segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Quando eles encontraram o meu corpo suspenso



Quando eles encontraram o meu corpo suspenso pelo pescoço por uma corda com laço duplo amarrada em um galho de uma goiabeira nos fundos de nossa casa no sítio, os sentimentos que tomaram a todos foram os mais diversos.

Ninguém esperava. Não havia passado pela cabeça de nenhum deles que algo como aquilo pudesse acontecer. Não comigo. Nunca comigo.

Todos sofreram. Cada um do seu jeito.

Minha mãe não se conformou. Não se conforma até hoje. Ela ainda chora todos os dias pela manhã, cedo, quando vai abrir as janelas do meu antigo quarto para deixar a luz do sol entrar. Ela não acreditava. Não achava que era real. Não podia ter sido eu. Eu não faria isso comigo. Eu não faria isso com ela. Não poderia ter feito. Ela ainda procura motivos. Não os encontrou. Nunca vai os encontrar. Eu sei.

Meu pai chorou muito nos dois dias posteriores. Depois, nunca mais. Ele sentia a minha falta tanto quanto ela, mas deixou de ser aquele que era antes da tragédia familiar. Tornou-se uma rocha. Junto com as lágrimas que caíram nas primeiras 48 horas, escorreram por sua face todos os seus sentimentos. Feito tempestade que chega rápida e intensa, que lava tudo, não deixa nada como antes, e se vai.

Minha irmã mais nova não pareceu se importar tanto. Ela sequer chorou. Nenhuma lágrima. Mas isso não quer dizer que não estava sofrendo. Ela estava. O que acontece é que ela era como eu. Sempre tive dificuldades em expressar meus sentimentos. Guardava-os para mim. Remoía-os. Ficava com eles até que secassem. Isso me fazia mal. Isso, de alguma forma, me levou a fazer o que fiz. Ela era assim também. Por isso não chorou. Mas sofria. Eu sei que sofria.

Meu cachorro, o Napo, ficou meio tristonho durante umas duas semanas. Na terceira, se engraçou com uma cadelinha vira-latas que apareceu no sítio. Acho que se esqueceu de mim. Hoje é pai de cinco bebês caninos. Ele não dá muita bola para eles. Prefere correr atrás de carros e motocicletas. Faz isso com uma sanha assassina nos olhos. Era um baixinho invocado e tanto, assim como o Bonaparte que lhe inspirou o nome. Sinto falta dele.

Eu não planejei aquilo. Não do jeito que se pensaria que uma coisa dessas poderia ser planejada. Uma sucessão de fatos me levou a tomar tal atitude. Ainda mais do que isso, uma sucessão de sentimentos me levou a tal ponto.

Comecei pelo fim de meus dias. Volto agora aos momentos que antecederam o meu passamento.

Eu acordei bem cedo naquele dia. Muito cedo. Não eram seis horas da manhã e já estava desperto. 

Ainda estava escuro, não havia amanhecido. Era estranho ver aquela casa em silêncio. Não tinha lembrança alguma dela daquele jeito. Era sempre muito barulho, sempre muitas vozes, discussões, gritos. Estava tudo calmo naquela manhã.  Sentado à mesa na cozinha, eu tomava uma xícara de café quente. Estava em paz.

Fazia frio. Lá fora, uma névoa úmida cobria tudo o que os olhos podiam ver. Eu tentava não pensar em nada. Fracassei. Só pensava nisso.

Ao longe, bem ao longe, um cão ladrava incessantemente. Meus pais dormiam, assim como minha irmã.

Fiquei por quase uma hora sentado naquela cadeira. Minhas costas doíam quando me levantei. Depois de tomar um banho rápido, fui ao meu quarto, onde peguei umas roupas aleatoriamente e joguei-as na velha mochila rasgada e com o zíper estragado. Antes de sair, peguei um pacote de bolacha que achei no fundo do armário da cozinha. Não tinha muito dinheiro para o almoço ou para algum lanche à tarde. Precisava garantir um mínimo que fosse.

Cheguei à estação rodoviária quando o sol começava a surgir. Havia passagens de sobra para a cidade onde ficava o sítio. Ninguém em sã consciência ia passar o final de semana naquele lugar.

Era um sábado.

Eu não acordei naquele dia pensando em ir para o sítio. Foi repentino, impulsivo. Tive vontade de ir e fui. Simples assim. Senti que tinha de me distanciar de tudo. Eu precisava exumar a mim mesmo.

Recostei a cabeça na janela e fui o caminho todo ouvindo Neil Young nos fones de ouvido. Eu era o único garoto de 17 anos de idade que conhecia que ouvia Neil Young. Na verdade, olhando agora, à distância, eu não me conhecia tão bem assim.

Pouco mais de uma hora depois, já estava caminhando no estradinha de terra batida em direção à nossa casa. Eucaliptos margeavam o estreito caminho. Eu ia chutando uma lata velha de ervilhas em conserva e assoviando alguma canção qualquer enquanto não enxergava surgir à frente a ponta do telhado de nossa casa. Eram inconfundíveis telhas portuguesas de barro. Estavam sempre muito limpas. Meu pai fazia questão de deixá-las reluzindo. Eram um dos seus orgulhos idiotas.

Tive de pular o portão de arame e madeira, pois esqueci de pegar a chave do cadeado. Sorte que lembrava perfeitamente do lugar secreto nem tão secreto onde ficavam as chaves extras das portas da casa: embaixo da única pedra ao redor do poço artesiano que tinha uma cor diferente. Estavam lá.

Tudo estava do mesmo jeito de sempre. Irritantemente do mesmo jeito de sempre. Todas as coisas em seus devidos lugares. A obviedade da ordem me dava asco.

Tirei os tênis, a camiseta e a calça. Vesti um velho calção que achei no quarto dos filhos (a casa tinha três quartos: um dos meus pais, um dos filhos e um para as visitas. Não importa que não recebêssemos visita alguma há anos. Meus irmãos e eu sempre tínhamos de ficar no mesmo quarto apertado quando íamos ao sítio. Maldito método), e sai para dar uma volta no campo.

Havia chovido na madrugada e o que se via a perder de vista era barro, muito barro. Eu gostava de sentir a terra molhada entrar por entre os dedos do pé. Era uma sensação única. O tipo de coisa impossível de se sentir na cidade. Não da mesma forma.

Nas parcas casinhas de madeira que lindavam a rua, casais idosos sorviam o mate enquanto a fumaça saía fumegante das chaminés, indicando que os fogões à lenha estavam à toda. Bolo de milho aqui, amendoim torrado ali.

Quanto mais eu caminhava em direção às partes altas da cidade, menos gente eu via e mais eu me sentia fazendo parte de algo maior. Difícil de explicar. Era um tipo de conexão. Algo cósmico, sei lá.

Aquilo tudo me renovava. Era como um sopro de vida entrando por minhas narinas e preenchendo meus alvéolos de tal forma que eu me sentia cheio de vida.

