sexta-feira, 11 de abril de 2014

Eu toquei suas mãos, mas ela não sentiu.


Eu estava no parque, sentado sozinho em um banco sem fazer nada. Estava apenas apreciando o vai e vem das pessoas. O céu estava nublado e nem um raio sequer de sol havia aparecido durante todo o dia. Pela manhã, tinha chovido e poças d’água refletiam o verde das folhas das árvores. Ventava fraco e estava um pouco frio, mas não muito.

Eu olhava um casal de velhinhos, cabelos brancos, costas curvadas, que caminhavam de mãos dadas. Eles pareciam felizes. Caminhavam tranquila e serenamente. Sem pressa alguma. E eu pensava em como o tempo é o tempo de cada um. E em como a percepção do tempo muda com o passar dos anos. Em como tudo desacelera e em como isso deve ser bom.

Foi aí, em meio ao meu devaneio, que ela surgiu. Chegou em silêncio e sentou-se ao meu lado. Ficou assim, em silêncio, por um ou dois minutos. Em seguida, desatou a chorar. Primeiro, com alguma discrição. Olhos marejados, lágrimas correndo, mas pouco barulho. Depois, mais ruidosamente. O choro foi aumentando de intensidade e, rapidamente, ela já soluçava e chorava copiosamente.

Eu fiquei um tanto quanto desconcertado. Não sei reagir a situações como essa.  Não sei até onde posso ir, até que ponto tenho o direito ou o dever de me intrometer naquele momento da vida daquela pessoa. E eu fiquei assim, principalmente, pelo fato de ela estar chorando. Nunca soube lidar com alguém que chora. Fico sem saber o que fazer. É agoniante.

Pensei por alguns instantes tentando encontrar a melhor coisa a fazer. Ela realmente parecia estar sofrendo. E, pelo seu estado de nervos, não era por pouca coisa. Ao menos, para ela, não era pouca coisa.

Estávamos a uns três palmos de distância. Mesmo chorando, pude notar que ela era muito bonita. Cabelos negros, pouco abaixo dos ombros. Mãos pequenas, rosto angelical, com traços suaves e bastante simétricos. Seus olhos também eram escuros, mas não consegui ver se eram castanhos ou pretos. Vestia uma saia que deixava os joelhos à mostra enquanto estava sentada. Uma blusinha de alças vermelha e sapatilhas.

Por mais alguns instantes, planejei uma abordagem que pudesse ser pouco traumática se tudo desse errado. Decidi-me por ser o menos invasivo possível.

“Com licença, moça, posso ajudá-la em algo?”

Ela nem deu bola. Seguiu chorando.

Pensei que ela pudesse não ter me ouvido. Pensei que ela me ouvira e me ignorara solenemente. Pensei que ela precisava de algo mais do que apenas uma pergunta.

Cheguei mais perto. Ela seguia chorando em desespero.

“Moça, aconteceu alguma coisa? Alguém te fez algum mal, te machucou?”

A resposta foram mais lágrimas, apenas isso.

Tentei processar o que estava se passando. Primeiramente, imaginei que algo havia acontecido. Não era preciso ser nenhum gênio para perceber isso. Algo havia acontecido e havia sido grave. Já que ela nem me notava, olhei bem o seu rosto e não vi nenhuma marca, nenhum machucado. Os braços e as pernas também não tinham nenhum hematoma, ou corte, ou algo do tipo. Conclui que ela não tinha sido agredida. Menos mal. O problema parecia ser unicamente de cunho emocional. O que não diminuía o seu tamanho. Feridas físicas costumam cicatrizar mais rapidamente do que as emocionais.

Um amor. Era bem possível que a razão daquilo tudo fosse um amor. Um amor não correspondido, um amor que acabara, um amor traído, um amor platônico, enfim, um amor.

As pessoas ainda choram por amor. É bonito isso. Eu acho bonito. Fico comovido. Mas ali, naquele banco do parque, naquela tarde cinzenta, eu beirava o pânico. Sempre tive uma relação difícil com o choro. Tenho dificuldade para chorar. Quase nunca choro. Não me lembro da última vez em que chorei. Eu não me orgulho disso, muito pelo contrário. É triste. Eu acho triste não conseguir chorar. Não faz bem para mim. Mas não creio que, no meu caso, haja muita coisa a fazer para mudar isso. Paciência

Sua maquiagem borrada pelas lágrimas deixava rastros negros em sua face. Seu rosto parecia uma pintura expressionista. Estava belo de um modo único.

Aproximei-me de novo. Desta vez, fiquei ainda mais perto. Usei minha voz mais doce possível e disse que, se ela precisasse de algo, eu estava ali, que não nos conhecíamos, mas que eu faria o possível para ajudá-la no que fosse necessário. Ela não esboçou nenhum gesto que poderia demonstrar que tinha me ouvido. Seguiu com seu pranto que rasgava o ar e cortava o meu coração.

Por cerca de uma hora eu tentei entendê-la.  Tentei falar com ela. Tentei ouvi-la.

Por cerca de uma hora eu tentei fazer com que ela me notasse. Tentei mostrar a ela que poderia contar comigo, que não estava sozinha.

De nada adiantaram os meus esforços altruístas.

Eu toquei suas mãos, mas ela não sentiu. Eu não me fiz sentir.

Foi aí que eu percebi que tudo aquilo que eu fizera fora para mim, fora para eu me sentir melhor. A minha preocupação com aquela moça não era tão grande quanto a minha vontade de me tornar importante naquela situação. Ela era apenas o meio. O fim era eu mesmo.

