No JC de hoje está publicada uma matéria minha falando sobre como funcionam as UPPs. Fiz uma entrevista com o sub-secretário de Segurança carioca um tempo atrás e aproveitamos o momento para lançá-la. No meio do texto, coloquei uma passagem para saciar a minha veia subversiva. Não sabia se ia passar, mas, como eu não costumo me auto-censurar escrevi e, bom, tá na página. Reproduzo abaixo o trecho.
"Enquanto a violência estava localizada nas periferias, nas favelas, vitimando jovens pobres e, em sua maioria, negros, nada, ou muito pouco, se fez. Quando ela começou a descer dos morros e chegar ao asfalto, às zonas nobres, ao Leblon, a Copacabana, a Ipanema, atitudes tiveram de ser tomadas. Foi assim no Rio de Janeiro e foi assim também em Porto Alegre, com ações sendo adotadas somente quando o crack saiu das vilas e de baixo das pontes e começou a chegar às classes médias, na Bela Vista, no Moinhos de Vento e no Menino Deus.
No Rio de Janeiro, o Estado abandonou as favelas. Não ocupou o seu espaço. As facções criminosas, por sua vez, não bobearam e passaram a ditar as suas regras nas comunidades pobres cariocas. O Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando (TC), o Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando Puro (TCP), união entre o TC e o ADA, assumiram, às avessas, o papel governamental e começaram a comandar muitas das favelas do Rio.
Com o tempo, se aproximaram dos moradores, prestando serviços que seriam de obrigação dos governos, e fazendo com que eles passassem a sentir medo da polícia, que subia os morros e deixava para trás um rastro de sangue, não distinguindo inocentes de criminosos."
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
A adolescência (ou onde foram parar aqueles quatro anos?)
Estava eu alguns dias atrás tentando dar uma organizada nas minhas gavetas quando encontrei por acaso alguns álbuns de fotografias meus. Olhei todos, página por página e, após repassar muitos anos da minha vida, lembrando com saudade de alguns daqueles instantes registrados e com não tanta saudade outros, percebi uma coisa que nunca havia notado, mas que depois, pensando bem, vi que fazia sentido: não tenho nenhuma foto da minha adolescência, mais especificamente do período entre meus 15 aos 19 anos, naqueles álbuns.
No início me espantei e comecei a procurar fotos do meu tempo de imberbe adolescente para colocar, uma que fosse, em algum daqueles depositórios de imagens. Depois de vasculhar em todos os lugares em que tenho fotos guardadas me espantei mais ainda. Não tenho nenhuma foto minha de quando eu era adolescente. Comecei a pensar, tentando encontrar uma razão para isso. Nem demorei muito para encontrá-la, a razão. O fato é que esse período da minha vida não me deixou nenhuma marca indelével. Nada. Não tenho nenhuma lembrança de algum acontecimento importante que tenha ocorrido nessa época. Nada. Aprofundando-me um pouco mais na questão, percebi outra coisa: de todos os amigos que eu tenho hoje, que na verdade não são tantos assim, (mas, sinto dizer a você que está lendo e que tem muitos amigos, são, indiscutivelmente, os melhores amigos que uma pessoa pode ter, sem dúvida nenhuma melhores que os seus amigos, até porque, para você estar lendo isso, eu devo ser um deles e os meus amigos são beeem melhores do que eu), nenhum eu conheci entre os 14 e os 18 anos. Não fiz amigos, não tive amores nem paixões. Não fiz sequer inimigos.
Até hoje eu sei o sobrenome de quase todos os meus colegas de Ensino Fundamental. Dos meus colegas de Ensino Médio, não sei o nome de nenhum. A impressão que tenho é que eu saltei do último ano do Ensino Fundamental direto para o primeiro ano da faculdade. Há um vácuo nesse período intermediário. E acho que esses anos me fazem falta de vez em quando. Não sei de que forma nem quando nem porque, ma sinto que falta alguma coisa às vezes, algo na formação. Não sei ao certo, mas acho que pode ser isso.
Tentando buscar uma explicação para esse buraco negro que separa meus 15 dos meus 19 anos, achei uma que me pareceu a mais plausível. A minha extremíssima dificuldade de me relacionar com as pessoas. Quando falo extremíssima não uso de um superlativo clichê ou de uma força de expressão. Era extremíssima mesmo. Recordo-me que, nesse ínterim de tempo, quando conversava com alguém, eu não conseguia olhar nos olhos dessa pessoa. Simplesmente não conseguia. Ficava a conversa toda ou olhando para baixo ou buscando algo ao redor para me chamar a atenção. Para quem me conhece hoje e me conheceu depois que eu entrei na faculdade, em 2003, pode parecer algo imaginável, mas eu era o tímido mais tímido do que o tímido mais tímido que vocês conhecem.
Na faculdade eu encontrei uma forma de me relacionar mais e melhor com as pessoas. O humor. Sempre gostei de fazer os outros rirem. Na faculdade, porém, acho que percebi que essa poderia ser uma boa maneira de me comunicar. Não que eu seja um Grouxo Marx, mas acho que tenho talento para fazer as pessoas rirem. Não sei contar piadas, não sou um grande imitador, mas sempre fui bom em aproveitar as deixas, em fazer alguma observação divertida no momento correto, de fazer trejeitos para falar, enfim. Para um colega, sou o “maior humorista vivo” (abraço Ponsito). Um outro amigo sempre me diz que um dia ainda me verá na TV em algum programa relacionado ao humor (abraço Adorno). Sei que os dois são grandes amigos e exageraram, mas, sem falsa modéstia, sei divertir. O fato é que esse artifício fez com que eu mudasse muito. Hoje, a minha timidez se restringe às relações com pessoas que eu não conheço e a algumas situações bem específicas. Com os amigos e colegas de trabalho, às vezes, sou expansivo até demais.
A minha retração entre os 15 e os 19 anos fez com que esse espaço de tempo não ficasse registrado, nem na memória, nem em escritos, nem em fotografias. É como se um prédio de, até agora 26 andares, tivesse um alicerce muito sólido, com os primeiros quatorze andares bem construídos com cada um deles estando repletos de momentos, de lembranças, de histórias, de pessoas. Daí, do décimo quinto ao décimo nono andares, só há espaço vazio. Quatro andares sem nada, nenhum móvel, nenhuma cortina, nenhum bilhete sequer. Alguma poeira no vidro das janelas, talvez. A partir do décimo nono, os andares voltam a estar cheios.
