quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um filete do que eu fui (e só)...



Quando este coração já não bater


Quando este coração já não bater,
Um pedaço de mim terá partido.
Uma parte de carne e pó.
Um filete do que eu fui (e só).

Quando este coração já não bater,
No peito haverá saudade.
Resto de tempo sob a pele.
Imagem tua, doce e calma.

Quando este coração já não bater,
Ainda nele restará pulso.
Energia pura de meu sangue.
Calor latente de minha alma.

Quando este coração já não bater,
O último compasso da canção,
Que dele soou feito oração,
Ecoará em terras frias.

Quando este coração já não bater,
Quero o sorrir em quem lembrar de mim.
Não quero uma lágrima sequer.
Não quero dor a celebrar meus dias.

Quando este coração já não bater,
Um rastro de amor irá marcar
Os passos firmes que deixei
Na estrada das horas finais.

Quando este coração já não bater,
Deixem-no – sozinho – descansar.
A morte é dura, eu sei,
Mas a vida é ainda mais.

domingo, 21 de outubro de 2012

A reta e a curva.


E quando você vê uma possibilidade à sua frente? O que fazer? Veja bem, não é, necessariamente, uma oportunidade. É uma possibilidade. E, como toda a possibilidade, pode não se confirmar. Mas é uma possibilidade.
Pois bem, e se essa possibilidade puder alterar muitas coisas na sua vida? Se ela tiver potencial para isso? Por “muitas coisas” entenda-se quase tudo, ou, pelo menos, tudo que realmente importa.
Você pode encarar essa possibilidade, ir fundo, fazer esforços, se dedicar a ela, se entregar a ela, fazer dela a sua vida. Você pode fazer tudo isso e, mesmo assim, não dar certo, afinal, era “somente” uma possibilidade. Mas pode dar certo. E se der certo? Você está preparado para a mudança? Você está pronto? Você quer isso. Você realmente sente que quer isso e quer muito. Mas você está pronto?
Você terá de correr riscos. Riscos que você acredita serem pequenos diante da possibilidade de dar certo. Mas é uma possibilidade. O que você tem a perder se não der certo? O que você tem a perder se não tentar?
Mas, será que a possibilidade é tão real como você acredita que ela é? Será que você não está fantasiando a respeito dela? Só há uma maneira de descobrir. Tentando. Indo em busca. Pegando a estrada.
Você pode ser cercar de informações. Você pode acumular mais certezas. Você pode ter certeza. Mas, ainda assim, é uma possibilidade. Você sabe que não poderá desistir no meio do caminho? Você sabe que as responsabilidades vão aumentar se der certo? Você diz não pensar em desistir. Você acha que está preparado. Mas, será que está mesmo?
E esse confronto que você insiste em tentar mediar, mas não se sente capaz? A sua razão. A sua emoção. O que você pretende fazer? Qual das duas você vai ouvir mais? Você sempre achou que conseguiria manter o equilíbrio. Você sempre achou isso, eu sei. Eu estava lá, sempre. Mas, agora, você já não se sente mais capaz. Agora você balança sobre a corda. O que fazer? O que é o certo a fazer? Existe um “certo a fazer”?
Você está um pouco confuso. Eu posso perceber isso. Eu lhe conheço há muito tempo. A todo o tempo. Desde sempre. Eu sei que você está um pouco confuso. Eu sei que você não sabe o que fazer. Pode acreditar, eu sei mesmo.
Você quer fazer. É, de fato, você quer tentar. E porque não faz? Porque não tenta? Ah, sim, eu entendo, razão e emoção. A emoção lhe diz para ir em frente. “É uma possibilidade, vai lá, corre atrás, busca, transforma em algo real.” A razão lhe diz para pensar mais. “Pode não dar certo. O risco existe e você vai se magoar se não conseguir. Você sabe que vai.”
