terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lições para um jovem jornalista

Lição nº. 1: não seja amigo das fontes


Qualquer tipo de relacionamento exige compromissos. Amigos têm compromissos uns com os outros. Irmãos têm compromissos entre si. O pai tem compromisso com o filho e o filho com ele. O namorado tem compromisso com a namorada e a esposa com o marido. Inclusive relacionamentos profissionais subentendem compromissos. O subordinado tem compromisso para com o chefe e vice-versa.
Destarte, portanto, meu caro jovem jornalista, não seja amigo de suas fontes. Meu caro jovem jornalista, não seja um “conhecido” das suas fontes. Meu caro jovem jornalista, não tenha nenhum relacionamento com suas fontes. O profissional jornalista só tem dois compromissos: com a verdade e com a sociedade. Poderíamos citar um terceiro compromisso, que é o com a empresa para qual trabalha, mas esse é outro tipo de obrigação.
Cada vez que vou a alguma pauta e percebo que a fonte não sabe o meu nome, mesmo eu já a tendo entrevistado diversas vezes, volto para a redação em regozijo. Estou fazendo bem o meu trabalho. Não tenho compromisso algum com fontes. O compromisso de reproduzir em exatidão o que ela me diz não é um compromisso com ela, e sim com a verdade.
Não tenho um relacionamento profissional com as fontes. Simplesmente não tenho relacionamento algum com elas. Não quero ter. Elas não têm obrigações comigo nem eu com elas. Se ela for um agente público, suas obrigações são com a sociedade, não comigo.
Independência é o maior troféu que um jornalista pode ter. Credibilidade pode ser perdida mesmo com você não fazendo nada para que isso ocorra. Um boato mentiroso que corre de boca em boca pode fazer você perder a credibilidade. Nada pode tirar sua independência, se assim você quiser. Um diploma enquadrado na parede não faz de alguém um jornalista. Compromissos com a verdade factual e com a sociedade, independência, ceticismo, indignação com as injustiças e olhar apurado para enxergar aquilo que não está na superfície fazem de você um jornalista.
Esteja preparado para, sendo independente, “sofrer” com as consequências. Você, meu caro jovem jornalista, muito provavelmente deixará de ser convidado para jantares e almoços cortesia. Meu caro jovem jornalista, você com certeza deixará de receber “tocos” bastante atraentes. Talvez você não consiga ou tenha dificuldades em realizar algumas entrevistas. Você não receberá uma ligação lhe avisando antecipadamente quando algo está para ocorrer. Meu caro jovem jornalista, você dificilmente ganhará algum prêmio jornalístico na aldeia. Você não será popular, meu caro jovem jornalista.
Meu caro jovem jornalista, você não terá e não conseguirá muitas coisas que a imensa maioria de seus colegas de profissão terão e conseguirão. Você, meu caro jovem jornalista, porém, fará algo que eles, provavelmente, nunca farão na vida. Você fará Jornalismo, meu caro colega.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não texto

