficou ali até principiar o anoitecer. Estava feliz como nunca havia estado.

Não viu o sol se pôr no lago, mas viu casais jovens trocando carícias ao saírem das aulas na faculdade.

Levantou-se, pegou sua mochila, olhou ao redor e tomou o caminho de casa.

Era uma noite linda aquela. Tudo era lindo naquela noite. O céu estava lindo, brilhante. O ar estava lindo, leve. As ruas estavam lindas, movimentadas, cheias de gente, vivas.  

Ela estava linda.

Seguiu atenta. Olhava tudo. Estava elétrica, mas, ao mesmo tempo, sentia-se serena de um modo único. Passos, quadras, ruas, avenidas, bairros, pessoas. Pessoas novas, pessoas velhas, pessoas alegres, pessoas nem tão alegres. Pessoas.

Já estava bem perto de casa, podia ver a movimentação de amigos e parentes no pátio da frente. Todos preocupados com ela. Não tiveram notícia alguma durante todo o dia. Ela achou aquilo engraçado. Nunca deram muita bola para ela e, agora, pareciam formigas que tiveram seu formigueiro pisoteado por um garoto. Sorriu para si mesma e, ao mesmo tempo, imaginou toda a chateação que viria a seguir, perguntas, reprimendas, falação... enfim, sabia que não seria bom, mas sabia também que era inevitável. Tinha de voltar para casa. Amanhã, iria achar tudo isso que fez durante esse dia uma grande loucura sem sentido. Caminhou um pouco mais e, agora, já podia ouvir as vozes. Era isso. Havia chegado a hora de dar fim àquela jornada.

Deu três passos.

Parou.

De súbito, parou.

Como um relâmpago em noite de tempestade, um pensamento cruzou a sua mente.

Sim!

Era isso!

Estava tudo tão claro.

Largou a mochila no chão, girou nos calcanhares, deu meia volta e saiu correndo com uma determinação de um campeão olímpico.

Correu e correu e correu. Ela tinha pressa. Precisava correr. E mais rápido, mais rápido, mais rápido. O tempo corria ao seu lado. Os dois disputavam, um contra o outro. Ela não podia se dar ao luxo de se sentir cansada. Não podia parar, nem por um segundo. Ela corria. Tinha de chegar. Tinha de conseguir. Era preciso.

As pessoas olhavam para ela e não entendiam. Por que aquela menina corria tanto? Para onde ela ia? Qual o motivo da pressa?

Ônibus passavam ao seu lado, ela chegou a pensar, mas não podia, não naquele dia. Aquele dia era das ruas. Seguiu correndo. Os olhos bem abertos. Como um guepardo atrás de sua presa. Corria.

Pensamentos, imagens surgiam frente aos seus olhos. Tudo o que havia visto durante o dia. Pensou na mãe com a criança, nos trabalhadores no cais, no casalzinho do parque.

Corria. Estava perto. Torcia para que não fosse tarde demais. Não haveria de ser tarde demais. Tinha de conseguir.

Correu e correu e correu e correu ainda mais. Faltavam metros. Dobrou a esquina.

Encontrou o músico recolhendo seu banquinho e se preparando para ir embora. Parou em frente dele. Finalmente havia parado de correr. Arfava. Ele estava curvado, olhando para o chão. Em um primeiro momento, não a viu. Só percebeu sua presença ao sentir sua respiração ofegante e forte. Ergueu-se e ficou surpreso ao vê-la. Realmente não esperava por isso. Achava que nunca mais iria encontrá-la. Aquela era uma cidade grande.

Olhou para ela e disse um “olha só quem cruza, mais uma vez, o meu caminho! A que devo a honra?”

Ela sorriu. Ela sorriu e chorou. Ao mesmo tempo.

Sem pestanejar nem um momento sequer, deu um salto e pendurou-se no pescoço dele. Estava esfuziante. Sentia-se em outra dimensão. Uma coisa cósmica, sei lá, não sei explicar bem. Nem ela sabe.

Sem compreender direito o que se passava, mas sabendo exatamente o significado de tudo aquilo, restou a ele abraçá-la também. E ele o fez com força.

Estavam juntos. Eram um só, unidos, em uma rua no Centro da cidade.

