quinta-feira, 10 de julho de 2014


Escrevinhador

Eu me perdi entre palavras.
Fugi do mundo que não fiz.
Corri sem rumo por estradas.
Sonhei memórias infantis.

Pintei olhares e sorrisos.
Risquei, no branco, ideias cruas.
Trilhei caminhos imprecisos.
Toque das mãos - minhas e suas.

Relatos de morte e de vida.
De perda, de dor, de paixão.
Lembrança no tempo esquecida.
 Obra da imaginação.

Eu me escondi por entre a gente.
Eu me tornei quem nunca fui.
Fora de quadro, um dissidente.
Marca que o tempo não diminui.

Eu escrevi o que pensei.
Voei pra bem longe daqui.
Cresci em terras que inventei.
Criei histórias que vivi.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Festa


Quando seu telefone celular vibrou indicando que uma mensagem havia chegado, ele já imaginou do que se tratava. “Festa hoje. Meia noite lá. Ela vai também.” Ele já esperava aquela mensagem. De algum modo, porém, torcia para que ela não chegasse. Torcia para que o telefone não vibrasse naquele fim de tarde. Mas ele vibrou. Havia dado a sua palavra de que, desta vez, iria acompanhar os amigos. Precisava honrá-la. (bobagem, bobagem...)

Terminou de assistir ao filme que via na TV (na verdade, vira muito pouco, pois dormira durante a maior parte do tempo depois de mais uma madrugada em claro), e foi à cozinha comer algo. Suco de laranja e alguns biscoitos. Ligou o som, Stones nas alturas, e foi tomar um banho. Abriu o roupeiro e começou a escolher o que iria vestir. Não se demorou muito, apesar de ser razoavelmente vaidoso. Calças jeans escuro, camisa aberta sobre uma camiseta e tênis. Penteou-se, gotas de perfume, carteira, celular. Uma última olhada no espelho... hmm... ok, tudo certo.

Luzes desligadas, porta trancada, portão chaveado.

Ainda era cedo. O clima estava agradável, temperatura amena. O céu estrelado e a lua cheia brilhante faziam daquela uma noite bem clara. Ele resolveu caminhar um pouco. Não havia razão para parar o primeiro táxi ou a primeira lotação que passasse. As ruas estavam bem movimentadas. Era uma sexta-feira.

Enquanto caminhava, pensou em muitas coisas. Precisava mesmo fazer aquilo? Não estavam lhe obrigando. Ele não tinha uma faca no pescoço. Por que estava indo, então? Ok, ele gostava dela. Esse era um motivo. Esse era o motivo. Era um bom motivo, sem dúvida. O melhor motivo possível, talvez. Leu, mais uma vez, a mensagem no celular. “Ela vai também.” Ganhou confiança. Sorriu. “Ela vai estar lá”, disse para si mesmo. “Ela vai estar lá”

Fez sinal. Embarcou em um ônibus. Estava vazio. Sentou-se em um banco junto à janela, bem no meio do coletivo. Pôs os fones nos ouvidos e recostou a cabeça no vidro. A viagem seria longa.

Não a conhecia há muito tempo. Alguns poucos meses, apenas. Não estava apaixonado. Sabia o efeito de uma paixão na sua vida. Não era o caso agora. Ainda não. Mas ele gostava dela. Gostava muito. A festa era uma oportunidade de encontrá-la em um ambiente mais descontraído, mais relaxado. Seria, até aquele momento, a melhor oportunidade que ele teria para uma aproximação. Mas ele não gostava muito de festas. Costumava ir com frequência quando mais jovem. Mas, agora, não gostava muito. Não tinha paciência para esperar em grandes filas do lado de fora, para entrar, nem do lado de dentro, para pagar ou pedir uma cerveja. Além disso, nunca se dava bem com as garotas. Sua maior virtude em todo o processo, do flerte até o beijo, sempre fora a conversa. Era esperto, respondia rápido, tinha boa cultura geral, acabava fazendo o papo fluir. Mas, lá dentro, no meio da festa, seu superpoder era neutralizado. Música alta demais era a sua kriptonita. Também tinha os amigos tirando a atenção, mas isso era secundário. O som estourando nos alto-falantes é que dificultava muito a coisa toda.

Mas ela iria estar lá. Isso mudava um pouco a situação. E mudava porque ele já a conhecia.  Não precisaria mostrar para ela que era um cara bacana. Uma parte importante do caminho já havia sido percorrida, portanto. Por um momento, tentou projetar em sua cabeça todo o cenário que vivenciaria a seguir. Viu as luzes, viu o globo espelhado girando sobre a sua cabeça. Havia muita gente. Todo o tipo de gente. O dj balançava os braços e fazia uma dança bem estranha, movimentando o quadril sinuosamente.  Um rapaz jazia, solitário, em um sofá de dois lugares que ficava em um canto. Havia se passado na bebida, aquele rapaz. Encostadas em uma das paredes, duas meninas se beijavam fervorosamente.  Bem no meio da pista, estava ela. Nossa, como estava linda. Seus cabelos negros dançavam, iluminados pelas luzes coloridas que cruzavam de um lado para o outro. Ela sorria um sorriso livre, verdadeiro. Seu vestido girava. As mãos para o alto. Um salto! Seus pés no ar, suspensos. Era como se ela pudesse voar. A partir daí, todo o resto deixou de existir. Já não via mais o rapaz no sofá, não via as meninas na parede, tampouco o dj dançarino. Ela brilhava em meio ao caos. Era uma deusa entre mortais.

O ônibus passou sobre um buraco, sacolejou, ele bateu a cabeça na janela, e voltou a si. Tirou os óculos, esfregou os olhos. Conferiu o horário no telefone. Não estava atrasado. O que era bem bom, pois costumava se atrasar com frequência a qualquer tipo de compromisso acertado.

Repassou na memória a última festa a que tinha ido. Era em uma casa conhecida na cidade. Ele já havia estado lá algumas vezes, na época da faculdade. Passou quase toda a noite avulso. Encontrou companhia na cerveja. Gastou muito naquela festa. Bebeu além da conta. Foi embora antes de todos os conhecidos, controlando-se para não vomitar a cada passo que dava na rua semideserta. No dia seguinte, passou a maior parte do tempo atirado em qualquer lugar da casa. Seu corpo cobrava o preço do excesso.

Desta vez, seria diferente.

“Ela vai também.”

Já havia cruzado a cidade. Sentia uma mistura de ansiedade e nervosismo. Não distinguia o som que tocava em seus ouvidos. Tamborilava os dedos no encosto de cabeça do banco da frente. Só tinha de esperar o tempo passar, as rodas girarem, o asfalto ficar para trás.

Luzes do lado de fora ofuscaram a sua visão. Levantou de sobressalto. Puxou a cordinha sinalizando que desejava desembarcar na próxima parada. O ônibus freou bruscamente. As portas se abriram e, em um pulo, ele já estava na rua. Dois, três passos. Parou. Olhou para os lados. Tirou do bolso o mapa que havia desenhado de forma tosca em um pequeno pedaço de papel. Procurou a luz de um poste logo à frente. Franziu a testa. Havia algo errado. Não era ali. Ele descera do coletivo no susto e acabara errando o ponto de desembarque. Teve de caminhar.