Lá em cima do morro, pastagens cobriam de verde todo o chão. A água das chuvas escorria para as partes baixas e o barro não tinha vez naquele lugar. Pouca gente costumava ir até o alto do morro. Aquela era uma cidade de pessoas velhas. Os jovens saíam de casa cedo para estudar, trabalhar ou simplesmente desbravar o mundo. Só voltavam, quando voltavam, para viverem sua última década, no máximo, de vida. Ir ao topo daquele morro exigia algum esforço físico que já não estavam mais dispostos a fazer. Ou tentar fazer.

Melhor para mim. Não seria incomodado por ninguém. Nunca fui incomodado no topo daquele morro. Lá, eu podia fazer o que quisesse. Lá, eu podia ser quem eu quisesse, inclusive eu mesmo.

No céu, o sol já reinava com altivez. Deitado na relva, com as mãos cruzadas sobre o peito, eu tentava esvaziar a minha cabeça. Naquele local, eu não precisava fazer uso de substâncias psicoativas para abrir a minha mente e experimentar sensações novas. Ali, eu podia ter aquela indolência de quem não tem nada a perder, nada a ganhar, de quem não deseja nada, apenas ser, apenas estar. Esse era eu, sozinho no morro em uma manhã de sábado.

Por um tempo que não consigo precisar quanto foi, senti-me como se estivesse flutuando. Era àquilo que a cultura oriental chamava de meditação. Não pensar em nada. Atingir um estado tal de tranquilidade até o ponto em que todo o externo deixe de existir. Fazer sua energia circular em um fluxo constante pelo seu corpo. É só você com você. Nada mais.

Voltei ao estado anterior de consciência, levantei-me e iniciei a caminhada morro abaixo em direção à minha casa. Estava leve. Flanava.

Almocei folhas verdes e batatas colhidas da horta que ficava na parte da frente do terreno, passando o portão. Cozi as batatas e as comi com manteiga, pimenta do reino e orégano. Estava uma delícia. Para beber, guaraná, daqueles que vem em garrafa de cerveja e que a gente só encontra em vendinhas de cidades do interior. A geladeira estava cheia daquelas garrafas. Minha irmã adorava guaraná. Eu também.

Após o almoço, tirei uma sesta. Coloquei um colchonete no chão da área onde ficava a mesa que sediava os jogos de canastra da família e me estirei. Costas retas, piso duro. A coluna doeu um pouco, no começo, mas, depois, se adaptou. Nosso corpo sempre se adapta, mesmo quando nosso espírito grita em desespero pelo novo.

Dormi por uma boa hora e meia. Foi um sono revigorante. É engraçado como uma noite inteira de sono na cidade grande não consegue ter o efeito que uma hora e meia em uma cidadezinha perdida no interior tem. Não sei identificar a razão da diferença. Talvez seja o ar mais puro, talvez seja o farfalhar constante das folhas das árvores no pomar, talvez sejam os mais variados cantos de pássaros que ajam como calmante. Talvez sejamos nós mesmos. Talvez seja apenas eu.

Tirei a tarde para caminhar. Caminhar por onde eu quisesse. Sem ruas para me dizer quais caminhos tomar, sem calçadas para me forçarem a seguir por um espaço determinado. Tudo é tão diferente quando a gente não se sente e não está, de fato, delimitado.


Zigue-zague.

Sobe e desce.

Vai e vem.

Desde que me conhecia por gente, aquela cidade era a mesma em minhas memórias. Nada mudara. Quando criança, passávamos as férias naquela casa no sítio. Eu costumava sair pelas ruas pedalando minha bicicleta. Eu zunia feito um caça supersônico, ressoava feito um trovão. Atrás de mim, um rastro de poeira esvoaçante. Caí muitos tombos, perdi muito sangue. Ainda tinha as cicatrizes nos joelhos. A bicicleta aro 20 estava jogada no galpão, pneus furados e toda enferrujada. Devia a ela uma parte do que me tornei. Aquela bicicleta mais do que me divertiu. Ela me ensinou. Aprendi com ela que cada tombo sofrido era um tombo a menos que eu ia cair. As quedas me tornavam um ciclista melhor, me davam mais controle sobre a bicicleta e me incitavam a ir além, a testar meus limites, a cruzar as fronteiras da prudência e do medo. Devia muito àquela bicicleta e fiquei triste em ver o seu estado. Já de volta à casa, tirei-a de lá e a limpei cuidadosamente. Com um pedaço de lixa gasta que achei dentro de uma caixa de papelão, tirei as ferrugens, que eram superficiais. Costurei um rasgo no selim, ajustei os cabos dos freios. Fiz o que pude para fazê-la voltar à vida. Só não consegui recuperar os pneus e a pintura. Paciência.

Aquilo me fez bem. Era como se eu tivesse recuperado uma parte da minha história que estava esquecida. Era como retirar a poeira de sobre um livro velho.

Sentei-me ao pé da goiabeira e fiquei ali por um bom tempo. Descansando do trabalho na bicicleta e tentando deixar meus pensamentos livres. Ao lado da minha perna direita, uma carreira de formigas carregando grãos e pequenos pedaços de folhas seguia em fila. Provavelmente se dirigiam ao seu formigueiro. 

Pensei em como aquele senso coletivo era uma coisa incrível. As formigas não cumpriam ordens. Elas formavam uma equipe na qual cada uma delas sabia de sua responsabilidade para com o todo. Individualmente, eram insignificantes. Se eu esmagasse uma com o dedo naquele instante, não faria diferença alguma para as outras ou para o formigueiro. Elas, como indivíduos, faziam parte de um organismo maior. Era como se fossem células de um corpo humano. Todos os dias morrem diversas, que são substituídas por outras. O sistema segue funcionando. Juntas, elas são uma máquina que funciona quase à perfeição.

E foi aí que eu pensei em qual era o meu papel, como indivíduo, no todo que me rodeava. Eu não era um operário. A pele de minhas mãos era fina e clara. Eu não produzia. Nem intelectualmente eu produzia.  Vivia mais para mim mesmo do que para o todo. Talvez eu fosse um fardo. Ou um grande bebê. Quem sabe, futuramente, me tornasse uma figura notável, um homem das artes, um mago das letras. No momento, porém, eu dava despesas, atrapalhava, e não contribuía com nada. Meus pares ainda apostavam em mim. Acho que nutriam alguma esperança de que, de uma hora para outra, brotasse um espírito empreendedor ou acendesse a chama de inspiração e inciativa que me levaria a grandes feitos.

Eles me davam mais crédito do que eu mesmo o fazia.

Eu não tinha perspectivas. Sentia-me como uma engrenagem que teimava em girar em um ritmo diferente das outras que compunham uma grande máquina. Vibrava em outra sintonia. Mais cadenciadamente. Sem tanta pressa.

