sexta-feira, 24 de julho de 2015

Reunião de família



Quando eles receberam as ligações, telegramas, e-mails, mensagens no celular, dependendo da idade que cada um tinha, todos já imaginaram qual era o motivo daquela convocação para uma reunião familiar de urgência.

Era uma tarde de domingo primaveril. As flores dos ipês roxos forravam as calçadas da rua. No jardim da frente da casa, as roseiras brancas e vermelhas se intercalavam formando um perfumado mosaico.

Eles foram chegando aos poucos. Alguns vinham de longe, de outros estados, enquanto outros moravam no mesmo bairro. Muitos abraços, beijinhos e tapinhas nas costas marcavam os reencontros.

Enquanto aguardavam o restante dos convocados chegar, os que já ali estavam reuniam-se em pequenas rodas de conversa. Os homens mais velhos falavam sobre futebol e política, alternadamente. As mulheres não desviavam o foco e ponderavam sobre as possíveis soluções para o problema que motivara o encontro daquela tarde. Isso, claro, se o problema fosse aquele que elas achavam que era. Meninos e meninas mais jovens se misturavam e tratavam de banalidades.

Havia, no ambiente, uma mistura de tensão, ansiedade, dúvida e até graça. O segundo bule de café quente e forte já estava acabando, e o último dos filhos de dona Aurora ainda não havia chegado. Tinha ficado preso em um congestionamento na ponte da entrada da cidade. Algum maluco em desespero ameaçava se jogar lá de cima nas águas turvas do lago.

A espera pelo único ausente revelava as idiossincrasias e expunha as entranhas daquela família. Das mulheres, Isabel era a irmã do meio. Mostrava uma aparente tranquilidade, quase um torpor. Os ansiolíticos em sua bolsa mascaravam sua total incapacidade de enfrentar a realidade da vida fútil e sem propósitos que levava. Para não desmoronar, agarrava-se às drogas receitadas por um médico preguiçoso qualquer.

O filho homem mais novo, Henrique, gargalhava em alto e bom som. Era jovem, havia sido agraciado em demasia com os belos traços físicos da família, tinha um emprego que pagava bem, um carro importado, vestia roupas de grife, morava em um apartamento de cobertura e era bajulado por amigos e conhecidos. Era querido por todos na família por estar sempre de bom humor e tratar a todos, indistintamente, com muita simpatia e educação. Henrique era gay. Ninguém na família sabia. Nem sua mãe, nem seus irmãos e irmãs, nem seus sobrinhos, nem ninguém. Ele sabia que iria ter de enfrentar muita resistência, que tudo o que era e o que conquistara passaria a ser questionado. Ele conhecia bem o seu eleitorado familiar. Seus irmãos eram todos conservadores. Seus sobrinhos tentavam transparecer uma imagem de modernos, com a cabeça aberta, mas eram, no fundo, pequenas cópias de seus pais. Somente dona Aurora, talvez, o fosse entender de verdade, sem julgamentos, sem condenações. Enquanto isso, enquanto tentava criar coragem para assumir quem realmente era diante de todos, ele seguia sendo quem não era, mas aquele que todos invejavam e gostariam de ser.

Dois dos netos, Rafaela e Lucas, evitavam-se. Sequer ficavam na mesma parte da casa ao mesmo tempo. Para os outros jovens da família, passavam a imagem de não se gostarem. Mas eles se amavam. Trocavam olhares lascivos à distância. Desejavam-se. Pensavam um no outro antes de dormir. Escreviam mensagens apaixonadas. Encontravam-se às escondidas há seis meses. Mantinham tudo em segredo. Um escândalo familiar, nesse momento, seria a pior coisa que poderia acontecer. Eles tinham ciência disso. Eram jovens, estavam apaixonados, mas tinham ciência disso.

A filha Suzana apanhava do marido e usava o uísque e a cocaína para esquecer. Ela ainda não criara coragem para denunciá-lo. O filho Antônio gastava o dinheiro do salário no jogo antes de chegar em casa. A neta Letícia se prostituía nas noites de quinta, sexta e sábado para pagar a faculdade de Publicidade. O neto Ricardo contraíra HIV depois de usar uma seringa compartilhada em uma noite de excessos juvenis. Ele ainda não sabia disso.

Faltavam três minutos para as cinco da tarde quando o retardatário chegou e, então, puderam reunir-se todos na grande sala de jantar e começar a busca por um entendimento comum.

Foi o recém-chegado, o filho mais velho, que tomou a palavra inicial. Augusto agradeceu a boa vontade de todos, falou sobre a dificuldade em reunir a família daquela forma, dos compromissos e das distâncias que os afastavam, da seriedade da questão a ser tratada. Antes de passar a palavra para Clara, a irmã mais velha, que era médica, disse que a decisão não teria de ser, necessariamente, tomada naquela tarde, que todos poderiam ir para as suas casas pensar a respeito e que um novo encontro seria marcado dentro de um mês para que cada um expusesse suas considerações conclusivas. Era uma sábia decisão. Apontamentos feitos de forma açodada não costumam gerar bons resultados.

Clara falava com uma tranquila seriedade que atraía a atenção de todos, até dos mais jovens. Ela era cativante. Não precisava levantar a voz, nem fazer gestos bruscos. Clara era sutil. Além de ser a figura mais doce da família, ela também foi escolhida para explicar o quadro, principalmente, por ser médica. Poderia destrinchar os detalhes, esclarecer dúvidas. Poderia ser simples e direta, mas, ainda assim, mantendo a ternura que lhe caracterizava.

“Mamãe tem Alzheimer. “

Silêncio.

Olhares incrédulos. Mãos sobre as faces.

Dona Aurora sempre fora uma mulher extremamente ativa. Morava sozinha e fazia questão de ser independente em tudo. Nunca se queixava. Ia duas vezes por semana à academia fortalecer a musculatura. Fazia caminhadas diárias de três quilômetros. Preparava a própria comida, cuidava do jardim, de dois cães e de uma gata. Participava de um grupo de mulheres que prestava serviços comunitários no bairro e organizava festas na igreja para arrecadar dinheiro para famílias carentes. Ela tinha 89 anos de idade.

Tudo começara em um sábado. Dona Aurora acordara cedo, como de costume. Tomara o café da manhã, dera de comer aos animais e saíra para ir à feira comprar frutas, verduras, queijo colonial e mel direto do produtor. Era sempre assim há pelo menos dez anos. Depois das compras, ela costumava passar na casa de uma amiga, Mercedes. Lá, sorvia o mate, colocava a conversa em dia e dava uma olhada nas peças de croché que a parceira de conversas fazia. Naquele sábado, dona Aurora não aparecera na casinha modesta de madeira de sua amiga. Havia algo errado. Mercedes não esperou passarem mais de cinco minutos do horário em que Aurora costumava cruzar seu jardim. Ela nunca se atrasara antes. Correu ao telefone e ligou para a polícia para comunicar um desaparecimento. Obviamente, a polícia não achara que um atraso de alguns minutos em uma visita matinal de sábado poderia se configurar em um desaparecimento. Nem deram muita bola. Mercedes, então, colocou um casaco, seus tênis de caminhada, e saiu para ver se encontrava Aurora em algum lugar. Depois de 1h45min de buscas, ficou sabendo que a amiga tinha sido avistada caminhando em direção ao parque central. De posse da informação, entrou em um táxi e foi para lá. Já próxima ao destino, avistou Aurora. Ela caminhava a esmo, sozinha, olhando para frente sem um foco definido. Carregava as compras em sacolas. Mercedes se aproximou e conversou com a amiga, que parecia desorientada. Colocou-a no táxi e a levou para casa.

Ainda na casa de Aurora, Mercedes ligou para Augusto e relatou o ocorrido. O filho ouviu com atenção e agradeceu o cuidado dispensado. Mal colocou o telefone no gancho e já saiu em direção à casa da mãe. Eram muito próximos. O primogênito sempre fora o queridinho de dona Aurora. Já na companhia dela, não conseguiu notar nada de diferente. Aurora não sabia explicar a razão de ter ido para o parque e não para a casa de Mercedes após as compras na feira. Estava um pouco confusa, mas ele pensou que poderia ter sido uma insolação, pois fazia calor e o sol ardia com força em um céu sem nuvens. Mesmo sem achar que poderia ser algo mais sério, ligou para Clara. A irmã era médica e poderia saber melhor o que se passara.

Clara não achou que aquele era um esquecimento natural de uma pessoa na idade da mãe. Dona Aurora tinha uma memória excelente. Havia algo de errado. No dia seguinte, bem cedo, passou na casa da mãe, a pegou e a levou ao hospital em que trabalhava. Depois de uma manhã e tarde inteiras de exames, consultas, conversas e debates entre a equipe médica, o diagnóstico foi definitivo: Aurora tinha Alzheimer.

A primeira coisa que Clara fez depois de receber a notícia, foi sentar-se com a mãe na sala de acolhimento. Com toda a clareza possível, explicou o que se passava. Dona Aurora custou um pouco a entender tudo. Levou muitos minutos para processar a informação que acabara de receber. Ela vinha esquecendo-se de muitas pequenas coisas nos últimos meses. Esquecia-se de fazer as compras do dia, de colocar o lixo para fora, esquecia-se de fazer uma visita que havia prometido. Agora, aquelas coisas que vinham lhe incomodando, mas às quais ela não dava importância, faziam sentido. Estava doente.

Depois de falar sobre a doença, sobre a evolução, sobre as terapias, sobre os cuidados, Clara disse para a mãe não se preocupar, que toda a família estaria ao seu lado, que ela teria os melhores tratamentos disponíveis. Dona Aurora ouviu tudo atentamente e não parecia preocupada. Confiava nos avanços da medicina e confiava ainda mais na filha. Se Clara disse para ela não se preocupar, ela não se preocuparia.