Seguiu solenemente pelas ruas movimentadas daquela região da cidade que ele não conhecia bem. Era uma visita ao desconhecido.  Uma área com um comércio agitado durante o dia e outro, da mesma forma, à noite. As vitrines eram as esquinas. Peças expostas ao toque, sem proteção, sem vidraças, sem cortinas de ferro. Um comércio popular. Sem restrições de circulação e público. Cheiros e cores. Corpos e silhuetas. Desejos latentes. Seguiu. Passou por alguns bares. Lugares pequenos. Cheirando a cigarro barato. Cerveja quente nas mesas. Homens de meia idade gastando o tempo livre após o expediente nas fábricas falando bobagem e jogando sinuca a cinquenta centavos a ficha.

Mais alguns minutos de caminhada, e ele avistou à frente as luzes da fachada do seu local de destino.

“Ela vai também.”

Parou ao lado de um carro estacionado. Conferiu o penteado no vidro escurecido. Nada mal. Respirou fundo. Estava confiante. Havia de ser desta vez. Chegando próximo à entrada do lugar, percebeu que não havia filas. Achou que era um bom sinal. Algumas meninas conversavam e fumavam descontraidamente junto à porta, mas não pareciam estar esperando para entrar. Empertigou o corpo, meneou a cabeça para o segurança da entrada, pegou a comanda que levava o seu nome, e entrou.

Percorreu sozinho um estreito e silencioso corredor escuro que cheirava a incenso barato. Logo à frente, vislumbrou uma porta. Lentamente, foi em direção a ela. Com a mão direita espalmada, empurrou-a.

Ali estava ele. Ao seu redor, pessoas se moviam sem pudores. O som, como previsto, fazia seus ouvidos zunirem. Caminhou até o centro da pista de dança. Olhou para os lados. Havia bastante gente ali naquela noite de sexta-feira. Levou alguns poucos minutos para ele entrar na frequência do ambiente. As pessoas dançavam alegremente em uma atmosfera festiva, mas ainda pouco alcoólica. A noite recém estava começando.

A partir daí, muita coisa aconteceu. De pouca coisa ele se lembrava. Somente flashes. Relâmpagos cruzando a sua mente. Imagens pueris, se liquefazendo em sua memória.

Quase seis horas haviam se passado. Ele já estava ébrio. Seus ouvidos doíam. Suas pernas, cansadas. Seu corpo gritava, querendo pôr para fora aquilo que tinha lhe deixado tão desinibido. Seus olhos já não enxergavam direito. Foi ao banheiro. Vomitou. Juntou água com as mãos e jogou sobre a face. Estava um caco. Voltou para o salão. Deu, detalhadamente, uma última olhada por todo o espaço. Não. Já estava amanhecendo lá fora. No caixa, pagou a conta. Alta, bem alta. Quatro pessoas ainda resistiam bravamente naquele resquício de festa. Passou por elas com vagar. Andava com dificuldade. Antes de sair, voltou a vomitar, no meio da pista, desta vez. Não acertou ninguém, por sorte. Junto à porta que dava para o corredor estreito e silencioso com cheiro de incenso barato, escorou-se e olhou para trás. Não.

Ela não estava lá. Ela não esteve lá. Não adiantava mais esperar. Ela não estaria lá.

Abriu a porta e se foi.

Ele não ouviu a si mesmo.

Ele não gostava muito de festas.

domingo, 11 de maio de 2014

Ele era meu irmão



“Eu não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer”, me disse ele segurando a minha mão. Eu lhe disse que não iria deixar. Disse que iria ficar tudo bem. Que aquilo tudo iria passar e que, no futuro, iríamos rir feito idiotas em uma mesa de bar quando relembrássemos da cena melodramática daquele dia.

Eu não falei a verdade.
Não ficou tudo bem.
Aquilo tudo não passou.
Nós nunca rimos feito idiotas em uma mesa de bar.

Eu não processei bem aquele acontecimento. Confesso, até hoje não consegui compreender bem as coisas. Foi tão rápido. Eu não esperava. Ele não esperava. Ninguém esperava. Quando a morte de alguém querido ocorre, nunca parece ser verdade. É sempre um engano, sempre irreal. Para mim, ainda não parece ser real. Sinto como se, a qualquer momento, ele vai cruzar a porta, sempre sorrindo, e virá me dar um abraço.

Morrer não parece ser uma coisa de todo mal. Eu morro todas as noites, toda vez em que durmo. A diferença é que eu esqueço que morri, e acabo acordando para uma nova microvida de algumas horas.

O que fica é quem sofre.
Esse, o que fica, morre um pouco junto com aquele que se foi por inteiro.
Mas ele continua vivo.

Foi muito difícil para mim. Tudo depois que ele partiu foi muito difícil para mim. A começar pelos meus pais. Eles não aceitaram a morte. Todas as coisas que haviam sido dele foram mantidas no lugar em que as deixou. Aquela ainda era a casa dele. O seu lugar na mesa de jantar estava ali, reservado, intacto. A casa permaneceu em um luto constante. Não havia mais sorrisos. Não havia mais música. As palavras eram ditas em tom baixo, quase sussurradas. Falava-se pouco, aliás.

Por duas vezes eu tentei quebrar aquele silêncio, aquele estado de prostração ali estabelecido. Não consegui. Resolvi deixar estar.

Nos anos que se seguiram, eu procurava ficar a maior parte do dia fora daquele ambiente. Quando não estava na escola ou no trabalho, dava um jeito de arrumar algo para fazer na rua. Quando não arrumava, saía para caminhar sem nenhum plano. 

Aquela foi a minha provação adolescente.

Ele era meu irmão.

A doença progrediu rápido. Após a internação, em dez dias, ele estava morto. Eu não estava em casa quando ele se sentiu mal e teve de ser levado ao hospital. Um funcionário da escola entrou na sala de aula e me deu um bilhete dobrado em quatro partes. “Seu irmão não está bem. O levamos ao Pronto Socorro.” Até hoje não sei quem mandou aquele bilhete. Não importa. Fechei o caderno, peguei minha mochila e saí da sala. Não fiquei muito preocupado. Não haveria de ser nada demais. Um mal estar, talvez. Ele tinha uma ótima saúde. Parecia ter, ao menos. Nunca reclamava de nada. Nem gripe pegava. No máximo, um ou outro resfriado.

Após quinze minutos de caminhada e três lances de escada, eu estava, ofegante, em pé, à porta da sala, em frente à cadeira na qual ele, sentado, sorria ao me ver chegar.

Ele não parecia estar doente. Eu não senti  a dor que ele sentiu. Eu nunca senti  a dor que ele ainda iria sentir.

