Uma das lembranças mais presentes que tenho da minha infância é a de ver meu avô, na época já com seus 74, 75 anos de idade, no alto de uma árvore cortando os galhos ou, o que era ainda mais espetacular, fixando, na mesma árvore, a uns 2,5 metros do chão, uma tabela de basquete improvisada, feita somente com arame e com uma tábua, para que os netos se divertissem em uma ensolarada tarde de domingo. Eu era bem pequeno ainda, participava pouco das brincadeiras realizadas pelos meus primos quatro ou cinco anos mais velhos, mas sempre me encantava aquela iniciativa de um homem já idoso, mas com uma vitalidade tremenda. A segunda imagem que eu guardo é a de encontrar no ônibus algumas vezes, por pura coincidência, aquele senhor com setenta e tantos anos vindo do trabalho. Para mim, uma criança com menos de dez anos, era bem estranho ter um avô que trabalhava. Pelo que me lembro, eu era o único da minha turma de amigos que tinha um avô que trabalhava. Me lembro que achava isso super legal.
Outra imagem que ficará para sempre na minha cabeça é a do vô Felipe, já com seus 86 anos, subindo a rua da minha casa para ir visitar meu pai, que estava se recuperando de uma cirurgia. Hoje, eu, com meus 26 anos, dificilmente percorro os cerca de 200 metros dessa subida sem parar, uma vez que seja, para recuperar o fôlego. Eu não me recordo de ter o visto parar uma vez sequer.
Ele não era um homem de muitas palavras. Falava pouco, baixinho. Ele tinha a sabedoria que só os anos trazem e, assim, do seu jeito, dava mais uma lição aos filhos, aos netos, aos bisnetos e a todos que puderam conviver por alguns poucos minutos que seja com ele: aprende-se ouvindo, e não falando.
Nunca vi o vô brabo. Ou melhor, nunca vi ele ter de alterar completamente seu modo usual de se comportar por estar brabo. Nunca vi ele levantar a voz. A sua autoridade caminhava ao lado da sua presença. Ele não precisava gritar, não precisava falar pelos cotovelos, não precisava gesticular. A sua presença impunha um respeito que, assim como a sabedoria, só se conquista com a chegada dos cabelos brancos.
Ele não era aquele modelo de avô que nos acostumamos a imaginar como o “avô perfeito”. Não. Quando os netos iam visitá-lo, ele não os esperava de braços abertos, com doces nas mãos, pegava-os e os colocava no colo para ouvir como havia sido a semana dos pequenos ou para contar lindas histórias. Não, ele não fazia isso. Mas, será que basta fazer isso para ser considerado um avô perfeito? Não, não acho que basta. O avô perfeito é aquele que é um modelo para seus netos. O avô perfeito é aquele que pode contar toda a história da sua vida para seus netos, sem ter de esconder nenhum detalhe ou ter de inventar partes que nunca existiram. O avô perfeito é aquele que dá exemplos, que ensina sem precisar falar, que educa sem precisar dar sermões, que ama sem precisar dar presentes. O avô perfeito é aquele é, sem precisar mostrar que é.
O que falar de um homem que teve dez filhos, 15 netos e dez bisnetos, ou seja, 35 descendentes, sem que nenhum deles tenha seguido um caminho errado na vida? Pode-se falar muita coisa. Pode-se passar horas, dias, semanas, meses, anos falando sem que falte assunto. Eu, porém, só tenho duas palavras a dizer: muito obrigado. Até breve.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Parado na Idade Média
Religião é um assunto deveras complicado de se discutir. Porém, ao contrário do que diz o clichê popular, acho que se deve discutir sobre religião. E acho que se deve discutir o papel da religião principalmente quando a cegueira que afeta alguns seguidores de crenças ou, o que é ainda pior, a cegueira que afeta líderes religiosos faz com que eles passem a adotar um posicionamento totalmente contrário ao que podemos chamar de “práticas sociais para a pacífica convivência”. Alguns reuniriam essas seis palavras e as transformariam e outra, “tolerância”. Não gosto muito do uso que se dá à essa palavra (apesar de, às vezes, acabar caindo na armadilha de usá-la nesse sentido). Não se deve ser tolerante, se deve ser respeitoso. E isso é bem diferente.
Voltando ao motivo deste post, não posso admitir e aceitar solenemente que líderes religiosos utilizem a fé como pretexto para expressarem suas raivosas e reacionárias posições pessoais. E quando falo isso, me refiro especificamente ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. D. Dadeus tem semanalmente uma coluna no Jornal do Comércio. Nas duas últimas quintas-feiras ele escreveu sobre a pedofilia. Eu não tenho dúvidas de que, se qualquer outra pessoa escrevesse o que ele escreveu, já estaria sendo alvo de diversos processos judiciais. Pelo que sei, D. Dadeus não está sendo processado. Aliás, me surpreendeu bastante o fato de os textos dele não terem repercutido. Estranho.
Bom, para exemplificar o que estou dizendo pincei alguns trechos das duas colunas, publicadas nos dias 15 e 22 de julho.