Tudo naquela família mudou depois da confirmação do diagnóstico. Os filhos de dona Aurora nunca haviam se visto em uma situação como aquela. Nunca tiveram de se envolver em nada da vida dos pais. Depois de perder o marido, Aurora manteve a serenidade. Na verdade, foi ela quem encarou a morte de Olavo com mais tranquilidade. Os filhos acharam que ela iria desmoronar sem o amor de uma vida inteira, mas se enganaram. Ela foi forte e segura. Foi Aurora que acabou sendo o esteio dos filhos depois da morte do pai, e não o contrário. Era uma mulher idosa e independente. Gozava de uma saúde de ferro e fazia questão de viver sem precisar da ajuda de ninguém. Costumava dizer que, no momento em que se tornasse um fardo para seus filhos, iria sumir do mapa. Pegar suas coisinhas e desaparecer no mundo.

A doença não a fez mudar o modo como via as coisas. Aurora não se sentia doente. Não sentia dores, não estava incapacitada de fazer nada. Esquecia coisas, mas havia coisas que já não queria mais lembrar mesmo. Assim, chegava até a ver algo de positivo na doença. Ela ainda estava na fase de negação. Não enxergava a seriedade do Alzheimer. Chegava a fazer troça da doença. Sempre fora assim. Fazia questão de ver o lado positivo de tudo. Mesmo quando esse lado não existia.

Os filhos, ao contrário, piraram. Clara era a única que mantinha a razão. Os outros passaram a agir de modo enlouquecido. O primeiro pensamento que veio à cabeça de todos foi: mamãe vai morrer. Uma doença séria em uma mulher idosa. Conclusão óbvia. Com o tempo, os nervos se acalmaram. Não passava um dia em que a filha médica não recebia três ou quatro ligações de irmãos e sobrinhos querendo saber detalhes sobre o quadro de saúde de Aurora. Os netos, mais antenados, buscavam confirmar o que haviam lido na Internet. Os filhos, em ignorante histeria, queriam respostas definitivas para perguntas genéricas. Clara não era neurologista, não conhecia a fundo os detalhes do Alzheimer, mas tentava acalmar a todos, esclarecendo o que podia esclarecer e prometendo descobrir mais sobre os pontos que desconhecia.

David era o neto mais jovem de Aurora. Tinha dez anos de idade recém-completados. Ele era filho de Clara. Sempre que sua mãe fazia plantão no hospital, o menino ficava aos cuidados da avó. Assim, eram muito próximos. David tinha asma e seis graus de miopia. Usava óculos de lentes grossas e não ia a lugar algum sem a sua bombinha. Há tempos ele percebia que a avó estava diferente. Ficava meio aérea em alguns momentos. Recostava-se no vidro da janela fechada e ficava olhando para a rua por muitos e muitos minutos. Nestes momentos, era como se se desligasse de todo o mundo ao seu redor. Era somente ela, aquela janela e a rua lá fora. David via as horas junto à avó como instantes mágicos de troca. Ela cuidava dele, lhe contava histórias, lhe fazia bolinhos cobertos com açúcar e canela e lhe deixava ver televisão até tarde. Ele lhe fazia pequenos favores, lhe acompanhava em saídas e lhe ajudava a lembrar onde havia deixado as chaves, o telefone sem fio e seus apetrechos de costura. Davam-se muito bem, avó e neto.

Diante do descontrole emocional dos filhos, que não conseguiam lidar com suas disfunções pessoais e com a ideia de que sua mãe estava doente da cabeça, Aurora encontrou no pequeno David o seu parceiro. O menino foi o único que não passou a vê-la com olhos piedosos. Para ele, nada mudara. Sua avó continuava a mesma pessoa. Ele não tinha pena dela, não achava que ela iria sair porta afora e se perder pelas ruas da cidade a qualquer momento. Quando olhava para ela, ele não enxergava uma idosa com uma doença mental. Para David, Aurora era a sua avó amada e era somente isso que lhe importava. Era somente isso que seus jovens olhos míopes viam.

Aproximaram-se de tal modo, que a única companhia familiar com a qual Aurora se sentia leve e relaxada era o neto mais novo. Com David, ela não se policiava, não se preocupava em se mostrar sadia, em não dar indícios ou sinais da doença que lhe acometia e que, nos momentos de solidão, a fazia se sentir cada vez mais distante de tudo e de todos.

Clara fazia plantão na emergência do hospital geral da cidade nas segundas, quartas e sextas. Além disso, também trabalhava à noite e na madrugada em um sábado e um domingo por mês. Assim sendo, David ficava com a avó em, no mínimo, 14 dias ao mês. Isso sem contar os finais de semana em que, por conta própria, o menino enchia sua mochila com algumas roupas e livros de histórias em quadrinhos e pedia para a mãe o levar para a casa de Aurora.

Tornaram-se, desta forma, mais do que avó e neto. Ficaram amigos, confidentes. David fez questão de continuar ficando na casa de Aurora nos dias de plantão da mãe mesmo depois do diagnóstico do Alzheimer. Para ele, não havia razão para deixar de fazê-lo. Sua avó não representava risco algum. Era uma senhorinha idosa muito divertida e que esquecia coisas. Era assim que ele via a situação.

Passaram-se quatro meses desde o primeiro encontro familiar em que todos souberam que a matriarca estava doente. Era, mais uma vez, um fim de tarde de um domingo. Reunidos na sala de estar da velha casa, os filhos de dona Aurora travavam uma ferrenha contenda acerca do futuro daquela família. A grande discussão girava em torno de uma questão: o que fazer com a mãe de todos eles? Não havia um consenso. Enquanto Augusto achava que o melhor para a mãe era permanecer em casa, próxima dos filhos e netos e que, para isso, todos deviam colaborar financeiramente e uma cuidadora de idosos deveria ser contratada, Antônio esbravejava contra, dizendo que o melhor lugar para a mãe era em um asilo, sob o cuidado de profissionais preparados para atender pessoas no estado de Aurora. Isabel, por sua vez, parecia pouco preocupada, mas deixava claro que não queria ter de perder tempo de sua vida cuidando de uma velha caduca. Henrique e Clara achavam que estar junto da família seria o melhor para a mãe. Entretanto, enquanto o caçula, em pé e com o dedo em riste, dizia que todos tinham a obrigação de cuidar e de dar o máximo de atenção e tempo possível para a mãe, fazendo sacrifícios para isso, se necessário, Clara, com sua cabeça de cientista, ponderava que, mais do que amor e carinho, Aurora precisava era de cuidados médicos e, portanto, ficar em casa sozinha durante a maior parte do tempo, na maior parte dos dias, não era o indicado para uma pessoa na situação da mãe.

A discussão prosseguia sem dar indício algum de que teria um fim em breve. Em meio ao bate-boca, temas correlacionados, ou nem tanto, vieram à baila. Antônio, o jogador, questionou se a mãe teria feito um testamento. Após um momentâneo silêncio de todos, disse que não era hipócrita e que não negaria que estava pensando em como seria a divisão dos bens quando a mãe morresse. Fez questão de frisar que não queria nada físico, nenhum bem, apenas dinheiro. Tentando transparecer um pudor que em nada diminuía a vergonha que estampavam em seus rostos, todos baixaram o tom de voz e não se negaram a tratar da questão por alguns minutos. Vender a casa e os dois carros antigos, que haviam pertencido ao pai deles e que estavam guardados na garagem acumulando pó, e dividir o dinheiro entre todos, foi a ideia que ganhou mais adeptos. O único que se opôs com veemência foi Augusto. Para ele, aquela casa era mais do que apenas um imóvel com preço fixado pelo mercado imobiliário. Ele percebia um valor acima do financeiro. Havia sido criado ali, vira seus filhos crescerem correndo naquele pátio. Em seu íntimo, pensou em comprar a parte de cada um dos irmãos e ficar com a casa para si. Sabia que não tinha dinheiro para isso, mas, ainda assim, passou a alimentar, em segredo, a ideia.

Quem arcaria com os custos do tratamento, quem iria pagar a cuidadora se Aurora permanecesse em casa, quem iria pagar o asilo se ela fosse para um, quem iria pagar a clínica se a internassem. Quem iria separar mais tempo para ficar junto à mãe, quem iria tratar das questões burocráticas envolvendo documentações, pagamento de contas, recebimento da aposentadoria. Quem iria acompanhá-la nas consultas médicas. Quem ficaria com ela quando precisasse ser internada no hospital. Quem?

Sentada na varanda da casa, Aurora tinha David no colo. Enquanto afagava os cabelos castanhos do menino que dormia um sono tranquilo, ela olhava para um ponto infinito à sua frente. Pensava, com lucidez, em tudo o que havia passado para alimentar, vestir, cuidar e educar aqueles meninos e meninas que, agora, discutiam em voz alta, quase gritando, na sala de estar. Pensava nas privações, nas noites sem dormir, na comida que deixou de comer para dar a eles. Tocando as suas enrugadas mãos, pensava na juventude que havia passado a galope diante de seus olhos e que se fora sem que ela tenha a acompanhado para dar uma volta sequer pelos campos da parte alta da cidade. A vida passara como um flash de luz. Ela não se arrependia de nada. Faria tudo de novo se fosse preciso. Aurora amava profundamente aqueles filhos, mas já não os reconhecia mais.


Não há cura para o mal cotidiano
Que mata, pouco a pouco, sem dor, o espírito humano.
Punhal que fere a carne não tira a vida de quem ama.
Palavra que não diz, sufoca o grito de quem clama.


Quem estava doente, afinal?