Passamos toda a tarde juntos. Eu só saí daquela sala em três oportunidades, duas para ir ao banheiro e uma para comprar água e lanches para nós dois. Minha mãe também estava lá. Meu pai não pôde sair do trabalho e iria dar uma passada mais tarde, para ver como ele estava. Até o início da noite, nenhum médico foi ver o meu irmão. Quando eu e minha mãe tivemos de ir embora, após sermos enxotados por uma enfermeira alta e magra com grandes olheiras e um mau humor de quem vinha tendo um péssimo dia até ali, ele nos disse para irmos tranquilos. Disse que já se sentia melhor, mais disposto e que, na manhã do dia seguinte, já estaria tomando café da manhã em casa, conosco. Pediu torradas e suco de laranja.

No caminho de volta para casa, minha mãe se manteve em silêncio. Estava cansada. Ao lado dela, eu pensei em como nós somos frágeis.  Meu irmão não tinha absolutamente nada há algumas poucas horas. Agora, estava em uma sala de hospital, tomando soro na veia e achando que iria voltar para casa na manhã seguinte. Ele sequer imaginava que nunca mais iria voltar para casa. Ninguém imaginava isso.

Meu pai chegou em casa à noite com uma expressão preocupada no rosto. Os vincos na testa estavam bem marcados. Isso sempre acontecia quando algo o deixava apreensivo. Falou pouco. Disse que estivera no hospital e que o meu irmão estava dormindo. Não quis acordá-lo. Ele permanecia sentado na cadeira. Ainda não tinha sido liberado nenhum leito para o qual pudesse ser transferido.

Eu tinha 16 anos. Meu irmão tinha 12.

Era bem tarde quando eu consegui dormir naquela noite. Às 6h do dia seguinte, tinha de estar em pé. Meus olhos já estavam abertos antes de o despertador tocar. Dormi pouco e mal. Levantei-me, tomei banho e sorvi o café quente que me deixou bem desperto. Peguei minha mochila e saí. Fez um amanhecer frio naquele dia. Era o começo do outono.

Eu não dei a mínima para matérias que tive na aula. Não consegui prestar atenção nos professores. Não me concentrei. Ouvia a voz do meu irmão ao meu ouvido. Mal soou o sinal do fim do turno da manhã, e eu já cruzava o portão da frente da escola, carregando nas mãos dois sanduíches com requeijão, presunto e queijo. Ele adorava sanduíche de pão francês com requeijão, presunto e queijo. Eu também.

Nós não éramos muito parecidos. Ele sempre foi um prodígio. As melhores notas na escola. Sempre foi o mais racional, enquanto eu era puro instinto. Com oito anos de idade, me dava conselhos quando da minha primeira paixão. Tinha uma educação e fineza no trato sem igual para um menino com aquela idade. Era o orgulho de minha mãe. Ela sempre sorria quando falava dele para as amigas ou vizinhas. Eu também me orgulhava. Eu enxergava nele aquele que eu nunca poderia ser.

Fui diretamente à sala na qual ele estava no dia anterior e não o achei lá. Ele havia sido transferido. Um leito havia vagado. Quando, finalmente, localizei o quarto, o encontrei deitado de lado, encolhido, pernas arqueadas. Seus olhos estavam prostrados. Ele tinha olheiras profundas de quem dormira pouco. Aproximei-me.  Ele pareceu não me notar. Com a mão direita, tirei o cabelo de sua testa. Ele suava. Sentei-me na cama. Fiquei em silêncio. Não sabia o que dizer. Não sabia o que ele queria ouvir. Fiquei ali por mais de três horas. Segurei sua mão. Estava quente. Ele tinha febre.

Minha mãe chegou por volta das 17h. Havia trabalhado o dia todo. Estava exausta. Trouxe alguns biscoitos e suco. Ela ficou conosco até perto das 22h. Despediu-se dele com um longo beijo na testa. Eu ganhei um abraço. Passei aquela noite ao lado do meu irmão. Dormi sentado em uma cadeira junto à cama. Não dormi muito, mas o suficiente para conseguir me manter desperto depois do amanhecer. Acordei por diversas vezes na madrugada. Conferia como ele estava, se dormia bem, e tentava voltar a pegar no sono.
Por volta das 6h15min, fui acordado pela correria no interior do quarto. De pronto, vi ao menos quatro pessoas vestidas de banco ao redor da cama onde jazia meu irmão. Empurrei um deles, tentei chegar mais perto, mas fui puxado com rispidez por um enfermeiro alto e corpulento. Meu irmão se retorcia sobre o leito e eles tentavam segurá-lo para aplicar algum tipo de medicamento. Eles ficaram ali por poucos instantes. A cena toda não durou mais do que dois ou três minutos. Quatro, quem sabe. Ao fim, meu irmão estava imóvel. Parecia dormir. Uma auxiliar de enfermagem baixinha e risonha, com a qual eu fizera amizade e que me trouxe pão com geleia na noite anterior, disse-me que a febre havia aumentado muito, passado dos 42 graus e que meu irmão tivera uma convulsão. Perguntei se isso era normal. Ela não soube ou não quis me precisar. Disse somente que o que ele tinha era mais sério do que pensava a equipe médica. Despediu-se me dando dois tapinhas no ombro e dizendo para eu ter fé.

Não gostei daquilo. As pessoas costumam apelar para a fé somente quando a solução dos problemas está fora do seu alcance. Eu não fui à escola naquele dia. Meu irmão teve mais duas convulsões durante a tarde e duas outras na madrugada. Na manhã seguinte, ele foi levado para a UTI. Eles não sabiam o que ele tinha. Eu não entendia o que estava acontecendo.

A partir daí, eu não pude ficar ao seu lado o tempo todo. Ainda assim, corria para o hospital logo após as aulas. Na maior parte das vezes, saía na hora do recreio. Eu ficava na sala de espera até perto da meia noite, quando passava o último ônibus que me levaria para casa. Durante aqueles dias, conheci os hábitos do local. O almoço era servido aos pacientes dos quartos por volta das 11h20min. Às 14h30min, um médico passava para dar uma olhada neles, fazer anotações no prontuário e dar instruções para a equipe de enfermagem. Os médicos falavam pouco. A maioria apenas dava explicações vagas quando os parentes perguntavam o que o familiar internado tinha, se era grave, qual o tratamento, quando ele iria ganhar alta. Eu não gostava muito deles. Pareciam se sentir superiores. Não demonstravam interesse profundo na situação das pessoas as quais tratavam. A exceção era uma médica.

Era jovem. Residente, talvez. Tinha o cabelo negro liso preso em um rabo de cavalo. Fazia o turno da noite. Eu a via chegar por volta das 19h30min. Usava roupa esportiva. Acho que vinha direto da academia. Depois de cerca de 20, 25 minutos, ela reaparecia, já vestida de branco, com o estetoscópio no pescoço e os óculos de armação de acrílico preto no rosto. Nossa, ela era muito diferente dos outros. Doutora Anne. 

Ela sentava ao meu lado e queria saber de mim, perguntava como eu estava, se sentia fome, se precisava de alguma coisa. Eu não costumava me queixar. Mas ela mostrava interesse, e isso me fazia sentir especial.
Anne me deixava entrar na UTI uma vez por noite, dois minutos no máximo. Ela me dava instruções, dizia para eu não mexer em nada, e saía. Éramos somente eu e o meu irmão. E as outras pessoas na sala, claro, mas eu não ligava para elas. Eu ficava em pé ao lado da cama e conversava com ele. Na verdade, não era uma conversa, era um monólogo. Ele não respondia. Mas eu sempre esperava que ele viesse a fazer isso. Era um tipo de esperança maluca que eu alimentava. Fazia-me bem pensar que ele me ouvia e que iria me responder uma hora ou outra.