Eu queria escapar. Queria distância de tudo. Se pudesse, passaria todos os dias de minha vida no alto daquele morro. Ao meu redor, as pessoas que amo, meu cachorro, alguns livros. Nada mais.

Eu não queria ter de fazer escolhas que iriam afetar todo o resto de minha vida. Eu tinha 17 anos. A ideia do “para sempre” me assustava. Não queria nada para sempre. Não aos 17 anos. Aos 17 anos, o “para sempre” parece uma eternidade.

O cerco estava se fechando. As paredes se movendo em direção a mim. O tempo diminuía. Eu sufocava.

Eu não sentia raiva. Não odiava ninguém. Meu coração estava livre de dor. Não havia mágoa.

Foi com consciência total de minha escolha e dos efeitos dela e domínio completo dos meus atos que eu fiz o que fiz. Não estava bêbado, nem drogado, tampouco deprimido.

Sentia-me pleno. Minha alma era puro amor. Precisava me desapegar. Precisava evoluir. Eu queria mais. Eu sabia que podia mais.

Tinha de cortar as cordas que me prendiam.

Sem lágrimas. Sem carta de adeus.

Eu estava exatamente onde queria estar.

Enfim, sentia-me livre.


Em paz.

E feliz.

Como nunca antes havia sido.   

domingo, 7 de setembro de 2014

Até o próximo campo florido.




Era uma tarde de quarta-feira. Fazia sol e a temperatura estava amena para a época do ano. O café ficava em uma rua transversal à avenida que ladeava o parque. Ainda assim, eu conseguia ver os homens de meia idade passeando com os seus pequenos cães de raça, as moças jovens fazendo as suas corridas vespertinas, os casais adolescentes trocando carícias e rindo sem motivos durante a caminhada, os velhos senhores sentados no banco falando a respeito do clima, debatendo sobre política externa, recordando os “bons tempos” do regime autoritário, e analisando a rodada do Brasileirão.

Aquele era um dia como outro qualquer para todos eles. Não para mim. Eu já estava no meu terceiro expresso e ainda faltava meia hora para ela chegar. Isso se ela fosse pontual. Eu sorvia o café quente tentando acalmar meus nervos. Obviamente, não funcionou. Mas quem conseguiria manter o raciocínio em perfeitas condições estando em uma situação como a minha?

Enquanto a aguardava, tentei rever todos os passos de minha vida, todas as minhas escolhas, que fizeram com que eu estivesse ali naquele momento. Difícil lembrar de tudo. Muito tempo se passou. Porém, eu tenho uma memória excelente. Guardo tudo. Elas estão lá, em algum lugar, as lembranças. Basta procurar. Isso me atormenta. Não conseguir esquecer. Tudo seria tão mais fácil. Tão menos doloroso.

Mas não era, e, agora, eu estava me vendo com 19 anos. Cabelo na altura dos ombros, revoltos. Mochila nas costas. Em pé, escorado no poste no qual a placa que indicava que era ali que o ônibus tinha de parar estava afixada, eu lia Salinger.

Eu tinha acabado de sair de uma das aulas da faculdade. Não recordo qual era, mas lembro que tinha sido bem chata. O sol já estava prestes a se pôr. A noite se aproximava de mansinho.

Ela veio caminhando, discretamente, e parou próximo a mim. Eu a notei de cara. Cabelos negros, curtos. Usava sapatilhas e um vestido pouco abaixo dos joelhos. Óculos de armação grossa no rosto. Ela ficou parada, com as pernas cruzadas e as mãos às costas. Três minutos no máximo. O ônibus chegou e ambos subimos os degraus, cruzamos a roleta e sentamos. Ela, em um dos bancos do centro do coletivo. Eu, lá no fundão.

Durante toda a viagem, não consegui tirar os olhos dela. Foi magnetismo puro. Não me aproximei. Não lhe dirigi uma palavra sequer. Só fiquei observando. Criei todo um retrato imaginário. Ela era doce. Inteligente e esperta. Alegre. Gostava de dançar sozinha no quarto. Leitora de Asimov e Lovecraft. Ouvia The Cure e Neil Young. Adorava dormir à tarde e cantar enquanto secava os cabelos.

Ela desceu do ônibus cinco paradas antes de mim. Eu segui, me perguntando se voltaria a vê-la alguma vez mais. Veria.

Na segunda vez que nos cruzamos, novamente na parada de ônibus, engatamos uma conversa. Ela que puxou papo. Perguntou se não nos conhecíamos de algum lugar, pois o meu rosto era familiar. Respondi que sim, que já havíamos nos visto, três dias antes, ali, naquele mesmo local. Ela titubeou, mas disse que podia ser isso mesmo. Bem assim, “pode ser”, foi que ela disse.

Embarcamos e nos sentamos juntos, lado a lado. Eu na janela, ela no corredor. Descobrimos que estudávamos na mesma faculdade. Cursos diferentes e turnos diferentes até o semestre anterior. Agora, ela havia pedido transferência para a manhã, daí a razão de nos encontrarmos as duas vezes na parada de ônibus. Conversamos sobre alguns professores. Ela achava o de Teoria da Comunicação um pedante pretensioso. Eu o achava bacana. Um pedante pretensioso bacana. Ela achava que a professora de Introdução à Filosofia fumava maconha antes da aula. Eu concordava, e achava o maior barato. Seguimos conversando, basicamente, sobre a faculdade, sobre os colegas que tínhamos em comum em algumas disciplinas e sobre a pintura feita no centro acadêmico que acabou com toda a alma do lugar. O ponto em que ela desceria estava próximo. Ela se levantou, sem não antes me dar um beijo no rosto, e disse “até!”. A porta se abriu e ela já havia descido o primeiro degrau quando voltou o rosto para mim e falou, sorrindo: “Eu amo Salinger.”

Senti um toque no ombro e voltei à mesa do café. Era o garçom, perguntando se eu queria mais um expresso. Aceitei. Quase 18 anos haviam se passado desde aquele dia em que eu a encontrei na parada de ônibus. Meus cabelos diminuíram de tamanho e cada vez mais fios brancos teimavam em aparecer e quebrar a monocromia existente até então. Tanto tempo passou. Agora, eu era um conhecido jornalista na cidade. Escrevia crônicas, mas ainda amava a reportagem. Meus anos de rebeldia aparente ficaram para trás. Agora, eu estava ali, sentado, no café, olhando as pessoas no parque, esperando, nervoso, uma menina de 17 anos chegar. Ela era minha filha.

Foi tudo muito rápido. Entre o dia em que nos conhecemos até o dia em que decidimos dar fim àquele romance juvenil, não se passaram três meses. Oitenta e um dias, mais precisamente. Ao fim do semestre, ela se mudou para a Austrália. Foi fazer intercâmbio. Eu nunca mais a vi. Nunca mais nos falamos.