“Dificilmente passa dia em que não apareçam notícias comprometedoras contra a Igreja Católica. O calcanhar de Aquiles é a pedofilia. O que está por detrás destas acusações? Quais as lições que devemos tirar delas? É verdade o que se noticia? O que se visa com esta campanha difamatória? Por que se quer tirar os crucifixos das repartições públicas, acabando com uma tradição milenar? Por que se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade? Por que se quer apagar da memória a fecunda atuação da Igreja no Brasil, que moldou nossa cultura? Por que se combate a pedofilia, mas se promove o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a corrupção?”
Esse é o primeiro parágrafo do texto publicado no dia 15 de julho.Todo ele é uma “obra”. Frisei três frases que são algo que não se pode admitir mais que alguém profira sem ser duramente questionado sobre as razões de tais afirmações. O religioso reclama da retirada de crucifixos de repartições públicas e pergunta “porque se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade”. Primeiro, o Brasil não tem uma religião oficial, os órgão públicos não podem ostentar símbolos de uma só religião. Isso é um desrespeito a todas as outras e, como não dá para transformar todos os prédios públicos em centros ecumênicos, que a religião não esteja dentro deles. Segundo, para quem esses sinais são sagrados? Só para os católicos. A sociedade não é católica. Eles, portanto, não são sagrados para a sociedade. O último questionamento que D. Dadeus no começo de seu texto é o mais impressionante de todos. Como que alguém fala uma coisa dessas é não recebe duras críticas? Notem bem, na mesma frase, o arcebispo de Porto Alegre questiona o combate à pedofilia e criminaliza o divórcio e o homossexualismo comparando-os à corrupção e à própria pedofilia. Isso sem falar no fato de comparar tudo isso.
Como já disse em outro lugar, é por coisas como essa que, apesar de continuar sendo cristão, sou cada vez menos católico. Vale ressaltar, porém, que o pensamento atrasado, arcaico, sexista, extremamente preconceituoso, é o pensamento de um líder católico, mas é, também, o pensamento de uma pessoa. A religião não é a única responsável. É muito responsável, mas não é a única.
Voltando ao motivo deste post, não posso admitir e aceitar solenemente que líderes religiosos utilizem a fé como pretexto para expressarem suas raivosas e reacionárias posições pessoais. E quando falo isso, me refiro especificamente ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. D. Dadeus tem semanalmente uma coluna no Jornal do Comércio. Nas duas últimas quintas-feiras ele escreveu sobre a pedofilia. Eu não tenho dúvidas de que, se qualquer outra pessoa escrevesse o que ele escreveu, já estaria sendo alvo de diversos processos judiciais. Pelo que sei, D. Dadeus não está sendo processado. Aliás, me surpreendeu bastante o fato de os textos dele não terem repercutido. Estranho.
Bom, para exemplificar o que estou dizendo pincei alguns trechos das duas colunas, publicadas nos dias 15 e 22 de julho.
“Dificilmente passa dia em que não apareçam notícias comprometedoras contra a Igreja Católica. O calcanhar de Aquiles é a pedofilia. O que está por detrás destas acusações? Quais as lições que devemos tirar delas? É verdade o que se noticia? O que se visa com esta campanha difamatória? Por que se quer tirar os crucifixos das repartições públicas, acabando com uma tradição milenar? Por que se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade? Por que se quer apagar da memória a fecunda atuação da Igreja no Brasil, que moldou nossa cultura? Por que se combate a pedofilia, mas se promove o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a corrupção?”
Esse é o primeiro parágrafo do texto publicado no dia 15 de julho.Todo ele é uma “obra”. Frisei três frases que são algo que não se pode admitir mais que alguém profira sem ser duramente questionado sobre as razões de tais afirmações. O religioso reclama da retirada de crucifixos de repartições públicas e pergunta “porque se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade”. Primeiro, o Brasil não tem uma religião oficial, os órgão públicos não podem ostentar símbolos de uma só religião. Isso é um desrespeito a todas as outras e, como não dá para transformar todos os prédios públicos em centros ecumênicos, que a religião não esteja dentro deles. Segundo, para quem esses sinais são sagrados? Só para os católicos. A sociedade não é católica. Eles, portanto, não são sagrados para a sociedade. O último questionamento que D. Dadeus no começo de seu texto é o mais impressionante de todos. Como que alguém fala uma coisa dessas é não recebe duras críticas? Notem bem, na mesma frase, o arcebispo de Porto Alegre questiona o combate à pedofilia e criminaliza o divórcio e o homossexualismo comparando-os à corrupção e à própria pedofilia. Isso sem falar no fato de comparar tudo isso.
Como já disse em outro lugar, é por coisas como essa que, apesar de continuar sendo cristão, sou cada vez menos católico. Vale ressaltar, porém, que o pensamento atrasado, arcaico, sexista, extremamente preconceituoso, é o pensamento de um líder católico, mas é, também, o pensamento de uma pessoa. A religião não é a única responsável. É muito responsável, mas não é a única.
Vamos a outro trecho.
“Se a Igreja reconhece que há crimes de pedofilia em seu meio, apesar de todos os seus cuidados, por que se fala de perseguição da imprensa? A resposta é óbvia: a denúncia se faz não contra a pedofilia, mas contra a Igreja. A estatística mostra que os casos que envolvem o clero católico representam minguados 0,2% do total da pedofilia em cada nação. Por que se dá tanta importância e se insiste nestes 0,2%, esquecendo os 99,8% dos casos? É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”
Aqui vemos o arcebispo tentando reverter o quadro e transformar a igreja em vítima. D. Dadeus classifica os abusos cometidos por padres católicos como “minguados 0,2%”, tentando tirar a importância dos crimes praticados. Depois, ele escreve “É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”. Eu respondo para ele. Os jornalistas pedófilos, os advogados pedófilos, os engenheiros pedófilos, os arquitetos pedófilos, os garis pedófilos, não se utilizam de sua atuação profissional para cometerem os crimes contra as crianças. Os padres sim.