O maluco que ameaçava se jogar de cima da ponte, se jogou. Ninguém sabe a dor que o outro sente. Ninguém.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Para que as cortinas não se fechem, para que a peça não termine




“O amor é uma falácia”, ele disse antes de emborcar mais um copo de cerveja.

“O quê? O que estás dizendo? Como assim, uma falácia?”, ela retrucou com um evidente espanto na voz e na expressão do rosto.

“É uma falácia, ora. Uma mentira. O amor é uma mentira. Das grandes. Uma mentira das grandes. É isso que é o amor, uma mentira das grandes”, prosseguiu ele, erguendo a mão para chamar a atenção do garçom.

“Estás bêbado. Isso é o álcool falando por ti. Vou desconsiderar”, disse ela, com um certo ar de desdém.

“Não estou bêbado. Ou melhor, posso até estar, mas não é o álcool falando por mim. Sou eu mesmo falando. E essa é a verdade. Essa é a verdade que ninguém quer encarar. Todos têm medo. O amor dá esperança. É isso. O amor, ou melhor, a idealização do amor dá esperança para as pessoas. Ninguém sabe o que é amar de verdade. Ninguém nunca amou de verdade. E, se não é de verdade, não é amor. Por isso, o amor é uma falácia”, sentenciou ele, olhando com alguma irritação para o garçom que parecia ignorá-lo de propósito.

“Discordo. Discordo mesmo. Não vamos brigar por isso, somos amigos, mas não posso concordar contigo. Isso é besteira”, ela falou, tentando diminuir a tensão entre os dois.

“Não é besteira. Andei pensando muito nisso. Muito mesmo. Aliás, acho que só tenho pensado nisso ultimamente. Definitivamente, não é besteira. Todos os relacionamentos são essencialmente egoístas. Todos, todos. E, se é egoísta, não é amor”, replicou ele com um tom de sabedoria alcoólica ímpar.

Ela balançava a cabeça em negação, e tentava encontrar algum argumento que o colocasse na defensiva. O que não seria fácil. Ele era bem esperto e conseguia expressar e defender suas ideias de modo bem convincente. Mesmo sob o efeito do álcool.

“Sei lá, acho esse pensamento tão pessimista. Ou melhor, acho reducionista. Faz parecer que o amor é uma coisa simples. E não é simples. Amor envolve pessoas e tudo que envolve pessoas deixa de ser simples. Pessoas são complicadas”, disse ela tentando colocar a questão sob o ponto de vista da subjetividade, o que daria por encerrada a conversa. Mas não deu.

“Eu sei que as pessoas são complicadas. E umas são bem mais complicadas do que as outras. Eu sei disso. Tu achas que eu não sei disso? Pois eu sei. Sei muito bem. Eu sei que... eu sei... mas onde será que anda esse garçom?... por isso que não gosto desses bares modernos, pasteurizados, com garçons uniformizados, cobram caro pra caramba, mas o serviço é péssimo... bom... eu... ahhh... ah, sim, eu sei que as pessoas são complicadas. Mas não é reducionismo meu. Não, não, não... não é reducionismo”, ele falou, enquanto espiava de canto de olho o garçom servir a outras mesas.

“Acho que é reducionismo sim. Transformar algo tão complexo, cheio de nuances, em uma coisa tão simples. É reducionismo”, enfatizou ela, com a segurança de quem já havia lido e relido Schopenhauer e suas estratégias para vencer um debate.

Ele suspirou após ver que o homem de avental e crachá de identificação o havia esquecido mais uma vez, levou algumas batatas fritas com queijo à boca, mastigou com calma e, por fim, reiniciou sua explanação.

“As pessoas se relacionam para satisfazerem a si mesmas. Satisfazerem seus desejos, suas necessidades. Ninguém está verdadeiramente preocupado com o outro. Não há altruísmo. É disso que eu falo. Não há altruísmo. Tu me entendes agora? Não há altruísmo”, explicou ele, tentando convencê-la de sua teoria.

O rosto dela expressava uma incompreensão e, mais do que isso, uma incerteza. Claramente, ele havia conseguido balançá-la.

“Quando tu inicias um relacionamento com alguém, o faz porque isso faz bem pra ti. Tu te sentes bem com esse relacionamento. E, de modo geral, isso basta. Ninguém fica com uma pessoa porque isso faz bem para essa pessoa. Fica porque faz bem para si mesmo. Aí reside o egoísmo! Todo mundo se coloca como figura central na relação. Em um envolvimento sadio, não há figura central. Mas isso é impossível. Sempre buscamos satisfação pessoal. Por isso que eu digo que o amor é uma falácia. É um fato”, sentenciou ele com certo orgulho intelectual.

 “Tu falas da boca pra fora. Nem tu acreditas nisso. Sempre foste um romântico. Eu me lembro, lembro muito bem. Quando tu te apaixonavas, ficava insuportável. Sério, ficava mesmo. Era difícil te aguentar. Eu sempre aguentei, pois somos amigos de infância, mas era bem difícil”, falou a moça da boa memória e grande sinceridade.

“Aí está! É verdade! A mais pura verdade. Eu era muito romântico. Era mesmo. Acho até que ainda sou. Mas romantismo e amor são coisas bem diferentes. Muito diferentes. Amor em uma relação pressupõe duas pessoas. Romantismo é algo individual. Ninguém precisa de outra pessoa para ser romântico. Ninguém é romântico por outra pessoa. Se é romântico e ponto. Eu sou romântico. Vou ser sempre romântico. É uma característica minha. Não acho que posso mudar isso”, replicou o homem que escrevia acrósticos para suas primeiras paixões.

“Se tu és romântico, acreditas no amor”, alfinetou ela, interrompendo-o.

“Nada a ver, nada a ver. Eu sei que isso parece ter sentido, realmente parece, é o senso comum, mas é uma visão míope da coisa. Eu já tive sentimentos muito fortes por outras pessoas sim. Tu sabes bem. Eu sempre te contei tudo. Sabes mais da minha vida amorosa do que eu mesmo. Eu sou romântico porque sou um idealista. Sacaste? Eu idealizo tudo e as relações não são exceção. É por isso, aliás, que estou solteiro há tanto tempo. As relações, namoros, casamentos, são um teatro. Cada um interpreta o papel que acha que deve interpretar para que as cortinas não se fechem, para que a peça não termine, para que continue suprindo suas necessidade sociais, sexuais, materiais, para que tudo tenha alguma coerência, para que todos ao redor vejam como aquela relação é bonita, como são belos juntos, como se gostam”, explicou ele, buscando referências nas artes, uma paixão dela, para tentar convencê-la de uma vez por todas.

“Quer dizer que achas que todo namoro, todo casamento, é uma relação de fachada? Pra inglês ver?”, ela questionou, com uma expressão de deboche na face.

“Basicamente, isso. Eu não definiria melhor.“

“Que idiotice.”

“A prova de que todas as relações são intrinsicamente egoístas é o fato de que ninguém se relaciona com alguém pelo qual não tem interesse físico. A pessoa gosta de mim, quer ficar comigo, eu acho ela demais, uma companhia perfeita, mas, se ela não me atrai sexualmente, nada irá acontecer entre nós. As pessoas pensam em si mesmas em toda relação. O outro, o companheiro, é um meio para um fim. Satisfazer a si próprio”, disse ele com um tom de incisiva certeza na voz.

“Mas é claro que a gente só vai ficar com alguém que nós atrai....”

“É isso!! O sexo. É isso. Tudo se resume ao sexo. Uma pessoa pode ser inteligente, educada, culta, elegante, divertida, ter todas as qualidades que fazem dela um bom indivíduo, mas, se não atrair sexualmente, não serve. Acho que um pouco do nosso eu primitivo influi nessa questão, mas ainda não sei bem até que ponto. Preciso pensar mais sobre isso”, admitiu ele com alguma humildade.

“Não sei... até que faz sentido, mas eu tenho dificuldades em..., sei lá, em aceitar essa ideia. Porque, se for assim mesmo, as coisas perdem o encanto, sabe? Não existe mais magia. É tudo preto e branco. Entende? Não tem vermelho, azul, amarelo, lilás. É tudo tão sem graça sem a magia”, lamentou ela enquanto agradecia com um menear de cabeça a garçonete que, finalmente, tinha lhes trazido mais cerveja.

“E é por isso que, mesmo não havendo magia, as pessoas insistem em criá-la. A gente vive em um uma realidade que criamos para que não percebamos que o sentido da nossa vida se resume a sobreviver. Em suma, é isso. A garantia de um parceiro sexual e de alguém para cuidar de você quando estiver velho. É nisso que consistem os relacionamentos”, reafirmou ele, percebendo que ela começava a concordar com o que dizia.

“É... que triste pensar nisso. Se imaginar envelhecendo sozinho não é legal mesmo. E tenho de concordar contigo sobre o sexo. Eu nunca me envolvi com alguém que não me atraísse fisicamente. Mas é algo natural, né? A gente não fica pensando nessas coisas antes de iniciar um namoro. Eu não penso, nunca pensei. Simplesmente aconteceu. Então, não agimos assim, dessa forma pragmática, de má fé. Só agimos.”

“Sim, sim. Não há má fé. É o nosso instinto sobrepujando nosso ser social. Amor de verdade, amor puro, sem interesses pessoais envolvidos, sem desejos, sem necessidade de reciprocidade, esse amor que todo mundo diz sentir quando está namorando, ou quando é recém-casado, só existe de pais para filhos. Ou na velhice, quando a beleza física se esvaiu com o tempo. Entre duas pessoas jovens sem relações de sangue, não existe amor. Existe instinto e interesses travestidos. É uma verdade dura de ser dita, mas é uma verdade”, conclui ele, com a triste satisfação de ter feito mais uma pessoa enxergar o mundo pelos seus olhos desiludidos.