E então eu voltei a me distanciar dela. Os mesmos três palmos de antes. Ergui a cabeça e fitei o céu. Não havia muito o que ver lá em cima. Tempo fechado, nuvens escuras, muitas nuvens escuras, um pássaro voando alto, uma folha de árvore arrancada por uma rajada de vento fresco.

Fechei os olhos.

Uma gota explodiu na minha testa. E outra, e outra, e mais uma. Chovia uma chuva quente.

Senti sua cabeça se apoiando no meu colo. Havia se acalmado. Mais alguns instantes, e o choro desaparecera por completo.

Ela não queria a minha atenção. Ela queria o meu silêncio.

Chovia uma chuva quente.

domingo, 16 de março de 2014


O Silêncio

O silêncio tem sido meu amigo.
Ah, sim, o silêncio tem sido meu amigo.
Meu abrigo, meu castigo.

Eu não consigo mais dormir.
Eu não consigo mais dormir.

E não é o vento que faz a porta bater.
Não é a chuva que explode na janela.

É o silêncio, meu amigo, que me grita ao pé do ouvido:

“Estás só! Estás só!”

E eu saio rua afora.
Olhos abertos, alma que chora.

E eu corro sem saber por quê.
Sangue nas mãos, mas ninguém vê.

E eu vou sem rumo, sem destino.
Vou sozinho pra lugar nenhum.

Eu vou sem nome, um clandestino.
Vou ser ninguém, vou ser mais um.

Chegou a hora e eu nada digo.
Vou embora sem me despedir.
 E o silêncio, meu amigo,
Continua a me seguir.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A incrível breve história do homem mesóclise



Era uma bela manhã de verão. Ele acordara refeito após uma excelente noite de sono pesado e revigorante. Espreguiçara-se com parcimônia, tomara um demorado banho com água fria. Que dia fazia lá fora! Sol reinando soberano, algumas poucas nuvens quebrando a monocromia do céu. Vestira-se e saíra para, como fazia em todas as manhãs, comprar pão quentinho na padaria que ficava há duas quadras descendo a rua. Caminhava com alegre satisfação. Cumprimentou os conhecidos, sorriu ao ver os cãezinhos se refestelando no parque, gargalhou após tropeçar em uma lajota que se sobressaía às outras na calçada. Limpou os tênis no tapete da entrada da padaria, meneou a cabeça para a senhora de óculos com grandes aros de acrílico transparente que ficava no caixa logo cedo pela manhã fazendo tricô entre um cliente e outro, deu passos leves em direção ao balcão ao fundo, postou-se em frente a ele e à moça que, atenta, aguardava o seu pedido, e disse:

“A bela senhorita poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

Saiu assim, ao natural, sem cerimônias. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A atendente, que estava no seu segundo dia naquele emprego e não o conhecia, ficou boquiaberta. Não entendera nada daquela profusão de letras e palavras, mas compreendera do que se tratava o pedido e achara aquele homem muito metido com seu palavreado rebuscado. Virou-se e foi pegar os pães, que ainda estavam no forno.

Enquanto isso, do outro lado do balcão, ele estava petrificado. Imóvel. Olhos bem abertos. Estava quase que em estado de choque. O seu cérebro não havia enviado à sua boca aquela ordem. Ou, se havia, o fizera por sua livre e espontânea vontade.  Ele não sabia o que pensar. De onde viera aquilo? Não tinha a menor ideia. Ele nem gostava de usar palavras ou construções frasais difíceis e costumava chamar de pedante quem fazia isso. Agora, assim, do nada, sem nenhuma necessidade, no balcão da padaria, vestindo bermuda e camiseta regata, ele fizera uso de uma mesóclise. “Poder-me-ia dar quatro pãezinhos?”

A partir daquela manhã, daquele dia, a sua vida virou um inferno. Ele já não conseguia falar uma frase sequer sem usar uma mesóclise. Não conseguia se conter. Era mais forte do que ele. Era uma força superior, incontrolável, selvagem.

Para a esposa, após uma noite de luxurioso amor. “Se, em um dia desses, eu sumisse, tu procurar-me-ia até me encontrar?”

A um transeunte que procurava uma rua nas redondezas. “Ajudá-lo-ia com prazer, mas, infelizmente, não sei onde fica essa rua.”

Para a filha, após ela fazer uma travessura. “Se tu fizeres isso de novo, eu zangar-me-ei muito, ouviste?”

No fórum, testemunhando em um caso de acidente de trânsito, após lhe perguntarem se diria a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. “Di-la-ei.”

Ao recusar uma proposta de trabalho. “Eu sei que no futuro arrepender-me-ei disso, mas não posso aceitar o emprego neste momento.”

Nem ele se aguentava mais. Passados três meses, após ser convencido pela família e amigos de que aquilo deveria ter algum tipo de tratamento, procurou um médico.

“Doutor, é muito constrangedor, já não tenho mais saído de casa, pedi licença no trabalho, ninguém consegue ficar mais de um minuto conversando comigo. Colocar-me-ei à disposição do senhor, faça os testes que quiser. Já tentei simpatia, pai de santo, sessão espírita. Nada adiantou. O senhor é a minha última esperança, doutor. O senhor ajudar-me-ia a dar fim a essa maldição que me tomou e da qual eu não consigo me ver livre?”