“Se a Igreja reconhece que há crimes de pedofilia em seu meio, apesar de todos os seus cuidados, por que se fala de perseguição da imprensa? A resposta é óbvia: a denúncia se faz não contra a pedofilia, mas contra a Igreja. A estatística mostra que os casos que envolvem o clero católico representam minguados 0,2% do total da pedofilia em cada nação. Por que se dá tanta importância e se insiste nestes 0,2%, esquecendo os 99,8% dos casos? É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”
Aqui vemos o arcebispo tentando reverter o quadro e transformar a igreja em vítima. D. Dadeus classifica os abusos cometidos por padres católicos como “minguados 0,2%”, tentando tirar a importância dos crimes praticados. Depois, ele escreve “É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”. Eu respondo para ele. Os jornalistas pedófilos, os advogados pedófilos, os engenheiros pedófilos, os arquitetos pedófilos, os garis pedófilos, não se utilizam de sua atuação profissional para cometerem os crimes contra as crianças. Os padres sim.
Na Idade Média, a igreja mandava, desmandava e queimava quem ousava se contrapor a ela.
Vamos analisar agora o que D. Dadeus Grings escreveu em sua segunda coluna, publicada no dia 22 de julho. Vejamos alguns trechos do texto.
“Em primeiro lugar a palavra “pedofilia”, literalmente, significa amor pelas crianças, que todos devem ter, amor puro, inocente... Mas na prática pedofilia ficou ligada ao sexo. E, como é óbvio, denota abuso grave. Numa sociedade pansessexualista é difícil determinar limites.”
Aqui, o religioso apela para a origem da palavra para tentar explicar o inexplicável. A última frase é outra pérola. A igreja oprimiu as pessoas por muito tempo. Esse tempo acabou e o arcebispo lamenta que a Santa Sé não possa mais determinar o que se pode e o que não se pode fazer.
“Em terceiro lugar está a cultura da permissividade, promovida pelos meios de comunicação. Quando se lançam campanhas sistemáticas, propagam-se cenas de sexo e se afirma oficialmente que “em matéria de sexo não há certo e errado”, o que se pode esperar de bom para o comportamento humano? Beira ao cinismo, com flagrante contradição, denunciar crimes de pedofilia e alardear plena liberdade no uso da sexualidade.”
Se você não se restringe às práticas sexuais aceitas pela Igreja (ou seja, ser casado e só fazer sexo com sua esposa ou esposo quando quiser procriar) e ao mesmo tempo é contra a pedofilia você é um cínico. É isso o que o arcebispo fala na frase grifada.
Para finalizar, D. Dadeus diz o seguinte:
“Chegou a hora de a humanidade inteira se reconhecer pecadora, também no plano da pedofilia, e pedir perdão e reconciliar-se.”
Não. A humanidade inteira não. Eu não sou pedófilo, D. Dadeus, e, por isso, não tenho de pedir perdão por nada relacionado a essa abominável prática criminosa.
O líder da igreja católica no Estado parou na Idade Média. E sente falta daqueles tempos de glória. Ainda bem que a igreja não manda mais em nada. Ainda bem.
“Em primeiro lugar a palavra “pedofilia”, literalmente, significa amor pelas crianças, que todos devem ter, amor puro, inocente... Mas na prática pedofilia ficou ligada ao sexo. E, como é óbvio, denota abuso grave. Numa sociedade pansessexualista é difícil determinar limites.”
Aqui, o religioso apela para a origem da palavra para tentar explicar o inexplicável. A última frase é outra pérola. A igreja oprimiu as pessoas por muito tempo. Esse tempo acabou e o arcebispo lamenta que a Santa Sé não possa mais determinar o que se pode e o que não se pode fazer.
“Em terceiro lugar está a cultura da permissividade, promovida pelos meios de comunicação. Quando se lançam campanhas sistemáticas, propagam-se cenas de sexo e se afirma oficialmente que “em matéria de sexo não há certo e errado”, o que se pode esperar de bom para o comportamento humano? Beira ao cinismo, com flagrante contradição, denunciar crimes de pedofilia e alardear plena liberdade no uso da sexualidade.”
Se você não se restringe às práticas sexuais aceitas pela Igreja (ou seja, ser casado e só fazer sexo com sua esposa ou esposo quando quiser procriar) e ao mesmo tempo é contra a pedofilia você é um cínico. É isso o que o arcebispo fala na frase grifada.
Para finalizar, D. Dadeus diz o seguinte:
“Chegou a hora de a humanidade inteira se reconhecer pecadora, também no plano da pedofilia, e pedir perdão e reconciliar-se.”
Não. A humanidade inteira não. Eu não sou pedófilo, D. Dadeus, e, por isso, não tenho de pedir perdão por nada relacionado a essa abominável prática criminosa.