Senta, pega a caneta, pega o papel. Minutos passam. Bate a caneta (ritmadamente) na mesa. Mais alguns minutos. Morde a tampa da caneta. Levanta. Vai à cozinha e faz um café forte. Volta pro quarto. Senta, pega a caneta, pega o papel. Leva a caneca do líquido escuro quente à boca. Sorve um belo gole. Coloca a caneca na mesa. Pergunta-se de onde veio aquele café. Vai à cozinha, olha a embalagem. Interior de São Paulo. Nenhuma novidade. Já esperava que fosse. Por curiosidade, olha a caixa de leite que está no armário para ver se é de Minas Gerais. Não, não é. É do Rio Grande do Sul mesmo. “O tempo da República do Café com Leite se foi mesmo”, diz pra si mesmo. Põe mais café. Volta pro quarto. Senta. Cinco minutos se passam. Começa a bater o pé esquerdo no chão. Pega o papel, pega a caneca de café e levanta. Caminha pelo quarto. Faz círculos. Olha para o papel. Branco. Olha para o interior da caneca. Preto. Falta cor. Abre a janela. 2h da madrugada. Uma neblina espessa o impede de ver o lago. Fecha a janela e senta de novo. Coloca o papel sobre a mesa e a caneta sobre o papel. A caneca está ao lado. Leva as mãos à face e fecha os olhos. Pensa. Pensa. Pensa. (pensa... pensa... pensa...). Tira as mãos do rosto. Boceja. Olha para o relógio. Os ponteiros se moveram bem rápido dessa vez. Uma leve dor começa a surgir na parte frontal da cabeça. Levanta. Pega o papel, a caneta e a caneca. Senta no chão e se encosta na parte lateral da cama. Bate com a caneta no chão. Como foi o dia que passou? Nada que renda frases interessantes. Alguma polêmica, alguma discussão? Nada. Coloca um cd no som (baixinho). Não gosta da música. Não é boa. Não para o momento. Desliga o som. Levanta. Vai até o banheiro. Joga uma água (fria) no rosto. Já passa das 3h. Pega o papel e a caneta que estavam no chão e os coloca sobre a cômoda, ao lado da cama. A caneca ele coloca na mesa. Ainda resta um pouco de café, mas já esfriou. Ele não gosta de café frio. Quente (bem quente) e forte. Uma lembrança de uma discussão a respeito da ausência de sentido no café descafeinado surge. Ele não lembra com quem discutiu. Na verdade, não foi uma discussão, foi um debate. Uma conversa acalorada. Melhor assim, uma conversa acalorada. “Café descafeinado é como cerveja sem álcool. Cerveja sem álcool não é cerveja e café descafeinado não é café. Pode ser qualquer coisa, menos café. Simples assim.” Ele riu. Foi uma boa lembrança. Deita. Fecha os olhos, cobre-se com dois cobertores que estão sobre a cama. Vira-se para um lado. Menos de um minuto passa. Vira-se para o outro. Um minuto e meio, talvez. Experimenta, na sequência, mais algumas formas de se acomodar para tentar dormir. Não consegue. Pensa. Pensa. Pensa. (pensa... pensa... pensa...). Não para de pensar. Pensa porque não para de pensar. Pensa porque pensa porque não para de pensar. O café! Bebeu muito café. Café de verdade. Forte. É isso. Bebeu muito café. Não vai conseguir pegar no sono tão cedo. Levanta. Pensa em ler alguma coisa. Olha para a estante. Uns quantos livros ainda não lidos. Fazer escolhas perto das 4h não é muito fácil. Às 4h, já se age por instinto. Há pouco raciocínio. Desiste. Ar em movimento se choca contra a janela e faz barulho. Ele a abre para ver se a chuva se aproxima e uma lufada de vento entra quarto adentro e faz com que o papel caia no chão, uns dois metros adiante, perto da porta. Não parece que vai chover. Foi só uma rajada mesmo. Fecha a janela. Pega as folhas caídas e as recoloca sobre a cômoda. Senta na cama. Põe os cotovelos sobre as pernas e apoia a cabeça nas mãos. Ele se sente um pouco cansado. Sente sono, mas não consegue dormir. O cérebro não para. Levanta e se dirige para a porta da frente da casa. Abre (“sem fazer barulho, sem fazer barulho”) e sai. Vai dar uma volta na rua. Temperatura amena, ao redor dos oito graus. A neblina diminuiu. Talvez o vento a tenha levado embora. O céu está nublado. De relance, por um momento, ele consegue ver uma estrela. Permanece olhando para cima por mais alguns instantes. Não vê mais nada, a não ser nuvens. Senta na escada que leva à porta da cozinha. Fica ali, olhando para o chão. Perde a noção de tempo. Vai longe. Pensa em pessoas. Pensa em pessoas que conhece. Pensa em pessoas que não conhece. Pensa em pessoas que estão perto. Pensa em pessoas que estão longe. Pensa em pessoas das quais gosta. Pensa em pessoas das quais gosta muito. Pensa em pessoas das quais não gosta nem um pouco. Projeta. Visualiza o futuro. A imagem não é muito clara, está meio confusa, embaçada (a neblina... a neblina...). Ele vê coisas boas. Ele vê coisas que gostaria de viver. Gotas começam a cair. Ele não se move. Mais gotas caem. Ele não se move. Muitas gotas caem. Ele permanece ali. Chove. Ali, sentado na escada, ele fica até que a pancada cesse. Levanta e volta para dentro de casa. No quarto, pega uma toalha, seca o rosto e o cabelo. Já são 5h. A chuva fez a temperatura cair. Ele sente frio. Em pé, olha para o papel e para a caneta. Ele se sente vencido. O branco do papel diz (grita) “desista”. Ele ouve atentamente. Suas costas doem. Suas pernas doem. Sua cabeça dói. Seu corpo dói. Mas, o que mais o machuca é o branco do papel. Esse tortura. Fere fundo. Ele se deita. Pega um livro que está ao alcance da mão. Começa a ler. Percorre os olhos por sobre as páginas. Uma folha. E outra. E outra. E outra. E outras mais. Os olhos fecham lentamente. Ele dorme. A roupa ainda está molhada. O livro escapa pelas mãos e cai aberto no chão. Na página, a última frase lida. “Fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso.” Ao lado do papel em branco, a caneta descansa sobre a cômoda.