Ele estava mais magro. A alimentação líquida via sonda o fez perder uns quantos quilos, não pude precisar. A partir do quinto dia, meu pai não apareceu mais no hospital. Minha mãe me disse que ele não se sentia bem vendo o filho naquela situação. Não acreditei muito na justificativa, mas podia ser verdade.

Em nossa casa, evitava-se falar sobre meu irmão. Acho que, de alguma forma, com o passar dos dias, todos foram se dando conta de que teríamos de nos preparar para o pior. Minha mãe fazia o possível para tentar se mostrar forte. Esboçava alguns sorrisos discretos nas conversas com os vizinhos, tentava manter a rotina dos lides da casa. Ela não sabia, mas eu a via chorar pela manhã, quando ela entrava no quarto dele para despertá-lo e não o encontrava lá. Ela sentava na cama e tomava nas mãos o porta-retratos que ficava na escrivaninha. Permanecia ali por pouco tempo, uns cinco, seis minutos, no máximo. Era o suficiente para lágrimas brotarem em profusão dos seus olhos.

Uma semana havia se passado desde o dia da internação. A essa altura, meu pai já não escondia de ninguém que não acreditava que iria ver seu filho novamente em casa. Quando minha mãe o repreendia, dizendo que o pessimismo não ajudava em nada, ele retrucava vociferando que não adiantava se iludir, que aquele era um caminho sem volta, que precisávamos estar cientes de que ele iria nos deixar.

Nos últimos três dias de vida do meu irmão, eu não fui ao colégio. Acordava por volta das 6h, tomava uma ducha rápida, colocava duas fatias grossas de goiabada em um pão francês e partia em direção ao hospital. Eu preferia ficar lá a ficar em casa, ou em qualquer outro lugar. Ele estava lá. Ele precisava de mim. Eu precisava dele. Além disso, ao menos lá havia alguém que se preocupava comigo também. Em como eu me sentia. Eu contava as horas para vê-la cruzando os corredores com seus tênis de corrida. Ela sempre sorria para mim quando passava. Eu retribuía o sorriso. Apesar de tudo, eu me sentia protegido, me sentia seguro. Ela não iria me deixar sozinho.

Eu chegava perto das 8h15min no hospital. Já tinha feito amizade com a segurança da portaria e eles me deixavam subir para o terceiro andar, onde ficava a UTI, sem problemas. Eu ficava a maior parte do tempo sentado em um banco, no corredor. Havia um espaço específico para familiares, uma sala de espera, mas eu não gostava de lá. Era muito choro, muito movimento, muita falação. Quando não estava ao lado dele, eu queria ficar comigo mesmo.

Enquanto estava sentado, aguardando a noite chegar para eu poder entrar por alguns minutos na sala e ver meu irmão, eu ficava sabendo sobre diversos outros pacientes da UTI. Na maioria das vezes, descobria as coisas por meio das conversas da equipe médica. Entre eles, médicos, enfermeiros e auxiliares, não havia rodeios na hora de falar sobre um dos doentes. Sobre o jovem que perdeu o controle da motocicleta e colidiu em um poste, o médico chefe da unidade foi taxativo: “só sai daqui em um caixão”. No caso da mulher que foi atropelada por um ônibus ao atravessar uma via, o diagnóstico era um pouco mais animador: “essa aí nunca mais vai andar de novo”, cochichou uma das enfermeiras para uma auxiliar. Eu não sei como aquele jovem saiu do hospital, tampouco se a mulher atropelada voltou a andar. Espero que ambos estejam por ai, ele respirando, e ela fazendo caminhadas pelo parque ao entardecer.

Nunca os ouvi falarem algo sobre o meu irmão. Talvez se policiassem em razão de eu estar sempre por ali, talvez não houvesse nada a ser dito. Eram umas 3h30min quando eu fui acordado por uma correria. Levantei de um salto e tentei espiar pela porta entreaberta da sala da UTI. Quatro pessoas vestidas de branco cercavam o meu irmão. Pude identificar uma delas. Era Anne. Eles falavam todos ao mesmo tempo. Não pude compreender nada. Somente frases soltas. “Muito sangue”, “precisamos conter agora”, “anda rápido”, “fecha aquela porta”. Foi quando Anne veio fazer isso que pude perceber que a situação era grave. Por um instante, seus olhos cruzaram com os meus. Foi apenas um instante, mas eu senti que havia algo de muito errado acontecendo. Ela chorava.

Não dormi no resto da madrugada. Levou quase duas horas para que tudo se acalmasse. Ele havia tido uma hemorragia interna. Os médicos suaram, mas conseguiram contê-la. Muito sangue havia sido perdido. Agora, ele dormia. Estava sedado. Procurei Anne em todo o andar para saber mais detalhes, mas não a encontrei. Fui à sala da enfermagem e perguntei sobre o que havia se passado, mas elas me disseram que o médico iria conversar com a minha mãe sobre o assunto. Disseram para eu ir dormir. Idiotas. Tive raiva delas. Meu irmão sofrendo em uma cama de UTI e elas me mandando ir dormir. A raiva não durou muito. Sabia que elas não tinham culpa de nada. Ninguém tinha.

Minha mãe chegou bem cedo no hospital. Uma ligação a tinha avisado sobre os acontecimentos da madrugada. Não fui eu quem ligou. Essa ideia nem passou pela minha cabeça. Pouco depois das 9h, ela conseguiu falar com um médico. “Só a senhora, por favor”, disse ele, meneando a cabeça em minha direção. Eu fiquei sentado no banco. Eles foram para uma sala reservada.

Quando voltou, uns 20 minutos depois, ela tinha os olhos inchados de quem chorou muito. Sentou-se ao meu lado, em silêncio. Abraçou-me e chorou novamente. Eu tentei demonstrar força. “Não chore, não desabe, ela precisa de você agora.” Não adiantou nada. Eu também chorei. Nossas lágrimas se misturaram. Nossa dor se fez uma só.

Eu não perguntei a ela o que o médico tinha lhe dito. Já não importava mais. Boa parte daquele dia eu passei caminhando no parque, que ficava quase ao lado do hospital. Consegui até dormir por quase uma hora na sombra de uma frondosa árvore. No resto do tempo, eu pensei em como tudo ficaria depois de ele partir. Como seria? Eu vivi quatro anos da minha vida sem ele. Não conseguia imaginar como seria viver o resto dela da mesma forma.

Naquela noite, eles não me deixaram entrar para vê-lo. Não me deram justificativas plausíveis. Apenas disseram que ele não poderia receber visitas. Não discuti, não quis criar caso. Estava muito cansado para isso. Eu não sabia que aquela seria a última noite do meu irmão.