Ela escolheu viver essa paixão.

Amanhã?...

Bom, amanhã, seria outro dia. Quem sabe, ela não seria uma artista de rua também. Quem sabe, não seria uma criança? Ou um sopro de vento? Quem sabe?

Saíram caminhando. Para onde, não sei. O braço esquerdo dele enlaçava a cintura dela e o braço direito dela, a dele.

O banquinho ficou lá. No meio da rua. Eles levavam consigo tudo o que precisavam para aquela noite.

Amanhã?

Que o amanhã venha fresco, novo. Que seja só mais um dia mágico. Isso basta. Para ela.

domingo, 13 de outubro de 2013

Lucinha Cintura Feroz

Ele queria morrer. Mas não para sempre. Simplesmente tirar umas férias da vida. Só por alguns meses. Ele estava cansado. Ele não sabia muito bem do que estava cansado, mas sabia que estava cansado. Muito cansado. Era um cansaço físico, mas também era um cansaço mental e também era um cansaço de espírito. Era cada um desses e era tudo ao mesmo tempo. Era uma massa disforme e indefinida. Não havia, portanto, como descansar de um cansaço desses, assim, meio líquido. Ele precisava de férias.

Começou a pensar, então, em como viabilizar seu desejo. Ele não queria férias do trabalho, então não adiantava procurar seu chefe. Não queria férias da faculdade, então de nada valia pedir uma licença do curso. Ele não queria férias de sua família, portanto, viajar pra longe não era uma opção. Ele queria férias da vida.

Ele próprio não sabia como operacionalizar o descanso. Passou dias e dias pensando na questão e, ainda assim, não chegara nem perto de encontrar uma solução ou uma pista que fosse. Resolveu procurar os amigos, afinal de contas, eles sempre foram excelentes em dar ideias e sugestões estapafúrdias e ele acreditava que a resposta para o seu problema não deveria ser muito óbvia.

Sentados em uma mesa de bar, os quatro, um em cada lado, tentavam descobrir um meio de fazer com que ele obtivesse o que tanto queria. A primeira hora foi gasta com ele tentando explicar o que significava aquilo que buscava. Não adiantou muito. Um dos companheiros de mesa sugeriu um retiro espiritual, algo meio ao estilo budista. “Dizem que os budistas, quando fazem aquelas orações tântricas deles, ficam bem fora da casinha.” A sugestão foi descartada de pronto. “Cara, pelo que eu entendi, o único jeito é entrar em coma”, disse um dos colegas. A ideia não era de toda má, mas envolvia um alto grau de risco e acabou sendo abandonada também. A conversa continuou com os amigos tentando entender porque ele desejava aquilo. “Tás com algum problema de saúde?”. “É dinheiro, tá sem grana?”. “Mulher, só pode ter mulher envolvida”. E assim prosseguiram os palpites e questionamentos. Eles não passavam nem perto. Era difícil explicar uma coisa como aquela. Ele já imaginava de antemão que pouca gente ou ninguém entenderia. Mas, não custava nada tentar.

A madrugada principiava, os garçons começavam a recolher as coisas, indicando que o bar estava prestes a fechar. Todos se levantaram e iam se encaminhando em direção ao balcão do caixa quando, ainda sentado, um dos confrades, o que não tinha dito nenhuma palavra a noite toda e passou bebendo uísque com gelo de modo insaciável, ergueu a voz e disse como quem tivera a solução na ponta da língua todo o tempo. “O diabo.” Todos se viraram e ele repetiu com um ar professoral. “Faz um pacto com o diabo. É o único jeito. Ele é o cara pra te quebrar esse galho.” Os amigos em pé riram e seguiram até o caixa. Ele riu também, mas aquilo ficou na sua cabeça.

Resolveu ir para casa caminhando. Não morava longe e a noite estava deveras agradável, com céu aberto e estrelas cintilando nas alturas. A cada passo dado, aquela ideia gritava na sua cabeça. “O diabo! O diabo!” Mais alguns metros. “O diabo! O diabo!”. Um quarteirão depois. “O diabo! O diabo!” Na esquina onde ficava o seu prédio. “O DIABO! O DIABO!”