Tirei do bolso e reli o e-mail que, duas semanas antes, havia chegado em minha caixa de entrada.




Dobrei o papel e o coloquei de volta no bolso.

Tudo fazia sentido. A idade, Mônica, a parada de ônibus, Holden Caufield. Tudo.

Poderia ser verdade. Poderia não ser.

Eu acreditei no que a menina escrevera. Não sei por que, mas acreditei.

Três dias depois de receber o e-mail, respondi dizendo onde estaria e o horário. Ela me retornou com um “ok”.

Eu aguardava aquela menina chegar e, possivelmente, revolucionar a minha vida, com um estranho nervosismo. Não tinha medo. Estava curioso. Como será que ela era? Parecia com a Mônica? Será que ela também colocava a mão esquerda nos quadris e arqueava a sobrancelha direita quando ficava braba? Tinha algum traço meu? O jeito de andar, quem sabe. Se ela conseguisse estalar os dedos das mãos nas três articulações, não haveria dúvidas: era minha filha. Nunca conheci alguém que conseguisse fazer isso.

O relógio marcava 18h01min quando uma moça de estatura mediana, cabelos negros e olhos faiscantes atravessou a rua e veio em minha direção. Ela tinha o meu jeito de andar.

Eu me levantei da cadeira e a aguardei. Ela se aproximou e me estendeu a mão. Retribui o gesto. Fiz sinal para que se sentasse. Ficamos frente a frente. Perguntei se ela queria um café. “Um mocaccino, por favor.” Ela tinha as mãos da Mônica.

Eu disse que não sabia como começar aquela conversa e perguntei se ela tinha uma sugestão. Sem piscar os olhos, ela falou que fazia questão de deixar uma coisa bem clara: não queria nada de mim, que não era para eu me preocupar. Eu não estava preocupado.

“Como vai sua mãe”, perguntei. Eu realmente estava interessado em saber sobre isso, não era uma pergunta qualquer para iniciar uma conversa. Ela me disse que Mônica estava bem, que era sócia de uma agência de publicidade em São Paulo e que falou muito bem de mim quando da conversa séria que elas tiveram a meu respeito. Mônica estava casada. Mariana não tinha irmãos.

Ela era uma garota muito bonita. Eu via nela muito daquela jovem estudante de publicidade pela qual me apaixonei no passado. Falava com uma voz meiga, mas firme e segura.

Disse a ela que sequer imaginava que tinha uma filha. Que a mãe dela nunca havia me dito nada, nunca mais me procurara. Não tinha como eu saber. “Você também nunca mais a procurou”, me falou. Era verdade.  Vivemos uma paixão, mas não chegamos a nos amar. Foi bom enquanto durou. Deu muito certo, mas acabou. Não houve lágrimas. Cada um seguiu o seu caminho.

Ela não estava magoada, tampouco braba. Falava com vigor e expressava suas ideias e opiniões de forma clara e franca. Quis saber como sua mãe e eu nos conhecemos, como ela era quando jovem, se nos amávamos. Eu respondi a todas as suas perguntas. Mesmo que a resposta fosse um “não sei”.

Não perguntou muito sobre a minha vida. Não quis saber sobre esse homem qualquer que ela nem sabia que existia até alguns minutos atrás. Até aquela tarde de quarta-feira, eu não era nada para ela, assim como ela para mim.

A conversa transcorreu, basicamente, comigo perguntando sobre ela, principalmente, e sobre Mônica, e com ela querendo saber detalhes a respeito do que aconteceu lá atrás, quando eu tinha 19 anos e os cabelos revoltos na altura dos ombros.

Mariana cursava o primeiro semestre de Arquitetura. Gostava de música clássica – Bach e Verdi, os seus preferidos – e de andar de bicicleta no Ibirapuera. Não era de sair à noite, mas tinha muita curiosidade de conhecer um baile funk em um morro carioca. Era uma leitora ávida e tinha em Fante seu autor predileto. Achava Salinger superestimado. Olhei de soslaio.

Quando o semestre acabou e Mônica me disse que iria para o outro lado do mundo, eu fiquei mal. Gostava dela. Gostava muito. Mas eu era jovem. Tinha 19 anos. Esses dolorosos sentimentos passam rápido quando se tem 19 anos. Foi intenso e caloroso. Foi juvenil. Nós sabíamos que aquilo não iria durar. Em nenhum momento nos imaginamos levando uma vida inteira lado a lado. Agora, sentado naquele café, eu tentava imaginar como teria sido.

Mônica não me contou que iria embora quando as aulas se encerrassem. Foi uma surpresa quando, dois dias antes de embarcar no voo que a levaria para longe de mim, muito longe, disse que iria sentir minha falta, que fora tudo maravilhoso, mas que tinha de partir. Não tive como me preparar. Quem sabe, eu fosse com ela. Improvável, eu sei. Quando me contou, disse que não me avisara antes para que eu não ficasse chateado. Ela não queria que o nosso envolvimento fosse afetado. Queria viver aquilo, daquele jeito, o máximo que pudesse.

Não fiquei brabo, na época. De que adiantaria?

Eu não fui ao aeroporto me despedir. Seria atiçar ainda mais uma dor que já ardia em fogo alto. Despedimo-nos na noite anterior. Amamo-nos. Foi doce. Quando eu despertei na manhã seguinte, ela não estava mais lá. Nenhum adeus. A última lembrança que eu tinha dela era o seu gosto na minha boca. Eu ainda o sinto.

Mariana falava em alta velocidade. Despejava palavras e informações em um ritmo frenético. Ela era uma tormenta. Eu a queria na minha vida a partir daquele instante. Não sabia, porém, se ela me queria na dela. Seria natural se não quisesse. Não existia vínculo algum entre nós. Ela não me via como pai. Eu era um estranho.

Ninguém teve culpa. Simplesmente aconteceu. Talvez eu devesse ter procurado Mônica. Talvez ela devesse ter me procurado. Talvez, talvez...

Há momentos em nossa vida os quais parece que pegamos carona em um trem o qual não sabemos para onde vai. Simplesmente embarcamos. Não somos responsáveis pela direção. Não escolhemos os caminhos.

Algumas coisas acontecem ao acaso. Outras, porque têm de acontecer. Muitos chamam de destino. Eu não. A ideia de destino sempre me pareceu muito fácil, um tanto quanto descompromissada, preguiçosa. Diria, até, covarde. Por destino, imagino algo sobre o qual não temos controle algum. Algo inevitável, que ocorre independentemente de nossa vontade. Não podemos fazer nada para alterá-lo.

Eu não acho que seja destino. Não acho que tenha sido o destino. Mesmo quando embarcamos naquele trem, mesmo sem saber para onde ele vai, por onde ele vai, mesmo sem saber onde estamos, ainda assim, podemos descer na próxima estação. Ainda assim, podemos pular no primeiro campo florido que virmos surgir ao lado dos trilhos. Isso não é destino. Isso é escolha.