O líder da igreja católica no Estado parou na Idade Média. E sente falta daqueles tempos de glória. Ainda bem que a igreja não manda mais em nada. Ainda bem.
domingo, 18 de julho de 2010
O entrevistador, a entrevista e o entrevistado
Para celebrar a nova cara do blog, posto aqui um texto que achei beeem legal. Dando uma olhada no site da Folha encontrei esse texto que está abaixo. Um ensaio inédito do escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910), divulgado somente na semana passada. Bem interessante para quem é jornalista dar uma refletida.
"Ninguém gosta de ser entrevistado, mas ninguém gosta de dizer não, pois os entrevistadores são corteses e gentis, mesmo quando têm o propósito de destruir. Não me entendam mal: não estou dizendo que sempre chegam com a intenção deliberada de destruir, ou que só depois percebam ter destruído; não, acho que a atitude deles tem mais a ver com a de um ciclone, que chega com o propósito ameno de refrescar um vilarejo sufocante e depois não se dá conta de que fez tudo ao vilarejo, menos um favor.
O entrevistador espalha você para todos os lados, mas não passa pela cabeça dele que você possa considerar isso uma desvantagem. Quem culpa um ciclone só faz isso por não atinar que massas compactas não são exatamente a ideia que um ciclone faz da simetria. Aqueles que se queixam de um entrevistador fazem isso por não ponderar que, afinal de contas, ele não passa de um ciclone, ainda que disfarçado de Deus, como o restante de nós; ele não tem consciência da devastação, nem mesmo quando varre o continente com os nossos despojos e acredita que está tornando nossa vida mais agradável; e que, portanto, espera ser julgado por suas intenções, e não por suas realizações.
TEMOR
A entrevista não foi uma invenção feliz. Talvez seja a maneira mais precária de alcançar o âmago de um homem. Em primeiro lugar, o entrevistador não tem nada de estimulante, pois inspira temor. Você sabe pela experiência que não tem escolha diante do desastre. Não importa o que ele ponha na entrevista, você logo vê que teria sido melhor se tivesse posto outra coisa: não que aquilo fosse melhor do que isto, apenas não seria isto; e toda mudança deve ser, e seria, para melhor, ainda que, na realidade, você saiba muito bem que não é assim.
Talvez eu não tenha me expressado direito: nesse caso, então eu me expressei direito -algo que eu só conseguiria me expressando com pouca clareza, pois o que quero demonstrar é o que você sente nessa situação, e não o que pensa -pois você não pensa; não se trata de uma operação intelectual; você apenas anda em círculos, acéfalo.
Obtusamente, tudo o que você quer é não ter feito aquilo, mesmo que, na realidade, não saiba o que gostaria de ter deixado de fazer e, mais ainda, você não se importe: esse não é o ponto; você só queria não ter feito aquilo, seja lá o que for; uma vez feito, é uma questão sem importância e não vem mais ao caso. Dá para entender o que quero dizer? Você já passou por isso? Pois bem, é assim que alguém se sente ao ver sua entrevista publicada.
CONCHA
Pois é, você teme o entrevistador e isso não é estimulante. Você se fecha na sua concha; monta a guarda; tenta parecer inócuo; procura ser engenhoso e, sem nada dizer, faz rodeios e contorna o assunto; quando lê o resultado impresso, fica enojado ao notar como você se saiu bem.
O tempo todo, diante de cada nova pergunta, você está alerta para enxergar aonde o entrevistador está lhe conduzindo, a fim de frustrá-lo. Sobretudo quando o pega buscando sub-repticiamente levá-lo a dizer uma coisa engraçada. E é isso mesmo o que ele tenta fazer.
Ele demonstra isso de modo tão óbvio, empenha-se com tal franqueza e atrevimento que, já na primeira investida, o reservatório se fecha, e, na seguinte, se torna perfeitamente estanque. Não creio que, desde a invenção dessa prática sinistra, algo verdadeiramente bem-humorado tenha sido dito a um entrevistador.
No entanto, como ele precisa de algo "característico", só lhe resta contribuir, ele mesmo, com o humor, introduzindo-o aqui e ali durante a transcrição da entrevista. Esse humor é sempre esdrúxulo, muitas vezes palavroso e, em geral, formulado em "dialeto" -mesmo assim, um dialeto inexistente e inviável. Tal método já acabou com mais de um humorista. Mas não há aí nenhum mérito do entrevistador, afinal esta jamais foi a intenção dele.
EQUÍVOCO
São inúmeras as razões pelas quais a entrevista é um equívoco. Uma delas é que o entrevistador nunca parece refletir que, após ter aberto essa, aquela e mais outra torneira com sua profusão de perguntas, e ter descoberto qual delas jorra com mais abundância e interesse, o mais sensato seria restringir-se a ela e aproveitá-la ao máximo, deixando de lado as vacuidades já recolhidas.
Ele não pensa assim. Inevitavelmente interrompe a torrente, indagando sobre ainda outro assunto; e assim, de uma vez, desaparece, e para sempre, a sua única e débil oportunidade de conseguir algo que valha a pena levar para casa. Teria sido muito melhor ater-se ao assunto que despertou a loquacidade do entrevistado, mas é impossível convencê-lo disso.
Ele não consegue distinguir o momento em que você entrega o metal daquele em que o soterra com escória, entre o ouro e a borra; para ele, tudo se equivale, e ele inclui tudo o que você diz; depois, ao ver-se diante de tanta coisa imatura e imprestável, tenta remediar a situação incluindo algo de sua lavra que lhe pareça maduro, quando, na verdade, está podre. Sem dúvida, a intenção é boa, mas a do ciclone também.