Mas quem fala mais alto? Quem grita ao seu lado todos os dias? Qual voz ecoa à noite com mais força nos seus ouvidos? Qual? A voz seca e reta da razão ou a voz úmida e sinuosa da emoção? Qual delas?
Ah ... sim. Eu já imaginava. Eu realmente já imaginava. Eu tinha quase certeza. Eu lhe conheço. Bom, então, já que ela fala mais alto, já que ela grita todos os dias ao seu lado e esse grito ecoa com força à noite em seus ouvidos, porque não escutá-la? Por que não ouvir essa voz curva?
Você tem medo? Ok, é normal ter medo. Sim, tudo bem mesmo. Você não se acha bom o bastante? Ora, isso também é normal. Não se martirize por isso. Você é um cara bacana. Sim, é um cara legal, de verdade. Acredite em mim. Você não sabe como vai reagir se não der certo? Hmm, e se der certo, você saberá o que fazer? Pois então, é isso. Não importa se vai dar certo ou não, você não tem a mínima ideia de como vai ser. Isso não é máximo? Você costumava achar o máximo. Você ainda acha, eu sei.
Você tem escolhas a fazer. Está em suas mãos. Ninguém pode decidir por você. Você ainda não está bem certo? Você ainda está criando sua fortaleza, ainda está construindo seu barco para zarpar? Sem problemas, não tenha pressa. Ela espera. A possibilidade está lá, lhe aguardando. Até quando ela vai lhe esperar? Não sei, meu caro, não sei mesmo. Eu sei que agora, neste momento, ela está lá. Isso eu sei e posso lhe garantir. Se amanhã ela estará lá ainda? Creio que sim. Depois? Depois de amanhã? Possivelmente. E mais além? É isso que você quer saber, se mais além, se depois de amanhã, se depois de depois de amanhã ela ainda lhe aguardará? Talvez. Talvez sim. Talvez não. Talvez.
Pense nisso com cuidado. Pense com carinho. É uma boa possibilidade essa. Você a deseja. Você quer obtê-la. Eu posso ver isso nos seus olhos. Posso ler em seus versos. Ela está lhe esperando. Não a deixe esperar por muito tempo. Ela é uma possibilidade. Ela ainda não é real. Ela pode escorrer por entre suas mãos se você não segurar com força e atenção. Se você quer mesmo. Se quer muito e cada vez mais. Se quer mais do que achava que poderia querer algo, mostre isso. Esteja presente. Dê um aceno. Indique pistas. Você sempre fez o que quis. Não importava o que os outros pensavam. Não importava nada além do que lhe importava de verdade. Eu sempre lhe admirei por isso. Por que mudar agora? Por que deixar de ser quem você sempre foi?
Você sabe que não pode chegar ao final do caminho sem dar os primeiros passos. E você quer chegar lá. Você quer chegar lá o quanto antes. Você precisa iniciar a caminhada, portanto.
Você nunca havia se sentido assim em relação a uma possibilidade. Não que eu me lembre. Você está elétrico, eu posso ver. O que ou quem pode lhe impedir de tentar, a não ser você mesmo? Você quer ter mais certeza? Você quer alguma garantia? É isso, você quer uma garantia? Isso não é nada. Isso não significa nada. E você sabe que não é nada, você sabe que não significa nada. Não minta para você mesmo. Não tente se enganar. Você nunca foi bom nisso. Você sempre foi transparente. Sempre foi.
Você sabe o que quer. Você sabe o que pode fazer para obter isso. Uma possibilidade. Ela está lá. Você sabe onde ela está. Você sabe onde encontrá-la. Não tenha pressa. Mas não demore muito também. Você não pode ir até lá agora? Você quer ir, eu percebo. Mostre sua intenção. Indique sua vontade. Será útil e importante.
Então é isso, meu amigo. Tenho de ir. Espero ter ajudado. Não deixe de fazer o que quer. Não esqueça disso. Nunca deixe de fazer o que quer. A possibilidade. Ah... essa possibilidade...