É engraçado, ao mesmo tempo que é triste, ao mesmo tempo que é curioso, ao mesmo tempo que é difícil. Essa fase da vida talvez seja a que mais se faz besteira, mais se faz loucuras, mais se chora, mais se ama, mais se odeia. É uma fase da vida que, geralmente, deixa pouco de conteúdo para o restante que segue. O pouco às vezes, porém, faz muita diferença. Em alguns casos, faz toda a diferença.
No início me espantei e comecei a procurar fotos do meu tempo de imberbe adolescente para colocar, uma que fosse, em algum daqueles depositórios de imagens. Depois de vasculhar em todos os lugares em que tenho fotos guardadas me espantei mais ainda. Não tenho nenhuma foto minha de quando eu era adolescente. Comecei a pensar, tentando encontrar uma razão para isso. Nem demorei muito para encontrá-la, a razão. O fato é que esse período da minha vida não me deixou nenhuma marca indelével. Nada. Não tenho nenhuma lembrança de algum acontecimento importante que tenha ocorrido nessa época. Nada. Aprofundando-me um pouco mais na questão, percebi outra coisa: de todos os amigos que eu tenho hoje, que na verdade não são tantos assim, (mas, sinto dizer a você que está lendo e que tem muitos amigos, são, indiscutivelmente, os melhores amigos que uma pessoa pode ter, sem dúvida nenhuma melhores que os seus amigos, até porque, para você estar lendo isso, eu devo ser um deles e os meus amigos são beeem melhores do que eu), nenhum eu conheci entre os 14 e os 18 anos. Não fiz amigos, não tive amores nem paixões. Não fiz sequer inimigos.
Até hoje eu sei o sobrenome de quase todos os meus colegas de Ensino Fundamental. Dos meus colegas de Ensino Médio, não sei o nome de nenhum. A impressão que tenho é que eu saltei do último ano do Ensino Fundamental direto para o primeiro ano da faculdade. Há um vácuo nesse período intermediário. E acho que esses anos me fazem falta de vez em quando. Não sei de que forma nem quando nem porque, ma sinto que falta alguma coisa às vezes, algo na formação. Não sei ao certo, mas acho que pode ser isso.
Tentando buscar uma explicação para esse buraco negro que separa meus 15 dos meus 19 anos, achei uma que me pareceu a mais plausível. A minha extremíssima dificuldade de me relacionar com as pessoas. Quando falo extremíssima não uso de um superlativo clichê ou de uma força de expressão. Era extremíssima mesmo. Recordo-me que, nesse ínterim de tempo, quando conversava com alguém, eu não conseguia olhar nos olhos dessa pessoa. Simplesmente não conseguia. Ficava a conversa toda ou olhando para baixo ou buscando algo ao redor para me chamar a atenção. Para quem me conhece hoje e me conheceu depois que eu entrei na faculdade, em 2003, pode parecer algo imaginável, mas eu era o tímido mais tímido do que o tímido mais tímido que vocês conhecem.
Na faculdade eu encontrei uma forma de me relacionar mais e melhor com as pessoas. O humor. Sempre gostei de fazer os outros rirem. Na faculdade, porém, acho que percebi que essa poderia ser uma boa maneira de me comunicar. Não que eu seja um Grouxo Marx, mas acho que tenho talento para fazer as pessoas rirem. Não sei contar piadas, não sou um grande imitador, mas sempre fui bom em aproveitar as deixas, em fazer alguma observação divertida no momento correto, de fazer trejeitos para falar, enfim. Para um colega, sou o “maior humorista vivo” (abraço Ponsito). Um outro amigo sempre me diz que um dia ainda me verá na TV em algum programa relacionado ao humor (abraço Adorno). Sei que os dois são grandes amigos e exageraram, mas, sem falsa modéstia, sei divertir. O fato é que esse artifício fez com que eu mudasse muito. Hoje, a minha timidez se restringe às relações com pessoas que eu não conheço e a algumas situações bem específicas. Com os amigos e colegas de trabalho, às vezes, sou expansivo até demais.
A minha retração entre os 15 e os 19 anos fez com que esse espaço de tempo não ficasse registrado, nem na memória, nem em escritos, nem em fotografias. É como se um prédio de, até agora 26 andares, tivesse um alicerce muito sólido, com os primeiros quatorze andares bem construídos com cada um deles estando repletos de momentos, de lembranças, de histórias, de pessoas. Daí, do décimo quinto ao décimo nono andares, só há espaço vazio. Quatro andares sem nada, nenhum móvel, nenhuma cortina, nenhum bilhete sequer. Alguma poeira no vidro das janelas, talvez. A partir do décimo nono, os andares voltam a estar cheios.
É engraçado, ao mesmo tempo que é triste, ao mesmo tempo que é curioso, ao mesmo tempo que é difícil. Essa fase da vida talvez seja a que mais se faz besteira, mais se faz loucuras, mais se chora, mais se ama, mais se odeia. É uma fase da vida que, geralmente, deixa pouco de conteúdo para o restante que segue. O pouco às vezes, porém, faz muita diferença. Em alguns casos, faz toda a diferença.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Uma aula pós beatle Paul
A segunda-feira pós beatle Paul foi de alegria por ter presenciado O show, muito cansaço e de uma bela aula sobre violência, criminalidade e segurança pública.
Luiz Eduardo Soares é antropólogo, mestre em Antropologia Social e doutor em Ciência Política. Ele ficou bastante conhecido por ser um dos autores dos livros Elite da Tropa, 1 e 2, que deram origem aos dois filmes Tropa de Elite. Soares esteve em Porto Alegre, participando de dois eventos, na Ufrgs e na Esade, e autografando seu livro na Feira.
Conversei com ele e assisti a toda a sua apresentação na Esade. O antropólogo não falou dos livros ou dos filmes, e sim sobre violência e segurança. O cara sabe muito sobre o assunto e tem opiniões bem interessantes.
Fiz uma matéria para o JC que está publicada na desta terça-feira e os caríssimos amigos leitores podem conferir no link lá embaixo. Porém, como o espaço da página do jornal é restrito, sobrou muita coisa legal que eu não poderia descartar. Assim, segue abaixo outros trechos do que o Luiz Eduardo falou que, junto com a matéria do JC, formam um panorama bacana sobre a questão.
Como você analisa o modo como a questão da violência é tratada hoje no Brasil?