Eu tinha de estar naquele dia, naquela hora, naquela parada de ônibus. Todas as circunstâncias de minha vida me levaram até aquele lugar, naquele momento. Noi foi destino. Não foi acaso.

Fizemos as nossas escolhas. Mônica e eu. Podemos nos arrepender delas. Podem não ter sido as melhores escolhas. Eu não acho que foram. Ela trocou de trem no meio do caminho. Eu preferi seguir no mesmo. Foi isso.

Agora eu estava ali. Quase 18 anos depois. Sentada à minha frente, uma menina que eu não conhecia. Minha filha.

Ao longe, eu ouvi o som. A composição se aproximando. O burburinho crescente na estação. Abraços de despedida. Lágrimas. Lenços abanando.

Eu embarquei de novo.

Mais uma viagem.

Para onde? Não sei.

Para qualquer lugar. Para nenhum lugar.

Até a próxima escolha.

Até o próximo campo florido.

domingo, 10 de agosto de 2014




Chegou, chegou...

Chegou, chegou.
Não disse oi.
Não deu bom dia.
Não escondeu a dor da alegria
De estar de volta ao lar.

Chegou, chegou.
Não deu as mãos.
Não abraçou.
Não viu a paixão que restou
No claro azul do olhar.

Não perguntou.
Não respondeu.
Não escutou.
Nem percebeu.

Que tudo mudou de lugar.
Que o vento ainda está a soprar.
Que a vida nunca existiu.

Que o sonho não basta sonhar.
Que o tempo cansou de esperar
O amor que um dia sentiu.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O homem mais romântico do mundo


Ele, definitivamente, era o homem mais romântico do mundo.

Não era preciso conhecer todos os outros bilhões de seres humanos do sexo masculino existentes no planeta para saber disso. Não era preciso conhecer mais nenhum deles. Bastava conhecê-lo.
Seus atos falavam por si só. Um exemplo?

Ele não mandava flores para a mulher alvo de sua paixão. Isso era simples demais, envolvia pouco sentimento. Ele as plantava. As cuidava. As protegia. Ele conversava com elas. Ele depositava nelas todo o seu amor e as colhia com a sutileza de uma brisa da manhã.

Ele era assim. Um poço de sentimentos. Um oceano de carinho, repleto de ilhas de simpatia, recifes de compreensão, istmos de doçura e continentes de amor. Muitos continentes do mais puro, intenso e inexplicável amor.

Como todo bom romântico que se preze, ele sofria por amor. Entretanto, como era o homem mais romântico do mundo, seu sofrimento era muito maior do que o dos outros. Ele sofria superlativamente. Seu coração ficava doloridíssimo. Sua alma, despedaçadíssima.

Ele exagerava as coisas. Até aí, normal para um romântico. O amor que sentia, sempre era o maior amor de todo o universo, conhecido e desconhecido. No caso específico, porém, a coisa extrapolava os limites que, para ele, não existiam quando se ama. Ele passava noites e noites em claro escrevendo poemas para paixões que nunca teria. Entregava-se ao álcool e cogitava suicídio a cada olhar não retribuído. Derrubava seus livros da estante e se deitava no chão ao lado de Byron, Álvares de Azevedo, Musset, Casimiro de Abreu, Goethe. Via-se entre eles. Imaginava-se morrendo de tuberculose em um porão úmido e cheirando a mofo. Ficava triste ao perceber que já não era jovem o suficiente para ter uma morte trágica e precoce. Além disso, morava em um arejado apartamento no sétimo andar.

Sentia as dores da rejeição de um modo peculiarmente sublime. No seu ponto de vista, obviamente. Para ele, o amor não correspondido não era um amor perdido. Era, sim, um amor superior, um amor que ultrapassava as relações, que vencia as necessidades físicas e alimentava as chamas que iluminavam a essência do seu ser. Para ele, o amor não correspondido era um amor tão forte que não precisava de complemento, era completo por si só, era inteiro, era pleno. Um amor não correspondido era, em suma, a prova de que o amor é força motriz, é fogo e oxigênio, é terra e semente. É vida. Vida além do tempo, vida além do instante, vida além do antes, além do agora, além do depois. O amor não correspondido era prova de que o amor é tudo e de que tudo, tudo é amor (para quem ama).

Ainda com tenra idade, ele dava indícios de que, em um futuro breve seria, o homem mais romântico do mundo. Com oito anos, se apaixonou por uma coleguinha da escola. A menina, uma ruivinha de cabelos encaracolados e sardas no rosto, não dava muita bola para ele, mas era simpática e brincalhona. Todos os dias, na hora do recreio, enquanto as outras crianças se divertiam no extenso pátio da escola, ele, discretamente, apanhava flores do jardim da casa do zelador e as colocava sobre a classe dela. Quando a menina retornava para a sala, encontrava o mimo e não entendia nada. Ele não deixava nenhum bilhete ou recado. Era tímido demais. Sempre foi tímido demais. Apenas as flores. Isso durou quase um ano inteiro. Só parou quando a esposa do zelador o pegou no flagra roubando de seu jardim e lhe deu uma carraspana daquelas. No ano seguinte, a menina ruiva mudou de escola e ele nunca mais a viu. Jamais viria a se esquecer de sua primeira paixão infantil. Foi aquela dura da mulher do zelador que fez com que ele passasse, depois de adulto, a plantar e cuidar de suas próprias flores.

Na adolescência, teve um grande amor. Ela era espevitada e não gostava muito de estudar. Apesar disso, por ser bem esperta, costumava tirar boas notas no colégio. Ele era louco por ela. A ideia de enlouquecer por amor, aliás, sempre esteve presente em seus pensamentos. “Não há razão para o amor, não há razões para amar”, dizia durante suas delirantes explanações alcoólicas. Para ele, o amor era algo tão transcendental, tão impossível de ser entendido e explicado, que somente os loucos conheciam, de fato, o seu significado.

Ele imaginava uma vida inteira ao lado dessa paixão adolescente. Pensava nela durante todo o dia, todos os dias. Sonhava com ela toda a noite, todas as noites. Preenchia folhas de seu caderno com o nome dela. Somente o nome dela. Para ele, ela era a menina perfeita. Tudo nela era perfeito. Até seus defeitos eram perfeitamente defeituosos. Assim como no caso da menina ruiva com sardas no rosto, ele não teve nenhum relacionamento íntimo com o seu amor juvenil. Eles não namoraram. Sequer um beijo.

Foi por ela, por essa paixão adolescente, que ele sofreu por amor pela primeira vez, quando descobriu que a sua amada estava nos braços de outro. Aquela dor forjou o seu caráter.

Ainda na juventude, teve grandes lampejos de paixão. Todos muito rápidos, lancinantes. Intensos. Chama alta em poças de álcool, que queima forte e se vai. Assim, em um átimo.