Era isso. Era a solução. Tinha de ser. O tinhoso. O cão. O coxo. O chifrudo. O belzebu. Se havia alguém com poder para fazer o que ele desejava, era ele. Deus também poderia, mas, para o barbudo, a vida é divina e não pode ser tratada com desdém. É, o cara lá de cima não iria ajudar. O negócio mesmo era recorrer para o lá de baixo.
Naquela noite, ele não conseguiu dormir. Ébrio da bebida, pensou o tempo todo em como viabilizar seu encontro com o demo. Analisando o calendário que ficava na cômoda ao lado da cama, concluiu que a segunda noite da próxima lua cheia, ou seja, a quinta-feira seguinte, dia 12, seria perfeita. Chegou a cogitar a sexta-feira 13, mas disse para si mesmo que seria muito óbvio e Lúcifer era um rebelde, um revolucionário, um cara que enfrentou o sistema e que não deveria gostar de clichês.

Passou os dias que faltavam para o grande encontro muito nervoso. A ansiedade o tomava por completo e passou a beber xícaras e xícaras de café. Buscou informações na internet sobre como fazer para se encontrar com o príncipe das trevas e fechar um acordo com ele. Encontrou algumas coisas interessantes, mas achou tudo uma grande baboseira escrita por guris de apartamento criados a Toddy e viciados em RPG. Decidiu que iria fazer do seu jeito.

Era quinta-feira e faltavam cinco minutos para a meia noite. Não fazia frio, mas também não fazia calor. A temperatura amena combinada com uma serração leve e a luz desfocada dos postes criava um clima perfeito. Ele não levava nada às mãos. Não iria acender vela, fazer oferenda, tocar tambor. Nada. À meia noite em ponto, despiu de sua calça de moleton cinza e de sua cueca samba-canção lilás. Tirou o casaco e a camiseta que vestia por baixo. Estava nu.

No cruzamento há duas quadras de seu apartamento, à meia noite de uma quinta-feira, ele estava nu, de braços abertos tal qual o Cristo Redentor, de olhos fechados e com a cabeça baixa. Ele fazia algum tipo de oração, um pedido com fé. Ele pedia para que o todo poderoso senhor do inferno aparecesse e lhe desse uma graça, lhe concedendo um pedido. Uma garoa começou a cair e, de súbito, um raio espocou à sua frente. A luz intensa o cegou por alguns instantes mesmo ele estando com os olhos fechados no momento da explosão. Quando seus olhos começaram a enxergar novamente, ele percebeu um vulto à sua frente. Um vulto com curvas. Um vulto com curvas voluptuosas. Um vulto com uma longa cauda movendo-se para lá e para cá. A nitidez do que ele via foi aumentando e então, quando conseguiu ver perfeitamente o que estava ali, diante de si, achou que algo havia dado errado.

Uma mulher, vestida com um macacão vermelho de couro reluzente, colado ao corpo luxurioso, com um rabo sacolejante, dois pequenos chifres sobre a cabeça, a mão direita segurando firme um tridente e a esquerda junto à cintura. Um sorriso insinuante no rosto lindo e um cheiro de perfume barato que tomava conta do ar. Em suma, era o retrato da lascívia e do desejo. Com chifres e cauda.

Ele esfregou os olhos como quem acorda de um sono profundo e conferiu, mais uma vez, aquele ser postado há dois metros de si. Tão logo percebeu que estava nu diante de uma mulher, cobriu com as mãos suas vergonhas.

- “Que... quem é você?”, perguntou. 

- “Como assim ‘quem é você’? Foi você que me chamou. Não estou aqui porque gosto desta cidade horrorosa. Fale logo de uma vez, o que você quer de mim?”

- “Não pode ser, deve ter havido algum engano. Eu invoquei Satanás, eu exigi a presença do próprio Diabo, e não de uma assistente ou ‘diabete’ ou o que quer que você seja.”

- “Em primeiro lugar, querido, insetos não exigem nada, imploram. Em segundo lugar, ‘diabete’ é a grandessíssima puta que o pariu. E, em terceiro lugar, eu sou aquela a quem você queria ver e, portanto, fale de uma vez o que deseja, pois tenho muitas coisas mais divertidas para fazer do que ficar aqui embaixo dessa chuva, nesse fim de mundo, olhando para essa sua cara feia.”