Luiz Eduardo Soares - O tratamento conferido pelas autoridades e pelas lideranças políticas não é compatível com a magnitude e com a gravidade do problema. Nós precisamos muito mais do que ações tópicas e reativas. As autoridades se debruçam sobre o problema na crise. Quando o doente vai para o CTI há alguma ação e a ação que se pode fazer no CTI é muito limitada. Para que se previna o problema nós vamos precisar de uma profunda reforma institucional.
Houve uma maior preocupação em levar políticas sociais para as periferias depois que a violência saiu delas e passou a fazer parte do cotidiano das zonas nobres das cidades? O mesmo vale para as drogas?
Luiz Eduardo Soares - No Rio há uma confluência entre áreas pobres e nobres e os problemas sempre foram sentidos por todos. Em outras cidades, como São Paulo, onde o cinturão da periferia fica distante e fora do centro urbano que era objeto da atenção midiática, esses problemas não eram visíveis até o início dos anos 1990. E se tornaram mais visíveis e sentidos não porque houve um crescimento, mas, sobretudo, porque os problemas se derramaram sobre as áreas mais nobres da cidade que constituem o foco de interesse e atenção da mídia.
Em curto prazo, a algo que possa ser feito?
Luiz Eduardo Soares - Não há como inventar soluções rápidas, pois os instrumentos disponíveis são muito precários. Infelizmente as respostas rápidas são as que vem sendo dadas e são insuficientes. Para que seja possível mudar a qualidade do problema e a qualidade da nossa resposta temos pensar em logo prazo. Para que isso ocorra temos de transformar o modelo policial, reestruturar as organizações policiais e todo o quadro das instituições da segurança pública, que é um quadro montado para atender a realidade da Ditadura. Parte do nosso problema tem a ver com a incapacidade do Estado de garantir a legalidade e respeitar a Constituição e a incapacidade de operar as mudanças necessárias para que as policias funcionem de acordo com os mandamentos constitucionais e suprir as exigências de uma sociedade tão complexa.
Sobre a atuação das policias
“A tarefa fundamental não é proteger a vida, pois, se estando em uma guerra, a tarefa fundamental é matar o inimigo.”
Sobre as carências nas investigações
“A taxa de esclarecimento de crimes letais no Rio de Janeiro varia de 1,5% a 7,8%. Isto é, apenas esta porcentagem de inquéritos são aceitos pelo MP. Nos países desenvolvidos, esse percentual varia de 80% a 90%.”
Sobre o foco das ações policiais
“O foco da atuação policial está no flagrante. Isto configura uma seletividade, resultando no processo que chamamos de criminalização da pobreza.”
Sobre a “guerra às drogas”
“A partir dos anos 1990, há uma atenção muito grande à questão da droga. Porém, mais uma vez, está nos jovens pobres e negros.”
Sobre o oportunismo em tempos difíceis
“Na crise só há resposta para a crise. É preciso reconstruir as instituições, mas isto requer tempo.”
Sobre o papel da polícia
“As estruturas organizacionais das nossas polícias são incompatíveis com as nossas necessidades democráticas. As policias brasileiras funcionam sem gestão como máquinas burocráticas. Elas são reativas e não proativas. O policial tem de ser um gestor local da violência, com capacidade de interpretar os acontecimentos, não agindo reativamente.”
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=45866
Luiz Eduardo Soares é antropólogo, mestre em Antropologia Social e doutor em Ciência Política. Ele ficou bastante conhecido por ser um dos autores dos livros Elite da Tropa, 1 e 2, que deram origem aos dois filmes Tropa de Elite. Soares esteve em Porto Alegre, participando de dois eventos, na Ufrgs e na Esade, e autografando seu livro na Feira.
Conversei com ele e assisti a toda a sua apresentação na Esade. O antropólogo não falou dos livros ou dos filmes, e sim sobre violência e segurança. O cara sabe muito sobre o assunto e tem opiniões bem interessantes.
Fiz uma matéria para o JC que está publicada na desta terça-feira e os caríssimos amigos leitores podem conferir no link lá embaixo. Porém, como o espaço da página do jornal é restrito, sobrou muita coisa legal que eu não poderia descartar. Assim, segue abaixo outros trechos do que o Luiz Eduardo falou que, junto com a matéria do JC, formam um panorama bacana sobre a questão.
Como você analisa o modo como a questão da violência é tratada hoje no Brasil?
Luiz Eduardo Soares - O tratamento conferido pelas autoridades e pelas lideranças políticas não é compatível com a magnitude e com a gravidade do problema. Nós precisamos muito mais do que ações tópicas e reativas. As autoridades se debruçam sobre o problema na crise. Quando o doente vai para o CTI há alguma ação e a ação que se pode fazer no CTI é muito limitada. Para que se previna o problema nós vamos precisar de uma profunda reforma institucional.
Houve uma maior preocupação em levar políticas sociais para as periferias depois que a violência saiu delas e passou a fazer parte do cotidiano das zonas nobres das cidades? O mesmo vale para as drogas?
Luiz Eduardo Soares - No Rio há uma confluência entre áreas pobres e nobres e os problemas sempre foram sentidos por todos. Em outras cidades, como São Paulo, onde o cinturão da periferia fica distante e fora do centro urbano que era objeto da atenção midiática, esses problemas não eram visíveis até o início dos anos 1990. E se tornaram mais visíveis e sentidos não porque houve um crescimento, mas, sobretudo, porque os problemas se derramaram sobre as áreas mais nobres da cidade que constituem o foco de interesse e atenção da mídia.
Em curto prazo, a algo que possa ser feito?
Luiz Eduardo Soares - Não há como inventar soluções rápidas, pois os instrumentos disponíveis são muito precários. Infelizmente as respostas rápidas são as que vem sendo dadas e são insuficientes. Para que seja possível mudar a qualidade do problema e a qualidade da nossa resposta temos pensar em logo prazo. Para que isso ocorra temos de transformar o modelo policial, reestruturar as organizações policiais e todo o quadro das instituições da segurança pública, que é um quadro montado para atender a realidade da Ditadura. Parte do nosso problema tem a ver com a incapacidade do Estado de garantir a legalidade e respeitar a Constituição e a incapacidade de operar as mudanças necessárias para que as policias funcionem de acordo com os mandamentos constitucionais e suprir as exigências de uma sociedade tão complexa.