O médico confessou que nunca vira ou tivera ouvido falar daquilo antes. Algum tipo de síndrome que fazia com que um homem usasse a todo o momento uma forma verbal que não se usa na linguagem oral. Um caso sério e intrigante, sem dúvida. O doutor disse que iria pesquisar a respeito e o dispensou garantindo que entraria em contato quando tivesse descoberto algo. Na ficha que estava em sua mesa, no espaço reservado para o tipo de doença que acometia o paciente, ele escreveu com letras ininteligíveis: “O Incrível Caso do Homem Mesóclise.”

Seis meses se passaram. Ele abandonara o trabalho. Outros seis meses se foram. Desistira de toda e qualquer relação social. Outros seis meses. A família o deixara.

Ele não tinha mais nada. Não tinha mais ninguém. Somente tinha um vocabulário rico em variedade de conjugações verbais, mas isso não o deixava feliz.

Sofria. Ele sofria muito, e sofria calado, o que é bem pior. Sofre em dobro aquele que sofre calado. Ele sofria calado, e sofria sozinho. Muito. Sofria muito. Calado e sozinho. Era assim que ele sofria.

Durante todo um ano, viveu se mantendo com as economias de uma vida inteira. Até que elas acabaram. Teve de deixar a sua casa, pois não podia mais pagar as prestações. Pegou suas poucas coisas que haviam restado, basicamente roupas e livros, e saiu. A rua passou a ser o seu lar. Um lar hostil, mas, ainda assim, um lar.

Perambulou por entre os becos. Dormiu sob viadutos e pontes. Agasalhou-se com caixas de papelão. Comeu restos nas calçadas. Foi esquecido por todos que, em algum dia do passado, disseram que o amavam. Perdeu-se no mundo.

Esperou até seus últimos dias pelo chamado do médico que nunca ocorreu. Morreu sonhando em se ver curado da sua maldição. Ainda hoje, espalhados pelos muros da cidade, estão seus escritos de lamento. Testemunhos de sua existência.

“Procurar-me-ia?

Não importa.

Encontrar-te-ei!”


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.




Não foi nada fácil para ele admitir que estava apaixonado. Ainda mais por ela. Aquele era um momento de sua vida em que apaixonar-se já não estava em seu horizonte. Ainda mais por ela. Depois de um casamento que acabou, ele havia dito para si mesmo que iria dar um tempo nos relacionamentos. Ele era muito jovem quando decidiu que queria viver o resto da sua vida ao lado daquela mulher. Antes dos trinta, bem antes, já estava divorciado. O casamento não havia dado errado. Eles foram muito felizes enquanto se amaram.  E se amaram bastante, mas acabou. Acabou o amor e o casamento também. O fim foi uma consequência, não houve brigas, e os dois mantinham uma relação de amizade. Ele, porém, decidiu que não iria se envolver daquela forma tão cedo. Não queria namorar e sequer manter um envolvimento casual, sem compromissos, com uma mesma pessoa. Ele queria curtir a sua solteirice. Não curtir como um adolescente com os hormônios em polvorosa. Apenas curtir, poder fazer somente aquilo que tinha vontade de fazer. Mas, aí, ela surgiu na sua vida e todo o planejamento desabou feito um castelo de cartas.

Um parêntese

A essa altura, ele já havia se dado conta de que o homem é a parte mais frágil da relação. Sempre se sentira orbitando ao redor da mulher. Elas eram mais perspicazes, mais espertas, mais intuitivas, mais decididas. Elas eram mais corajosas, mais atentas. Ele sempre se sentira como um coadjuvante em suas próprias histórias de amor.

Fecha parêntese

Ela era mais jovem do que ele. Bem mais jovem. Quase 10 anos mais jovem. E era muito bonita. Tinha uma beleza incomum, com traços marcantes, rosto anguloso e olhar intenso e inquisidor.

E como era extrovertida e falante aquela menina. Puxa vida, era mesmo. E isso era outra coisa que o deixava encantado. Ela era o oposto dele. Despojada, dona de si.

Ele era mais introvertido. Mais para si do que para os outros. Mas não confunda isso com egoísmo. Ele não era egoísta. Não mais do que qualquer um de nós é. Ele era, simplesmente, mais para si do que para os outros.

Foi quando ela sorriu para ele na mesinha do café e lhe disse um “tudo bem?” que ele percebeu que estava apaixonado. Ao mesmo tempo em que se sentiu vivo novamente, ele soube que aquilo iria bagunçar tudo o que já havia colocado no lugar após o fim do casamento. Ele se sentia calmo, tranquilo.  Saía para beber com os amigos, deixava a tampa da privada levantada, jogava videogame até tarde, vestia-se com qualquer roupa com a qual se sentisse bem. Agora acontecia isso. Logo agora que as coisas estavam se ajeitando. Precisava ela ser tão bonitinha? Precisava? Precisava ter ela aquele jeitinho todo delicado e aquele olhar tão decidido?

Seus dias de navegação em serenos mares haviam acabado. Ela era a tempestade. Ele era o barquinho pesqueiro balançando em desespero.

E por uma dessas coisas difíceis de explicar, e que somente uma mulher é capaz de conseguir, ali, naquele exato momento, na mesinha do café, na tarde calorenta de verão, ela soube que ele estava caidinho por ela. Ela soube de cara. A danada era bem esperta. Ele nem desconfiou.

Os dias posteriores ao encontro casual na mesinha do café foram terrivelmente angustiantes para ele e incrivelmente divertidos para ela. Enquanto ele procurava ao máximo evitar qualquer tipo de contato (um cruzar de olhares o deixava maluco), ela fazia questão de provocar. Levantava-se da cadeira e caminhava por entre as mesas com mais frequência, dava tchauzinhos para ele quando se viam olhando um para o outro à distância, aumentava o tom de voz durante as conversas para que ele a ouvisse.