Eu acordei bem cedo naquele dia. Perguntei a uma auxiliar se havia alguma novidade em relação ao estado dele. Ela disse que não, e eu fui para casa. Tomei um bom banho quente, seguido pelo melhor café da manhã dos últimos dias. Preparei o meu sanduíche da noite. Olhei rapidamente as notícias no jornal que meu pai havia deixado sobre o sofá da sala. Mais do mesmo. Antes de sair, dei uma passada no quarto dele. Estava tudo lá. Era como se ele apenas tivesse saído para jogar taco com os amigos, como sempre fazia nos sábados pela manhã. O quarto era de uma organização ímpar. Ele tinha muito cuidado com as coisas, todas elas estavam em seus devidos lugares. Nenhum sapato jogado em qualquer lugar, nenhum caderno fora da mochila ou da gaveta do material escolar. Nem poeira sobre os móveis tinha, pois, em sua ausência, minha mãe fazia uma rápida, mas cuidadosa, limpeza diária. Sobre a escrivaninha, repousava seu caderno de desenhos. Ele desenhava muito bem. Tinha um talento nato. Um traço fino, detalhado, firme. O caderno estava aberto. Na página, uma gravura inacabada de algum tipo de criatura mitológica. Acho que era um dragão, mas não tenho certeza. Ao lado do caderno, o estojo com os diversos lápis de desenho. Meu pai lhe deu o kit quando ele fez 10 anos. Era o seu tesouro pessoal. Pensei em levar o caderno e os lápis para o hospital. Deixar ao lado da cama para, quando ele acordasse daquele doloroso pesadelo, pudesse terminar o desenho. Pensei um pouco mais e preferi deixar como estava. Seria um motivo para ele retornar àquele quarto. Ele precisava concluir aquele desenho.

Almocei com minha mãe naquele dia. Percebi um certo conformismo nela. Não gostei daquilo, mas não disse nada. Discutir não iria melhorar as coisas. Depois disso, ela foi para casa. Eu, para o hospital. O dia estava nublado, bem cinza, e uma brisa gelada corria pelas ruas daquela parte da cidade. Eu sentia frio, mas não o bastante para me fazer ir em casa buscar um agasalho. As horas passaram com vagar. Sentado no banco do corredor, eu li em uma revista deixada por alguém um artigo sobre como ganhar peso rapidamente e mantendo a saúde. Meu irmão tinha emagrecido muito. Também ouvi música para tentar me distrair. Desta vez, não havia esquecido em casa o mp3 player e os fones. Além disso, o time pelo qual torcíamos jogava no início da noite e eu queria poder dar a notícia do resultado da partida para ele. Não me importava se ele respondesse ou não. Eu sabia que ele estaria me ouvindo e que ficaria feliz com uma vitória.

O relógio de ponteiros na parede, ao lado da sala de enfermagem, mostrava 20h quando um médico foi chamado com urgência na UTI. Eu fiquei de pé. Anne apontou no fim do corredor. Ela caminhava um trote rápido. Quase corria. Ao passar por mim, agarrou minha mão direita com força, soltou-a e entrou na sala. Passaram-se 10 minutos e mais um médico entrou, acompanhado de um enfermeiro e uma auxiliar.

Era o meu irmão. Eu sabia que era ele. Eu sentia que era ele.

Do lado de fora, eu não conseguia parar quieto. Andava de um lado para outro. Perdi a conta das vezes em que fui ao bebedor molhar a garganta. Eu sentia frio, mas suava de tensão e nervosismo. Eu queria entrar naquela sala, ver o que estava acontecendo. Era isso que eu queria. Mas a porta estava trancada. Eu sei, pois tentei entrar.

Foram cerca de duas horas de intensa dúvida. Foi torturante. Telefonei para a minha casa, mas ninguém atendeu. Eu estava só. Assim como meu irmão.

A porta se abriu. Toda a equipe saiu com expressões desanimadoras. Anne foi a última a deixar a sala. Ela tirou a máscara branca do rosto, enxugou o suor da testa e veio em minha direção. Com a mão no meu ombro, disse para eu sentar no banco. Eu obedeci.

Foi uma conversa rápida. Ela sabia que prolongar a explicação tornaria aquilo ainda mais doloroso. Ela foi direta. Meu irmão não tinha mais muito tempo de vida. Algumas poucas horas, talvez. Ou poucos minutos, quem sabe. As hemorragias se espalharam pelo corpo, eles não conseguiram estancá-las. Os pulmões estavam comprometidos. Eles fizeram o que podia ser feito. Ela me garantiu que ele já não sentia mais dor, que a única medicação que podiam lhe dar eram analgésicos. Morfina, no caso. Eu não chorei desta vez. Não sei por qual razão, mas não chorei. Anne disse que eu poderia entrar na sala da UTI, se quisesse. Ela foi sincera comigo. Falou que, provavelmente, seria a última oportunidade para vê-lo vivo. A sedação tinha sido diminuída. Ele estava desperto. Fiquei de pé. Ela me deu um abraço apertado. Disse para eu ser forte. Eu disse que seria.

Ele não parecia desperto. Os olhos fechados. A máscara de oxigênio sobre a boca e o nariz. Eu me aproximei sem fazer barulho. Cheguei ao lado da cama e segurei a sua mão. Ele apertou a minha. Com força. Senti seus ossos.

Ele tinha hematomas nos braços. Eu disse o seu nome e ele abriu os olhos. Bem devagar. Sorriu um sorriso puro ao me ver. Uma lágrima correu pela sua face pálida. Foi então, que, com a voz combalida de quem estava cansado de lutar, ele me disse:

“Eu não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer.”

Não contive o choro. Não consegui. Eu não fui forte como havia prometido para Anne.

Eu disse que não o iria deixar morrer. Disse que iria ficar tudo bem. Que aquilo tudo iria passar e que, no futuro, iríamos rir feito idiotas em uma mesa de bar quando relembrássemos da cena melodramática daquele dia.

Eu não falei a verdade.
Não ficou tudo bem.
Aquilo tudo não passou.

Ainda dói quando recordo daqueles dias. Já faz mais de 20 anos, mas ainda dói. Muito. Cerca de quarenta minutos depois da minha falsa promessa, ele morreu.

Nós nunca rimos feito idiotas em uma mesa de bar.


A última coisa que eu lhe disse foi uma mentira.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Eu toquei suas mãos, mas ela não sentiu.


Eu estava no parque, sentado sozinho em um banco sem fazer nada. Estava apenas apreciando o vai e vem das pessoas. O céu estava nublado e nem um raio sequer de sol havia aparecido durante todo o dia. Pela manhã, tinha chovido e poças d’água refletiam o verde das folhas das árvores. Ventava fraco e estava um pouco frio, mas não muito.

Eu olhava um casal de velhinhos, cabelos brancos, costas curvadas, que caminhavam de mãos dadas. Eles pareciam felizes. Caminhavam tranquila e serenamente. Sem pressa alguma. E eu pensava em como o tempo é o tempo de cada um. E em como a percepção do tempo muda com o passar dos anos. Em como tudo desacelera e em como isso deve ser bom.