Aguardo notícias. Até a próxima. Abraço.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Para todo o sempre


Lembro muito bem de quando, na primeira semana do Jardim de Infância, briguei com um colega, o Henrique, um loirinho engomado que morava no condomínio Ilhas do Sul. Brigamos por ele não me emprestar um brinquedo de uso coletivo da turma. Eu arranquei o brinquedo, um carrinho de fricção vermelho, da mão dele na marra e dei-lhe um empurrão. Ele caiu, a professora me repreendeu e ficou nisso. Lembro de quando, com mais ou menos a mesma idade, uns seis anos, eu cantava Paradise City imitando o Axl Rose e os amigos do condomínio achavam um máximo. “Se eu conseguisse fazer isso, namorava um monte de guria”, me disse uma vez o Luciano, que era uns três ou quatro anos mais velho do que eu. Lembro de quando, após brigar com minha mãe, já com uns oito anos, rasguei umas notas de dinheiro que achei dentro do armário e saí correndo porta fora pra não apanhar e toda a gurizada veio me perguntar o que tinha acontecido. Lembro muito bem de quando, na primeira série, um colega me derrubou e eu caí de testa no chão de concreto e abriu um rasgo na minha cabeça e era só sangue e eu não chorei e juntou um monte de gente ao redor do bebedor de água enquanto a professora Rosane limpava o meu rosto e então o meu irmão chegou e disse “é o meu irmão” e quando a professora mandou chamar minha mãe e quando, com medo de apanhar, pois tinha feito com que a chamassem na escola, caí no berreiro quando ela entrava pelo portão do colégio. Lembro o nome de todos os meus professores do primeiro grau. Lembro o sobrenome de quase todos os meus colegas dos meus últimos anos na Escola Estadual de Primeiro Grau Professora Violeta Magalhães. Lembro de quando meu pai chegou em casa após ter sido demitido do trabalho. Eu tinha uns 9 anos, eu acho. Lembro de quando, envergonhado, não dancei com a colega mais bonita na quarta-série, mesmo ela insistindo. Lembro do dia em que minha irmã nasceu e de como, no primeiro instante, eu não gostei muito dela, ou melhor, eu não gostei da ideia de ter uma irmã mais nova e de como eu deixaria de ser o caçula da mamãe. Lembro de todos os detalhes da minha paixão adolescente, de momentos completos, do jeito dela andar e mexer no cabelo e de olhar e de rir e da voz dela e das oportunidades que tive para falar com ela sobre isso e dos arrependimentos em sequência por não ter dito nada. Lembro de quando, na sétima série, me desesperei porque iria tirar uma nota vermelha, e consegui convencer a professora a reavaliar minhas provas e atividades e me dar um 6 e não um 4. Aquele não foi um bom bimestre escolar. Lembro de quando fiquei a um ponto da média em Química no primeiro ano do segundo grau e a professora, a Sissi, uma gorducha que tinha um fusca branco e usava uns óculos ridículos, me disse, após eu pedir pra ela avaliar melhor os exercícios que eu tinha feito: “Tu não tá mais no primeiro grau. Cresce.” E daí eu me irritei e estudei como um condenado e tirei um 10 na prova de recuperação e, após ela me entregar a prova, olhei a nota e me virei com um olhar desafiador de um adolescente de 15 anos e, mostrando a prova e apontando pra nota, disse um “cresci” e saí da sala pisando firme.
Lembro da formatura no Araújo Viana. Uma tarde de janeiro quente pra chuchu em Porto Alegre, mais de 300 estudantes de toga felizes pra caramba por saírem do Julinho e eu fiquei rasgando uma colega durante toda a cerimônia. Não funcionou. Não na hora. Lembro perfeitamente dos dias do vestibular em que passei, e de como fiquei sabendo que passei, e dos dias do trote na faculdade, e das primeiras aulas, e de quando em pé sobre cadeiras declamava poemas de Augusto dos Anjos no início das aulas de Teoria do Jornalismo e de quando aprendi a jogar truco e de quando fui carregado nos ombros pelo Schröder na Redenção após fazer um gol de bicicleta, gol esse que repeti pelo Real Envido no campeonato de futsal da Fabico e que me deixou com as costas doendo por quase uma semana. Lembro de quando saí da faculdade, desempregado e bem desiludido com a profissão e dos planos pra seguir outro caminho e de quando o Igor me disse que estava ocorrendo uma seleção no jornal e eu fiz a prova e liguei pro Ungareti pra ele ser fonte na matéria que tinha de fazer como teste e dele perguntando “isso não vai ser publicado né?”. Lembro da minha primeira matéria assinada publicada. Como foi legal. Lembro das mijadas que levei da chefa e de como eu tentava rebater e de como eu ficava brabo e de como aprendi um monte com isso (lembro de todas as frases). Lembro da primeira vez que saí de moto. Aquilo foi demais.