Sobre a atuação das policias
“A tarefa fundamental não é proteger a vida, pois, se estando em uma guerra, a tarefa fundamental é matar o inimigo.”
Sobre as carências nas investigações
“A taxa de esclarecimento de crimes letais no Rio de Janeiro varia de 1,5% a 7,8%. Isto é, apenas esta porcentagem de inquéritos são aceitos pelo MP. Nos países desenvolvidos, esse percentual varia de 80% a 90%.”
Sobre o foco das ações policiais
“O foco da atuação policial está no flagrante. Isto configura uma seletividade, resultando no processo que chamamos de criminalização da pobreza.”
Sobre a “guerra às drogas”
“A partir dos anos 1990, há uma atenção muito grande à questão da droga. Porém, mais uma vez, está nos jovens pobres e negros.”
Sobre o oportunismo em tempos difíceis
“Na crise só há resposta para a crise. É preciso reconstruir as instituições, mas isto requer tempo.”
Sobre o papel da polícia
“As estruturas organizacionais das nossas polícias são incompatíveis com as nossas necessidades democráticas. As policias brasileiras funcionam sem gestão como máquinas burocráticas. Elas são reativas e não proativas. O policial tem de ser um gestor local da violência, com capacidade de interpretar os acontecimentos, não agindo reativamente.”
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=45866
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Ao meu avô
Uma das lembranças mais presentes que tenho da minha infância é a de ver meu avô, na época já com seus 74, 75 anos de idade, no alto de uma árvore cortando os galhos ou, o que era ainda mais espetacular, fixando, na mesma árvore, a uns 2,5 metros do chão, uma tabela de basquete improvisada, feita somente com arame e com uma tábua, para que os netos se divertissem em uma ensolarada tarde de domingo. Eu era bem pequeno ainda, participava pouco das brincadeiras realizadas pelos meus primos quatro ou cinco anos mais velhos, mas sempre me encantava aquela iniciativa de um homem já idoso, mas com uma vitalidade tremenda. A segunda imagem que eu guardo é a de encontrar no ônibus algumas vezes, por pura coincidência, aquele senhor com setenta e tantos anos vindo do trabalho. Para mim, uma criança com menos de dez anos, era bem estranho ter um avô que trabalhava. Pelo que me lembro, eu era o único da minha turma de amigos que tinha um avô que trabalhava. Me lembro que achava isso super legal.
Outra imagem que ficará para sempre na minha cabeça é a do vô Felipe, já com seus 86 anos, subindo a rua da minha casa para ir visitar meu pai, que estava se recuperando de uma cirurgia. Hoje, eu, com meus 26 anos, dificilmente percorro os cerca de 200 metros dessa subida sem parar, uma vez que seja, para recuperar o fôlego. Eu não me recordo de ter o visto parar uma vez sequer.
Ele não era um homem de muitas palavras. Falava pouco, baixinho. Ele tinha a sabedoria que só os anos trazem e, assim, do seu jeito, dava mais uma lição aos filhos, aos netos, aos bisnetos e a todos que puderam conviver por alguns poucos minutos que seja com ele: aprende-se ouvindo, e não falando.
Nunca vi o vô brabo. Ou melhor, nunca vi ele ter de alterar completamente seu modo usual de se comportar por estar brabo. Nunca vi ele levantar a voz. A sua autoridade caminhava ao lado da sua presença. Ele não precisava gritar, não precisava falar pelos cotovelos, não precisava gesticular. A sua presença impunha um respeito que, assim como a sabedoria, só se conquista com a chegada dos cabelos brancos.
Ele não era aquele modelo de avô que nos acostumamos a imaginar como o “avô perfeito”. Não. Quando os netos iam visitá-lo, ele não os esperava de braços abertos, com doces nas mãos, pegava-os e os colocava no colo para ouvir como havia sido a semana dos pequenos ou para contar lindas histórias. Não, ele não fazia isso. Mas, será que basta fazer isso para ser considerado um avô perfeito? Não, não acho que basta. O avô perfeito é aquele que é um modelo para seus netos. O avô perfeito é aquele que pode contar toda a história da sua vida para seus netos, sem ter de esconder nenhum detalhe ou ter de inventar partes que nunca existiram. O avô perfeito é aquele que dá exemplos, que ensina sem precisar falar, que educa sem precisar dar sermões, que ama sem precisar dar presentes. O avô perfeito é aquele é, sem precisar mostrar que é.
O que falar de um homem que teve dez filhos, 15 netos e dez bisnetos, ou seja, 35 descendentes, sem que nenhum deles tenha seguido um caminho errado na vida? Pode-se falar muita coisa. Pode-se passar horas, dias, semanas, meses, anos falando sem que falte assunto. Eu, porém, só tenho duas palavras a dizer: muito obrigado. Até breve.
Outra imagem que ficará para sempre na minha cabeça é a do vô Felipe, já com seus 86 anos, subindo a rua da minha casa para ir visitar meu pai, que estava se recuperando de uma cirurgia. Hoje, eu, com meus 26 anos, dificilmente percorro os cerca de 200 metros dessa subida sem parar, uma vez que seja, para recuperar o fôlego. Eu não me recordo de ter o visto parar uma vez sequer.
Ele não era um homem de muitas palavras. Falava pouco, baixinho. Ele tinha a sabedoria que só os anos trazem e, assim, do seu jeito, dava mais uma lição aos filhos, aos netos, aos bisnetos e a todos que puderam conviver por alguns poucos minutos que seja com ele: aprende-se ouvindo, e não falando.
Nunca vi o vô brabo. Ou melhor, nunca vi ele ter de alterar completamente seu modo usual de se comportar por estar brabo. Nunca vi ele levantar a voz. A sua autoridade caminhava ao lado da sua presença. Ele não precisava gritar, não precisava falar pelos cotovelos, não precisava gesticular. A sua presença impunha um respeito que, assim como a sabedoria, só se conquista com a chegada dos cabelos brancos.
Ele não era aquele modelo de avô que nos acostumamos a imaginar como o “avô perfeito”. Não. Quando os netos iam visitá-lo, ele não os esperava de braços abertos, com doces nas mãos, pegava-os e os colocava no colo para ouvir como havia sido a semana dos pequenos ou para contar lindas histórias. Não, ele não fazia isso. Mas, será que basta fazer isso para ser considerado um avô perfeito? Não, não acho que basta. O avô perfeito é aquele que é um modelo para seus netos. O avô perfeito é aquele que pode contar toda a história da sua vida para seus netos, sem ter de esconder nenhum detalhe ou ter de inventar partes que nunca existiram. O avô perfeito é aquele que dá exemplos, que ensina sem precisar falar, que educa sem precisar dar sermões, que ama sem precisar dar presentes. O avô perfeito é aquele é, sem precisar mostrar que é.