domingo, 31 de julho de 2011

Um poema meu




De como quero morrer

Quero morrer como morrem as árvores
Quietinho
Sentindo o vento tocar-me pela última vez a face

Quero morrer como morrem os pássaros livres
Sozinho
Ouvindo o som das águas do rio que nasce

Quero morrer como morre o dia
Nascendo
De novo na noite que surgiu

Quero morrer como morre a poesia
Vivendo
Na alma de quem um dia me ouviu

Quero morrer como morre o luar
Sonhando
Com os amigos que deixei

Quero morrer como morre o amar
Amando
Como nunca antes amei



sexta-feira, 1 de julho de 2011

Racionalismo emocional

Você é uma pessoa extremamente racional em suas decisões e escolhas. Uma pessoa que sempre pondera a respeito das coisas para não tirar conclusões precipitadas. Você não age por impulso e honra o sapiens que denomina a sua espécie. Você pensa, calcula as possibilidades, os riscos, os efeitos, as consequências, os resultados de todas as suas ações. Nada é feito por fazer. Tudo tem um motivo. Tudo tem uma razão. Seu órgão preferido é o cérebro. Ele é o seu centro. Você sempre foi assim. Você é assim. Você acredita que será sempre assim.

E então você se apaixona.

E aquela pessoa que um dia você foi, desfaz-se como um castelo de cartas ao ser tocado. Você se torna outra. Você se torna alguém que nunca imaginou que poderia ser. Seu órgão preferido passa a ser o coração.

Você agora colocou a razão em segundo, terceiro, quarto, quinto, décimo, centésimo, milésimo, último plano. Você não pensa (porque você não consegue pensar). Você não analisa as circunstâncias dos acontecimentos ao seu redor (porque não consegue analisar). Você não pondera sobre questões sobre as quais tem de opinar (porque você não consegue ponderar). Você não calcula os riscos dos seus atos (porque não consegue calcular). Você não imagina outra coisa, você não se concentra, você não se foca, você não lê, você não escreve, você não para, você não raciocina (porque você não consegue).

Se apaixonar e sentir intensamente essa paixão é bom. Se apaixonar e viver intensamente essa paixão é importante. Diria até que se apaixonar e viver intensamente essa paixão é essencial. Apaixonar-se é viver. Apaixonar-se é humano. Uma das grandes peculiaridades dos humanos.

Diante da importância e até da necessidade da paixão em nossa vida, cabe pensar sobre o assunto. Pensar em como a paixão pode, ao mesmo tempo, trazer grandes benefícios e significativos malefícios para o apaixonado. Isso se dá pelo conflito explicitado acima. O conflito que coloca em lados opostos duas condições que nos acompanham durante toda a vida: razão e emoção.

A questão que se impõe, quando isso ocorre, é a seguinte: razão e emoção são condições necessariamente incompatíveis?

Definitivamente, não creio.

Tenho pensado bastante nisso e acho que é bem possível conciliar as duas coisas para se viver os fatos sob o olhar do que chamo de um racionalismo emocional. Ver o lado emotivo da relação com um olhar mais racional. Observar o lado racional, com olhos mais emotivos. Não é fácil fazer isso. Nem um pouco. Mas acredito ser deveras necessário.

Vemos as coisas que ocorrem em nossa vida de um modo equivocado. Levamos muito em consideração a opinião dos outros quando o que está em jogo são decisões a respeito da nossa vida. Decisões essas que, em princípio, só vão afetar a nós mesmos, sejam elas certas ou erradas. Deixamos de fazer coisas que queremos fazer em razão do que as pessoas que nos cercam vão pensar sobre isso.

Por outro lado, quando o que está em jogo é qualquer coisa que diz respeito à relação, somos extremamente egoístas. Só damos atenção àquilo que nos interessa. Todos os nossos atos são realizados com um único objetivo, todas as nossas ações têm um único fim: a nossa satisfação pessoal.