Ele estava prestes a enlouquecer. Só conseguia pensar nela. O tempo todo. O dia inteiro. Ele sabia que seria assim. Desde o “tudo bem?” na mesinha do café ele sabia que seria assim. Sempre que ele se apaixona é assim. Exatamente por isso ele não queria se apaixonar. Mas aconteceu. Agora ele precisava lidar com a situação. E ele não tinha a menor de ideia de como fazer isso. Mas era preciso.

Focar no trabalho. Precisava encontrar mais atividades durante o tempo em que permaneciam no mesmo ambiente. Tentou, mas não conseguiu. Seu trabalho era mais intelectual do que braçal. Era mais pensar do que fazer. E ele só pensava nela.

Pedir férias. Ficar longe dela, longe de tudo que pudesse o fazer lembrar-se dela. Um lugar ermo. Sozinho. Ele e a natureza. O canto dos pássaros, o correr das águas do riacho, o farfalhar das folhas nas árvores. Que maravilha! Pena que o pedido foi negado de pronto. Fazia seis meses que estava naquele emprego. Não tinha direito a férias, portanto.

Era preciso encarar os fatos. Ele não tinha para onde correr. Estava apaixonado. Ela era sua colega de trabalho. Viam-se, ao menos, cinco dias por semana. Não tinha como evitá-la, a não ser que pedisse demissão, mas ele precisava daquele emprego. Estava em um beco sem saída.

Aquilo tudo passou a afetar seu desempenho no trabalho. Produzia cada vez menos e com qualidade inferior, tinha menos ideias e a maioria delas eram péssimas. Estava mais distraído, não conseguia se concentrar em nada. A cabeça sempre nas nuvens. Ia trabalhar com olheiras enormes de noites em claro ao som de jazz e saboreando uísques baratos. Ele estava acabado, feito um trapo velho encardido usado para limpar o balcão de um boteco de beira de estrada.

Passados quatro meses, ele percebeu que as coisas não poderiam continuar como estavam. Ele precisava agir. Precisava reagir. Precisava, como dizia a sua falecida avó, “tomar jeito de homem.” Ele nunca soube muito bem o que aquela expressão significava ao certo, mas, naquela noite, mais uma sem cerrar os olhos, ele conseguiu entender as palavras de dona Antônia.

Depois de tanto buscar, de tanto procurar. Depois de tanto querer, de tanto sofrer. Depois de tanto pensar, depois das noites sem dormir. Depois de tudo isso, ele encontrou a solução. Ela estava ali. Diante dos seus olhos. Ele que não percebera. Mas nunca é tarde. Nunca é tarde. E ele sabia disso. Ele sempre soube que aquela era a única solução, a única resposta.

Entregar-se.

Essa era a única solução. Essa era a única resposta.

Ele soube naquela madrugada silenciosa que precisava sentir aquilo, aceitar aquele sentimento. Não havia outro caminho sem dor.

Precisava falar com ela. Precisava se expor, dizer a ela tudo o que sentia e que tinha passado nos últimos meses.

Mas ela era tão madura, tão segura de si.

Não importa. “Tome jeito de homem!”

Ao chegar ao trabalho no dia seguinte, antes mesmo de bater o cartão, ele se dirigiu à mesa dela. Passos confiantes. Cabeça erguida, postura militar. Expressão de conquista no rosto. Discurso decorado e um sentimento de libertação nunca dantes sentido.

A mesa estava vazia. Ela não estava lá. Ele olhou ao redor e não a viu. Olhou de novo para a mesa e notou que não havia nada do que costumava ver ali. Não viu os post-its colados no monitor do computador, não viu a caneca de porcelana, não viu as flores que sempre coloriam, viçosas, aquele ambiente. Nada estava ali. Aquela já não era a mesa dela.

A essa altura, o nervosismo já o dominava. O que será que havia ocorrido? Por que ela não estava ali? Por que as coisas dela não estavam ali? Por quê?

Tentando disfarçar seu estado de nervos, perguntou a um outro colega se ele havia visto a menina da mesa vazia. “Ahh, ela? Pediu demissão. Não sei bem a razão, mas ela andava meio triste nos últimos dias, parecia decepcionada com algo, ou cansada de esperar algo, uma coisa assim. Por quê?” “Por nada não, nada não. Só curiosidade.”

Assim, com raiva de si mesmo por ter demorado tanto para tomar uma atitude, ele caminhou com passos arrastados até a sua escrivaninha. Sentou-se deixando o corpo desabar sobre a cadeira. Ele estava exausto, mas sentia-se leve. Havia tirado um peso de suas costas. Não iria mais vê-la todos os dias. Ela não iria mais provocá-lo. Em alguns poucos dias, já não sonharia mais com ela. Teria tranquilas noites de sono. Iria render mais no trabalho. Tudo iria melhorar. Havia acabado. Sua provação havia acabado. As coisas iriam voltar à normalidade. Na verdade, ela nem era tão bonita assim, nem era tão simpática e inteligente, nem era tão atraente, pensou.Tudo iria melhorar.

Deu um suspiro longo, esboçou um sorriso amarelo no rosto e olhou para a tela do computador. Era hora de começar a trabalhar. Ali, colado no monitor, estava um daqueles post-its amarelinhos. Ele estranhou, ajeitou os óculos e leu, palavra por palavra:

“TE ESPERO ÀS 20H, NO BARZINHO DA ESQUINA. BJS, LINDINHO.”