Foi aí, em meio ao meu devaneio, que ela surgiu. Chegou em silêncio e sentou-se ao meu lado. Ficou assim, em silêncio, por um ou dois minutos. Em seguida, desatou a chorar. Primeiro, com alguma discrição. Olhos marejados, lágrimas correndo, mas pouco barulho. Depois, mais ruidosamente. O choro foi aumentando de intensidade e, rapidamente, ela já soluçava e chorava copiosamente.

Eu fiquei um tanto quanto desconcertado. Não sei reagir a situações como essa.  Não sei até onde posso ir, até que ponto tenho o direito ou o dever de me intrometer naquele momento da vida daquela pessoa. E eu fiquei assim, principalmente, pelo fato de ela estar chorando. Nunca soube lidar com alguém que chora. Fico sem saber o que fazer. É agoniante.

Pensei por alguns instantes tentando encontrar a melhor coisa a fazer. Ela realmente parecia estar sofrendo. E, pelo seu estado de nervos, não era por pouca coisa. Ao menos, para ela, não era pouca coisa.

Estávamos a uns três palmos de distância. Mesmo chorando, pude notar que ela era muito bonita. Cabelos negros, pouco abaixo dos ombros. Mãos pequenas, rosto angelical, com traços suaves e bastante simétricos. Seus olhos também eram escuros, mas não consegui ver se eram castanhos ou pretos. Vestia uma saia que deixava os joelhos à mostra enquanto estava sentada. Uma blusinha de alças vermelha e sapatilhas.

Por mais alguns instantes, planejei uma abordagem que pudesse ser pouco traumática se tudo desse errado. Decidi-me por ser o menos invasivo possível.

“Com licença, moça, posso ajudá-la em algo?”

Ela nem deu bola. Seguiu chorando.

Pensei que ela pudesse não ter me ouvido. Pensei que ela me ouvira e me ignorara solenemente. Pensei que ela precisava de algo mais do que apenas uma pergunta.

Cheguei mais perto. Ela seguia chorando em desespero.

“Moça, aconteceu alguma coisa? Alguém te fez algum mal, te machucou?”

A resposta foram mais lágrimas, apenas isso.

Tentei processar o que estava se passando. Primeiramente, imaginei que algo havia acontecido. Não era preciso ser nenhum gênio para perceber isso. Algo havia acontecido e havia sido grave. Já que ela nem me notava, olhei bem o seu rosto e não vi nenhuma marca, nenhum machucado. Os braços e as pernas também não tinham nenhum hematoma, ou corte, ou algo do tipo. Conclui que ela não tinha sido agredida. Menos mal. O problema parecia ser unicamente de cunho emocional. O que não diminuía o seu tamanho. Feridas físicas costumam cicatrizar mais rapidamente do que as emocionais.

Um amor. Era bem possível que a razão daquilo tudo fosse um amor. Um amor não correspondido, um amor que acabara, um amor traído, um amor platônico, enfim, um amor.

As pessoas ainda choram por amor. É bonito isso. Eu acho bonito. Fico comovido. Mas ali, naquele banco do parque, naquela tarde cinzenta, eu beirava o pânico. Sempre tive uma relação difícil com o choro. Tenho dificuldade para chorar. Quase nunca choro. Não me lembro da última vez em que chorei. Eu não me orgulho disso, muito pelo contrário. É triste. Eu acho triste não conseguir chorar. Não faz bem para mim. Mas não creio que, no meu caso, haja muita coisa a fazer para mudar isso. Paciência

Sua maquiagem borrada pelas lágrimas deixava rastros negros em sua face. Seu rosto parecia uma pintura expressionista. Estava belo de um modo único.

Aproximei-me de novo. Desta vez, fiquei ainda mais perto. Usei minha voz mais doce possível e disse que, se ela precisasse de algo, eu estava ali, que não nos conhecíamos, mas que eu faria o possível para ajudá-la no que fosse necessário. Ela não esboçou nenhum gesto que poderia demonstrar que tinha me ouvido. Seguiu com seu pranto que rasgava o ar e cortava o meu coração.

Por cerca de uma hora eu tentei entendê-la.  Tentei falar com ela. Tentei ouvi-la.

Por cerca de uma hora eu tentei fazer com que ela me notasse. Tentei mostrar a ela que poderia contar comigo, que não estava sozinha.

De nada adiantaram os meus esforços altruístas.

Eu toquei suas mãos, mas ela não sentiu. Eu não me fiz sentir.

Foi aí que eu percebi que tudo aquilo que eu fizera fora para mim, fora para eu me sentir melhor. A minha preocupação com aquela moça não era tão grande quanto a minha vontade de me tornar importante naquela situação. Ela era apenas o meio. O fim era eu mesmo.

E então eu voltei a me distanciar dela. Os mesmos três palmos de antes. Ergui a cabeça e fitei o céu. Não havia muito o que ver lá em cima. Tempo fechado, nuvens escuras, muitas nuvens escuras, um pássaro voando alto, uma folha de árvore arrancada por uma rajada de vento fresco.

Fechei os olhos.

Uma gota explodiu na minha testa. E outra, e outra, e mais uma. Chovia uma chuva quente.

Senti sua cabeça se apoiando no meu colo. Havia se acalmado. Mais alguns instantes, e o choro desaparecera por completo.

Ela não queria a minha atenção. Ela queria o meu silêncio.

Chovia uma chuva quente.

domingo, 16 de março de 2014


O Silêncio

O silêncio tem sido meu amigo.
Ah, sim, o silêncio tem sido meu amigo.
Meu abrigo, meu castigo.

Eu não consigo mais dormir.
Eu não consigo mais dormir.

E não é o vento que faz a porta bater.
Não é a chuva que explode na janela.

É o silêncio, meu amigo, que me grita ao pé do ouvido:

“Estás só! Estás só!”

E eu saio rua afora.
Olhos abertos, alma que chora.

E eu corro sem saber por quê.
Sangue nas mãos, mas ninguém vê.

E eu vou sem rumo, sem destino.
Vou sozinho pra lugar nenhum.

Eu vou sem nome, um clandestino.
Vou ser ninguém, vou ser mais um.

Chegou a hora e eu nada digo.
Vou embora sem me despedir.
 E o silêncio, meu amigo,
Continua a me seguir.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A incrível breve história do homem mesóclise



Era uma bela manhã de verão. Ele acordara refeito após uma excelente noite de sono pesado e revigorante. Espreguiçara-se com parcimônia, tomara um demorado banho com água fria. Que dia fazia lá fora! Sol reinando soberano, algumas poucas nuvens quebrando a monocromia do céu. Vestira-se e saíra para, como fazia em todas as manhãs, comprar pão quentinho na padaria que ficava há duas quadras descendo a rua. Caminhava com alegre satisfação. Cumprimentou os conhecidos, sorriu ao ver os cãezinhos se refestelando no parque, gargalhou após tropeçar em uma lajota que se sobressaía às outras na calçada. Limpou os tênis no tapete da entrada da padaria, meneou a cabeça para a senhora de óculos com grandes aros de acrílico transparente que ficava no caixa logo cedo pela manhã fazendo tricô entre um cliente e outro, deu passos leves em direção ao balcão ao fundo, postou-se em frente a ele e à moça que, atenta, aguardava o seu pedido, e disse:

“A bela senhorita poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

Saiu assim, ao natural, sem cerimônias. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A atendente, que estava no seu segundo dia naquele emprego e não o conhecia, ficou boquiaberta. Não entendera nada daquela profusão de letras e palavras, mas compreendera do que se tratava o pedido e achara aquele homem muito metido com seu palavreado rebuscado. Virou-se e foi pegar os pães, que ainda estavam no forno.