- “Mas você é mulher! Ou, pelo menos, parece ser.”

- “Sim, sou mulher, e daí? Quem é que disse que quem manda lá embaixo tinha de ser homem? Sou mulher, gostosa, linda, poderosa e sadomasô. Sou a rainha das trevas, a maioral do submundo, a manda-chuva do inferno. Qual o problema?”

- “Nenhum problema não, senhora, mas... bom, ... hã,... se o Diabo é mulher, Deus também é?”

- “Não, chéri, ele é um traveco.”

- “Traveco!! Como assim, um traveco?”

- “Um traveco, bebê. Uma mulher com pica, gogó e bunda sem celulite. E não vem me dizer que não sabe como é, pois, assim como a tia lá de cima, eu também sou onipresente e me lembro muito bem do Carnaval de 2007, em Camboriu, o senhor bebaço, quatro e meia da manhã, atrás do posto de gasolina.”

- "Hmm... err... mas todo mundo te chama de Lúcifer! E você é mulher!”

- "Ahhh... essa história é antiga, mon petit. Isso remonta a um réveillon lá no céu. Eu era uma anjinha rebelde, que adorava dançar. A festa estava ótima, a bebida estava, literalmente, divina, eu me empolguei e rebolei loucamente, como se não houvesse amanhã. Pessoal parou pra me olhar. Foi demais! A Banda de Harpas parou de tocar também, ficaram embasbacados. Eu fui até o chão, linda, leve e louca.”

- “E o que isso tem a ver com o nome Lúcifer? Qual o seu nome de verdade?”

- “Pois então. Depois disso, a galera me deu um apelido. Como o meu nome é Lúcia, começaram a me chamar de Lucinha Cintura Feroz. Daí para contraírem o apelido e transformarem em Lúcifer foi um pulo.”

- “Puxa vida, que coisa. Mas, me conta, como é que saíste do céu e foste parar no inferno?”

- “Ahh, mas que cara chato do caralho. Tá bom, essa é última que eu respondo. Eu andei jogando charme pro Gabriel, o bofe da chefia. Sempre quis saber se havia nele algo mais do que aqueles cachinhos louros e olhos azuis. Ele resistiu por um tempo, mas eu manjo do negócio. Acabou que eu peguei ele, a biba mor descobriu, deu um piti e me chutou de lá. Acabei indo parar onde parei. No final das contas, apesar do Gabi ser meio fraco, não ter pegada, eu acabei no lucro. Lá embaixo é muito mais legal. Satisfeito?”

- “Sim, sim, muito.”

- “Tá, seguinte, o que você quer, afinal? Já perdi muito tempo aqui. Vamos, fala de uma vez.”

- “Sim, sim, ok. É que eu queria tirar umas férias da minha vida, sabe? Basicamente, deixar de existir por alguns meses, uns três, mais ou menos. Seria, tipo, morrer, só que por pouco tempo. Só pra descansar a cabeça, aliviar a tensão, relaxar de verdade. Entende?”

- “Hmmm, interessante, bem interessante. Confesso que seu pedido é bem original. Nunca fiz nada igual, mas acho que posso dar um jeito. Bom, você sabe como funciona comigo né?”

- “Sim, sei. Vou ter de te vender a minha alma né? Sem problemas. É sua, pode pegar.”

- “Nã-na-ni-na-não. Esse negócio de alma a minha assessoria espalhou na imprensa pra manter uma aura mística na coisa. Comigo é diferente. Sou mais hot, se é que me entendes.”

- “Tudo bem, pra mim tanto faz. O que eu vou ter de te dar, então?”

- “O cu.”

- “O quê??!!”

- “Vais ter de me dar o cu, ora.”

- “Como assim?”

- “É um fetiche que eu tenho. Usar um cinto desses com uma pica de borracha e mandar ver. E aí, vâmo ou não vâmo? Você que decide.”

- “Caramba, por essa eu não esperava...”

- “Decide de uma vez porque eu não tenho todo o tempo do mundo. Quem controla o tempo é ela lá de cima.”

- “Seria tão mais fácil se desfazer da alma. Mas, se desfazer das pregas é complicado... que coisa... bom, acho que é um sacrifício que vai valer a pena.”