Seu corpo amoleceu, seu coração disparou, suas mãos tremeram, e uma expressão de êxtase lhe tomou a face. O grito que lhe trancava a garganta explodiu e sua voz pôde ser ouvida em todo o universo.

“SIM!!!!!!!!!!!”

Ela o queria. Ele a queria. Estava apaixonado. Nunca se sentira tão bem na vida.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Na pequena livraria do bairro, fizeram amor pela última vez


Era véspera do aniversário dele quando um médico o chamou para uma conversa particular importante. Foi bem assim que ele disse. “Tenho de ter uma conversa particular importante com o senhor.” Devia ser algum tipo de chefe de equipe, aquele médico. Tinha cabelos grisalhos, quase brancos, e barba bem aparada. Devia beirar os 70 anos, mas estava bem conservado. Gestos firmes, passos de soldado. Voz tonitruante.
Fazia cinco dias que ela estava internada naquele hospital. A esposa sentira fortes dores de cabeça no domingo pela manhã e, à tarde, após os analgésicos não funcionarem, ele resolveu levá-la ao centro médico.
Ele não achava que era algo sério. Sua mulher costumava se queixar de enxaquecas, mas nunca sentira uma dor como aquela do domingo pela manhã. O médico disse para ele se sentar. Ele não gostou daquilo. Imaginou que seria uma conversa longa. E aquela não seria uma conversa qualquer. Era uma conversa particular importante.
Sentou-se. O médico também o fez.

Ele tinha 21 anos quando a conheceu. Foi em uma livraria, dessas acanhadas, de bairro. Ele era amigo do dono e costumava passar por ali uma vez por semana para saber das novidades e conversar um pouco. Ele gostava daquele velho livreiro. Um homem digno, não restavam dúvidas. Um resistente. Mantinha com afinco aquele negócio apesar da concorrência das grandes redes e das vendas pela internet. Não tinha pretensões de riqueza ou de faturar muito com a venda de livros. Mas gostava daquilo. Fazia aquilo há quase 50 anos, sempre no mesmo lugar. Era um homem culto e um grande leitor. Isso fazia dele o melhor livreiro da cidade. Pelos menos quem o conhecia achava isso. Ele estava olhando algumas obras que o livreiro havia separado para ele ver. Estava sentado em um baú antigo de carvalho que estava encostado na parede e que servia para guardar os livros reservados. Foi quando ela adentrou na loja e passou na sua frente.

O médico tinha um semblante sério. Difícil saber se ele estava realmente triste e preocupado ou se era a cara teatral que fazia sempre que tinha de dar uma notícia ruim para um paciente ou parente de paciente. Devia ser um pouco das duas coisas, provavelmente. Sabedor de que prolongar a conversa com palavras consoladoras e solidárias não faria com que a notícia fosse recebida com menos dor, ele foi direto ao assunto, como costumava fazer sempre que uma situação como aquela se repetia.

“Ela tem um tumor no cérebro.”

Ele não ouviu mais nada do que o velho médico disse depois disso. Ele não ouviu o médico dizer que era um tumor grande, maligno, localizado em um local impossível de ser operado e que os procedimentos médicos existentes e conhecidos não poderiam fazer nada para evitar o seu desenvolvimento, muito menos fazer com que ele regredisse. Ele não ouviu nada isso. Ele só ouviu o “ela tem um tumor no cérebro”. O médico explicou mais algumas coisas, o consolou com dois rápidos tapinhas no ombro esquerdo, se levantou, ajeitou o jaleco e foi embora. Devia ter mais notícias ruins para dar. Ou notícias boas. Tanto faz. “Ela tem um tumor no cérebro.” Ele ouviu apenas isso.

Ela passou à sua frente na livraria. Ele só viu uma pequena parte de suas pernas, seus tornozelos e seus pés. Ele estava passando os olhos pelas páginas de um livro. Era Sartre. Ela passou, com suas sandálias frescas, seus tornozelos finos e suas canelas alvas. E seu perfume. Era um perfume vivo, de flores do campo. Ele quase podia tocar aquelas pétalas. Levantou a cabeça e olhou para ela. Estava de costas, remexendo em uma estante. Cabelos negros. Blusinha preta de alças e uma saia que batia pouco abaixo dos joelhos. Ela virou a cabeça, de repente, e notou que ele a observava. Ela pareceu não se importar muito, mas tinha gostado daquele sujeito. Não sabia a razão, mas tinha gostado dele. Ele se sentiu envergonhado. Voltou a olhar para o livro de Sartre. Sua cabeça, porém, já não estava nas páginas. Enquanto ela estivesse por perto, nunca mais iria estar. De longe, o velho livreiro percebia tudo.

Caberia a ele informar a ela sobre o que causara a dor de cabeça. O médico disse que poderia fazer isso, mas ele achou melhor negar a “ajuda” profissional. Essa não iria ser uma hora de profissionais. Ele ficou por alguns vários minutos sentado naquele sofá. Talvez horas. Ele ficou tentando achar o jeito certo de contar aquilo. Desistiu. Não havia um jeito certo. Teria de ser do seu jeito. Certo ou errado, teria de ser do seu jeito. Levantou-se e saiu. Resolveu dar uma volta. Espairecer. O dia estava realmente lindo lá fora. Era a terceira semana da primavera. Ele foi ao parque. Precisava ver gente. Precisa descansar um pouco. Deitou-se sob a sombra de um ipê, entrelaçou os dedos embaixo da cabeça e, olhando para o azul do céu, misturado com o lilás das flores e o branco das nuvens, refez os passos da sua vida, desde aquele dia na pequena livraria do bairro, até o momento em que o médico lhe disse o que ela tinha. Havia sido tudo tão belo. Os olhares foram belos. Os abraços foram belos. Os beijos foram belos. Eles tiveram belíssimas discussões. O modo como ela arrumava a gravata dele era belo. A maneira como ele fechava o zíper do vestido dela era bela. Ele não estava triste pela doença. As pessoas adoecem, é normal. Ele estava triste com o sentimento que lhe tomava por inteiro e lhe dizia que aqueles momentos tão únicos, tão mágicos, poderiam não se repetir novamente. Ele estava triste. Levantou-se e iniciou a caminhada de volta ao hospital. Era preciso falar com ela.