O que falar de um homem que teve dez filhos, 15 netos e dez bisnetos, ou seja, 35 descendentes, sem que nenhum deles tenha seguido um caminho errado na vida? Pode-se falar muita coisa. Pode-se passar horas, dias, semanas, meses, anos falando sem que falte assunto. Eu, porém, só tenho duas palavras a dizer: muito obrigado. Até breve.
sábado, 24 de julho de 2010
Parado na Idade Média
Religião é um assunto deveras complicado de se discutir. Porém, ao contrário do que diz o clichê popular, acho que se deve discutir sobre religião. E acho que se deve discutir o papel da religião principalmente quando a cegueira que afeta alguns seguidores de crenças ou, o que é ainda pior, a cegueira que afeta líderes religiosos faz com que eles passem a adotar um posicionamento totalmente contrário ao que podemos chamar de “práticas sociais para a pacífica convivência”. Alguns reuniriam essas seis palavras e as transformariam e outra, “tolerância”. Não gosto muito do uso que se dá à essa palavra (apesar de, às vezes, acabar caindo na armadilha de usá-la nesse sentido). Não se deve ser tolerante, se deve ser respeitoso. E isso é bem diferente.
Voltando ao motivo deste post, não posso admitir e aceitar solenemente que líderes religiosos utilizem a fé como pretexto para expressarem suas raivosas e reacionárias posições pessoais. E quando falo isso, me refiro especificamente ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. D. Dadeus tem semanalmente uma coluna no Jornal do Comércio. Nas duas últimas quintas-feiras ele escreveu sobre a pedofilia. Eu não tenho dúvidas de que, se qualquer outra pessoa escrevesse o que ele escreveu, já estaria sendo alvo de diversos processos judiciais. Pelo que sei, D. Dadeus não está sendo processado. Aliás, me surpreendeu bastante o fato de os textos dele não terem repercutido. Estranho.
Bom, para exemplificar o que estou dizendo pincei alguns trechos das duas colunas, publicadas nos dias 15 e 22 de julho.
“Dificilmente passa dia em que não apareçam notícias comprometedoras contra a Igreja Católica. O calcanhar de Aquiles é a pedofilia. O que está por detrás destas acusações? Quais as lições que devemos tirar delas? É verdade o que se noticia? O que se visa com esta campanha difamatória? Por que se quer tirar os crucifixos das repartições públicas, acabando com uma tradição milenar? Por que se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade? Por que se quer apagar da memória a fecunda atuação da Igreja no Brasil, que moldou nossa cultura? Por que se combate a pedofilia, mas se promove o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a corrupção?”
Esse é o primeiro parágrafo do texto publicado no dia 15 de julho.Todo ele é uma “obra”. Frisei três frases que são algo que não se pode admitir mais que alguém profira sem ser duramente questionado sobre as razões de tais afirmações. O religioso reclama da retirada de crucifixos de repartições públicas e pergunta “porque se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade”. Primeiro, o Brasil não tem uma religião oficial, os órgão públicos não podem ostentar símbolos de uma só religião. Isso é um desrespeito a todas as outras e, como não dá para transformar todos os prédios públicos em centros ecumênicos, que a religião não esteja dentro deles. Segundo, para quem esses sinais são sagrados? Só para os católicos. A sociedade não é católica. Eles, portanto, não são sagrados para a sociedade. O último questionamento que D. Dadeus no começo de seu texto é o mais impressionante de todos. Como que alguém fala uma coisa dessas é não recebe duras críticas? Notem bem, na mesma frase, o arcebispo de Porto Alegre questiona o combate à pedofilia e criminaliza o divórcio e o homossexualismo comparando-os à corrupção e à própria pedofilia. Isso sem falar no fato de comparar tudo isso.
Como já disse em outro lugar, é por coisas como essa que, apesar de continuar sendo cristão, sou cada vez menos católico. Vale ressaltar, porém, que o pensamento atrasado, arcaico, sexista, extremamente preconceituoso, é o pensamento de um líder católico, mas é, também, o pensamento de uma pessoa. A religião não é a única responsável. É muito responsável, mas não é a única.
Voltando ao motivo deste post, não posso admitir e aceitar solenemente que líderes religiosos utilizem a fé como pretexto para expressarem suas raivosas e reacionárias posições pessoais. E quando falo isso, me refiro especificamente ao arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. D. Dadeus tem semanalmente uma coluna no Jornal do Comércio. Nas duas últimas quintas-feiras ele escreveu sobre a pedofilia. Eu não tenho dúvidas de que, se qualquer outra pessoa escrevesse o que ele escreveu, já estaria sendo alvo de diversos processos judiciais. Pelo que sei, D. Dadeus não está sendo processado. Aliás, me surpreendeu bastante o fato de os textos dele não terem repercutido. Estranho.
Bom, para exemplificar o que estou dizendo pincei alguns trechos das duas colunas, publicadas nos dias 15 e 22 de julho.
“Dificilmente passa dia em que não apareçam notícias comprometedoras contra a Igreja Católica. O calcanhar de Aquiles é a pedofilia. O que está por detrás destas acusações? Quais as lições que devemos tirar delas? É verdade o que se noticia? O que se visa com esta campanha difamatória? Por que se quer tirar os crucifixos das repartições públicas, acabando com uma tradição milenar? Por que se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade? Por que se quer apagar da memória a fecunda atuação da Igreja no Brasil, que moldou nossa cultura? Por que se combate a pedofilia, mas se promove o aborto, o divórcio, a homossexualidade, a corrupção?”