Lembro de muita coisa. Lembro de quase tudo. Lembro do dia em que conheci pessoas e de como as conheci e, em alguns casos, lembro até dos primeiros diálogos. Lembro de coisas que me deram muita alegria. E de coisas que me fizeram muito triste. Lembro das vezes em que pensei em fazer coisas que não deveria ter pensado em fazer. Lembro de coisas que disse e não deveria ter dito. Lembro de coisas que deveria ter dito e não disse. Não é bom lembrar disso, assim, tão cristalinamente.

Há tantas coisas que eu gostaria de esquecer. Ou pelo menos lembrar como a maioria das pessoas lembra, assim, por alto, sem detalhes, como uma pintura expressionista. Tudo seria tão mais fácil.
Amigos me dizem que isso é um dom. Que não conhecem ninguém com tão boa memória assim. Que eu devo ter orgulho da minha capacidade de lembrar do que já passou. Isso pode ser minha dádiva, e talvez seja, mas também é minha maldição. É como uma punição: “Lembrarás de todas as coisas, boas e ruins, em todos os detalhes, para todo o sempre.”
Para todo o sempre. Dia após dia, como um filme em plano sequência. Sem cortes. Até o fim.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

De como ele acordou sem rosto em uma manhã de verão


E então ele acordou em uma manhã mormacenta de verão e já não tinha mais rosto. Simples assim. Acordou e não tinha mais rosto. Só os olhos permaneciam na face. Uma face sem rosto. Sem nariz, sem boca, sem sobrancelhas, sem nada. Até as orelhas sumiram. No lugar, só havia dois pequenos orifícios. O cabelo estava desgrenhado depois de uma noite mal dormida. Muitos mosquitos e o quarto era pequeno, sem ar-condicionado ou um mísero ventiladorzinho que fosse. Em frente ao espelho do banheiro, ficou contemplando aquela imagem grotesca e brutal. De certa forma, conseguia ver beleza naquilo. Nunca foi um homem que se preocupasse muito com a aparência. Nunca foi vaidoso. Nem se lembrava direito de como era o seu rosto mesmo. Só sabia que não era bonito. Disso ele sabia muito bem.
Olhando aquela massa opaca de carne e pele, conseguiu até encontrar vantagens na situação. Não perderia mais tempo escovando os dentes, nem dinheiro com dentistas os quais ele odiava, por exemplo. Quase deu um sorriso. Só não o fez porque não tinha boca.
Depois ficou se perguntado como ainda vivia, como respirava, por onde o oxigênio entrava em seu corpo. Imaginou que talvez todo o seu organismo também tivesse mudado, que talvez a sua pele absorvesse o oxigênio e liberasse o gás carbônico. Pensou ainda em como iria se manter, como iria se alimentar. Algum tipo de processo semelhante à fotossíntese era uma possibilidade, mas ele não tinha certeza.
Jogou água sobre o rosto que deveria estar ali, mas não estava, e foi abrir a janela para ver como se encontrava o dia, já imaginando, pelo calor que fazia, o sol de rachar que deveria estar lá fora. Quando o primeiro raio de luz lhe tocou as retinas, ele se sentiu mal. Tentou fechar os olhos, mas não pôde, pois as pálpebras já não estavam mais ali. Abaixou-se um pouco e espichou o braço esquerdo. Pegou os óculos escuros modelo aviador que estavam sobre uma banqueta ao lado da cama e os pôs em frente aos dois olhos que pareciam tão miúdos, como duas pequenas bolas de gude. Os óculos, porém, caíram no chão quando ele os soltou e então ele lembrou que não tinha orelhas para apoiar as hastes. Ficou chateado. Ele adorava aqueles óculos. Os havia ganhado de presente de uma namorada antiga. Eram bons óculos. Ele gostava deles. Muito mesmo.
Fechou a cortina e catou algumas roupas que estavam jogadas sobre uma poltrona antiga já meio rasgada que havia sido do seu pai. Pôs uma camiseta amarrotada, uma calça suja de mostarda que escorreu do cachorro-quente que ele havia comido como almoço no dia anterior, calçou os tênis batidos e se preparou para sair. Novamente se colocou em frente ao espelho para dar uma olhada naquilo em que havia se transformado. Não achou nada mal. “Nada mal”, era o que ele pensou em dizer e diria se tivesse boca. Abriu a torneira, molhou as mãos e passou-as nos cabelos, tentando acalmá-los um pouco. Não adiantou.
Dirigiu-se para a porta, mas deu meia volta e pegou a máscara para dormir do Bob Esponja que uma amiga havia lhe dado no seu último aniversário. Passou o elástico por trás da cabeça e pronto, já não sofreria com a luz solar lá de fora. Abriu a porta. Fechou a porta. Saiu e foi trabalhar. No caminho, ficou imaginando como os caras bêbados do bar em que ela passava para comer um sanduíche e beber qualquer coisa antes de pegar no batente iriam rir de tudo aquilo. Não se importava. Riria junto, se tivesse ...
Era uma manhã quente de verão e lá ia caminhando pela rua um homem sem rosto. Cabelo revolto, camisa amarrotada, calça suja, tênis velho e máscara para dormir do Bob Esponja. Mais um dia começava. Ele nunca foi vaidoso mesmo.