Ela pediu ajuda para ele. Não conseguia encontrar um livro específico. Ele ficou um pouco desconcertado, meio sem saber como agir, se atrapalhou, deixou cair o Sartre no chão. Ergueu-se e encarou-a. Nossa, ela era linda. Ela falou algumas coisas que ele não prestou muita atenção. Seus olhos eram verdes feito as águas do Caribe. Ele ajeitou os óculos e a ouviu falar em Hermann Hesse. “Sim, Hermann Hesse!”, ele disse, abruptamente. Ele sabia exatamente onde estavam os livros de Hermann Hesse. Como não iria saber? Era Hermann Hesse, e, por alguns anos, no período logo depois da faculdade, quando ele estava desempregado, aquela livraria de bairro era a sua segunda casa. Na verdade, ele se sentia mais à vontade ali do que no apartamento que dividia com outros dois jovens estudantes. Sabia tudo sobre aquela livraria. Onde estavam os livros, quais os preços, se tinha edições específicas de algumas obras. Indicou com a mão a direção a ser tomada e pediu para ela o acompanhar. Faziam, ali, o seu primeiro passeio juntos.

Na porta, do lado de fora, pouco antes de entrar no quarto do hospital, ele respirou fundo e pensou brevemente e pela última vez em como falar aquilo. Ele não queria aparentar muita tristeza, pois isso não faria bem a ela. Mas ele estava triste, muito triste, e sabia que sua expressão o iria denunciar, de uma forma ou de outra. Passou as mãos no rosto, deu um suspiro, e entrou. Ela estava deitada de lado, olhando complacentemente para a janela, que estava aberta e mostrava um céu ainda claro de fim de tarde primaveril. Ele entrou devagar, em silêncio e a admirou por alguns segundos. Ela estava muito bonita. Os últimos raios de sol do dia riscavam o seu rosto e faziam seus cabelos cintilarem. Era uma pintura. Ele nunca mais esqueceria aquela imagem. Aproximou-se e sentou ao pé da cama. Ela se virou, olhou para ele, e sorriu. Ela costumava sorrir muito. Era uma otimista. Sempre procurava ver o lado bom das coisas. Sempre. Ele perguntou como ela estava, como se sentia. Ela disse que a dor de cabeça tinha passado com o efeito dos medicamentos. E disse para ele nunca mais deixá-la sozinha naquele quarto. E disse ainda que os médicos não tinham conversado com ela sobre a causa da forte dor de cabeça e que achava que não deveria ser nada demais, apenas mais uma crise de enxaqueca, só que mais intensa desta vez. Ele ficou em silêncio. Apenas ouvindo-a. Ele adorava ouvi-la. Saber como havia sido o dia dela, seus feitos, suas conquistas, seus problemas. Somente ouvi-la. Sem pressa. Sempre preferiu ouvir a falar. Ela era o seu equilíbrio. Sempre preferiu ouvir a falar.

Ir àquela pequena livraria se tornou um hábito na vida deles. Foi ali que tudo começou. Iam todas as semanas. Na maior parte das vezes nada compravam. Mas folheavam muito, tocavam muito, conversavam muito. Conheciam muito dos autores e muito de si mesmos. Foi ali que se encontraram pela segunda vez. Ela estava sentada no chão, lendo, com as costas escoradas na estante. Foi ali que deram o primeiro beijo. Foi ali que ele a pediu em casamento. Foi ali que tudo começou. Foi ali que tudo cresceu.

Ele se aproximou dela, sentou-se mais perto. Tomou-lhe as mãos entre as suas e lhe deu um beijo na testa. Ela deixou escapar uma lágrima do olho direito. Ele aparou a gota com o dedo. Ela sabia que ele não tinha boas notícias para dar. Ela o conhecia bem. Ele sabia que ela já havia percebido tudo. Ele a conhecia bem. Adormeceram. Lá fora, a chuva caía quente.

Era bem cedo pela manhã quando ele a acordou. Era madrugada, na verdade. A lua brilhante deixava a noite clara. Saíram em silêncio pelo corredor. Passo após passo. Cruzaram o saguão e ganharam a rua. Seguiram caminhando. Cruzaram o parque. Pularam sobre as poças d’água. Correram de mãos dadas. Pararam em frente à pequena livraria do bairro. A porta estava aberta, pois ele havia acordado no meio da noite e feito um telefonema para o velho livreiro, pedindo um favor. Entraram em silêncio. Transformaram aquilo em um ritual. Percorreram os corredores. Tocaram. Cheiraram. Sentiram. Fizeram amor pela última vez. O sol aparecia tímido quando eles fechavam a porta da pequena livraria. A vida havia valido a pena. A história havia sido escrita. Ponto final.

sábado, 7 de dezembro de 2013


Tarde de inverno em uma cidade ao Sul

Brisa leve.
Chuva fina.
Tarde de inverno
Em uma cidade ao Sul.