Ora, as interrupções, o jeito de desviar você de um assunto para o outro, por fim têm um efeito muito grave: você está presente em cada tema, mas apenas em parte. Em geral, do que você pensa só consegue expor o suficiente para prejudicá-lo; jamais alcança aquele ponto em que pretendia explicar e justificar a sua posição."
Esse é o Mark Twain.
Somente pelo cabelo desgrenhado, pelo bigode e pelo cachimbo, já valeria a leitura.
"Ninguém gosta de ser entrevistado, mas ninguém gosta de dizer não, pois os entrevistadores são corteses e gentis, mesmo quando têm o propósito de destruir. Não me entendam mal: não estou dizendo que sempre chegam com a intenção deliberada de destruir, ou que só depois percebam ter destruído; não, acho que a atitude deles tem mais a ver com a de um ciclone, que chega com o propósito ameno de refrescar um vilarejo sufocante e depois não se dá conta de que fez tudo ao vilarejo, menos um favor.
O entrevistador espalha você para todos os lados, mas não passa pela cabeça dele que você possa considerar isso uma desvantagem. Quem culpa um ciclone só faz isso por não atinar que massas compactas não são exatamente a ideia que um ciclone faz da simetria. Aqueles que se queixam de um entrevistador fazem isso por não ponderar que, afinal de contas, ele não passa de um ciclone, ainda que disfarçado de Deus, como o restante de nós; ele não tem consciência da devastação, nem mesmo quando varre o continente com os nossos despojos e acredita que está tornando nossa vida mais agradável; e que, portanto, espera ser julgado por suas intenções, e não por suas realizações.
TEMOR
A entrevista não foi uma invenção feliz. Talvez seja a maneira mais precária de alcançar o âmago de um homem. Em primeiro lugar, o entrevistador não tem nada de estimulante, pois inspira temor. Você sabe pela experiência que não tem escolha diante do desastre. Não importa o que ele ponha na entrevista, você logo vê que teria sido melhor se tivesse posto outra coisa: não que aquilo fosse melhor do que isto, apenas não seria isto; e toda mudança deve ser, e seria, para melhor, ainda que, na realidade, você saiba muito bem que não é assim.
Talvez eu não tenha me expressado direito: nesse caso, então eu me expressei direito -algo que eu só conseguiria me expressando com pouca clareza, pois o que quero demonstrar é o que você sente nessa situação, e não o que pensa -pois você não pensa; não se trata de uma operação intelectual; você apenas anda em círculos, acéfalo.
Obtusamente, tudo o que você quer é não ter feito aquilo, mesmo que, na realidade, não saiba o que gostaria de ter deixado de fazer e, mais ainda, você não se importe: esse não é o ponto; você só queria não ter feito aquilo, seja lá o que for; uma vez feito, é uma questão sem importância e não vem mais ao caso. Dá para entender o que quero dizer? Você já passou por isso? Pois bem, é assim que alguém se sente ao ver sua entrevista publicada.
CONCHA
Pois é, você teme o entrevistador e isso não é estimulante. Você se fecha na sua concha; monta a guarda; tenta parecer inócuo; procura ser engenhoso e, sem nada dizer, faz rodeios e contorna o assunto; quando lê o resultado impresso, fica enojado ao notar como você se saiu bem.
O tempo todo, diante de cada nova pergunta, você está alerta para enxergar aonde o entrevistador está lhe conduzindo, a fim de frustrá-lo. Sobretudo quando o pega buscando sub-repticiamente levá-lo a dizer uma coisa engraçada. E é isso mesmo o que ele tenta fazer.
Ele demonstra isso de modo tão óbvio, empenha-se com tal franqueza e atrevimento que, já na primeira investida, o reservatório se fecha, e, na seguinte, se torna perfeitamente estanque. Não creio que, desde a invenção dessa prática sinistra, algo verdadeiramente bem-humorado tenha sido dito a um entrevistador.
No entanto, como ele precisa de algo "característico", só lhe resta contribuir, ele mesmo, com o humor, introduzindo-o aqui e ali durante a transcrição da entrevista. Esse humor é sempre esdrúxulo, muitas vezes palavroso e, em geral, formulado em "dialeto" -mesmo assim, um dialeto inexistente e inviável. Tal método já acabou com mais de um humorista. Mas não há aí nenhum mérito do entrevistador, afinal esta jamais foi a intenção dele.
EQUÍVOCO
São inúmeras as razões pelas quais a entrevista é um equívoco. Uma delas é que o entrevistador nunca parece refletir que, após ter aberto essa, aquela e mais outra torneira com sua profusão de perguntas, e ter descoberto qual delas jorra com mais abundância e interesse, o mais sensato seria restringir-se a ela e aproveitá-la ao máximo, deixando de lado as vacuidades já recolhidas.
Ele não pensa assim. Inevitavelmente interrompe a torrente, indagando sobre ainda outro assunto; e assim, de uma vez, desaparece, e para sempre, a sua única e débil oportunidade de conseguir algo que valha a pena levar para casa. Teria sido muito melhor ater-se ao assunto que despertou a loquacidade do entrevistado, mas é impossível convencê-lo disso.