O homem mais romântico do mundo era um poeta. Não era um bom poeta, entretanto escrevia poemas, poemas ruins, mas, ainda assim, poemas. Ele tinha muita dificuldade para construir rimas. Passava noites e noites em claro, roía as unhas a ponto de suas carnes sangrarem. E elas sangravam. Também escrevia prosa, mas não gostava muito. Achava-se melhor prosista do que poeta. Entretanto, não escrevia um conto com o mesmo sentimento com o qual formava versos. Achava a prosa um texto deveras frio. Enfim, ele não entendia muito de literatura.

Em muitas das madrugadas em que não conseguia dormir, imaginava-se vivendo no fim do século XIX. O cenário e as situações eram, quase sempre, os mesmos. Caminhava à noite pelas ruas iluminadas com lampiões acesos com querosene. Imaginava-se de casaca, bengala na mão direita, sapatos de couro e um chapéu. As pessoas o cumprimentavam quando passavam por ele e cochichavam entre si “esse é o grande poeta”. Naquela época, um poeta que escrevia com coração na ponta da pena era um homem apreciado, hoje, faz papel de ridículo. Ele costumava dizer com alguma frequência que sentia que nascera na época errada. A vida moderna não valoriza o que as pessoas sentem, e sim o que elas fazem ou o que elas são. “As coisas acontecem muito rapidamente, em um estalar de dedos. As pessoas não têm mais tempo para amar”, dizia. Por isso ele gostava do século XIX. Tudo era tão mais calmo, mais natural. O som dos cascos dos cavalos puxando as charretes. O vendedor de jornais gritando as manchetes do dia. O envelope da carta rasgado. Ele sentia uma saudade dos tempos que não havia vivido.

Costumava se deprimir quando não estava apaixonado. Questionava tudo. As coisas não faziam sentido algum. Não via razão em uma vida sem amor. Deixava a barba crescer, não se penteava, usava as roupas que estavam ao alcance das mãos, arrastava os chinelos velhos a cada passo que dava. Não existia amor próprio quando não estava amando.

O homem mais romântico do mundo não sentia a necessidade de ser amado. Para ele, bastava amar. Era amando que ele se satisfazia. Amando, se sentia realizado.

O homem mais romântico do mundo nunca viveu um grande amor. O amor que ele sentia afastava suas paixões. Elas não suportavam tamanho envolvimento. Ele não compreendia porque as mulheres não retribuíam suas tão calorosas provas de afeição. Em algumas raras ocasiões, chegou a se perguntar se aquilo tudo valia a pena. A resposta era sempre a mesma, decorada do poema Mar Português, de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se alma não é pequena.” E a sua alma era enorme, assim como era enorme o amor que ele levava no peito, e lhe comprimia o coração.

Os anos passaram. O tempo lhe deixou marcas. Dissabores tornaram cada vez mais raros os sorrisos em seu rosto. Ele era um sobrevivente. Sentia-se um sobrevivente de uma época em que amar não era algo banal. Amar era divino.

Era um fim de tarde chuvoso de inverno quando, após duas semanas completamente sumido, encontraram o seu corpo. Ele morrera em seu apartamento, no quarto de leitura, consumido por seus sentimentos. Nas mãos, um bilhete riscado com sua caneta tinteiro.


“Àqueles que encontrarem este corpo putrefato, peço apenas uma coisa: retirem este coração quente para estudos. Nenhum outro amou tanto.”

quinta-feira, 10 de julho de 2014


Escrevinhador

Eu me perdi entre palavras.
Fugi do mundo que não fiz.
Corri sem rumo por estradas.
Sonhei memórias infantis.

Pintei olhares e sorrisos.
Risquei, no branco, ideias cruas.
Trilhei caminhos imprecisos.
Toque das mãos - minhas e suas.

Relatos de morte e de vida.
De perda, de dor, de paixão.
Lembrança no tempo esquecida.
 Obra da imaginação.

Eu me escondi por entre a gente.
Eu me tornei quem nunca fui.
Fora de quadro, um dissidente.
Marca que o tempo não diminui.

Eu escrevi o que pensei.
Voei pra bem longe daqui.
Cresci em terras que inventei.
Criei histórias que vivi.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Festa


Quando seu telefone celular vibrou indicando que uma mensagem havia chegado, ele já imaginou do que se tratava. “Festa hoje. Meia noite lá. Ela vai também.” Ele já esperava aquela mensagem. De algum modo, porém, torcia para que ela não chegasse. Torcia para que o telefone não vibrasse naquele fim de tarde. Mas ele vibrou. Havia dado a sua palavra de que, desta vez, iria acompanhar os amigos. Precisava honrá-la. (bobagem, bobagem...)

Terminou de assistir ao filme que via na TV (na verdade, vira muito pouco, pois dormira durante a maior parte do tempo depois de mais uma madrugada em claro), e foi à cozinha comer algo. Suco de laranja e alguns biscoitos. Ligou o som, Stones nas alturas, e foi tomar um banho. Abriu o roupeiro e começou a escolher o que iria vestir. Não se demorou muito, apesar de ser razoavelmente vaidoso. Calças jeans escuro, camisa aberta sobre uma camiseta e tênis. Penteou-se, gotas de perfume, carteira, celular. Uma última olhada no espelho... hmm... ok, tudo certo.

Luzes desligadas, porta trancada, portão chaveado.

Ainda era cedo. O clima estava agradável, temperatura amena. O céu estrelado e a lua cheia brilhante faziam daquela uma noite bem clara. Ele resolveu caminhar um pouco. Não havia razão para parar o primeiro táxi ou a primeira lotação que passasse. As ruas estavam bem movimentadas. Era uma sexta-feira.

Enquanto caminhava, pensou em muitas coisas. Precisava mesmo fazer aquilo? Não estavam lhe obrigando. Ele não tinha uma faca no pescoço. Por que estava indo, então? Ok, ele gostava dela. Esse era um motivo. Esse era o motivo. Era um bom motivo, sem dúvida. O melhor motivo possível, talvez. Leu, mais uma vez, a mensagem no celular. “Ela vai também.” Ganhou confiança. Sorriu. “Ela vai estar lá”, disse para si mesmo. “Ela vai estar lá”

Fez sinal. Embarcou em um ônibus. Estava vazio. Sentou-se em um banco junto à janela, bem no meio do coletivo. Pôs os fones nos ouvidos e recostou a cabeça no vidro. A viagem seria longa.