Passava das duas horas da madrugada quando eles se levantaram, deixaram o dinheiro da conta sobre a mesa – sem gorjeta para o garçom – e se foram, caminhando pela noite adentro. O motel ficava a três quadras do bar. Não precisavam pegar um táxi.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Era o Gato de Schrödinger


Em vão, ele tentava se desvencilhar de uma relação que o prendia ao nada. Não era amor, era frágil. Tampouco paixão, não era elétrico. Sentia-se se movendo em um terreno arenoso. Dispendia grande esforço a cada passo, mas não saía do lugar. Há meses, vivia em um constante looping. Tinha necessidade de avançar, de seguir em frente, mas era o personagem de uma história que não viveu.

Tentava não pensar mais nela. Não havia motivos para pensar nela. Não mais do que pensava em qualquer outra pessoa que conhecia. Seu cérebro lhe pregava uma peça. Era o Gato de Schrödinger. Ao mesmo tempo, estava e não estava em um relacionamento.

Via-se preso em uma teia de fatos que não haviam acontecido e sensações que não havia sentido. Era um fantoche controlado por si mesmo. Com frequência, se pegava pensando de quem era a culpa. Era sua, sem dúvidas. Iludira-se com uma promessa que nunca fora feita. 

Caçava nuvens como se fossem borboletas. Tocava-a, mas não a sentia em suas mãos. Estava perturbado. Todos em seu círculo de convívio já haviam percebido. Tentava disfarçar, buscava um refúgio em piadas que não lhe divertiam.

Ela o enganava. Aproximava-se para controlá-lo, mas conservava uma distância segura para manter viva a ilusão de que o queria, mesmo sem tê-lo desejado uma vez sequer. E ele vivia essa ilusão. Sabia que estava sendo usado, mas não conseguia evitar fazer parte daquele mise em scène. Era o jogo e o jogador. Vítima de si mesmo e da vontade de ser mais do que apenas um indivíduo. Queria fazer parte de algo maior. Queria ser parte da vida de outra pessoa.

Estava confuso. Intercalava momentos de profunda racionalização com instantes de emocionalismo juvenil. Dizia para si mesmo que era preciso ignorar seus sentimentos, mas não ouvia a própria voz. Além disso, seu corpo teimava em somatizar a ilusão que seu cérebro criava.

Não era uma pessoa com uma vida social muito ativa. Tinha poucos amigos. Passava os seus dias trabalhando, lendo, escrevendo e dormindo. Depois que a conheceu, porém, produzia pouco no trabalho, lia, mas não prestava atenção nas palavras, escrevia, mas não dizia nada.

O sono era um caso à parte. Já não se lembrava de quando fora a última vez em que dormira uma noite inteira sem sonhar com ela. Acordava sempre no meio da madrugada e a história terminava sem um final. Levantava da cama, caminhava pela casa, saía porta afora. A brisa, a escuridão e o silêncio - quebrado somente pelo ladrar dos cães ao longe - o acalmavam. Tentava esvaziar a cabeça, se livrar de todos os pensamentos. Buscava um estado anterior ao da consciência. Queria encontrar-se com o nada. Fracassava todas as noites.

Tentou evitá-la. Seu envolvimento com ela, porém, estava além da presença física. Era mais do que físico. Era metafísico. Não sabia ao certo se o que o atraia era ela, em sua essência, carne e presença, ou se era o que ela representava. Nem mesmo sabia o que ela representava. Era mais o efeito que ela produzia nele do que a existência dela. Era mais o saber que ela existia do que o fato de ela realmente existir.

E ela existia mais dentro dele do que fora. Ela se tornara parte dele. Estava com ele, ia para onde ele ia. Ela se tornara mais real nele do que em si mesma. Com o passar do tempo, ele a desfizera e a reconstruíra em sua experiência sensorial. Ela era única para ele.

Estava, assim, de certa forma, feliz. Ela não seria de mais ninguém. Mesmo nos braços de outros, mesmo revivendo inacabados amores antigos, ou descobrindo excitantes novas paixões, ela seria somente dele. Aquela a quem ele criara em seu íntimo, não seria de mais ninguém.

Deste modo, tendo conseguido se ver livre da existência dela fora de si mesmo, ele passou a ser indiferente à sua presença física. Ela já não o tirava dos trilhos. O atraía assim como qualquer outra bela e inteligente mulher o atraía. Conversavam, divertiam-se juntos. Ele ainda a desejava. Àquela a quem via quase que diariamente. Quem estava em seus pensamentos, porém, era a outra.

Por muitos e muitos meses, essa dualidade o deixou sereno. Não havia mais conflito. Não tinha com o que se preocupar. As aparências estavam mantidas. O segredo, protegido.

Não era mais o olhar, era a representação do olhar recriado em sua imaginação. Sabia que não era real, que tudo era um produto de sua mente. Isso, entretanto, não impedia que se sentisse em meio a um conflito que, o mesmo tempo, lhe confundia os sentidos e lhe impelia a buscar uma resposta que sabia que não queria encontrar.

Aos poucos, foi perdendo o controle. Já não conseguia mais distinguir uma da outra. Eram tão diferentes, mas eram a mesma. Estava tudo embaralhado, peças de um quebra-cabeça girando sob um chão de imagens ora nítidas e cristalinas, ora escuras e opacas. A realidade não era mais tão real. A fantasia se materializava diante dos seus olhos incrédulos.

Flertava com a loucura. Andava de mãos dadas com o medo.  

Teria de matá-la. Era isso, teria de matá-la. Já não conseguia mais viver com ela. Já não conseguia mais viver sem ela. Teria de matá-la. Sim, teria de matá-la.

Mas a quem teria de matar? A sua adorável invenção imaginária, ou aquela mortal de carne e ossos que o enfeitiçara? A criatura ou a criação? As duas, quem sabe?

Não era um assassino. Não mataria uma pessoa real. Gostava dela. Não poderia matá-la. Não faria isso. Estava certo, entretanto, de que também não seria capaz de dar fim à mulher que moldara à sua própria maneira. Ela era exclusiva, uma obra de sua ilimitada capacidade criativa. Orgulhava-se dela. Não a apagaria de sua mente.

Chovia muito na noite em que ele fez o que sabia que teria de fazer. De uma forma ou de outra, teria de fazer. Já era madrugada e ele caminhava sozinho pela rua. Havia perdido a noção do tempo. Não levava um relógio consigo. Não se importava com isso. Horas, minutos, segundos. Nada disso importava. Queria se concentrar. Precisava buscar dentro de si uma resposta. Procurou em todos os esconderijos de sua mente. Reencontrou-se consigo mesmo no passado e percebeu que sempre fora um bom homem. Dia após dia, ano após ano, da sua infância àquela noite chuvosa, revisitou a sua vida. Compreendeu, então, que fora uma ilha. Fora tudo aquilo que as pessoas que cruzaram o seu caminho faziam parecer que era o que admiravam em alguém, mas que, na realidade, era o que desprezavam. Não era um canalha aproveitador. Era um bom homem. Este havia sido o seu erro.

Aquela que acreditava ser sua principal qualidade, a crença fiel no seu semelhante, havia lhe traído.

Eis, então, que, por um instante, teve uma epifania. A tempestade havia passado, as nuvens se dissiparam. Um céu de um azul inocente cobria todo o horizonte. Aos seus pés, campos de lírios forravam a terra fértil.

Era isso. Definitivamente, faria o que sabia que tinha de fazer.

Saiu em disparada, pulando poças. Seria naquela mesma noite. Teria de ser naquela mesma noite. Parado junto a um prédio, olhou por não mais do que um instante para o bloco de concreto que se erguia à sua frente. Nunca havia estado ali antes, mas sabia exatamente onde a encontrar. A decisão estava tomada. Não iria voltar atrás. Respirou o mais fundo que pôde. Estalou os dedos das mãos e seguiu.

Matou-a.

Uma brisa fresca tirou a sua franja dos olhos. O temporal cessara. O dia estava prestes a amanhecer. Estava leve.

Quando acordou pela manhã, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi uma dúvida. Não sabia distinguir de qual das duas havia tirado a vida. A real ou a imaginária. Talvez tivesse eliminado ambas. Isso não lhe preocupou, porém. Tanto fazia. Estava, enfim, livre. Estava livre da mentira que o corroía, livre da mentira que sugava suas forças e o impedia de ir em frente. A havia matado e estava bem consigo mesmo. Tão doce era o sabor da liberdade. Lambuzou-se com o mel da redenção e sentiu nas mãos o apaixonante toque da verdade.

Carregou em seu íntimo, porém, o doloroso e pesado fardo da dúvida por todos os seus anos de vida restantes. Quando, no leito de morte, estava prestes a expirar, ouviu uma voz manipuladora e escorregadia, uma cruel e insensível voz aguda, sussurrar ao seu ouvido.

“Sempre foste meu. Nunca fui tua.”

Em sábio silêncio, sorriu um sorriso ácido e pensou consigo mesmo: 

“Pobre criança, tão rasa é a consciência dos que acreditam na reciprocidade do amor.”


domingo, 22 de março de 2015

Aquela bala que levava o seu nome teria de lhe encontrar



Ele acordou sobressaltado. Sabia exatamente o dia, a hora e como iria morrer. Não sabia ao certo se havia sido um sonho, se havia viajado no tempo, ou qualquer outra coisa. Apenas sabia. Iria morrer em um dia 12, às 18h39min, de um uma bala perdida que atravessou seu peito e rasgou seu coração.

Descalço, caminhou trôpego, esfregando os olhos, até o banheiro. Abaixou a cabeça junto à pia e borrifou água corrente. Estava desperto. Na cozinha, encheu uma caneca com café forte e fumegante. Abriu a porta que dava para a sacada do apartamento e sentou-se do lado de fora na cadeira de palha que comprara no brique por um preço bem em conta.