Enquanto isso, do outro lado do balcão, ele estava petrificado. Imóvel. Olhos bem abertos. Estava quase que em estado de choque. O seu cérebro não havia enviado à sua boca aquela ordem. Ou, se havia, o fizera por sua livre e espontânea vontade.  Ele não sabia o que pensar. De onde viera aquilo? Não tinha a menor ideia. Ele nem gostava de usar palavras ou construções frasais difíceis e costumava chamar de pedante quem fazia isso. Agora, assim, do nada, sem nenhuma necessidade, no balcão da padaria, vestindo bermuda e camiseta regata, ele fizera uso de uma mesóclise. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A partir daquela manhã, daquele dia, a sua vida virou um inferno. Ele já não conseguia falar uma frase sequer sem usar uma mesóclise. Não conseguia se conter. Era mais forte do que ele. Era uma força superior, incontrolável, selvagem.

Para a esposa, após uma noite de luxurioso amor. “Se, em um dia desses, eu sumisse, tu procurar-me-ia até me encontrar?”

A um transeunte que procurava uma rua nas redondezas. “Ajudá-lo-ia com prazer, mas, infelizmente, não sei onde fica essa rua.”

Para a filha, após ela fazer uma travessura. “Se tu fizeres isso de novo, eu zangar-me-ei muito, ouviste?”

No fórum, testemunhando em um caso de acidente de trânsito, após lhe perguntarem se diria a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. “Di-la-ei.”

Ao recusar uma proposta de trabalho. “Eu sei que no futuro arrepender-me-ei disso, mas não posso aceitar o emprego neste momento.”

Nem ele se aguentava mais. Passados três meses, após ser convencido pela família e amigos de que aquilo deveria ter algum tipo de tratamento, procurou um médico.

“Doutor, é muito constrangedor, já não tenho mais saído de casa, pedi licença no trabalho, ninguém consegue ficar mais de um minuto conversando comigo. Colocar-me-ei à disposição do senhor, faça os testes que quiser. Já tentei simpatia, pai de santo, sessão espírita. Nada adiantou. O senhor é a minha última esperança, doutor. O senhor ajudar-me-ia a dar fim a essa maldição que me tomou e da qual eu não consigo me ver livre?”

O médico confessou que nunca vira ou tivera ouvido falar daquilo antes. Algum tipo de síndrome que fazia com que um homem usasse a todo o momento uma forma verbal que não se usa na linguagem oral. Um caso sério e intrigante, sem dúvida. O doutor disse que iria pesquisar a respeito e o dispensou garantindo que entraria em contato quando tivesse descoberto algo. Na ficha que estava em sua mesa, no espaço reservado para o tipo de doença que acometia o paciente, ele escreveu com letras ininteligíveis: “O Incrível Caso do Homem Mesóclise.”

Seis meses se passaram. Ele abandonara o trabalho. Outros seis meses se foram. Desistira de toda e qualquer relação social. Outros seis meses. A família o deixara.

Ele não tinha mais nada. Não tinha mais ninguém. Somente tinha um vocabulário rico em variedade de conjugações verbais, mas isso não o deixava feliz.

Sofria. Ele sofria muito, e sofria calado, o que é bem pior. Sofre em dobro aquele que sofre calado. Ele sofria calado, e sofria sozinho. Muito. Sofria muito. Calado e sozinho. Era assim que ele sofria.

Durante todo um ano, viveu se mantendo com as economias de uma vida inteira. Até que elas acabaram. Teve de deixar a sua casa, pois não podia mais pagar as prestações. Pegou suas poucas coisas que haviam restado, basicamente roupas e livros, e saiu. A rua passou a ser o seu lar. Um lar hostil, mas, ainda assim, um lar.

Perambulou por entre os becos. Dormiu sob viadutos e pontes. Agasalhou-se com caixas de papelão. Comeu restos nas calçadas. Foi esquecido por todos que, em algum dia do passado, disseram que o amavam. Perdeu-se no mundo.

Esperou até seus últimos dias pelo chamado do médico que nunca ocorreu. Morreu sonhando em se ver curado da sua maldição. Ainda hoje, espalhados pelos muros da cidade, estão seus escritos de lamento. Testemunhos de sua existência.

“Procurar-me-ia?

Não importa.

Encontrar-te-ei!”


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.




Não foi nada fácil para ele admitir que estava apaixonado. Ainda mais por ela. Aquele era um momento de sua vida em que apaixonar-se já não estava em seu horizonte. Ainda mais por ela. Depois de um casamento que acabou, ele havia dito para si mesmo que iria dar um tempo nos relacionamentos. Ele era muito jovem quando decidiu que queria viver o resto da sua vida ao lado daquela mulher. Antes dos trinta, bem antes, já estava divorciado. O casamento não havia dado errado. Eles foram muito felizes enquanto se amaram.  E se amaram bastante, mas acabou. Acabou o amor e o casamento também. O fim foi uma consequência, não houve brigas, e os dois mantinham uma relação de amizade. Ele, porém, decidiu que não iria se envolver daquela forma tão cedo. Não queria namorar e sequer manter um envolvimento casual, sem compromissos, com uma mesma pessoa. Ele queria curtir a sua solteirice. Não curtir como um adolescente com os hormônios em polvorosa. Apenas curtir, poder fazer somente aquilo que tinha vontade de fazer. Mas, aí, ela surgiu na sua vida e todo o planejamento desabou feito um castelo de cartas.

Um parêntese

A essa altura, ele já havia se dado conta de que o homem é a parte mais frágil da relação. Sempre se sentira orbitando ao redor da mulher. Elas eram mais perspicazes, mais espertas, mais intuitivas, mais decididas. Elas eram mais corajosas, mais atentas. Ele sempre se sentira como um coadjuvante em suas próprias histórias de amor.

Fecha parêntese

Ela era mais jovem do que ele. Bem mais jovem. Quase 10 anos mais jovem. E era muito bonita. Tinha uma beleza incomum, com traços marcantes, rosto anguloso e olhar intenso e inquisidor.

E como era extrovertida e falante aquela menina. Puxa vida, era mesmo. E isso era outra coisa que o deixava encantado. Ela era o oposto dele. Despojada, dona de si.

Ele era mais introvertido. Mais para si do que para os outros. Mas não confunda isso com egoísmo. Ele não era egoísta. Não mais do que qualquer um de nós é. Ele era, simplesmente, mais para si do que para os outros.