Não a conhecia há muito tempo. Alguns poucos meses, apenas. Não estava apaixonado. Sabia o efeito de uma paixão na sua vida. Não era o caso agora. Ainda não. Mas ele gostava dela. Gostava muito. A festa era uma oportunidade de encontrá-la em um ambiente mais descontraído, mais relaxado. Seria, até aquele momento, a melhor oportunidade que ele teria para uma aproximação. Mas ele não gostava muito de festas. Costumava ir com frequência quando mais jovem. Mas, agora, não gostava muito. Não tinha paciência para esperar em grandes filas do lado de fora, para entrar, nem do lado de dentro, para pagar ou pedir uma cerveja. Além disso, nunca se dava bem com as garotas. Sua maior virtude em todo o processo, do flerte até o beijo, sempre fora a conversa. Era esperto, respondia rápido, tinha boa cultura geral, acabava fazendo o papo fluir. Mas, lá dentro, no meio da festa, seu superpoder era neutralizado. Música alta demais era a sua kriptonita. Também tinha os amigos tirando a atenção, mas isso era secundário. O som estourando nos alto-falantes é que dificultava muito a coisa toda.

Mas ela iria estar lá. Isso mudava um pouco a situação. E mudava porque ele já a conhecia.  Não precisaria mostrar para ela que era um cara bacana. Uma parte importante do caminho já havia sido percorrida, portanto. Por um momento, tentou projetar em sua cabeça todo o cenário que vivenciaria a seguir. Viu as luzes, viu o globo espelhado girando sobre a sua cabeça. Havia muita gente. Todo o tipo de gente. O dj balançava os braços e fazia uma dança bem estranha, movimentando o quadril sinuosamente.  Um rapaz jazia, solitário, em um sofá de dois lugares que ficava em um canto. Havia se passado na bebida, aquele rapaz. Encostadas em uma das paredes, duas meninas se beijavam fervorosamente.  Bem no meio da pista, estava ela. Nossa, como estava linda. Seus cabelos negros dançavam, iluminados pelas luzes coloridas que cruzavam de um lado para o outro. Ela sorria um sorriso livre, verdadeiro. Seu vestido girava. As mãos para o alto. Um salto! Seus pés no ar, suspensos. Era como se ela pudesse voar. A partir daí, todo o resto deixou de existir. Já não via mais o rapaz no sofá, não via as meninas na parede, tampouco o dj dançarino. Ela brilhava em meio ao caos. Era uma deusa entre mortais.

O ônibus passou sobre um buraco, sacolejou, ele bateu a cabeça na janela, e voltou a si. Tirou os óculos, esfregou os olhos. Conferiu o horário no telefone. Não estava atrasado. O que era bem bom, pois costumava se atrasar com frequência a qualquer tipo de compromisso acertado.

Repassou na memória a última festa a que tinha ido. Era em uma casa conhecida na cidade. Ele já havia estado lá algumas vezes, na época da faculdade. Passou quase toda a noite avulso. Encontrou companhia na cerveja. Gastou muito naquela festa. Bebeu além da conta. Foi embora antes de todos os conhecidos, controlando-se para não vomitar a cada passo que dava na rua semideserta. No dia seguinte, passou a maior parte do tempo atirado em qualquer lugar da casa. Seu corpo cobrava o preço do excesso.

Desta vez, seria diferente.

“Ela vai também.”

Já havia cruzado a cidade. Sentia uma mistura de ansiedade e nervosismo. Não distinguia o som que tocava em seus ouvidos. Tamborilava os dedos no encosto de cabeça do banco da frente. Só tinha de esperar o tempo passar, as rodas girarem, o asfalto ficar para trás.

Luzes do lado de fora ofuscaram a sua visão. Levantou de sobressalto. Puxou a cordinha sinalizando que desejava desembarcar na próxima parada. O ônibus freou bruscamente. As portas se abriram e, em um pulo, ele já estava na rua. Dois, três passos. Parou. Olhou para os lados. Tirou do bolso o mapa que havia desenhado de forma tosca em um pequeno pedaço de papel. Procurou a luz de um poste logo à frente. Franziu a testa. Havia algo errado. Não era ali. Ele descera do coletivo no susto e acabara errando o ponto de desembarque. Teve de caminhar.

Seguiu solenemente pelas ruas movimentadas daquela região da cidade que ele não conhecia bem. Era uma visita ao desconhecido.  Uma área com um comércio agitado durante o dia e outro, da mesma forma, à noite. As vitrines eram as esquinas. Peças expostas ao toque, sem proteção, sem vidraças, sem cortinas de ferro. Um comércio popular. Sem restrições de circulação e público. Cheiros e cores. Corpos e silhuetas. Desejos latentes. Seguiu. Passou por alguns bares. Lugares pequenos. Cheirando a cigarro barato. Cerveja quente nas mesas. Homens de meia idade gastando o tempo livre após o expediente nas fábricas falando bobagem e jogando sinuca a cinquenta centavos a ficha.

Mais alguns minutos de caminhada, e ele avistou à frente as luzes da fachada do seu local de destino.

“Ela vai também.”

Parou ao lado de um carro estacionado. Conferiu o penteado no vidro escurecido. Nada mal. Respirou fundo. Estava confiante. Havia de ser desta vez. Chegando próximo à entrada do lugar, percebeu que não havia filas. Achou que era um bom sinal. Algumas meninas conversavam e fumavam descontraidamente junto à porta, mas não pareciam estar esperando para entrar. Empertigou o corpo, meneou a cabeça para o segurança da entrada, pegou a comanda que levava o seu nome, e entrou.

Percorreu sozinho um estreito e silencioso corredor escuro que cheirava a incenso barato. Logo à frente, vislumbrou uma porta. Lentamente, foi em direção a ela. Com a mão direita espalmada, empurrou-a.

Ali estava ele. Ao seu redor, pessoas se moviam sem pudores. O som, como previsto, fazia seus ouvidos zunirem. Caminhou até o centro da pista de dança. Olhou para os lados. Havia bastante gente ali naquela noite de sexta-feira. Levou alguns poucos minutos para ele entrar na frequência do ambiente. As pessoas dançavam alegremente em uma atmosfera festiva, mas ainda pouco alcoólica. A noite recém estava começando.

A partir daí, muita coisa aconteceu. De pouca coisa ele se lembrava. Somente flashes. Relâmpagos cruzando a sua mente. Imagens pueris, se liquefazendo em sua memória.

Quase seis horas haviam se passado. Ele já estava ébrio. Seus ouvidos doíam. Suas pernas, cansadas. Seu corpo gritava, querendo pôr para fora aquilo que tinha lhe deixado tão desinibido. Seus olhos já não enxergavam direito. Foi ao banheiro. Vomitou. Juntou água com as mãos e jogou sobre a face. Estava um caco. Voltou para o salão. Deu, detalhadamente, uma última olhada por todo o espaço. Não. Já estava amanhecendo lá fora. No caixa, pagou a conta. Alta, bem alta. Quatro pessoas ainda resistiam bravamente naquele resquício de festa. Passou por elas com vagar. Andava com dificuldade. Antes de sair, voltou a vomitar, no meio da pista, desta vez. Não acertou ninguém, por sorte. Junto à porta que dava para o corredor estreito e silencioso com cheiro de incenso barato, escorou-se e olhou para trás. Não.