Esse é o primeiro parágrafo do texto publicado no dia 15 de julho.Todo ele é uma “obra”. Frisei três frases que são algo que não se pode admitir mais que alguém profira sem ser duramente questionado sobre as razões de tais afirmações. O religioso reclama da retirada de crucifixos de repartições públicas e pergunta “porque se pretende eliminar os sinais do sagrado na sociedade”. Primeiro, o Brasil não tem uma religião oficial, os órgão públicos não podem ostentar símbolos de uma só religião. Isso é um desrespeito a todas as outras e, como não dá para transformar todos os prédios públicos em centros ecumênicos, que a religião não esteja dentro deles. Segundo, para quem esses sinais são sagrados? Só para os católicos. A sociedade não é católica. Eles, portanto, não são sagrados para a sociedade. O último questionamento que D. Dadeus no começo de seu texto é o mais impressionante de todos. Como que alguém fala uma coisa dessas é não recebe duras críticas? Notem bem, na mesma frase, o arcebispo de Porto Alegre questiona o combate à pedofilia e criminaliza o divórcio e o homossexualismo comparando-os à corrupção e à própria pedofilia. Isso sem falar no fato de comparar tudo isso.
Como já disse em outro lugar, é por coisas como essa que, apesar de continuar sendo cristão, sou cada vez menos católico. Vale ressaltar, porém, que o pensamento atrasado, arcaico, sexista, extremamente preconceituoso, é o pensamento de um líder católico, mas é, também, o pensamento de uma pessoa. A religião não é a única responsável. É muito responsável, mas não é a única.
Vamos a outro trecho.
“Se a Igreja reconhece que há crimes de pedofilia em seu meio, apesar de todos os seus cuidados, por que se fala de perseguição da imprensa? A resposta é óbvia: a denúncia se faz não contra a pedofilia, mas contra a Igreja. A estatística mostra que os casos que envolvem o clero católico representam minguados 0,2% do total da pedofilia em cada nação. Por que se dá tanta importância e se insiste nestes 0,2%, esquecendo os 99,8% dos casos? É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”
Aqui vemos o arcebispo tentando reverter o quadro e transformar a igreja em vítima. D. Dadeus classifica os abusos cometidos por padres católicos como “minguados 0,2%”, tentando tirar a importância dos crimes praticados. Depois, ele escreve “É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”. Eu respondo para ele. Os jornalistas pedófilos, os advogados pedófilos, os engenheiros pedófilos, os arquitetos pedófilos, os garis pedófilos, não se utilizam de sua atuação profissional para cometerem os crimes contra as crianças. Os padres sim.
“Se a Igreja reconhece que há crimes de pedofilia em seu meio, apesar de todos os seus cuidados, por que se fala de perseguição da imprensa? A resposta é óbvia: a denúncia se faz não contra a pedofilia, mas contra a Igreja. A estatística mostra que os casos que envolvem o clero católico representam minguados 0,2% do total da pedofilia em cada nação. Por que se dá tanta importância e se insiste nestes 0,2%, esquecendo os 99,8% dos casos? É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”
Aqui vemos o arcebispo tentando reverter o quadro e transformar a igreja em vítima. D. Dadeus classifica os abusos cometidos por padres católicos como “minguados 0,2%”, tentando tirar a importância dos crimes praticados. Depois, ele escreve “É sabido que o número de casos que envolvem o clero é muito inferior aos das outras categorias. Por que estes não são denunciados na mesma proporção?”. Eu respondo para ele. Os jornalistas pedófilos, os advogados pedófilos, os engenheiros pedófilos, os arquitetos pedófilos, os garis pedófilos, não se utilizam de sua atuação profissional para cometerem os crimes contra as crianças. Os padres sim.
Na Idade Média, a igreja mandava, desmandava e queimava quem ousava se contrapor a ela.
Vamos analisar agora o que D. Dadeus Grings escreveu em sua segunda coluna, publicada no dia 22 de julho. Vejamos alguns trechos do texto.
“Em primeiro lugar a palavra “pedofilia”, literalmente, significa amor pelas crianças, que todos devem ter, amor puro, inocente... Mas na prática pedofilia ficou ligada ao sexo. E, como é óbvio, denota abuso grave. Numa sociedade pansessexualista é difícil determinar limites.”
Aqui, o religioso apela para a origem da palavra para tentar explicar o inexplicável. A última frase é outra pérola. A igreja oprimiu as pessoas por muito tempo. Esse tempo acabou e o arcebispo lamenta que a Santa Sé não possa mais determinar o que se pode e o que não se pode fazer.
“Em terceiro lugar está a cultura da permissividade, promovida pelos meios de comunicação. Quando se lançam campanhas sistemáticas, propagam-se cenas de sexo e se afirma oficialmente que “em matéria de sexo não há certo e errado”, o que se pode esperar de bom para o comportamento humano? Beira ao cinismo, com flagrante contradição, denunciar crimes de pedofilia e alardear plena liberdade no uso da sexualidade.”
Se você não se restringe às práticas sexuais aceitas pela Igreja (ou seja, ser casado e só fazer sexo com sua esposa ou esposo quando quiser procriar) e ao mesmo tempo é contra a pedofilia você é um cínico. É isso o que o arcebispo fala na frase grifada.
Para finalizar, D. Dadeus diz o seguinte:
“Chegou a hora de a humanidade inteira se reconhecer pecadora, também no plano da pedofilia, e pedir perdão e reconciliar-se.”
Não. A humanidade inteira não. Eu não sou pedófilo, D. Dadeus, e, por isso, não tenho de pedir perdão por nada relacionado a essa abominável prática criminosa.
O líder da igreja católica no Estado parou na Idade Média. E sente falta daqueles tempos de glória. Ainda bem que a igreja não manda mais em nada. Ainda bem.
“Em primeiro lugar a palavra “pedofilia”, literalmente, significa amor pelas crianças, que todos devem ter, amor puro, inocente... Mas na prática pedofilia ficou ligada ao sexo. E, como é óbvio, denota abuso grave. Numa sociedade pansessexualista é difícil determinar limites.”
Aqui, o religioso apela para a origem da palavra para tentar explicar o inexplicável. A última frase é outra pérola. A igreja oprimiu as pessoas por muito tempo. Esse tempo acabou e o arcebispo lamenta que a Santa Sé não possa mais determinar o que se pode e o que não se pode fazer.
“Em terceiro lugar está a cultura da permissividade, promovida pelos meios de comunicação. Quando se lançam campanhas sistemáticas, propagam-se cenas de sexo e se afirma oficialmente que “em matéria de sexo não há certo e errado”, o que se pode esperar de bom para o comportamento humano? Beira ao cinismo, com flagrante contradição, denunciar crimes de pedofilia e alardear plena liberdade no uso da sexualidade.”