Ele não consegue distinguir o momento em que você entrega o metal daquele em que o soterra com escória, entre o ouro e a borra; para ele, tudo se equivale, e ele inclui tudo o que você diz; depois, ao ver-se diante de tanta coisa imatura e imprestável, tenta remediar a situação incluindo algo de sua lavra que lhe pareça maduro, quando, na verdade, está podre. Sem dúvida, a intenção é boa, mas a do ciclone também.
Ora, as interrupções, o jeito de desviar você de um assunto para o outro, por fim têm um efeito muito grave: você está presente em cada tema, mas apenas em parte. Em geral, do que você pensa só consegue expor o suficiente para prejudicá-lo; jamais alcança aquele ponto em que pretendia explicar e justificar a sua posição."
Novo new look
Bom, como vocês já devem ter notado, o layout do blog mudou. Como diria um colega de redação, ele está com um novo new look. Desde 4 de abril de 2007, dia do primeiro post, ele era o mesmo. Apesar de gostar de antiguidades (Hebe Camargo, Susana Vieira e Ana Maria Braga não se enquadram nessa categoria), achei que já era tempo de uma mudança. O antigo já tinha me enchido o saco há algum tempo e achei esse bem bacana (eu diria, até, supimpa). Com isso, espero também voltar a escrever aqui com mais frequência (quando digo "com mais frequência" quero dizer sempre que tiver alguma coisa que ache interessante, uma frase que seja, ou uma foto, e não todos os dias só para marcar presença). É isso, espero que gostem.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Sintomático
A imagem que a prefeitura de Porto Alegre passou para quem acompanhou a manifestação dos médicos municipários junto ao paço muncipal na tarde de ontem, lembrou muito a forma como o governo do Estado trata quem se mobiliza para cobrar algo. Promessa de negociação não cumprida e 13 Guardas Municipais postados na entrada do prédio da prefeitura garantindo a "segurança" do local. Quem estavam ali eram médicos, e não mais do que 30 médicos. Ou seja, tinha quase um guarda para cada dois manifestantes. Os próprios médicos davam risada da situação, de tão constrangedora e ridícula que foi. Sem dúvida, para a prefeitura da Capital, os profissionais que tratam da saúde dos porto-alegrenses são muitíssimo perigosos. Aqui em cima está a matéria que fiz para o JC e que tá no jornal de hoje. Abaixo, o link pro site do jornal.
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=28125&codp=104&codni=3
domingo, 11 de abril de 2010
Daquilo que eu me arrependo
Eu me arrependo de não ter aproveitado mais a minha infância. Eu me arrependo de não ter apurrinhado os meus pais para que matriculassem em uma escola de natação. Eu me arrependo de não ter dançado com a colega mais bonita na festa de fim de ano da 4ª série. Eu me arrependo de não ter brigado com um vizinho de condomínio metido a valentão. Eu me arrependo de não ter agido mais como um adolescente durante a minha adolescência. Eu me arrependo de não ter dito para a minha primeira paixão juvenil que ela era a minha primeira paixão juvenil (puxa, como eu me arrependo disso). Eu me arrependo de não ter feito grandes loucuras na minha vida. Eu me arrependo de ter perdido preciosíssimas horas assistindo a aulas imbecis durante a faculdade. Eu me arrependo por não ter aprendido a tocar violão (ainda há tempo, eu sei). Eu me arrependo por não ter dito mais vezes às pessoas que mais amo e amei na vida que elas foram e são as pessoas que mais amo e amei na vida. Eu me arrependo de não ter descolorido o meu cabelo quando passei no vestibular. Eu me arrependo (muito) de ter ficado sem falar com meus pais durante alguns dias por absolutas bobagens. Eu me arrependo de ter perdido o contato com meus amigos de infância. Eu me arrependo de nunca ter tomado um porre, daqueles de ter de ser carregado, na vida. Eu me arrependo de não ter sido mais teimoso em alguns momentos e de ter sido tão teimoso em outros. Eu me arrependo de ter sido tão racional e tão pouco instintivo e emocional em diversas ocasiões. Eu me arrependo de ter evitado o confronto em alguns momentos e me arrependo de não ter buscado o diálogo em outros. Eu me arrependo de já ter pré-julgado pessoas sem as conhecê-las. Eu me arrependo de ter sido um garoto tão quieto, tímido e introspectivo durante mais da metade dos meus até aqui 26 anos de vida. Eu me arrependo de ter me arrependido de coisas das quais não deveria me arrepender. Eu me arrependo de não ter ajudado mais as pessoas. Eu me arrependo de ter gasto dinheiro com idiotices e de não ter gasto mais dinheiro com diversão. Eu me arrependo de ter perdido tanto tempo na frente de uma televisão e de um computador. Eu me arrependo de ter seguido tanto as regras. Eu me arrependo todas as noites por não ter feito ou por não ter dito coisas que eu queria ter feito e ter dito no decorrer do dia que passou. Eu me arrependo de não ter tomado mais banhos de chuva. Eu me arrependo de não ter conhecido mais pessoas tendo tido a oportunidade para isso. Eu me arrependo de não ter vivido mais momentos dos quais eu lembrarei instantes antes de morrer. Eu me arrependo de ter feito o ou ter deixado de fazer coisas que farão com que eu venha a me arrepender disso. Eu me arrependo de ter pensado tanto. Eu me arrependo de ter amado tão pouco. Por enquanto é isso. Amanhã já terei mais coisas para acrescentar à lista.