Enquanto bebia o café em goles rápidos, tentava buscar em sua cabeça detalhes de sua perturbadora experiência. Não havia um lugar. Não conseguia visualizar um local específico. Era uma via movimentada. Muitos carros, muita gente. Prédios muito altos e comércio por todo o lado. Não recorda de ter visto árvores. Nem pássaros. Barulhos diversos. Motores, buzinas, betoneiras, gente gritando em microfones.

O dia começava a ganhar vida lá fora. Do alto – morava no quinto andar – podia ver os estudantes com suas mochilas correndo para não perder o ônibus, os trabalhadores das fábricas do Norte da cidade com suas bolsas a tiracolo, os homens dos escritórios com o jornal sob o braço e o smartphone em uma das mãos, os vigilantes voltando para casa, sonolentos, depois de mais uma madrugada de tediosa atenção.

Olhou para a estante da sala e viu, de longe, o calendário. Era dia 9. Poderia ser dentro de três dias. Três dias. Andando na rua, um estampido seco, o impacto no peito, um grito de horror, sangue nas mãos, caído na calçada, dor lancinante, a visão turva, as forças se esvaindo, o silêncio eterno.

Jogou a caneca na pia cheia de louça suja e foi tomar banho antes de ir para o trabalho. Era um vendedor de seguros de meia idade. Passava o dia todo batendo perna nas ruas, oferendo apólices para qualquer pessoa que encontrasse e na qual enxergasse um potencial comprador. Ele não era bom naquele trabalho. Não havia nascido para fazer aquilo. Tinha a fala arrastada e em tom baixo. Não convencia ninguém de que assinar um contrato de seguro de vida era algo imprescindível. Sendo assim, era um fracasso como vendedor.

Não desistia, porém. De certa forma, acordar cedo, vestir uma camisa, colocar uma gravata, uma calça social, calçar sapatos desconfortáveis que lhe machucavam os calcanhares e pegar uma maleta cheia de papéis, era o que lhe sustentava. A companhia de seguros lhe fornecia tíquetes de alimentação para o almoço e um lanche da tarde. Além disso, ganhava um salário fixo que, mesmo sendo uma mixaria, era o suficiente para pagar as contas. Não pagava aluguel. O apartamento havia sido deixado no testamento por sua avó como herança para ele, o único neto.

Quando pôs os pés na calçada da rua em frente ao prédio, sentiu-se vulnerável. Sabia que não seria ali. Morava em uma rua transversal calma, movimento só de moradores, apenas uma padaria como comércio, prédios antigos e com poucos andares. Se quisesse fazer alguma venda, entretanto, teria de ir para as vias mais agitadas da cidade, com muita circulação de pessoas. Respirou fundo e iniciou a caminhada até o ponto de ônibus. Definitivamente não seria ali e não seria naquele dia.

Acordou cedo no dia 12. Na verdade, dormira bem pouco. Estava ansioso. Tinha medo. Ainda não havia amanhecido. Caminhou apoiando-se nas paredes até a cozinha. Abriu a geladeira e encheu um copo com água gelada. Tinha a boca seca. Foi à janela e percebeu que chovia. Forte. Chovia forte. De súbito, percebeu que, no seu sonho ou digressão, seja lá o que tenha sido aquilo, não chovia quando ele era alvejado no peito. Ao contrário, um grande sol raiava em um céu de um azul brilhante. Não haveria de ser naquele dia, portanto. Ele teria, ao menos, mais um mês de vida. Sorriu. Um mês não é muita coisa, mas é melhor do que apenas algumas horas.

O mês se passou. Ele trabalhara bastante, caminhara muito, muito mesmo. Seus joelhos doíam e seus pés o faziam gritar de dor ao final dos dias. Havia feito cinco vendas. Cinco vendas em um mês. Duas delas, ficou sabendo depois, foram canceladas no mesmo dia. A pessoa se empolgou, achou interessante e assinou. Chegou em casa, pensou melhor, conversou com a família, e voltou atrás. Acontecia sempre. Para ele não fazia muita diferença. Recebia sua comissão independentemente de o cliente desistir depois de assinar ou não. Fizera seu papel. Convencera a pessoa a comprar. Se o produto não era bom o suficiente para manter o cliente, a culpa não era dele.

Nos trinta dias seguintes, viveu como se estivesse em uma contagem regressiva. Custava a pegar no sono. Ficava pensando em sua sina. Por quê? Era um bom sujeito. Honesto, trabalhador, educado com as pessoas. O que fizera para merecer essa maldição? Não conseguia recordar de nada. Sequer matava os insetos que entravam voando pela janela do apartamento. Os recolhia de algum modo e os colocava para fora. Era um bom sujeito, sem dúvida. Por que não viu o mês? Por que não viu o ano? Seria bem mais fácil aceitar sua sina se assim tivesse sido. Mas não foi. Agora, sabia, tinha absoluta certeza, de que morreria em um dia 12, às 18h39min, de um balaço no peito. Eram 12 as possibilidades de morrer no ano, em qualquer um dos dias 12, em qualquer uma das 18h39min, hora que, percebeu depois, somando-se os algarismos, resultava no número 21, que é 12 ao contrário. Sim, estava ficando maluco.

Com a vida se equilibrando em uma tênue linha invisível, ele passava seus dias como se estivesse, emocionalmente, em uma montanha russa. Alternava momentos de euforia incontida, com instantes de prostração intensa. Comia pouco e rapidamente, evitava dormir, passava as noites em claro, zanzando pelas ruas, sentado junto a balcões de bares, bebendo em festas com gente que não conhecia. Não queria perder um segundo sequer de sua vida. Não podia se dar ao luxo de perder um segundo sequer. Corria contra o relógio. Não podia perder, não antes da linha de chegada. Não iria se entregar. Estava decidido, não iria se entregar. Aquela bala que levava o seu nome teria de lhe encontrar. Não seria fácil. Não iria deixar que fosse fácil. Esgueirava-se por entre becos escuros, passos rápidos e precisos. Os olhos bem abertos, atentos, feito uma zebra na savana africana.

Não tinha mais medo. Deixou o medo em uma das esquinas nas quais dobrara. Iria lutar contra um destino que estava escrito, mas que poderia muito bem ser editado. Reprogramou sua vida. Faria todos os caminhos e visitas pelas principais e mais movimentadas vias em todos os dias que não fosse o dia 12. No dia 12, caminharia por ruas tranquilas, por dentro dos bairros, descobriria uma cidade que não conhecia. Não importa se não venderia nenhuma apólice de seguro. Sua vida valia mais do que uma comissão de 10%. Ao menos, ele achava isso.

Perdia horas e horas dentro de ônibus nos quais não precisava ter embarcado, somente para evitar passar pelas zonas comerciais. Evitava tudo o que envolvesse os números 12 e 21. Depois de um tempo, passou também a fugir do 3, que era a soma dos algarismos de suas dezenas do azar.

Viu paixões se desfazerem, viu a morte de amores que ainda não haviam nascido. Viu velhos amigos se afastarem, viu novas amizades se esvaírem. Viu fantasmas andando ao seu lado. Nunca mais foi feliz.

Assim, feito um escravo de um sonho, viu os anos escorrerem por entre seus dedos magros. O tempo foi cruel com ele. Passou lentamente, arrancando, em vão, cada parte de uma vida à espera de um fim.

Tinha 93 anos quando seu coração parou de bater em razão de um infarto. Estava sozinho.


Morreu cansado de esperar por uma morte que não veio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tamires queria voar


Desde muito pequena, Tamires dava sinais de que era uma menina diferente das outras.

Ela sempre se sentia no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas. Era isso e era sempre assim.

Era tudo muito estranho. Sentia-se deslocada, como se fosse a protagonista da história de outra pessoa. As coisas não faziam sentido. Não se encaixavam. Uma valsa descompassada.

Palavras vazias sem contexto.

Recortes de histórias pueris.

Retratos de gente sem rosto.

Ela, porém, não se queixava. Tentava se adaptar. Na medida do possível, levava uma vida normal. Mas ela não era normal. Ela era diferente. Diferente aos olhos dos outros e diferente aos seus próprios olhos. Ela era um ponto de exclamação.

Ser menina não é fácil. Não é naturalmente fácil. Por isso que elas são mais fortes. O mundo cobra mais, elas respondem na mesma moeda. Tamires tinha uma personalidade inflamável. Era lago tranquilo quando calma e em paz. Era mar revolto quando provocada. Podia ser brisa, podia ser furacão.

Era uma força da natureza.

Doce e indócil. Raio e trovão.

Na escola, ela sempre fora uma ótima aluna. Dedicada, atenciosa, educada. As boas notas nas provas e nos boletins escolares eram o resultado de uma combinação de sua rapidez de raciocínio, sua curiosidade e desejo de sempre querer saber mais sobre tudo, e de sua constante insatisfação e inconformidade com o básico.

Não gostava da planície. Preferia os altos e baixos.

Ela sempre pensava um passo adiante. Sempre vislumbrava o próximo movimento. Teria sido uma brilhante enxadrista se tivesse se interessado pelo jogo. Mas ela nunca foi uma entusiasta de jogos. Suas vitórias vinham em cada descoberta, em cada aprendizado, em cada porta que se abria em seu cérebro e que fazia com que novos lugares pudessem ser conhecidos.

Ela era uma exploradora. Sua imaginação a desafiava.

Campos de plácidas vidas, de vivas cores.

Nuvens de algodão doce, estrelas de neon.

Tamires não tinha muitos amigos. A bem da verdade, eles eram bem poucos. Ela despertava uma reação paradoxal nas pessoas. Atração e repulsa andavam lado a lado. De vez em quando, tocavam as mãos. Nesses instantes, era puro frisson. Tamires era magnética.