- “Negócio fechado, então?”

- “Negócio fechado!”

- “Ótimo! Aperta a minha mão aqui e que seja feita a vossa vontade.”

Ela estendeu a mão esquerda e ele fez o mesmo. As mão se uniram e, então, a Capeta puxou com força o braço de sua vítima fazendo com que ele, como em um passo de dança de salão, ficasse, de súbito, de costas para si. Com uma batida rápida do tridente no chão, um cinto com um tremendo de um cacete surgiu ao redor da cintura dela que, na mesma hora, cravou o instrumento no orifício anal do homem que, só teve tempo de arregalar os olhos e dar um uivo que varreu a escuridão da noite. Uma lágrima escorreu solitária na sua face alva.

Para a frustração dele, toda a história do acordo era mentira. Ele não ganhou as férias da vida e ficou por mais de mês sem poder sentar direito. A tristeza tomou conta dos seus dias e a prostração, do seu corpo. Deixou de comer, não saiu mais do apartamento. Abandonou os amigos e a família. A bebida lhe corroeu a carne. Definhou. Ao fim dos três meses que havia pedido de férias vitais e que passou sozinho entre quatro paredes, estava caído no chão da sala. A vida, enfim, lhe daria o descanso que tanto queria. Por um instante, lembrou do encontrou que selou seus últimos dias, pensou em como era bonita, a danada, e expirou. Segundo relatos, até hoje, pelas bandas daquele bairro, ainda se ouve aquele uivo desesperado nas noites de lua cheia.

Ao fim das contas, a emenda acabou saindo pior do que o soneto. A solução rápida e fugaz, o esquecimento, a substituição simples, nenhum deu resultado. No fundo, bem lá no fundo, ele sabia que não devia confiar no diabo. Ou na diaba. Ainda mais em uma diaba chamada Lucinha Cintura Feroz.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Jornada





JORNADA


Ele olhou nos olhos dela.
E disse.

“Quero ser brisa. Com você. Quero ser brisa com você.”

Juntos, fizeram-se aragem.
Sopraram forte, nas madrugadas.
Correram suaves, pelas manhãs.
Juntos.
Foram vento de primavera.

Raio.
Fúria.
Clarão.
Rugiu o trovão.
Já eram tempestade.

Fortes. Quentes.
Caíram vivos sobre a terra.

Escorreram. Fluíram.
Brotaram verdes em uma tarde de domingo.

“Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Consegue lembrar?”, ela perguntou.

Cresceram.
Eram caule. Eram folha. Eram ramo.
Eram flor, ao amanhecer.

Primeiro, vermelha. Depois, amarela. E lilás. E rosa.
E todas as cores.
Juntos.

E viram o cinza lá nas nuvens.
E misturaram-se com os pingos de chuva.
Fizeram-se água.
Percorreram trilhas e canais. Seguiram.

Eram rio.

“Eu sinto”, ele respondeu.

Cruzaram terras distantes.
Semearam vida em campos secos.
Saciaram os que tinham sede.

Renasceram.
Já eram pássaro.

E dominaram os céus.
Riscaram o azul.
Amanhecer nos lagos do Norte.
Anoitecer nos mares do Sul.

Donos do mundo.
Tomaram o tempo para si.
Não havia mais tempo.
Tudo era para sempre.
O instante. O momento. O agora. O antes. O depois.
Tudo era para sempre.

“Eu vou te amar até enquanto eu respirar”, ela falou.

E subiram. Subiram. Subiram. Subiram.
Romperam as barreiras.
Eram estrela.

E brilharam. Brilharam. Brilharam. Brilharam.
Iluminaram a noite escura.
Guiaram os espíritos perdidos.
Velaram o sono dos poetas.

Aproximaram-se.
Uniram-se ainda mais.
Eram luz.

Percorreram as galáxias.
Velozes. Indômitos.
Fizeram do universo o seu quintal.
Alcançaram o infinito.

“Eu vou ser o ar que tu respiras”, ele disse.

Voltaram ao início.
Estavam em casa.
Olhos nos olhos.
Caíram sobre a pele.

Eram lágrima.

Retrato sobre a mesa.
Toque das mãos.
Abraço apertado.

Gota final.