terça-feira, 23 de março de 2010
A lei das carroças - o outro lado
A prefeitura vai tirar as carroças das ruas de Porto Alegre. Ou pelo menos diz que vai tirar. Bom para o trânsito, mas, talvez, não tão bom para os catadores. Ou pelo menos não tão bom do jeito que se pretende fazer a retirada. Segue abaixo uma entrevista que eu fiz que saiu hoje no JC e que bateu o recorde de comentários no site do jornal (perdão, mas preciso me gabar um pouquinho) com um sociólogo, ex-catador e representante do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável, Rodrigo Oliveira. Vale a pena dar uma lida e ver a questão por um outro lado. Lado que, aliás (gabando-me de novo), não vi em nenhum outro lugar na nossa imprensa.
Para sociólogo, legislação irá gerar sofrimento
Juliano Tatsch
A Lei 10.531/08, sancionada em setembro de 2008, que institui o Programa de Redução Gradativa do Número de Veículos de Tração Animal e Humana, os conhecidos carrinhos e carroças, resultará em sofrimento para os catadores que há muitos anos trabalham utilizando os veículos. A opinião é do sociólogo e ex-catador Cristiano Benites Oliveira, articulador da frente de apoio aos catadores vinculada ao Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Em entrevista concedida ao Jornal do Comércio, Oliveira considera a retirada de circulação das carroças e dos carrinhos uma ação violenta e que resultará em mais gastos para a prefeitura.
Jornal do Comércio - O que os trabalhadores acham da lei? Quais as principais críticas a ela?
Cristiano Oliveira - Os catadores vêm sofrendo com o mercado dos recicláveis há muito tempo. Isso porque as grandes empresas do setor controlam a formação dos preços de materiais. Não bastasse esse tipo distorcido de relação de mercado, desde o início da implantação dos programas de coleta seletiva nos municípios, os poderes públicos, em conjunto com as empresas do ramo de serviços relacionados à destinação de resíduos, passaram progressivamente a desqualificar o catador. Essa desqualificação é o que fortalece a exclusão social desses indivíduos. Esse processo se expande de diversas formas, através de velhos e novos estereótipos, os quais classificam os catadores como "lixeiro", "imundo", "marginal", "ladrão de lixo" ou, mais atualmente, de "explorador de animais e crianças", "tranca-rua", "poluidor", ou ainda de "incapaz", "doente", "coitado". Todas essas denominações contribuem para o julgamento e a condenação precipitada dos catadores o que proporciona a sua criminalização. A construção e o fortalecimento dessa imagem negativa beneficiam as elites políticas conservadoras que ganham votos em cima da exclusão dos pobres dos centros urbanos e as empreiteiras ávidas por contratos públicos, as quais se autointitulam "profissionais" dos serviços de coleta seletiva de resíduos.Criminalizar essa população trabalhadora retirando seu direito à cidade e ao trabalho, ao invés de investir para a correção das distorções desse mercado, significa tratar a questão social da reciclagem como caso de polícia. É, também, retroceder na história socioeconômica jogando fora novas oportunidades de desenvolvimento através da redistribuição de riquezas produzidas pelo trabalho com essas matérias-primas descartadas.
JC - Tu achas que a lei será cumprida? E, se for, será dentro do prazo?
Cristiano Oliveira - O cumprimento dessa lei vai gerar enormes perdas e custos tanto em termos de sofrimento humano quanto em termos econômicos, através do empenho de rios de recursos públicos para a ampliação de contratos com empreiteiras de coleta seletiva e para a construção de grandes e caríssimas estruturas de galpões de triagem de resíduos para confinar os catadores em seu interior, de preferência em periferias bem distantes dos centros urbanos.
JC - Com a derrubada da ação de inconstitucionalidade por parte do Tribunal de Justiça, o movimento pretende entrar com alguma outra medida judicial ou não?
Cristiano Oliveira - O movimento vai tomar todas as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias como forma de chamar a atenção da população sobre os riscos econômicos e sociais dessa lei, em termos da retirada violenta dos catadores e em termos dos gastos públicos.
JC - A prefeitura tem buscado um diálogo com os trabalhadores?
Cristiano Oliveira - A prefeitura tem dialogado somente com quem está alinhado com as propostas de criminalização e confinamento dos catadores. Com o movimento eles procuraram estabelecer diálogo no início de 2009, mas logo que foi apresentada a visão e as propostas feitas pelo movimento em relação a essa realidade, nunca mais fomos procurados.
JC - Qual a sua opinião a respeito das propostas da prefeitura para o cumprimento da lei?
Cristiano Oliveira - Todos concordamos que a situação desses trabalhadores é péssima e precisa ser transformada, mas tratar essa questão social como caso de polícia através da criminalização, descriminação e confinamento não é, nem de longe, a melhor forma de encaminhamento político a ser dado. Isso porque os trabalhadores incluídos vão ficar a mercê das empreiteiras contratadas para o recolhimento dos materiais. Sem falar que a grande maioria dos catadores permanecerá excluída desse modelo, pois não há como todos trabalharem apenas com triagem e comercialização de materiais e fazer com que, do dia para a noite, os catadores, os quais desempenham historicamente a atividade de coleta, simplesmente se tornem "triadores". Essa intenção de reconversão massiva dos catadores para outras atividades produtivas é de caráter extremamente autoritário, pois obriga o catador a mudar de ocupação sem ao menos considerar seus atributos e a sua vontade. Todo esse processo pode ser sintetizado por duas expressões que traduzem bem esse contexto: exclusão social e privatização da coleta seletiva.