Há um grave erro aí. Os modos de analisar e interpretar os momentos estão trocados.

Quando o assunto é algo de cunho extremamente pessoal, uma decisão que vai afetar a nossa vida e a de ninguém mais, somente devemos dar ouvidos a nós mesmos. Nessas situações, devemos fazer aquilo que queremos fazer e não o que os outros acham que devemos fazer. Quando o que está em questão é estritamente a nossa vida, temos de ser egoístas, ou melhor, individualistas, pois seremos nós e mais ninguém que vamos arcar com as consequências dos nossos atos, sejam eles certos ou errados.

Já quando o que está em xeque é algo que diz respeito à relação, que envolve o outro com o qual estamos juntos, devemos observá-lo, analisá-lo, dissecá-lo, destrinchá-lo, com o olhar do outro. Temos de ver tudo o que está relacionado ao casal com o olhar do outro. Temos de nos colocarmos no lugar do outro. Temos de tentar entender como o outro vê essa situação, o que essa situação representa para o outro, o que as decisões que podem ser tomadas a respeito dessa situação significarão para o outro.

Tomemos por princípio que, hoje, em 2011, se estamos em uma relação é porque queremos estar, salvo algumas poucas exceções e casos especiais. E, quando estamos em uma relação, boa parte dos nossos atos acaba tendo alguma ligação com a companheira (o). Se uma ação nossa irá resultar em algum impacto, por menor que seja, na vida da parceira (o), não podemos agir somente de acordo com o que nós queremos, não podemos agir somente para buscar a nossa satisfação. É preciso ver a relação com os olhos do outro.

Não é fácil fazer isso. Ao contrário. Para fazer isso, é preciso um grande desprendimento por parte de ambos. É preciso expandir as percepções. Para fazer isso, é preciso pensar que, na nossa vida, nós somos o todo; na “vida” do casal, somos apenas a metade. Somente assim a dupla pode conquistar seus objetivos unidos e traçar os caminhos que os levarão a intensos e duradouros momentos de felicidade.

Para fazer isso, é necessário ter considerável controle sobre si mesmo. É difícil ter controle absoluto sobre si quando se está envolvido emocionalmente com algo. A emoção, o sentimento, faz com que vejamos as coisas com lentes que distorcem. Distorcem mais em uns e menos em outros, mas distorcem em todos. Corrigir essa distorção quando isso é preciso é um grande desafio.

Acho eu que ouvir o outro é o primeiro passo para fazer isso. Não há como compreender o outro sem ouvi-lo. Ouvi-lo pacientemente. Deixá-lo falar com o mínimo de interrupções possível. Prestar atenção no que o outro fala e pensar sobre o que o outro fala. É improvável que você vá entendê-la (o), mas, possivelmente, irá compreendê-la (o) e isso, você irá perceber, fará toda a diferença na relação.

Não tentar se impor ao outro, acredito que seja o segundo passo. Tentar fazer com que o outro compreenda você. O seu modo de pensar não é melhor do que o dela (e). Tentar fazer com que o outro lhe compreenda é emprestar as lentes através das quais você vê o mundo para a outra pessoa. É dar condições para que ela faça isso. Ninguém é compreendido quando tenta se impor, seja por meio da força, ou de gritos, ou de gestos, ou do silêncio ou seja através do que quer que seja. Para ser compreendido, é preciso se deixar compreender. O rio só corre por onde há caminhos abertos.

Racionalismo emocional.

Ser racional o bastante para perceber que o sentimento do outro é tão importante quanto o seu, que a dor do outro é tão forte quanto a sua. Ser racional o bastante para perceber que a relação é uma via de mão dupla, que nenhum envolvimento se sustenta quando o olhar não se expande, quando os desejos intrinsecamente pessoais são o guia de todos os atos. Ser racional o bastante para entender o significado de um para o outro. Ser racional o bastante para perceber o quanto a emoção é o centro, o motor da relação.

O 2 não se forma simplesmente se colocando o 1 ao lado do 1. O 2 é a soma, é a união do 1 com o 1. A partir do momento em que o 1 se une ao outro 1 e, assim, formam o 2, eles deixam de ser o 1 e o 1. Eles são o 2. Eles ainda são eles, o 1 ainda está ali, assim como o outro 1. Cada qual ainda com as suas características próprias, com as suas peculiaridades, com os seus defeitos e suas qualidades, contribuindo com a sua parte para formar o 2. Mas não são mais o 1 e o 1. São o 2. E, formando eles o 2, qualquer ação que, individualmente, um praticar afetará o outro e afetará o todo.