domingo, 15 de abril de 2012

Fui embora ...



Estrada


Fui embora com o vento.
Levei comigo a vida e nada mais.
Andei por terras mil, e o pensamento.
Voou por sobre campos irreais.

Fui embora passo a passo.
Percorri caminhos livres devagar.
Risquei no céu azul meu próprio traço.
Gravei cruas imagens no olhar.

Fui sozinho, sem ter pressa.
Cruzei estreitas ruas sem final.
Fui a estrela do meu tempo (que não cessa).
 Flanei por entre prédios de cristal.

Fui embora e nunca mais voltei.
Parti pra onde o sonho me levou.
Deixei parte de mim onde passei.
Vivi, como a estrada me ensinou.

sábado, 10 de março de 2012

Sobre um soco na ponta do queixo (e um velho gato preto no telhado)

Foi como um tapa na cara. Hmm ... não, não. Definitivamente não. Fez menos barulho, mas foi mais forte. Bem mais forte. Foi como um soco. Um cruzado de direta no queixo. Daqueles rápidos, que você nem sabe de onde veio. Olhos abertos e BOOOM. Quando você retorna à consciência, está caído. Não há sangue nem qualquer outra marca física. Mas você está caído e não sabe por quanto tempo está assim. Foi um belo soco. Realmente foi.

Ele voltou pra casa. Simplesmente pegou suas coisas que haviam se espalhado no chão úmido, as colocou na mochila e foi pra casa.
Não havia muito o que fazer. Mais do que a força, o que o derrubou foi a surpresa. Ele não esperava por aquele soco. E, assim, ele não soube como reagir. Caiu. Levantou. Foi pra casa.

Ele foi dando passos descoordenados. Às vezes rápidos e sequenciados. Pé após pé após pé após pé. De repente, o ritmo era outro. Arrastado, modorrento. Pé ........................ após pé ............................ após pé .....................

A cabeça. Ora baixa. Terra, areia, granito, cimento, brita, asfalto (BIIIIIIIIII!!!! “Sai do meio da rua, abobado!”), lajotas, barro, poça d’água (havia chovido pela manhã). Ora alta. Azul, branco, azul, branco, azul, cinza, azul, branco (olha! um coelho nas nuvens).