Foi quando ela sorriu para ele na mesinha do café e lhe disse um “tudo bem?” que ele percebeu que estava apaixonado. Ao mesmo tempo em que se sentiu vivo novamente, ele soube que aquilo iria bagunçar tudo o que já havia colocado no lugar após o fim do casamento. Ele se sentia calmo, tranquilo.  Saía para beber com os amigos, deixava a tampa da privada levantada, jogava videogame até tarde, vestia-se com qualquer roupa com a qual se sentisse bem. Agora acontecia isso. Logo agora que as coisas estavam se ajeitando. Precisava ela ser tão bonitinha? Precisava? Precisava ter ela aquele jeitinho todo delicado e aquele olhar tão decidido?

Seus dias de navegação em serenos mares haviam acabado. Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.

E por uma dessas coisas difíceis de explicar, e que somente uma mulher é capaz de conseguir, ali, naquele exato momento, na mesinha do café, na tarde calorenta de verão, ela soube que ele estava caidinho por ela. Ela soube de cara. A danada era bem esperta. Ele nem desconfiou.

Os dias posteriores ao encontro casual na mesinha do café foram terrivelmente angustiantes para ele e incrivelmente divertidos para ela. Enquanto ele procurava ao máximo evitar qualquer tipo de contato (um cruzar de olhares o deixava maluco), ela fazia questão de provocar. Levantava-se da cadeira e caminhava por entre as mesas com mais frequência, dava tchauzinhos para ele quando se viam olhando um para o outro à distância, aumentava o tom de voz durante as conversas para que ele a ouvisse.

Ele estava prestes a enlouquecer. Só conseguia pensar nela. O tempo todo. O dia inteiro. Ele sabia que seria assim. Desde o “tudo bem?” na mesinha do café ele sabia que seria assim. Sempre que ele se apaixona é assim. Exatamente por isso ele não queria se apaixonar. Mas aconteceu. Agora ele precisava lidar com a situação. E ele não tinha a menor de ideia de como fazer isso. Mas era preciso.

Focar no trabalho. Precisava encontrar mais atividades durante o tempo em que permaneciam no mesmo ambiente. Tentou, mas não conseguiu. Seu trabalho era mais intelectual do que braçal. Era mais pensar do que fazer. E ele só pensava nela.

Pedir férias. Ficar longe dela, longe de tudo que pudesse o fazer lembrar-se dela. Um lugar ermo. Sozinho. Ele e a natureza. O canto dos pássaros, o correr das águas do riacho, o farfalhar das folhas nas árvores. Que maravilha! Pena que o pedido foi negado de pronto. Fazia seis meses que estava naquele emprego. Não tinha direito a férias, portanto.

Era preciso encarar os fatos. Ele não tinha para onde correr. Estava apaixonado. Ela era sua colega de trabalho. Viam-se, ao menos, cinco dias por semana. Não tinha como evitá-la, a não ser que pedisse demissão, mas ele precisava daquele emprego. Estava em um beco sem saída.

Aquilo tudo passou a afetar seu desempenho no trabalho. Produzia cada vez menos e com qualidade inferior, tinha menos ideias e a maioria delas eram péssimas. Estava mais distraído, não conseguia se concentrar em nada. A cabeça sempre nas nuvens. Ia trabalhar com olheiras enormes de noites em claro ao som de jazz e saboreando uísques baratos. Ele estava acabado, feito um trapo velho encardido usado para limpar o balcão de um boteco de beira de estrada.

Passados quatro meses, ele percebeu que as coisas não poderiam continuar como estavam. Ele precisava agir. Precisava reagir. Precisava, como dizia a sua falecida avó, “tomar jeito de homem.” Ele nunca soube muito bem o que aquela expressão significava ao certo, mas, naquela noite, mais uma sem cerrar os olhos, ele conseguiu entender as palavras de dona Antônia.

Depois de tanto buscar, de tanto procurar. Depois de tanto querer, de tanto sofrer. Depois de tanto pensar, depois das noites sem dormir. Depois de tudo isso, ele encontrou a solução. Ela estava ali. Diante dos seus olhos. Ele que não percebera. Mas nunca é tarde. Nunca é tarde. E ele sabia disso. Ele sempre soube que aquela era a única solução, a única resposta.

Entregar-se.

Essa era a única solução. Essa era a única resposta.

Ele soube naquela madrugada silenciosa que precisava sentir aquilo, aceitar aquele sentimento. Não havia outro caminho sem dor.

Precisava falar com ela. Precisava se expor, dizer a ela tudo o que sentia e que tinha passado nos últimos meses.

Mas ela era tão madura, tão segura de si.

Não importa. “Tome jeito de homem!”

Ao chegar ao trabalho no dia seguinte, antes mesmo de bater o cartão, ele se dirigiu à mesa dela. Passos confiantes. Cabeça erguida, postura militar. Expressão de conquista no rosto. Discurso decorado e um sentimento de libertação nunca dantes sentido.

A mesa estava vazia. Ela não estava lá. Ele olhou ao redor e não a viu. Olhou de novo para a mesa e notou que não havia nada do que costumava ver ali. Não viu os post-its colados no monitor do computador, não viu a caneca de porcelana, não viu as flores que sempre coloriam, viçosas, aquele ambiente. Nada estava ali. Aquela já não era a mesa dela.

A essa altura, o nervosismo já o dominava. O que será que havia ocorrido? Por que ela não estava ali? Por que as coisas dela não estavam ali? Por quê?

Tentando disfarçar seu estado de nervos, perguntou a um outro colega se ele havia visto a menina da mesa vazia. “Ahh, ela? Pediu demissão. Não sei bem a razão, mas ela andava meio triste nos últimos dias, parecia decepcionada com algo, ou cansada de esperar algo, uma coisa assim. Por quê?” “Por nada não, nada não. Só curiosidade.”

Assim, com raiva de si mesmo por ter demorado tanto para tomar uma atitude, ele caminhou com passos arrastados até a sua escrivaninha. Sentou-se deixando o corpo desabar sobre a cadeira. Ele estava exausto, mas sentia-se leve. Havia tirado um peso de suas costas. Não iria mais vê-la todos os dias. Ela não iria mais provocá-lo. Em alguns poucos dias, já não sonharia mais com ela. Teria tranquilas noites de sono. Iria render mais no trabalho. Tudo iria melhorar. Havia acabado. Sua provação havia acabado. As coisas iriam voltar à normalidade. Na verdade, ela nem era tão bonita assim, nem era tão simpática e inteligente, nem era tão atraente, pensou.Tudo iria melhorar.

Deu um suspiro longo, esboçou um sorriso amarelo no rosto e olhou para a tela do computador. Era hora de começar a trabalhar. Ali, colado no monitor, estava um daqueles post-its amarelinhos. Ele estranhou, ajeitou os óculos e leu, palavra por palavra:

“TE ESPERO ÀS 20H, NO BARZINHO DA ESQUINA. BJS, LINDINHO.”

Seu corpo amoleceu, seu coração disparou, suas mãos tremeram, e uma expressão de êxtase lhe tomou a face. O grito que lhe trancava a garganta explodiu e sua voz pôde ser ouvida em todo o universo.

“SIM!!!!!!!!!!!”

Ela o queria. Ele a queria. Estava apaixonado. Nunca se sentira tão bem na vida.