A grande dificuldade em encarar a relação deste modo reside no fato de que todos os nossos atos são realizados visando a nossa própria satisfação. É da natureza humana buscar benefício próprio em tudo o que o cerca. Isso, porém, talvez fizesse sentido lá atrás, com os nossos primeiros antepassados. Eles precisavam, por questão de sobrevivência, obter o máximo ao seu favor de tudo o que os rodeava. Nós não precisamos.

Ver a relação com o os olhos do outro. Usar a razão para entender a emoção. É difícil, mas não custa nada tentar.

domingo, 29 de maio de 2011

O Indivíduo e o Todo (ou “não fica assim, não foi nada”)

A população. A comunidade. O povo. A massa. O todo.

Somos o todo. Um por um, unidos, formamos o todo. O todo, porém, não é uma massa uniforme. O todo está mais para um mosaico. Um mosaico formado por incontáveis pedacinhos de porcelana. Todos os pedacinhos que formam a imagem são constituídos da mesma coisa: porcelana. Entretanto, cada parte é diferente da outra. Cada pequeno pedaço de porcelana se difere do outro por sua cor ou cores, por seu tamanho, por sua largura, por seu formato e, também, por sua natureza, por sua essência, sua origem. Cada parte do todo, o mosaico, foi produzida em um local diferente, em um momento diferente, por máquinas e pessoas diferentes, com matérias primas obtidas em pontos diferentes.

O todo, portanto, é composto por partes únicas. Indivíduos formam o todo e, mesmo formando o todo, mesmo fazendo parte da imagem completa, mesmo sendo integrantes da massa, não deixam de ser indivíduos. O todo são os indivíduos. Os indivíduos não são o todo. Eles são únicos.

Esse preâmbulo todo pode parecer uma grande bobagem (e talvez seja), mas se faz necessário para embasar e servir de referência para o que, de fato, pretendo dizer nas linhas que seguem. Vamos a elas, pois.

As pessoas sentem extrema necessidade de modelar e padronizar o sentimento das outras. As pessoas não gostam de ver outras pessoas com sentimentos extremos. Elas se sentem mal vendo isso. Ainda não sei ao certo o porquê. Talvez porque a maioria das pessoas se sente, cada dia menos, um indivíduo e cada dia mais o todo. E o todo não possui sentimentos extremos. O todo é a mesmice. O todo é um clichê. O todo nunca é o 0% e nunca é o 100%. O todo é o 50%. Talvez essa seja a explicação.
O fato é que qualquer tipo de sentimento mais intenso, que fuja ao padrão, que não seja mais do mesmo, incomoda as pessoas. Diante disso, muitas delas não sabem como agir e preferem se abster, não dizer nada. Encontram no silêncio um refúgio para a sua incapacidade de compreender o outro. Respeito-as. Outras criticam, colocam-se em uma posição supostamente superior e apontam o dedo inquisidor, olhando de cima, como que tentando fazer com que aquele que sente de modo extremo se sinta culpado, se sinta fazendo algo errado. Entendo-as. E tem ainda um outro grupo. Um grupo mais perigoso. Um grupo que atua sorrateiramente. Um grupo que, aparentemente, está do seu lado, que te apoia, que quer o teu bem. Aparentemente. Só aparentemente. Esse grupo é o grupo que tem o maior potencial para prejudicar. Refiro-me àqueles que no momento em que você está chateado, magoado, triste, pra baixo, enfim, seja qual for a palavra ou expressão que defina um estado de espírito melancólico, um sentimento extremo, se aproximam e dizem coisas como o seguinte: “não fica assim, não foi nada”, ou um “não é pra tanto, não fica triste, não vale a pena”. Desprezo-os.
Incomoda-me muito, para não dizer que me irrita profundamente, quando vejo uma pessoa dizer isso para outra, ou dizer para mim mesmo. E incomoda-me muito, principalmente em casos como os exemplificados acima, quando a pessoa que está sentindo um sentimento extremo está triste, está “para baixo”.