Ela era o caos.

Um turbilhão.

Uma tempestade.

Um grito de horror.

Um riso incontido.

Pois bem. Apesar de ainda na infância já se sentir uma estranha onde quer que estivesse, com quem quer que fosse, foi na transição da adolescência para a idade adulta que o sentimento de não pertencimento se apossou de Tamires por completo. Ela não era daquele lugar. Não era de lugar algum.

Tamires floresceu. Um lírio em meio ao deserto.

Enquanto todos os que a rodeavam buscavam sensações – frugais, banais, viscerais, lancinantes –, ela buscava sentimentos – intensos, profundos, duradouros, plenos.

Vivia paixões. Estava permanentemente apaixonada. Amores platônicos, imaginados, imaginários. Assim eram os seus preferidos. Tivera relacionamentos, daqueles clássicos de adolescentes. Amor? Talvez tenha amado, não sabia ao certo. Sempre se achou muito mais madura do que qualquer pessoa da sua idade, principalmente meninos. Preferia se perder nas histórias de seus livros a buscar alegria rasa e banal em um copo de cerveja ou em uma noitada de risos vazios, abraços vazios, gritos vazios, beijos vazios. Não fugia ou se escondia de seus problemas. Enfrentava-os, não sem derramar algumas lágrimas. Nunca foi atraída por festas, nunca gostou de agitação. Tinha em suas coisas, seu quarto, seus pensamentos malucos e suas ideias mirabolantes o seu casulo.

Música alta e saltos sobre a cama.

Ela era uma inconformada. Uma incompreendida. Uma incompreendida inconformada. Difícil de entender, ainda mais difícil de explicar.

Inexplicável. Incompreensível.

Entretanto, ela era uma menina do seu tempo. Suscetível às influências da cultura local. Suscetível ao ambiente que a rodeava. Vivia em uma cidade de tamanho médio. Nem pequena nem grande. Isso já a incomodava. Não gostava do meio termo, da imparcialidade. Ela sempre tinha um lado. Era entusiasta dos extremos!

Gostava dos sorrisos enormes, das gargalhadas. Quando chorava, as lágrimas escorriam por sua face em profusão. E ela chorava com frequência. Nunca teve problemas com isso. Nunca teve problemas em se expor.

Era crua. Era bruta. Era joia incomum. Onda quebrando na praia. Gota de chuva explodindo na terra.

Medos? Tinha muitos. Todos eles, talvez. Tinha medo de barata, medo de ficar sozinha em noites silenciosas. Tinha medo de morrer, mas não de viver. Fazia isso com excelência de uma serelepe criança. E era assim, com impulsiva força vital, que enfrentava os seus temores. Não há glória em não sentir medo. Isso não é coragem. Tamires segurava o medo com suas mãos, segurava-o com força, fazia dele parte de si mesma. Ela era os seus medos.

Passava uma falsa imagem de fragilidade. Fisicamente, era pequena. Aos olhos de quem a via e não a conhecia (como eu a conhecia), ela parecia poder se quebrar ao primeiro toque, ao primeiro abraço.

Talvez, essa tenha sido uma das razões para ter construído uma fortaleza ao redor de si. Não a única razão. Tampouco a mais importante. Sentia-se sozinha. Sentia-se principalmente sozinha quando estava rodeada de pessoas. Em família, nas ruas, na faculdade, no trabalho. Nada em comum. Uma intrusa em terras hostis. Sendo assim, nada mais natural do que se proteger, se manter acuada.

Essa muralha que a mantinha a uma distância segura de tudo aquilo que poderia machucá-la, aborrecê-la ou magoá-la, por outro lado, alimentava a sua furiosa vontade de ser livre. Perdida no mundo em que vivia, criou o seu próprio. Seu mundinho particular. Lá, ela poderia ser quem quisesse, inclusive ela própria. Lá, não havia julgamentos, preconceitos ou inveja. Tudo era tão harmonioso e sincero naquele mundinho particular. Tudo era tão belo, tão singelo.

Campos de flores multicoloridas. Rios e lagos de águas límpidas. Montes nevados e vales verdejantes. Uma casinha de madeira simples, no meio da mata, longe de tudo. E um amor. Ela não precisava de mais nada.

Tamires era uma das pessoas raras. De uma espécie única. Para alguns, excêntrica. Para outros, arrogante. Uma vez eu li em um dicionário que excêntrico é aquele que está afastado do centro. Combinava com ela. Combinava direitinho.

Gostava do silêncio. Quietinha, sentindo a respiração. Ouvindo o coração bater. Estar consigo mesma. Sentir-se plena.

Era uma força interior. Uma chama latente. Era uma águia selvagem, um corcel indômito. Precisava se libertar. Precisava tomar o tempo em suas mãos. Precisava sentir o mundo girando sob seus pés.

Era um domingo. Ela havia acordado mais tarde do que de costume. Brincava com Princesa, sua cadela de estimação, quando percebera algo estranho em si mesma. Havia alguma coisa de diferente. Era algo físico, mas era mais do que isso. Seu espírito parecia inquieto. Seu coração pulsava em um ritmo frenético.  Estava arrepiada. Não conseguindo, porém, descobrir o que era, tratou de deixar para lá. Não havia de ser nada demais. Tentou esquecer.

Almoçou com a família e se recolheu ao quarto. Foi ali que, pela segunda vez no dia, sentiu que havia algo errado. Alguma coisa a incomodava, um desconforto, mas ela não tinha a menor ideia do que poderia ser. Deitou-se na cama, catou um livro na estante e começou a leitura. Percorreu as páginas por não mais do que meia hora. Era um bom livro, mas não a fez ingressar na história, não a fez querer estar lá, junto com os personagens, ser um deles. História bem escrita, mas sem vida. Sentiu as pálpebras pesarem sobre os seus olhos. Deixou o livro sobre o criado mudo e recostou-se. Dormia.

Então, se viu no alto de uma montanha. Ventava forte. Um ar limpo e fresco adentrava em seus pulmões e os enchia de pura vida. No horizonte, montes, vales, rios e lagos. Cores múltiplas. Uma pintura. Estava em casa. Seus olhos marejaram. Chorou.

Quando despertou daquele sonho, sabia exatamente o que havia de estranho, sabia o que estava diferente. Quando despertou daquele sonho, sabia o que precisava fazer. Não tinha mais dúvidas. Estava claro, límpido como um céu de primavera.

Levantou-se e saiu correndo em disparada.

Sem nada nas mãos. Os olhos, bem abertos, faiscavam. Não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas estava indo. O mais rápido que podia. Nada importava além de si e da vontade insana de seguir em frente. Não pensava em nada.

Enquanto corria, sentia, mais uma vez, aquela sensação estranha. Estava elétrica. Algo estava prestes a acontecer. Algo muito grande estava prestes a acontecer. Sentia isso em sua pele.

E, então, correu ainda mais rapidamente. Seus pés quase não tocavam o asfalto. Ela flanava. Estava descalça.

Suas costas formigavam. Seu sangue fervilhava em suas artérias.

Sentia que toda a sua vida fora uma preparação para aquele momento. Todas as dificuldades, todas as barreiras, todas as conquistas. Todas as emoções. Toda a dor. Tudo. Tudo fora um processo de maturação. E eis que, agora, ela estava pronta. Havia chegado a hora. Tudo se conectava, todos os fatos, todos os momentos, os dissabores e as alegrias, todos formavam uma teia perfeita de eventos que a levaram até ali.

Cada vez mais rápido. Cada vez mais rápido. Mais rápido. Mais rápido. Mais rápido.

Mais rápido.

Tamires vivia no mundo da lua. Aquele era o seu mundo. Os olhos, sempre voltados para o alto. O pensamento, nas nuvens. Era lá que ela queria estar.

Nunca gostou de ter os pés no chão. Aquilo lhe limitava. A natureza havia lhe desafiado. Aquela era a sua provação.

Ultrapassar os limites, cruzar os céus.

Braços para o alto, mãos espalmadas.

Seus sonhos eram o seu impulso. Seu espírito, suas asas.  

Tamires queria voar.

Um risco no azul, por entre as nuvens, um ponto no céu.

Tamires era pássaro, era estrela, era raio. Tamires era energia pura.

Tudo era pequeno demais para ela aqui em baixo. Tudo muito restrito. Tudo muito mesquinho. Ela queria mais. Precisava de mais.

Foi em um domingo à tarde que ela se libertou.

Agora, está exatamente onde deveria estar.

Pode ser vista rasgando o céu nos dias de ventania.

Pode ser sentida nas noites quentes de verão.


Livre.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015



Despertar

Florir da manhã.
Pedaço de céu.
Olhar infantil.

Passos entre as nuvens.
Cores no campo.
Gesto sutil.

Café sobre a mesa.
Resquício de tempo.
Sentir e tocar.

Aceno pra rua.
Carinho de mãe.
Sorrir e sonhar.

Sussurro no ouvido.
Palavra não dita.
Silêncio vazio.

Viver de saudade.
Lembrança que brota.
Nas águas do rio.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Gota de sangue sobre um nome riscado em uma página de jornal


Sentado na antiga cadeira estilo Luis XV que havia comprado em um antiquário há cerca de um mês, ele olhava para a pistola que tinha em mãos. Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.

O apartamento estava uma bagunça. Janelas fechadas, penumbra, cheiro de mofo. Garrafas jogadas pelo chão, contas vencidas sobre mesa da cozinha. A vida havia lhe abandonado. Agora, ele pensava se devia deixá-la ir também. Há tempos já não se davam bem. Não se entendiam. Tinham suas próprias prioridades. Não carregava mágoas. Tiveram seus bons momentos. Era hora de se despedirem. Cada um para o seu lado. Um adeus. Um aceno distante.