Beijo doce
De menina.
Pedaço de pano
Pintado de azul.

Nuvem cinza
Lá em cima.
Sorriso tímido.
Aperto de mão.

Olhos fechados.
Passo de dança.
Gota que cai.
Poça no chão.

Rua vazia.
Música ao longe.
Resto de vida.
Terra e pó.

Abraço apertado.
Aceno distante.
Lágrima fria.

E só.

sábado, 9 de novembro de 2013

Era um domingo


Ela é sempre a mesma, mas, a cada novo dia em que acorda, ela é outra.

Outro dia pela manhã cedo, ela abriu os olhos, deu um longo e silencioso bocejo, ergueu-se da cama, ficou em pé e se viu uma palhaça, dessas de circo. Saiu fazendo estripulias e assim permaneceu durante todo o dia. Espirrou água no rosto de amigos, deu cambalhotas no corredor da escola e, sempre que pôde, falou com voz alta e estridente “hey, amiguinhos!!”. Ela estava impossível.

Noutra ocasião, acordou e era uma bailarina. Passou a manhã, a tarde e a noite dando saltos e giros, rodopios e rebuscados passos de dança. Foi dormir com os pés doendo e a cabeça nas nuvens.

Houve uma vez em que era uma atriz. Foi um dia difícil aquele. Uma hora era um drama só. Em seguida, ela ria, falava bobagens, caminhava engraçado, era pura comédia. Disso para um suspense de tirar o fôlego, era um pulo.  

Era sempre assim. A cada amanhecer, uma nova pessoa se mostrava para ela no espelho.

Teve um dia, em especial, em que ela levantou, ainda de pijama, calçou as pantufas, tomou um demorado banho, penteou os cabelos, trocou de roupa, arrumou a mochila colorida, passou na cozinha, pegou algumas coisas de comer, encheu seu cantil com água, abriu a porta e saiu.

Ela era uma andarilha. Uma desbravadora. Uma caminhante. Sem direção e sem propósitos. Somente andar. Era um domingo.

Não deixou nenhum recado. Não avisou ninguém. Não disse a que horas voltava.

Era dona de si mesma. Tinha o tempo em suas mãos. Tinha o mundo aos seus pés.

Ela tinha os cabelos amarrados às costas em um rabo de cavalo que chacoalhava de um lado para o outro, acompanhando os seus passos despreocupados.

Ela conversou com muitas pessoas. Queria ouvir as histórias da gente da rua, mendigos, ambulantes, catadores, prostitutas, beberrões, vagabundos que passavam o dia zanzando sem ter o que fazer.

Conheceu um músico no Centro da cidade. Era um rapaz jovem, com barba espessa e negra, olhos faiscantes e cabelo ondulado e comprido, logo abaixo dos ombros. Ela o ouviu tocar e cantar. Era uma música que ela não conhecia, mas gostou muito. Ela não lhe deu dinheiro, mas lhe deu atenção, a qual ele retribuiu com entusiasmo, afinal, uma boa conversa vale mais do que alguns trocados. Falaram sobre a canção, sobre a rua, sobre as pessoas ao redor, sobre sentimentos e sobre mais algumas trivialidades. Deram risadas juntos. Sorriram um para o outro. Ela se apaixonou. Mas sabia que não podia se apaixonar. Sabia que, no dia seguinte, não seria mais essa garota que se apaixonou pelo jovem cantador das ruas. Lutou contra si e contra sua paixão repentina. Foi uma luta árdua. Aquela que se apaixonara era pura emoção, puro instinto. Mas era preciso resistir. Amanhã, muito provavelmente ele não teria nenhum interesse por aquele rapaz. Ela sabia disso. Suas variações de personalidade eram muito bruscas. Não podia arriscar.

Foi com uma lágrima correndo no rosto que ela se despediu com um abraço e seguiu sua jornada do dia.

Andou por onde nunca antes houvera andado. Espantou-se com quanta coisa nova havia para ver. Quanta coisa nova. Era um velho mundo novo, uma cidade que sempre esteve ao alcance de suas mãos, mas que ela nunca tocara.

Tantos prédios, tantas árvores, tantas ruas, tanto céu, tanta gente, tanta vida.

Na praça, senhores de cabelos brancos disputavam acirradas partidas de damas e dominó. Ela admirava quem dava a si mesmo um belo tempo de um ensolarado dia como aquele para se divertir em uma partida sem objetivo algum a não ser a distração gratuita e leve.

Homens carregavam sacos de algum grão nas costas no porto. Ela nunca havia parado para prestar atenção neles. Não sabia que trabalhavam aos domingos. Eles suavam sob o sol forte. O rosto vincado pelo esforço. As costas arqueadas pelo cansaço.

Seguiu.

Seus pés doíam um pouco. Não havia escolhido os tênis mais confortáveis para a caminhada. Paciência.

Entrou em um bar. Pediu um café. “Bem forte!” Sorveu enquanto olhava uma mulher sentada em uma mesa no canto. Ela parecia exausta, aquela mulher. Carregava uma mochila batida e uma criança. A criança estava em silêncio, mas parecia ter chorado muito há pouco tempo. A mãe também parecia ter chorado recentemente. As duas dividiam uma fatia de pão tostado com manteiga. Permaneceu por algum tempo observando a mulher e a criança. Tentou imaginar o que ocorrera com elas, porque haviam chorado, para onde iriam. Imaginou algumas coisas e pensou em ir perguntar às duas. Desistiu. A imaginação, na maior parte das vezes, é mais digerível do que a realidade. Ela levantou e saiu, sem não antes deixar pago dois copos de café com leite e duas torradas reforçadas. Havia feito a sua boa ação do dia.