Como assim “não foi nada”? Como assim “não é pra tanto”?
Pode não ser nada para quem vê de fora, pode não ser pra tanto para quem observa de fora, mas, para quem sente, é tudo e é para tanto e é para muito mais, inclusive. Incomoda-me muito quando presencio uma pessoa desfazendo, diminuindo o sentimento de outra.

Qual o problema em estar “para baixo”?
Qual o problema em estar triste?
Qual o problema em estar muito triste?
Qual o problema?

Se a pessoa não tem tendências suicidas, não vejo nenhum problema. Ao contrário. Acho deveras natural e salutar que nossos momentos de alegria sejam permeados por momentos de tristeza. C'est la vie. É isso, aliás, que torna a caminhada tão interessante. É por isso que o mar atrai mais que o rio. As ondas. O ir e vir. Os dois sentidos de movimento. A ressaca. O repuxo.

Momentos de tristeza são necessários. Momentos de melancolia profunda são necessários. Estar triste é tão normal quanto estar alegre. Acredito, inclusive, que a tristeza nos ensina mais do que a alegria. Aprendemos mais e nos conhecemos mais na tristeza do que na alegria. E isso ocorre por uma simples razão: na tristeza, pensamos; na alegria, não.

O fato é que ninguém tem o direito de questionar o que uma pessoa sente. Ninguém tem o direito de dizer a uma pessoa que aquilo que ela está sentindo é insignificante. Não somos o todo. Somos um indivíduo. Somos um pedaço de porcelana no mosaico. O outro não vê as coisas da forma como eu vejo, ele não sente como eu sinto, assim, não posso avaliar se o que ele sente é forte ou não, se é fraco ou não, se é importante ou não. Ele sente e, se o que ele sente o faz ficar triste, é porque aquilo é um motivo suficientemente forte para gerar a tristeza. Pode não ser suficientemente forte para eu ficar triste, mas é suficientemente forte para ele ficar triste. E isso não faz de mim alguém mais “forte” do que ele. Em absoluto.

Não aceito que se tente empulhar as pessoas, pregando-lhes receitas prontas sobre qual é o modo “correto” de agir em determinada situação envolvendo algo de cunho extremamente pessoal.
Agora, por exemplo, estou com uma dor na garganta terrível. Tão forte que deixar correr uma lágrima não parece algo tão absurdo. Não mesmo. O quê? Fiasquento eu? Ahh, vsf, vai. Grato.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Da difícil arte de escrever .... sobre o amor

Como transformar um sentimento em palavras?