E, assim, ele foi. E começou a pensar o que poderia ter motivado aquele murro. Não conseguiu lembrar de nada que pudesse ser a causa. Pequenas rusgas, nada demais. Nada demais para ele, pelo menos. Algumas discordâncias, mas eram tão poucas... e então pensou que, talvez, não houvesse razão e que (talvez) as coisas não precisem de razão para acontecer. Mas isso não fez muito sentido para ele. Não naquele momento. Deveria haver uma razão. Não precisava ser uma boa razão (e ele não achava que fosse, seja ela qual fosse, SE ela existisse). E ele conjecturou e conjecturou e conjecturou (mesmo não tendo a menor ideia do significado da palavra “conjecturar”). Quiçá, tivesse sido um ato instintivo, algo impensado, emocional, quase irracional. É, era uma possibilidade. Mas, ele, sinceramente, não acreditava muito nessa possibilidade.

O fato é que foi um belo de um soco no queixo que o levou a nocaute instantaneamente. Pelo menos, ele sentiu como se tivesse sido um. Na hora nem doeu. Ele simplesmente apagou. Mas depois... ahh, depois doeu e doeu muito. E mal ele fazia ideia de quanto e por quanto tempo ainda iria doer.

E ele seguiu rua após rua. Quadra após quadra. Ele ainda estava um pouco tonto. O primeiro murro na ponta do queixo a gente nunca esquece. E aprendemos com ele. Ele aprendeu com aquele soco. Aprendeu a se esquivar, aprendeu a se proteger, aprendeu a prever o golpe e, assim, estar preparado quando ele vier. E ele veio. Algumas vezes mais.

Realmente, aquele soco mudou a vida dele. Aquele soco o mudou. Hoje ele agradece a quem lhe deu a pancada (até ali também né, até ali).

E quando ele se deu por conta, estava em frente a uma porta. Não bateu nem tocou a campainha. Colocou a chave e girou. E então, estava em casa. Entrou no quarto. Jogou a mochila no chão (ali no canto, ao lado do violão). E sentou na cama. E, com os cotovelos sobre os joelhos, pôs as mãos no rosto. E chorou. Não chorou muito, porque ele não é muito de chorar. Mas chorou. Um pouco. E não chorou pela dor física da pancada. Chorou pelo inesperado. Chorou pela falta de motivo. Ele já enxugava as lágrimas quando ouviu um barulho. Era um fim de tarde bem silencioso. Daqueles em que o barulho de uma gota que cai da torneira que não foi bem fechada ecoa como um trovão. Mas ele ouviu algo que quebrou aquele microssistema que estava ali posto. Ele, então, foi à janela e o viu. Um gato. Preto. Um gato preto sobre o telhado da casa do vizinho. Era um gato grande, desses que já não tem a agilidade de outrora, mas possuem a sabedoria que somente os velhos bichanos têm. O gato lambia-se tranquilamente, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Naquele instante, aquele era o seu mundo. Nada era mais importante para aquele gato preto do que lamber-se. E lambia e lambia e lambia. Com calma, cuidadosamente, devagar. Para aquele velho gato, lamber-se era mais do que uma necessidade. Para aquele velho gato preto, lamber-se era uma arte. Uma arte executada e aperfeiçoada com o tempo.
E ali ficaram ambos, o gato e ele. O gato praticando seu ato, que mais parecia algum tipo de meditação, algo quase transcendental. E ele olhando. Em completo silêncio. Completa harmonia. Ele não sabe precisar por quanto tempo permaneceram ali. Podem ter sido segundos, podem ter sido minutos, parece que foram horas. E então o gato parou e virou a cabeça. E o gato olhou pra ele. O velho gato preto sobre o telhado o mirou com aqueles aguçados olhos de felino. E olhou. E olhou. E olhou. E seguiu olhando. E olhou. E olhou. Ele sentiu que algo estava acontecendo ali. Algum tipo de conexão. Algo que, se ele estivesse nos anos 60 sob o efeito de ácido, faria muito sentido.