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=23413&codp=104&codni=3
Para sociólogo, legislação irá gerar sofrimento
Juliano Tatsch
A Lei 10.531/08, sancionada em setembro de 2008, que institui o Programa de Redução Gradativa do Número de Veículos de Tração Animal e Humana, os conhecidos carrinhos e carroças, resultará em sofrimento para os catadores que há muitos anos trabalham utilizando os veículos. A opinião é do sociólogo e ex-catador Cristiano Benites Oliveira, articulador da frente de apoio aos catadores vinculada ao Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Em entrevista concedida ao Jornal do Comércio, Oliveira considera a retirada de circulação das carroças e dos carrinhos uma ação violenta e que resultará em mais gastos para a prefeitura.
Jornal do Comércio - O que os trabalhadores acham da lei? Quais as principais críticas a ela?
Cristiano Oliveira - Os catadores vêm sofrendo com o mercado dos recicláveis há muito tempo. Isso porque as grandes empresas do setor controlam a formação dos preços de materiais. Não bastasse esse tipo distorcido de relação de mercado, desde o início da implantação dos programas de coleta seletiva nos municípios, os poderes públicos, em conjunto com as empresas do ramo de serviços relacionados à destinação de resíduos, passaram progressivamente a desqualificar o catador. Essa desqualificação é o que fortalece a exclusão social desses indivíduos. Esse processo se expande de diversas formas, através de velhos e novos estereótipos, os quais classificam os catadores como "lixeiro", "imundo", "marginal", "ladrão de lixo" ou, mais atualmente, de "explorador de animais e crianças", "tranca-rua", "poluidor", ou ainda de "incapaz", "doente", "coitado". Todas essas denominações contribuem para o julgamento e a condenação precipitada dos catadores o que proporciona a sua criminalização. A construção e o fortalecimento dessa imagem negativa beneficiam as elites políticas conservadoras que ganham votos em cima da exclusão dos pobres dos centros urbanos e as empreiteiras ávidas por contratos públicos, as quais se autointitulam "profissionais" dos serviços de coleta seletiva de resíduos.Criminalizar essa população trabalhadora retirando seu direito à cidade e ao trabalho, ao invés de investir para a correção das distorções desse mercado, significa tratar a questão social da reciclagem como caso de polícia. É, também, retroceder na história socioeconômica jogando fora novas oportunidades de desenvolvimento através da redistribuição de riquezas produzidas pelo trabalho com essas matérias-primas descartadas.
JC - Tu achas que a lei será cumprida? E, se for, será dentro do prazo?
Cristiano Oliveira - O cumprimento dessa lei vai gerar enormes perdas e custos tanto em termos de sofrimento humano quanto em termos econômicos, através do empenho de rios de recursos públicos para a ampliação de contratos com empreiteiras de coleta seletiva e para a construção de grandes e caríssimas estruturas de galpões de triagem de resíduos para confinar os catadores em seu interior, de preferência em periferias bem distantes dos centros urbanos.
JC - Com a derrubada da ação de inconstitucionalidade por parte do Tribunal de Justiça, o movimento pretende entrar com alguma outra medida judicial ou não?
Cristiano Oliveira - O movimento vai tomar todas as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias como forma de chamar a atenção da população sobre os riscos econômicos e sociais dessa lei, em termos da retirada violenta dos catadores e em termos dos gastos públicos.
JC - A prefeitura tem buscado um diálogo com os trabalhadores?
Cristiano Oliveira - A prefeitura tem dialogado somente com quem está alinhado com as propostas de criminalização e confinamento dos catadores. Com o movimento eles procuraram estabelecer diálogo no início de 2009, mas logo que foi apresentada a visão e as propostas feitas pelo movimento em relação a essa realidade, nunca mais fomos procurados.
JC - Qual a sua opinião a respeito das propostas da prefeitura para o cumprimento da lei?
Cristiano Oliveira - Todos concordamos que a situação desses trabalhadores é péssima e precisa ser transformada, mas tratar essa questão social como caso de polícia através da criminalização, descriminação e confinamento não é, nem de longe, a melhor forma de encaminhamento político a ser dado. Isso porque os trabalhadores incluídos vão ficar a mercê das empreiteiras contratadas para o recolhimento dos materiais. Sem falar que a grande maioria dos catadores permanecerá excluída desse modelo, pois não há como todos trabalharem apenas com triagem e comercialização de materiais e fazer com que, do dia para a noite, os catadores, os quais desempenham historicamente a atividade de coleta, simplesmente se tornem "triadores". Essa intenção de reconversão massiva dos catadores para outras atividades produtivas é de caráter extremamente autoritário, pois obriga o catador a mudar de ocupação sem ao menos considerar seus atributos e a sua vontade. Todo esse processo pode ser sintetizado por duas expressões que traduzem bem esse contexto: exclusão social e privatização da coleta seletiva.
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=23413&codp=104&codni=3
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