É curioso como escrever sobre uma coisa, o amor, pode parecer tão fácil e ser tão difícil. O amor talvez seja o tema mais abordado na história universal da escrita. Possivelmente é. Muito possivelmente. Desde textos literários de todos os tipos, passando por cartas e bilhetinhos, seguindo por e-mails e “torpedos”. As pessoas que amam sentem necessidade de expressar esse amor através de palavras escritas. O amor é o tema mais universal do mundo para se falar. O amor entre duas pessoas sentido aqui não é significativamente diverso do amor entre duas pessoas sentido no Japão, ou na Rússia, ou na Romênia, ou na Índia, ou na Nigéria, ou nos EUA, ou em qualquer outro ponto deste planeta. As manifestações e demonstrações desse amor e a forma de sentir esse amor podem ser e são bem diferentes, cada uma de acordo com a personalidade de cada pessoa e com a cultura local, mas o sentimento é praticamente o mesmo.
Por ser universal é que o amor de Romeu e Julieta foi traduzido para quase todos os idiomas que você pode imaginar. A história é a mesma. Uma história de amor. Uma história que emociona há mais de 400 anos. Mas, infelizmente, há poucos Sheakespeares por aí capazes de criar algo tão vigoroso. E não há muitos Sheakespeares porque escrever sobre o amor é muito difícil. Muito mesmo. MUITO.
Se escrever ficção sobre o amor é muito difícil, imagine escrever um relato de cunho mais pessoal, tendo as suas sensações como base e fio condutor do texto. É muito difícil escrever sobre o amor porque, apesar de ser um sentimento universal, ele é único para quem sente. Antes de começar a escrever ou a falar sobre o amor, que seja, uma questão precisa ser respondida. Ter essa questão respondida é condição sine qua non para que o texto possa sair da cabeça e ir para o papel. A pergunta é a seguinte: o que é amor para você?
É indispensável que a resposta a esse questionamento exista para que você consiga criar um escrito pessoal falando sobre o amor. Assim, temos, portanto, antes da primeira letra do texto ser escrita, um grande problema. Um problema muito complicado de ser solucionado.
A primeira dificuldade para se resolver este problema reside no fato de o conceito de amor ser algo pessoal. Assim, não há como se utilizar de definições elaboradas por outros. É possível se basear na opinião de outras pessoas a respeito do que é amor, entretanto, corre-se o risco de que um conceito irreal seja criado, e de que isso acabe gerando dificuldades quando for preciso interpretar o sentimento existente em um determinado momento.
As pessoas não param para pensar sobre isso e aí está outra dificuldade. As pessoas percebem que sentem algo e que esse algo é forte e, para elas, isso é amor. E pode até ser. A questão é que ninguém para e pensa: o que estou sentindo? Já senti isso, assim, outras vezes? De onde vem isso que estou sentindo? O que aquela pessoa tem para fazer com que eu me sinta assim?
Então, esse é um requisito básico e, creio eu, indispensável para se escrever a respeito do que se está sentindo: saber o que se está sentindo e o que é aquele sentimento para mim.
Escrever sobre a paixão é mais fácil. A paixão mexe muito com o instinto. É algo que aflora mais visivelmente. O amor se sente mais com o cérebro do que a paixão. É claro que cada pessoa se apaixona de um jeito. Alguns se apaixonam mais com a pele, mais pelo físico; outros se apaixonam mais pelo jeito da pessoa; e outros se apaixonam pelo modo como a pessoa pensa. Porém, a paixão ainda é um sentimento intermediário e está deveras ligada a um encantamento. E uma pessoa encantada pode, às vezes, deixar o cérebro um pouquinho de lado na hora de sentir.
Escrever sobre o amor é muito difícil porque as pessoas conhecem pouco a si mesmas. Mas, mesmo para aquelas pessoas que se conhecem muito bem, escrever sobre o amor também é difícil. Por quê? Basicamente por que estas pessoas, as que se conhecem bem, sentem com muita intensidade. Essas pessoas sentem com mais profundidade o sentimento. E, nestes casos, elas percebem o quão complexo é escrever sobre um sentimento, principalmente um sentimento como o amor. Essas pessoas compreendem que, por mais espetaculares que sejam, por mais fantásticas e mágicas que sejam, por mais fascinantes e desbravadoras que sejam, por mais desafiadoras e esclarecedoras que sejam, por mais fortes e sensíveis que sejam, as palavras delimitam. As palavras te fazem viajar, sair do chão, sonhar, ir longe, mas elas, em si, delimitam. E limitar um sentimento é muito difícil para quem o sente. Principalmente para quem o sente de modo intenso.

Aí está o paradoxo da questão: para escrever sobre o amor que se sente, escrever mesmo, de modo profundo e pensado, é preciso saber o que é o amor para si próprio. Para saber o que é o amor é necessário se autoconhecer. As pessoas que se conhecem bem, contudo, na maioria das vezes, sentem muito o que sentem, sentem com intensidade. E, por sentirem intensamente, percebem que as palavras limitam um sentimento que, para elas, parece ser ilimitado. Daí o desconforto. Daí a dificuldade em escrever sobre o amor.
Quem consegue fazê-lo, das duas uma: ou é uma exceção, um dos privilegiados, um Sheakespeare; ou tem o enorme talento de escrever sobre algo que está sentindo sem ser influenciado por esse sentimento.
Os dois casos existem, mas são muito raros. Raríssimos.
O mais comum, portanto, é nos deparar com textos sobre o amor escritos por talentosos escritores que não sentiam aquilo sobre o qual estavam escrevendo. Ou por pessoas que acreditam estar escrevendo sobre o amor que sentem, mas na verdade não passaram da epiderme desse amor. Estão esquiando na superfície congelada de um profundo lago.

Apesar de todas as dificuldades, não há razão para desistir e nunca tentar escrever sobre o amor que se sente. Ao contrário. Deve-se tentar sempre. Escrever é hábito e só se adquire esse hábito escrevendo. Ao tentar escrever e não conseguir surgirão questionamentos e é a partir deles que o processo de autoconhecimento aflora e se desenvolve. Ninguém se autoconhece sem se desafiar. O amor é desafiador e escrever sobre ele também é.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Breve relato de uma viagem de ônibus


“Atualmente, depois de tantas eras de experiência, o que conhecemos da natureza, ou de nós mesmos? O homem não deu sequer o primeiro passo no sentido de solucionar o problema de seu destino. O universo humano inteiro permanece condenado à insanidade.”