BREVE EPIFANIA

Entra no carro, capota abaixada, aumenta o volume (alto, BEM ALTO) acelera e acelera, vento no cabelo, olhos no céu e vai. Ai ai ...

FIM DA BREVE EPIFANIA

O gato parou. O gato olhou pra ele. O gato voltou a se lamber.

Um pardal inocente pousou no telhado, perto do velho gato, que deu uma olhadela e seguiu seu ritual. Não era hora de caçar. Era hora de lamber. O pardal voou e foi embora.

E, então, ele deixou o gato seguir sua prática e deitou-se na cama. E pensou. Pensou que ele devia ser como o gato (não, ele não passaria a se lamber deitado sobre o telhado do vizinho). Que todos deveríamos ser como aquele velho gato preto. Que ele devia viver o instante. Que todos deviam viver o instante. Usar tudo o que aconteceu e o que aprendeu no passado, para viver intensamente o instante.  Pensou que não havia como mudar o passado. O que aconteceu, aconteceu. Ponto. Doía. Doía bastante. E a dor persistiria por mais algum tempo. Mas, cedo ou tarde, essa dor iria cessar. Mas o soco já havia sido desferido. Ele já havia recebido o impacto. Nada mudaria isso. Agora era hora de parar e curtir o momento. Agora era hora de digerir aquilo e, assim, aprender a se defender quando da próxima vez. Agora era hora de se lamber.

E ele fechou os olhos. E dormiu. Profundamente. Como um velho gato sobre o telhado.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Mulher Sentada Sobre os Pneus (ou À Espera da Vida)

O homem passa. A mulher passa. A criança passa. O cachorro passa. Passa o caminhão do lixo. Passam os carros. Passam as motos. Os aviões passam no céu. A lua passa e o sol também. As nuvens passam. A chuva chega ... e passa. O vento passa e leva as folhas secas com ele. A tristeza passa. A dor passa. A alegria passa. O frio passa, assim como o calor. Os segundos passam. Passam os minutos e as horas logo atrás. Passam os dias. Passam as noites. As semanas passam. Passam os meses. Passam os anos.
E ela segue ali.
Sentada.
Tudo passa por ela. Todos passam por ela. Ela está sempre ali. Sentada. Em silêncio. Com a cabeça baixa. Como que hibernando. Às vezes, ela gesticula, mexe os braços e conversa com seus botões. É raro, mas de vez em quando acontece.
Todos passam por ela, mas ninguém a enxerga. As pessoas a vêem. Mas vêem como vêem uma árvore na calçada. Vêem como vêem uma pedra no chão. Vêem como vêem um hidrante na esquina. As pessoas a vêem, mas não a enxergam.
Ela é invisível aos olhos que a vêem.