Se você não se restringe às práticas sexuais aceitas pela Igreja (ou seja, ser casado e só fazer sexo com sua esposa ou esposo quando quiser procriar) e ao mesmo tempo é contra a pedofilia você é um cínico. É isso o que o arcebispo fala na frase grifada.
Para finalizar, D. Dadeus diz o seguinte:
“Chegou a hora de a humanidade inteira se reconhecer pecadora, também no plano da pedofilia, e pedir perdão e reconciliar-se.”
Não. A humanidade inteira não. Eu não sou pedófilo, D. Dadeus, e, por isso, não tenho de pedir perdão por nada relacionado a essa abominável prática criminosa.
O líder da igreja católica no Estado parou na Idade Média. E sente falta daqueles tempos de glória. Ainda bem que a igreja não manda mais em nada. Ainda bem.
domingo, 18 de julho de 2010
O entrevistador, a entrevista e o entrevistado
Para celebrar a nova cara do blog, posto aqui um texto que achei beeem legal. Dando uma olhada no site da Folha encontrei esse texto que está abaixo. Um ensaio inédito do escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910), divulgado somente na semana passada. Bem interessante para quem é jornalista dar uma refletida.
"Ninguém gosta de ser entrevistado, mas ninguém gosta de dizer não, pois os entrevistadores são corteses e gentis, mesmo quando têm o propósito de destruir. Não me entendam mal: não estou dizendo que sempre chegam com a intenção deliberada de destruir, ou que só depois percebam ter destruído; não, acho que a atitude deles tem mais a ver com a de um ciclone, que chega com o propósito ameno de refrescar um vilarejo sufocante e depois não se dá conta de que fez tudo ao vilarejo, menos um favor.
O entrevistador espalha você para todos os lados, mas não passa pela cabeça dele que você possa considerar isso uma desvantagem. Quem culpa um ciclone só faz isso por não atinar que massas compactas não são exatamente a ideia que um ciclone faz da simetria. Aqueles que se queixam de um entrevistador fazem isso por não ponderar que, afinal de contas, ele não passa de um ciclone, ainda que disfarçado de Deus, como o restante de nós; ele não tem consciência da devastação, nem mesmo quando varre o continente com os nossos despojos e acredita que está tornando nossa vida mais agradável; e que, portanto, espera ser julgado por suas intenções, e não por suas realizações.
TEMOR
A entrevista não foi uma invenção feliz. Talvez seja a maneira mais precária de alcançar o âmago de um homem. Em primeiro lugar, o entrevistador não tem nada de estimulante, pois inspira temor. Você sabe pela experiência que não tem escolha diante do desastre. Não importa o que ele ponha na entrevista, você logo vê que teria sido melhor se tivesse posto outra coisa: não que aquilo fosse melhor do que isto, apenas não seria isto; e toda mudança deve ser, e seria, para melhor, ainda que, na realidade, você saiba muito bem que não é assim.
Talvez eu não tenha me expressado direito: nesse caso, então eu me expressei direito -algo que eu só conseguiria me expressando com pouca clareza, pois o que quero demonstrar é o que você sente nessa situação, e não o que pensa -pois você não pensa; não se trata de uma operação intelectual; você apenas anda em círculos, acéfalo.
Obtusamente, tudo o que você quer é não ter feito aquilo, mesmo que, na realidade, não saiba o que gostaria de ter deixado de fazer e, mais ainda, você não se importe: esse não é o ponto; você só queria não ter feito aquilo, seja lá o que for; uma vez feito, é uma questão sem importância e não vem mais ao caso. Dá para entender o que quero dizer? Você já passou por isso? Pois bem, é assim que alguém se sente ao ver sua entrevista publicada.
CONCHA
Pois é, você teme o entrevistador e isso não é estimulante. Você se fecha na sua concha; monta a guarda; tenta parecer inócuo; procura ser engenhoso e, sem nada dizer, faz rodeios e contorna o assunto; quando lê o resultado impresso, fica enojado ao notar como você se saiu bem.
O tempo todo, diante de cada nova pergunta, você está alerta para enxergar aonde o entrevistador está lhe conduzindo, a fim de frustrá-lo. Sobretudo quando o pega buscando sub-repticiamente levá-lo a dizer uma coisa engraçada. E é isso mesmo o que ele tenta fazer.
Ele demonstra isso de modo tão óbvio, empenha-se com tal franqueza e atrevimento que, já na primeira investida, o reservatório se fecha, e, na seguinte, se torna perfeitamente estanque. Não creio que, desde a invenção dessa prática sinistra, algo verdadeiramente bem-humorado tenha sido dito a um entrevistador.
No entanto, como ele precisa de algo "característico", só lhe resta contribuir, ele mesmo, com o humor, introduzindo-o aqui e ali durante a transcrição da entrevista. Esse humor é sempre esdrúxulo, muitas vezes palavroso e, em geral, formulado em "dialeto" -mesmo assim, um dialeto inexistente e inviável. Tal método já acabou com mais de um humorista. Mas não há aí nenhum mérito do entrevistador, afinal esta jamais foi a intenção dele.
EQUÍVOCO
São inúmeras as razões pelas quais a entrevista é um equívoco. Uma delas é que o entrevistador nunca parece refletir que, após ter aberto essa, aquela e mais outra torneira com sua profusão de perguntas, e ter descoberto qual delas jorra com mais abundância e interesse, o mais sensato seria restringir-se a ela e aproveitá-la ao máximo, deixando de lado as vacuidades já recolhidas.
Ele não pensa assim. Inevitavelmente interrompe a torrente, indagando sobre ainda outro assunto; e assim, de uma vez, desaparece, e para sempre, a sua única e débil oportunidade de conseguir algo que valha a pena levar para casa. Teria sido muito melhor ater-se ao assunto que despertou a loquacidade do entrevistado, mas é impossível convencê-lo disso.
Ele não consegue distinguir o momento em que você entrega o metal daquele em que o soterra com escória, entre o ouro e a borra; para ele, tudo se equivale, e ele inclui tudo o que você diz; depois, ao ver-se diante de tanta coisa imatura e imprestável, tenta remediar a situação incluindo algo de sua lavra que lhe pareça maduro, quando, na verdade, está podre. Sem dúvida, a intenção é boa, mas a do ciclone também.
Ora, as interrupções, o jeito de desviar você de um assunto para o outro, por fim têm um efeito muito grave: você está presente em cada tema, mas apenas em parte. Em geral, do que você pensa só consegue expor o suficiente para prejudicá-lo; jamais alcança aquele ponto em que pretendia explicar e justificar a sua posição."