Saiu caminhando a esmo. Não tinha pressa. A vida não tinha pressa. Seguia serena.

Deu de comer aos pombos no largo, sentiu os cheiros das bancas do mercado.

Passou pela rua dos sebos. Cruzou a ponte de pedra. Andou e andou. Chegou ao parque.
Sentou-se na grama à sombra de um Ipê. Bebeu água, soltou os cabelos e deitou-se. Ficou ali. Depois, contando a amigos por onde andara, não soube precisar por quanto tempo, mas ficou ali até principiar o anoitecer. Estava feliz como nunca havia estado.

Não viu o sol se pôr no lago, mas viu casais jovens trocando carícias ao saírem das aulas na faculdade.

Levantou-se, pegou sua mochila, olhou ao redor e tomou o caminho de casa.

Era uma noite linda aquela. Tudo era lindo naquela noite. O céu estava lindo, brilhante. O ar estava lindo, leve. As ruas estavam lindas, movimentadas, cheias de gente, vivas.  

Ela estava linda.

Seguiu atenta. Olhava tudo. Estava elétrica, mas, ao mesmo tempo, sentia-se serena de um modo único. Passos, quadras, ruas, avenidas, bairros, pessoas. Pessoas novas, pessoas velhas, pessoas alegres, pessoas nem tão alegres. Pessoas.

Já estava bem perto de casa, podia ver a movimentação de amigos e parentes no pátio da frente. Todos preocupados com ela. Não tiveram notícia alguma durante todo o dia. Ela achou aquilo engraçado. Nunca deram muita bola para ela e, agora, pareciam formigas que tiveram seu formigueiro pisoteado por um garoto. Sorriu para si mesma e, ao mesmo tempo, imaginou toda a chateação que viria a seguir, perguntas, reprimendas, falação... enfim, sabia que não seria bom, mas sabia também que era inevitável. Tinha de voltar para casa. Amanhã, iria achar tudo isso que fez durante esse dia uma grande loucura sem sentido. Caminhou um pouco mais e, agora, já podia ouvir as vozes. Era isso. Havia chegado a hora de dar fim àquela jornada.

Deu três passos.

Parou.

De súbito, parou.

Como um relâmpago em noite de tempestade, um pensamento cruzou a sua mente.

Sim!

Era isso!

Estava tudo tão claro.

Largou a mochila no chão, girou nos calcanhares, deu meia volta e saiu correndo com uma determinação de um campeão olímpico.

Correu e correu e correu. Ela tinha pressa. Precisava correr. E mais rápido, mais rápido, mais rápido. O tempo corria ao seu lado. Os dois disputavam, um contra o outro. Ela não podia se dar ao luxo de se sentir cansada. Não podia parar, nem por um segundo. Ela corria. Tinha de chegar. Tinha de conseguir. Era preciso.

As pessoas olhavam para ela e não entendiam. Por que aquela menina corria tanto? Para onde ela ia? Qual o motivo da pressa?

Ônibus passavam ao seu lado, ela chegou a pensar, mas não podia, não naquele dia. Aquele dia era das ruas. Seguiu correndo. Os olhos bem abertos. Como um guepardo atrás de sua presa. Corria.

Pensamentos, imagens surgiam frente aos seus olhos. Tudo o que havia visto durante o dia. Pensou na mãe com a criança, nos trabalhadores no cais, no casalzinho do parque.

Corria. Estava perto. Torcia para que não fosse tarde demais. Não haveria de ser tarde demais. Tinha de conseguir.

Correu e correu e correu e correu ainda mais. Faltavam metros. Dobrou a esquina.

Encontrou o músico recolhendo seu banquinho e se preparando para ir embora. Parou em frente dele. Finalmente havia parado de correr. Arfava. Ele estava curvado, olhando para o chão. Em um primeiro momento, não a viu. Só percebeu sua presença ao sentir sua respiração ofegante e forte. Ergueu-se e ficou surpreso ao vê-la. Realmente não esperava por isso. Achava que nunca mais iria encontrá-la. Aquela era uma cidade grande.

Olhou para ela e disse um “olha só quem cruza, mais uma vez, o meu caminho! A que devo a honra?”

Ela sorriu. Ela sorriu e chorou. Ao mesmo tempo.

Sem pestanejar nem um momento sequer, deu um salto e pendurou-se no pescoço dele. Estava esfuziante. Sentia-se em outra dimensão. Uma coisa cósmica, sei lá, não sei explicar bem. Nem ela sabe.

Sem compreender direito o que se passava, mas sabendo exatamente o significado de tudo aquilo, restou a ele abraçá-la também. E ele o fez com força.

Estavam juntos. Eram um só, unidos, em uma rua no Centro da cidade.

Ela escolheu viver essa paixão.

Amanhã?...

Bom, amanhã, seria outro dia. Quem sabe, ela não seria uma artista de rua também. Quem sabe, não seria uma criança? Ou um sopro de vento? Quem sabe?

Saíram caminhando. Para onde, não sei. O braço esquerdo dele enlaçava a cintura dela e o braço direito dela, a dele.

O banquinho ficou lá. No meio da rua. Eles levavam consigo tudo o que precisavam para aquela noite.

Amanhã?

Que o amanhã venha fresco, novo. Que seja só mais um dia mágico. Isso basta. Para ela.