Ralph Waldo Emerson



Lá vou eu. Óculos escuros, mochila no ombro e rock nos fones de ouvido. Entro no ônibus, dirigindo-me para o trabalho, e percebo um comportamento “anormal” do casal sentado no banco à minha frente. Pause na música para ver o que ocorria. Discutiam a relação. Stop no som, fone nas mãos. Resolvi acompanhar o que estava se passando. Uma experiência antropológica. Foram 20 minutos ouvindo a discussão dos dois. Não foi preciso mais do que cinco minutos, porém, para diagnosticar o que estava faltando naquela relação conflituosa: comunicação.

Em vinte minutos de observação não é possível fazer uma análise muito profunda. Entretanto, ficou deveras claro que o problema advinha muito da essência de ambos, da natureza própria que diferencia homens de mulheres. Ela necessitava falar, dizer para ele todas as coisas que a estavam incomodando e, consequentemente, minando o namoro. Ele, com a característica postura de superioridade masculina quando este assunto está em discussão, interrompia-a a todo o momento, não deixando ela se expressar.

Era evidente a qualquer um que observava a cena que ela gostava muito dele, amava-o, provavelmente. O sentimento dele em relação a ela, novamente devido ao comportamento típico masculino, era mais difícil de ser identificado.

Senti muita vontade de intervir na conversa, diversas vezes áspera e em alto tom de voz, e dizer pra ele calar a boca e ouvi-la. Ouvi-la em silêncio, ponderar sobre as palavras dela e, depois, contra-argumentar, se fosse o caso. Mas não me senti no direito.

Impressiona-me como uma coisa tão básica como isso, a comunicação, ou a falta dela, faz com que castelos de sonhos desmoronem. E o que é pior, desmoronem lentamente, dolorosamente, deixando fortes marcas nas pessoas envolvidas.

Saber ouvir. Esse é um segredo básico, mas fundamental em qualquer tipo de relação. Olhar para o outro, escutar o que o outro tem a dizer. Às vezes, o outro só quer isso, ser ouvido. Não quer ser compreendido e muito menos entendido, quer ser ouvido.

Tentar entender, aliás, é uma batalha perdida, sempre. Não há como entender o outro. Não há como entender o outro pelo simples fato de que você vai ver com os seus olhos a realidade que o outro lhe apresenta, e não com os olhos dele. Compreender é possível, apesar de não ser fácil. No momento em que há um conflito, então, fica muito mais difícil, na medida em que ambos estão vibrando em sintonias diferentes.

Ouvir e tentar compreender.

Ele não ouvia o que ela tinha para falar e refutava com palavras proferidas para menosprezá-la. Isso a deixava ainda mais nervosa. E ele parecia se sentir, a cada minuto que passava, em um degrau mais alto, olhando para ela lá embaixo.

Os homens são idiotas por natureza.

A essência masculina é a da simplificação de questões complexas e a da complexização de questões simples. Algumas mulheres percebem isso e passam a interpretar as posições masculinas de uma maneira mais adequada à natureza dele.

Os homens são simplórios. E isso não pode ser considerado um defeito. Quase todos são assim. É evidente que existem exceções. A maioria delas, porém, parece ser uma exceção, mas não é. Basta algum período de convivência, curto que seja, e o cromossomo Y mostra que está lá. Sempre esteve lá. E que o instinto ainda se mantém soberano.

Entretanto, como disse, existem exceções. Verdadeiras exceções. São poucas, mas existem. Não perca as esperanças, pois, querida leitora. Nunca sabemos o que nos espera ao dobrarmos a próxima esquina.

A viagem se encaminhava para o fim. Levantei-me do banco e me dirigi para a porta do ônibus. Dei uma discreta olhada para os dois. Os olhos dela estavam marejados. Mas ela não chorava. Ele mantinha aquele olhar blasé de quem se sente superior.

Desci.

Caminhando, pensei em como, apesar de centenas de milhares de anos de evolução, os humanos seguem sofrendo por situações tão singelas, as quais a solução já deveria ter sido internalizada por todos. E pensei que talvez não tenhamos evoluído tanto assim. Pelo menos não naquilo que deveria ser o mais importante. Na relação com o outro.