Ela viu muito da vida. O rosto marcado pelo tempo, as costas arqueadas e o olhar distante deixam claro que ela já deu muitos passos nessa estrada. Talvez por isso ela permaneça sentada. Suas pernas estão cansadas.
É interessante prestar atenção no modo como as pessoas olham para ela. Alguns expressam pena. Outros, algum tipo de repúdio. Outros balançam a cabeça de um lado para o outro. A maioria, porém, não revela nenhuma mudança na face. Era como se ali, sobre aqueles pneus empilhados, não houvesse ninguém. Como se ali não houvesse nada.
Nunca vi aquela mulher pedir algo a alguém. Nunca a vi importunar alguém. Ela não mora nas ruas. Suas roupas estão sempre limpas. Seguidamente a vejo desembarcar do ônibus e se dirigir para o seu lugarzinho, junto aos pneus. Já a vi trabalhando, limpando o chão, tirando o pó. Era uma mulher batalhadora, percebe-se. Agora não a vejo mais trabalhando. Quem sabe a tenham dispensado em razão da idade? Quem sabe. Agora só a vejo ali. Sentada sobre os pneus. Com um olhar tranquilo. Com uma expressão serena. Com a característica calma dos que lutaram a boa luta. Agora só a vejo ali. Sentada sobre os pneus. Esperando.
O que será que ela espera? Quem será que ela espera? Será que ela espera algo? Será que ela espera alguém?
Poder-se-ia dizer que ela, talvez, esteja esperando a morte. Não creio. Acho que ela espera a vida. Acho que ela espera que alguém a enxergue. Acho que ela espera que alguém pare, a olhe nos olhos, e lhe pergunte como está. Que alguém se sente ao seu lado e ali fique, pelo tempo necessário, sem pressa. Que alguém lhe estenda a mão. Que alguém lhe dê um sorriso. Acho que ela espera que alguém passe, a olhe e leve aquela imagem consigo. Que alguém lhe dê um “bom dia” sincero. Que alguém ouça a sua voz. Acho que ela espera a vida, mas não a própria vida. Acho que ela espera a vida dos outros.
Já ouvi, enquanto aguardava o ônibus, pessoas comentando sobre a senhora sentada sobre os pneus. Já ouvi as palavras “coitada”, “pena”, “tristeza”, “sozinha”, “doente”, “louca” sendo ditas a respeito dela por pessoas que passaram ao seu lado e não a viram, ou fizeram de conta que não a viram.
Seria ela uma coitada? Seria ela uma pessoa digna de pena? Seria ela triste? Será que ela está sozinha? Será que está doente? Seria ela louca?
Não acho nada disso. Quem não a enxerga, quem não se importa com ela, quem não sente nada ao passar ao seu lado é que é digno de pena, é que é um coitado. Quem não a olha de verdade é que é triste, é que está sozinho, é que está doente.
Ela é humana. Aquela senhora sentada sobre os pneus é profundamente humana. É demasiada humana. Ela não foi ainda afetada pela modernidade frugal, por esse turbilhão que a todos engole, mistura, massifica, embrutece.
Ela conversa consigo mesma. Ela fala sozinha. Ela gesticula e balança os braços no ar. Ela não parece se importar com o olhar reprovador dos outros. Ela não se importa em parecer louca. Ela é louca. Viver é para os loucos. Para os raros, como diz Hesse.


“Em uma época falsa, para estabelecerem-se relações sinceras com os homens, não é necessário um surto de insanidade?”
Ralph W. Emerson


Há alguns dias, eu passei em frente à mulher sentada sobre os pneus, como já fizera incontáveis vezes. Ela sempre me chamou a atenção, sempre me intrigou, sempre me fascinou. Desta vez, quando eu passava, ela ergueu, timidamente, a cabeça e me olhou. Eu retribuí o olhar e disse um “boa tarde”. Ela sorriu e meneou a cabeça para baixo, cumprimentando-me. Fiquei com aquela imagem guardada. Ainda a tenho aqui comigo. Aquele sorriso discreto, mas sincero e cheio de emoção, foi muito importante pra mim. Acredito que, de algum modo, minhas duas palavras também significaram algo e foram importantes para ela. Gosto de pensar assim. Gosto de pensar que ela sentiu vida ao redor dela. Sentiu vida além da presente sobre os pneus.
Hoje passei, novamente, por ela. Uma mulher que caminhava à minha frente puxou a criança que levava pela mão e a passou para seu outro lado, para o pequeno não passar próximo da senhora sentada sobre os pneus. Senti pena da criança. Mesmo. Esse texto sai escarrado. Sinto-me melhor agora.
O homem passa. A mulher passa. A criança passa. O cachorro passa. Passa o caminhão do lixo. Passam os carros. Passam as motos. Os aviões passam no céu. A lua passa e o sol também. As nuvens passam. A chuva chega ... e passa. O vento passa e leva as folhas secas com ele. A tristeza passa. A dor passa. A alegria passa. O frio passa, assim como o calor. Os segundos passam. Passam os minutos e as horas logo atrás. Passam os dias. Passam as noites. As semanas passam. Passam os meses. Passam os anos.
E ela segue ali.
Sentada.
À espera.
Da vida.
Dos outros.