Esse é o Mark Twain.
Somente pelo cabelo desgrenhado, pelo bigode e pelo cachimbo, já valeria a leitura.
"Ninguém gosta de ser entrevistado, mas ninguém gosta de dizer não, pois os entrevistadores são corteses e gentis, mesmo quando têm o propósito de destruir. Não me entendam mal: não estou dizendo que sempre chegam com a intenção deliberada de destruir, ou que só depois percebam ter destruído; não, acho que a atitude deles tem mais a ver com a de um ciclone, que chega com o propósito ameno de refrescar um vilarejo sufocante e depois não se dá conta de que fez tudo ao vilarejo, menos um favor.
O entrevistador espalha você para todos os lados, mas não passa pela cabeça dele que você possa considerar isso uma desvantagem. Quem culpa um ciclone só faz isso por não atinar que massas compactas não são exatamente a ideia que um ciclone faz da simetria. Aqueles que se queixam de um entrevistador fazem isso por não ponderar que, afinal de contas, ele não passa de um ciclone, ainda que disfarçado de Deus, como o restante de nós; ele não tem consciência da devastação, nem mesmo quando varre o continente com os nossos despojos e acredita que está tornando nossa vida mais agradável; e que, portanto, espera ser julgado por suas intenções, e não por suas realizações.
TEMOR
A entrevista não foi uma invenção feliz. Talvez seja a maneira mais precária de alcançar o âmago de um homem. Em primeiro lugar, o entrevistador não tem nada de estimulante, pois inspira temor. Você sabe pela experiência que não tem escolha diante do desastre. Não importa o que ele ponha na entrevista, você logo vê que teria sido melhor se tivesse posto outra coisa: não que aquilo fosse melhor do que isto, apenas não seria isto; e toda mudança deve ser, e seria, para melhor, ainda que, na realidade, você saiba muito bem que não é assim.
Talvez eu não tenha me expressado direito: nesse caso, então eu me expressei direito -algo que eu só conseguiria me expressando com pouca clareza, pois o que quero demonstrar é o que você sente nessa situação, e não o que pensa -pois você não pensa; não se trata de uma operação intelectual; você apenas anda em círculos, acéfalo.
Obtusamente, tudo o que você quer é não ter feito aquilo, mesmo que, na realidade, não saiba o que gostaria de ter deixado de fazer e, mais ainda, você não se importe: esse não é o ponto; você só queria não ter feito aquilo, seja lá o que for; uma vez feito, é uma questão sem importância e não vem mais ao caso. Dá para entender o que quero dizer? Você já passou por isso? Pois bem, é assim que alguém se sente ao ver sua entrevista publicada.
CONCHA
Pois é, você teme o entrevistador e isso não é estimulante. Você se fecha na sua concha; monta a guarda; tenta parecer inócuo; procura ser engenhoso e, sem nada dizer, faz rodeios e contorna o assunto; quando lê o resultado impresso, fica enojado ao notar como você se saiu bem.
O tempo todo, diante de cada nova pergunta, você está alerta para enxergar aonde o entrevistador está lhe conduzindo, a fim de frustrá-lo. Sobretudo quando o pega buscando sub-repticiamente levá-lo a dizer uma coisa engraçada. E é isso mesmo o que ele tenta fazer.
Ele demonstra isso de modo tão óbvio, empenha-se com tal franqueza e atrevimento que, já na primeira investida, o reservatório se fecha, e, na seguinte, se torna perfeitamente estanque. Não creio que, desde a invenção dessa prática sinistra, algo verdadeiramente bem-humorado tenha sido dito a um entrevistador.
No entanto, como ele precisa de algo "característico", só lhe resta contribuir, ele mesmo, com o humor, introduzindo-o aqui e ali durante a transcrição da entrevista. Esse humor é sempre esdrúxulo, muitas vezes palavroso e, em geral, formulado em "dialeto" -mesmo assim, um dialeto inexistente e inviável. Tal método já acabou com mais de um humorista. Mas não há aí nenhum mérito do entrevistador, afinal esta jamais foi a intenção dele.
EQUÍVOCO
São inúmeras as razões pelas quais a entrevista é um equívoco. Uma delas é que o entrevistador nunca parece refletir que, após ter aberto essa, aquela e mais outra torneira com sua profusão de perguntas, e ter descoberto qual delas jorra com mais abundância e interesse, o mais sensato seria restringir-se a ela e aproveitá-la ao máximo, deixando de lado as vacuidades já recolhidas.
Ele não pensa assim. Inevitavelmente interrompe a torrente, indagando sobre ainda outro assunto; e assim, de uma vez, desaparece, e para sempre, a sua única e débil oportunidade de conseguir algo que valha a pena levar para casa. Teria sido muito melhor ater-se ao assunto que despertou a loquacidade do entrevistado, mas é impossível convencê-lo disso.
Ele não consegue distinguir o momento em que você entrega o metal daquele em que o soterra com escória, entre o ouro e a borra; para ele, tudo se equivale, e ele inclui tudo o que você diz; depois, ao ver-se diante de tanta coisa imatura e imprestável, tenta remediar a situação incluindo algo de sua lavra que lhe pareça maduro, quando, na verdade, está podre. Sem dúvida, a intenção é boa, mas a do ciclone também.
Ora, as interrupções, o jeito de desviar você de um assunto para o outro, por fim têm um efeito muito grave: você está presente em cada tema, mas apenas em parte. Em geral, do que você pensa só consegue expor o suficiente para prejudicá-lo; jamais alcança aquele ponto em que pretendia explicar e justificar a sua posição."
Novo new look
Bom, como vocês já devem ter notado, o layout do blog mudou. Como diria um colega de redação, ele está com um novo new look. Desde 4 de abril de 2007, dia do primeiro post, ele era o mesmo. Apesar de gostar de antiguidades (Hebe Camargo, Susana Vieira e Ana Maria Braga não se enquadram nessa categoria), achei que já era tempo de uma mudança. O antigo já tinha me enchido o saco há algum tempo e achei esse bem bacana (eu diria, até, supimpa). Com isso, espero também voltar a escrever aqui com mais frequência (quando digo "com mais frequência" quero dizer sempre que tiver alguma coisa que ache interessante, uma frase que seja, ou uma foto, e não todos os dias só para marcar presença). É isso, espero que gostem.
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