Não tinha sido difícil conseguir a arma. Bastava dar alguns telefonemas, conhecer as pessoas certas, ter dinheiro em mãos. Voilá! Sem perguntas, sem nomes. Um negócio de cavalheiros. Há pouco mais de seis meses, fizera um empréstimo com um facilitador financeiro urbano, ou um agiota, como queira. Um profissional famoso na cidade, também conhecido como Lambari. A alcunha havia sido dada em razão de todos saberem que o velhote magro, de movimentos ágeis e precisos, e de poucos cabelos, era peixe pequeno no esquema de empréstimo de dinheiro a juros altíssimos. Era só um testa de ferro. Os tubarões sequer passavam perto daquela parte da cidade em que atuava. Ele nunca havia feito uso de tais serviços. Sabia que era um poço sem fundo. Um caminho sem volta. Mas, desta vez, o perigo era real. Dívidas de jogo, cobradores furiosos e sem escrúpulos. Precisava estar preparado para se defender, se fosse preciso. Com o dinheiro, comprou a arma. Contraiu uma nova dívida para se defender de quem iria atrás dele cobrar dívidas antigas. Ele não pensava muito no que fazia. Apenas fazia.

Não sabia atirar. Nunca havia feito um disparo na vida. Mal sabia manejar a pistola que jazia dentro da gaveta do armário de roupas, sob as cuecas e meias. Aliás, sempre tivera aversão a armas de fogo. Era um pacifista convicto. Acreditava na força da palavra como meio para se resolver tudo. Agora, porém, ele estava ali, sozinho em meio à sua decadência, com uma pistola automática nas mãos, tentando criar coragem para dar fim a tudo aquilo que lhe perturbava, que lhe causava dor.

Aquele fatídico dia amanhecera nublado. Não era possível ver nem uma pequena nesga de azul no céu plúmbeo. Ele acordara com uma ressaca colossal. Havia passado boa parte da madrugada bebendo whisky vagabundo, fumando cigarros baratos, jogando pôquer à dinheiro e flertando com garotas sem esperança. Mais um dia normal.

Abriu a geladeira para ver o que tinha lá dentro e que poderia saciar sua fome. Pouca coisa. Uma caixa de leite pela metade, duas fatias de pizza de calabresa, uma jarra de água e alguns tomates estragados. Pegou a caixa de leite. Esvaziou-a no liquidificador e jogou dentro dele duas bananas pra lá de maduras que jaziam na fruteira ao lado do botijão de gás vazio. Bebeu dois copos da batida. Já se sentia melhor. Com as mãos unidas em concha, jogou água no rosto marcado por uma vida errática de excessos. Pegou as chaves e saiu.

Caminhava com dificuldade. Arrastava-se. Sentia na boca uma mistura pastosa de banana, fumaça e álcool. Na banca do fim da rua, pegou o jornal do dia. Ainda antes de dobrar a esquina em direção ao porto velho, comprou dois maços de cigarro de um ambulante.

Não tinha ideia de como seria o seu dia. Não cultivava planos. Fazia o que tinha de fazer e esperava para ver no que ia dar. Assim, tudo ficava muito mais fácil. Sem projeções. Sem complicações desnecessárias.

Não tinha perspectivas. Vagava pelas ruas sem direção. Era um vagabundo. Um vadio. Agia conforme seus instintos. Ia para onde eles o levavam. Naquele dia, decidira que iria dar uma volta nos arredores do porto velho. Gostava de lá. Gostava dos prédios históricos caindo aos pedaços, do cheiro de peixe podre. Gostava da gente com sandálias de couro puído. As faces vincadas pelo tempo e tostadas pelo sol litorâneo.  Gostava do sal que dava a tudo um aspecto de corroída aspereza. Aquele sal o havia forjado. Ele era assim. Oxidado pelo tempo. Era apenas o resquício de quem um dia fora.

Sempre que precisava de uns trocados, ajudava a descarregar algum pequeno pesqueiro que ainda insistia em vender seu trabalho de um dia inteiro para comerciantes decadentes que sobreviviam pagando muito pouco pelo pescado na origem e vendendo o produto abaixo do preço dos mercados das redondezas. O serviço pagava uma mixaria, mas o suficiente para poder comprar seus cigarros. Além disso, desviava pacotes de sardinhas, que levava para casa e comia fritas na banha de porco que ganhava de um amigo de infância, que, por sua vez, a desviava do açougue no qual trabalhava.

Sustentava-se com o dinheiro ganho nas mesas de pôquer e truco. Era bom com as cartas e ainda melhor sem elas. Blefava com singular maestria. Além disso, tinha o dom da bravata. Provocava os adversários ao extremo, tirava-os do sério, fazia com que eles se desconcentrassem, fazia com que a raiva tomasse o lugar da razão. A raiva não é uma boa companheira nas mesas de jogo. Dispersa, tira o foco, cria valentões. E, assim, na base do blefe e da bravata, ele ganhava sua vida. De vez em quando, também ganhava alguns socos, uma garrafada, algumas ameaças de morte, mas nada que o fizesse achar que deveria mudar de hábito. Achava aquilo tudo muito divertido. Talvez um dia fosse surrado até a morte, ou baleado pelas costas em uma viela escura qualquer. Enfim, os riscos existiam, sabia disso. Mas, entre arranjar um emprego e virar um operário padrão, e ganhar seu dinheiro jogando cartas, bebendo whiskies baratos e galanteando garotas sem pudores, ele preferia, de longe, a segunda opção.

Depois de um dia de bebidas em copos alheios, tragadas em cigarros alheios e escarradas em calçadas alheias, resolvera curtir a noite na companhia de amigos que não sabiam qual era o seu nome. O Nautilus Drink Bar não estava muito movimentado. Por algum motivo desconhecido, o dono do lugar, um velhote de sessenta e tantos anos, que tinha um sotaque castelhano e se dizia chileno, mas que todos sabiam que era do Chuí mesmo, era leitor de Verne. Sabia de cor diversas passagens de Vinte Mil Léguas Submarinas. Tinha até um quê de Capitão Nemo, a barba comprida e espessa, os trejeitos de comandante, nariz adunco e olhar furioso.

Recostou-se no balcão e pediu uma bebida. Fazia calor e o pequeno lugar não tinha um ventilador sequer. As gotas de suor escorrendo pelas costas em profusão. O cabelo sujo grudado na testa. As envelhecidas mãos por sobre o tampo de madeira que já fora parte de um pesqueiro local. Sua cabeça doía, seus pés ardiam de bolhas causadas pelos sapatos batidos.

Não tinha mais esperanças. As havia perdido todas. Uma a uma. Ficaram pelo caminho. Deixou um rastro delas para trás. Agora estava ali, no balcão de um bar, à espera de alguém que estivesse disposto a jogar cartas por um dinheiro que ele não tinha.
 O relógio ensebado que ficava sobre a chapa onde se aqueciam os pães das torradas marcava cinco para a meia noite quando ele se levantou um pouco tonto, escorando-se no balcão e nos bancos, e saiu porta afora.

Era uma noite quente aquela. Não havia nem mesmo a constante brisa que vinha do mar e trazia junto aquele gosto de peixe seco salgado que entrava pela garganta e entranhava no corpo. Ele estava sozinho. Caminhava a esmo no cais abandonado. Velhos barcos adernados, canoas com água pela metade, redes de nylon rasgadas jogadas pelo chão, cestos com escamas e tripas em decomposição.

Sentado na beira das docas desativadas, sentia a água escura chocar-se contra seus pés. Não pensava em nada. Sua cabeça fervilhava, mas ele não pensava em nada. Flashes de imagens cruzavam à frente dos seus olhos. Memórias perdidas surgiam como relâmpagos errantes. Seus pais, a velha casa em estilo português onde crescera, o corpo de seu irmão cercado de flores, um beijo.

Em meio ao turbilhão de sensações, tentava organizar seu caos interior. Estava confuso. Por um instante, uma ideia passou por sua cabeça. E se ele deixasse de existir? E se sumisse? Ou se morresse? Alguém sentiria a sua falta? Alguém choraria? Alguém levaria flores no seu túmulo? Ou será que dançariam sobre ele? Tentou pensar em nomes, em pessoas que, talvez, pudessem perceber a sua ausência. Não tinha família. Nenhum amigo de verdade. Talvez os vizinhos, mas ele nem os cumprimentava pela manhã. Alguma amante? Não, não. A maioria delas sequer perguntava o seu nome. Quem sabe o dono na banca da esquina?  Bem possível. Não tinha um dia em que deixava de comprar o jornal pela manhã, logo cedo, quando voltava para casa cambaleando após mais uma noite de jogatina. Sim, o dono da banca provavelmente notaria o seu sumiço. Estava convencido disso. Sorriu. Ele gostava do dono da banca da esquina. O homem não fazia perguntas. Apenas pegava as moedas e lhe entregava o jornal. Teve vezes em que nem cobrou pelo produto. Era um cliente antigo, fiel. Normal que, um dia ou outro, as cartas não lhe favorecessem. Essas coisas acontecem. Solitário no cais, ergueu a mão direita e, como se segurasse uma fina taça de cristal, fez um brinde ao seu amigo, o dono da banca de revistas. Era um bom homem aquele.

Em um instante, sentiu algo tocar seus tornozelos submersos na água turva. Pensou ter visto a silhueta de um peixe, talvez uma sardinha perdida. Possivelmente era uma alga, ou uma sacola de plástico. Sentiu sede. Levantou-se e caminhou até o Mercado do Peixe, que, na verdade, não tinha nada de mercado. Era só um lugar com umas pias e onde, nos finais de tarde, pescadores artesanais vendiam o que tinham conseguido trazer do mar durante o dia. Abriu a torneira e pôs a cabeça embaixo, sorvendo goles de água quente e salobra. Um cheiro forte de pescado entrou por suas narinas e tomou conta de seu corpo. Vomitou. Achou estranho. Aquela era a primeira vez que vomitava em razão do cheiro de peixe. Nascera naquele lugar, crescera nele. Estava mais do que acostumado com os odores. Agora, como um rapazote imberbe da capital que viera visitar os avós nas férias, sentia nojo, seu estômago revirava. Estava envergonhado. Não se reconhecia. Era um rascunho de si mesmo. Grafite sobre o papel.

Ergueu-se como pôde e começou a caminhar. Precisava se recompor. Nem bêbado estava. Talvez tivesse sido o sanduíche de atum que comera à tarde que lhe fizesse mal. Sabia que não era isso, mas buscava uma explicação a todo custo, como quem busca a sorte no truco em uma rodada às cegas. Sabia que a chance de obtê-la era mínima, mas o desespero e, ainda mais, a desesperança, já não sussurrava ao seu ouvido como outrora. Agora, ambos gritavam desafinadamente.

Foi quando as primeiras gotas da chuva quente de verão explodiram em sua face que a triste ideia cruzou a sua mente pela primeira vez naquela madrugada. Não se apegou a ela. Passou feito um raio.

Seguiu por entre as vielas estreitas calçadas com pedra. A essa hora, restavam pelas ruas apenas os homens sem casa, as mulheres sem sonhos. Gente que não tinha para onde ir e que não queria ficar onde todos os outros se conformavam em estar. Gente cansada.  Os olhos caídos, as mãos nos bolsos, o cigarro pendendo do canto da boca. Fracassados. Achava que todos eram uns fracassados. Ele não. Ele não era um fracassado. Estava ali por escolha própria. Sempre fora um marginal. Vivia à margem. Corria paralelamente à linha guia. Gostava disso. Gostava de se sentir livre. Sem rédeas para lhe conter. Sabia, porém, que a liberdade cobrava seu preço. E ele pagava com juros altos.

Lembrou-se de sua infância. Nunca tivera vida fácil. O comportamento exemplar, as boas notas, o respeito aos professores faziam dele um rebelde em um ambiente escolar em permanente tensão. Sentia-se sempre como se tivesse um alvo pintado às costas. Foi assim, entre uma sessão de espancamento gratuito e outra, entre uma fuga desesperada e uma súplica por piedade, que ele forjou sua instável personalidade.

Era um produto do sistema. Um subproduto do sistema. O sistema o mastigara, quando jovem, e o cuspira fora. Já não tinha mais sabor de nada. Era o resto, a sobra.

Levava uma vida normal. Trabalhava oito horas por dia na biblioteca na faculdade Letras da universidade local. Era um rapaz culto, um leitor voraz. Se quisesse, poderia trabalhar como guia da biblioteca. Às vezes, até se imaginava caminhando pelos corredores, entre as estantes altas, indicando com as mãos algumas obras e falando sobre elas e seus autores por muitos minutos. Sentia-se bem quando estava naquele lugar. Sentia-se protegido. Alimentava, porém, um desejo que lhe consumia as forças. Seu coração nunca estivera dentro daquela biblioteca. Foi aí que veio a rejeição. Uma paixão não correspondida. Seu coração, despedaçado.

Quando não pôde suportar a dor que lhe comprimia o peito, largou tudo. Deixou o emprego, os costumes, nunca mais fez contato com a família. A rua passou a ser o seu escritório. Batia ponto lá diariamente. Abandonou o apartamento que seus pais haviam lhe cedido e passou a viver em pequenos quartos de hotéis de quinta categoria. Consigo, levava apenas algumas peças de roupa, um par de sapatos, duas gravatas, e uma mala cheia de livros amarelados.

Na rua, se sentia em casa. E era na rua que estava agora, perambulando. A essa altura, já não enxergava direito as coisas ao seu redor. Tinha os olhos embaçados. Não adiantava esfregá-los. Era como uma pasta grudenta que teimava em não sair. Enxergar mal não era um problema para ele. Conhecia aquela zona em detalhes. Todas as ruas, todas as avenidas, todos os prédios em ruínas, toda a gente sem esperanças. Ainda assim, tropeçou em uma pedra do calçamento que estava fora de lugar. Caiu. Seu corpo chocou-se no chão com um barulho seco. Com muita dificuldade, ergueu-se. Tinha os joelhos esfolados, as mãos arranhadas. Sangue gotejava de seu rosto. Havia perdido dois dentes. Não sentia dor. Estava entorpecido.

Já não tinha mais dinheiro consigo. Nem uma moeda sequer. Precisava beber. A sobriedade o perturbava. Não gostava disso. Ainda tinha cigarros, mas a nicotina, por si só, já não lhe saciava. Necessitava sentir o álcool em sua corrente sanguínea. Era o álcool que alimentava o fogo dentro de si. O cigarro só o acendia.

Trôpego, seguia. Ouviu, ao longe, um som de piano. Não conseguiu, de pronto, identificar a melodia. Estava disperso demais. Precisava se concentrar para identificar as notas. Dava passos lentos, descoordenados. Dobrou uma esquina e ouviu a música ainda mais alta (seria Vivaldi?). Ele sabia de onde vinha o som. Somente um bar naquela região tinha um piano. Aproximou-se da fachada. Encostou a testa no vidro. Pôs o jornal na cintura, como se fosse um revólver, e, com as mãos paralelas às têmporas, olhou para dentro. O cenário não era muito diverso do visto em todos os outros bares decadentes do porto velho. Homens fumando charutos vagabundos, bebendo cachaça barata e cuspindo pelo chão. Havia apenas uma mulher no recinto. Cabelos longos e negros feito a madrugada lá fora. Senta, às sós, em uma mesa, ela ouvia a música e bebericava um drink que ele, da rua, não conseguia identificar qual era. Possivelmente, alguma coisa com vodka. Talvez um Martini.

O pianista tocava para ela. Podia sentir isso. Era nela que ele estava concentrado.  A música (sim, Vivaldi e suas quatro estações!) ecoava nas pedras portuguesas dos calçamentos. Ele estava hipnotizado. As mãos do pianista moviam-se freneticamente durante o Verão. A tensão entre o artista e a mulher de pernas longas e batom vermelho faiscante era crescente. Do lado fora, ele não conseguia se mover. Seu cérebro dizia para entrar, puxar uma cadeira, acender um cigarro. Seu corpo dizia que não, que deveria ficar exatamente onde estava, que sua presença naquele sistema iria desequilibrá-lo, que ele iria romper com a eletricidade do momento. O que será que pensava a mulher? O que fazia ali àquela hora? Desejava o pianista? Sofria? Amava?  Quando a música cessou, também findou o encanto. O pianista esvaziou seu copo de whisky, se levantou e foi ao banheiro. A mulher virou o corpo em direção ao barman e pediu mais uma dose de sua bebida. Ele saiu de seu torpor, girou nos calcanhares e retomou o seu caminho.

Aquela cena o havia afetado de alguma forma. Pela primeira vez, ele percebia beleza naquele ambiente tão hostil. Talvez seu olhar tivesse mudado. Ele não tinha certeza, mas sentia-se diferente.

Foi aí que, pela segunda vez, a triste ideia lhe tomou os pensamentos de assalto. Agora, porém, não foi um flash de luz. Não foi um arrepio. Foi arrebatador. Foi fluxo constante.

Caminhou com obstinada determinação. Já não tinha as mãos trêmulas. Já não tinha os passos arrastados. Era o mesmo, mas já era outro. De um modo que ele não entendia como, sabia muito bem o que tinha de fazer. A neblina se dissipara. Tudo estava tão límpido, cristalino.

Quando deu por si, corria. Sobre seus longos e lisos cabelos castanhos, as gotas da chuva caiam, escorrendo pelo rosto magro. Sua visão clareara. Os olhos injetados.

Dando saltos, dobrando esquinas. Via sua vida refletida em cada poça d’água. Um mosaico de imagens multicoloridas. Cada memória, cada lembrança. Estavam todas lá. Uma a uma, surgiam como furacões. O rosto dela. Palavras ao alcance das mãos. Podia tocá-las se quisesse. Mas não queira. Preferia senti-las. Ondas de emoções. Absorvia-as. As mãos dela. Retratos jogados pela rua, feito peças de um quebra-cabeça que teimam em não se encaixar. Imagem sem sentido. Música para camaleões. Seus pais na varanda dando adeus. Nenhum amigo para se despedir. A voz dela. Contrastes. Campos de flores à beira da estrada. Caminho de pétalas. Desenhos de nuvens no céu. Coelhos, dragões, unicórnios e linces. Vida além da vida. Doce saudade de um passado imaginário. O beijo dela.

Adentrou o prédio e se atirou sobre a porta. Não havia tempo para chaves. Abriu as janelas. A luz da lua. Sombras e silhuetas. Na parede, o velho relógio de ponteiros gritava. Ele não ouvia nada além de sua ofegante respiração. Caminhou em direção ao quarto.  Abriu a gaveta onde guardava meias e cuecas. Do fundo, retirou uma pistola. De volta à sala, deixou o corpo cair sobre a poltrona. Estava exausto. Permaneceu ali, imóvel. A ideia fixa. A ideia fixa.

Esticou o braço direito e pegou a caneta que usava para conferir os bilhetes de loteria. A chuva aumentou, já era um temporal.  Pedras de gelo chocavam-se colericamente contra a janela. Baixou os olhos. O relógio ainda gritava.

No jornal em suas mãos, quatro letras aleatoriamente dispostas em uma página estavam circuladas com fúria. Um nome. Sobre elas, escorriam gotas de sangue quente, de um vermelho vivo.


Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.