Ela não estava lá. Ela não esteve lá. Não adiantava mais esperar. Ela não estaria lá.

Abriu a porta e se foi.

Ele não ouviu a si mesmo.

Ele não gostava muito de festas.

domingo, 11 de maio de 2014

Ele era meu irmão



“Eu não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer”, me disse ele segurando a minha mão. Eu lhe disse que não iria deixar. Disse que iria ficar tudo bem. Que aquilo tudo iria passar e que, no futuro, iríamos rir feito idiotas em uma mesa de bar quando relembrássemos da cena melodramática daquele dia.

Eu não falei a verdade.
Não ficou tudo bem.
Aquilo tudo não passou.
Nós nunca rimos feito idiotas em uma mesa de bar.

Eu não processei bem aquele acontecimento. Confesso, até hoje não consegui compreender bem as coisas. Foi tão rápido. Eu não esperava. Ele não esperava. Ninguém esperava. Quando a morte de alguém querido ocorre, nunca parece ser verdade. É sempre um engano, sempre irreal. Para mim, ainda não parece ser real. Sinto como se, a qualquer momento, ele vai cruzar a porta, sempre sorrindo, e virá me dar um abraço.

Morrer não parece ser uma coisa de todo mal. Eu morro todas as noites, toda vez em que durmo. A diferença é que eu esqueço que morri, e acabo acordando para uma nova microvida de algumas horas.

O que fica é quem sofre.
Esse, o que fica, morre um pouco junto com aquele que se foi por inteiro.
Mas ele continua vivo.

Foi muito difícil para mim. Tudo depois que ele partiu foi muito difícil para mim. A começar pelos meus pais. Eles não aceitaram a morte. Todas as coisas que haviam sido dele foram mantidas no lugar em que as deixou. Aquela ainda era a casa dele. O seu lugar na mesa de jantar estava ali, reservado, intacto. A casa permaneceu em um luto constante. Não havia mais sorrisos. Não havia mais música. As palavras eram ditas em tom baixo, quase sussurradas. Falava-se pouco, aliás.

Por duas vezes eu tentei quebrar aquele silêncio, aquele estado de prostração ali estabelecido. Não consegui. Resolvi deixar estar.

Nos anos que se seguiram, eu procurava ficar a maior parte do dia fora daquele ambiente. Quando não estava na escola ou no trabalho, dava um jeito de arrumar algo para fazer na rua. Quando não arrumava, saía para caminhar sem nenhum plano. 

Aquela foi a minha provação adolescente.

Ele era meu irmão.

A doença progrediu rápido. Após a internação, em dez dias, ele estava morto. Eu não estava em casa quando ele se sentiu mal e teve de ser levado ao hospital. Um funcionário da escola entrou na sala de aula e me deu um bilhete dobrado em quatro partes. “Seu irmão não está bem. O levamos ao Pronto Socorro.” Até hoje não sei quem mandou aquele bilhete. Não importa. Fechei o caderno, peguei minha mochila e saí da sala. Não fiquei muito preocupado. Não haveria de ser nada demais. Um mal estar, talvez. Ele tinha uma ótima saúde. Parecia ter, ao menos. Nunca reclamava de nada. Nem gripe pegava. No máximo, um ou outro resfriado.

Após quinze minutos de caminhada e três lances de escada, eu estava, ofegante, em pé, à porta da sala, em frente à cadeira na qual ele, sentado, sorria ao me ver chegar.

Ele não parecia estar doente. Eu não senti  a dor que ele sentiu. Eu nunca senti  a dor que ele ainda iria sentir.

Passamos toda a tarde juntos. Eu só saí daquela sala em três oportunidades, duas para ir ao banheiro e uma para comprar água e lanches para nós dois. Minha mãe também estava lá. Meu pai não pôde sair do trabalho e iria dar uma passada mais tarde, para ver como ele estava. Até o início da noite, nenhum médico foi ver o meu irmão. Quando eu e minha mãe tivemos de ir embora, após sermos enxotados por uma enfermeira alta e magra com grandes olheiras e um mau humor de quem vinha tendo um péssimo dia até ali, ele nos disse para irmos tranquilos. Disse que já se sentia melhor, mais disposto e que, na manhã do dia seguinte, já estaria tomando café da manhã em casa, conosco. Pediu torradas e suco de laranja.

No caminho de volta para casa, minha mãe se manteve em silêncio. Estava cansada. Ao lado dela, eu pensei em como nós somos frágeis.  Meu irmão não tinha absolutamente nada há algumas poucas horas. Agora, estava em uma sala de hospital, tomando soro na veia e achando que iria voltar para casa na manhã seguinte. Ele sequer imaginava que nunca mais iria voltar para casa. Ninguém imaginava isso.

Meu pai chegou em casa à noite com uma expressão preocupada no rosto. Os vincos na testa estavam bem marcados. Isso sempre acontecia quando algo o deixava apreensivo. Falou pouco. Disse que estivera no hospital e que o meu irmão estava dormindo. Não quis acordá-lo. Ele permanecia sentado na cadeira. Ainda não tinha sido liberado nenhum leito para o qual pudesse ser transferido.

Eu tinha 16 anos. Meu irmão tinha 12.

Era bem tarde quando eu consegui dormir naquela noite. Às 6h do dia seguinte, tinha de estar em pé. Meus olhos já estavam abertos antes de o despertador tocar. Dormi pouco e mal. Levantei-me, tomei banho e sorvi o café quente que me deixou bem desperto. Peguei minha mochila e saí. Fez um amanhecer frio naquele dia. Era o começo do outono.

Eu não dei a mínima para matérias que tive na aula. Não consegui prestar atenção nos professores. Não me concentrei. Ouvia a voz do meu irmão ao meu ouvido. Mal soou o sinal do fim do turno da manhã, e eu já cruzava o portão da frente da escola, carregando nas mãos dois sanduíches com requeijão, presunto e queijo. Ele adorava sanduíche de pão francês com requeijão, presunto e queijo. Eu também.

Nós não éramos muito parecidos. Ele sempre foi um prodígio. As melhores notas na escola. Sempre foi o mais racional, enquanto eu era puro instinto. Com oito anos de idade, me dava conselhos quando da minha primeira paixão. Tinha uma educação e fineza no trato sem igual para um menino com aquela idade. Era o orgulho de minha mãe. Ela sempre sorria quando falava dele para as amigas ou vizinhas. Eu também me orgulhava. Eu enxergava nele aquele que eu nunca poderia ser.

Fui diretamente à sala na qual ele estava no dia anterior e não o achei lá. Ele havia sido transferido. Um leito havia vagado. Quando, finalmente, localizei o quarto, o encontrei deitado de lado, encolhido, pernas arqueadas. Seus olhos estavam prostrados. Ele tinha olheiras profundas de quem dormira pouco. Aproximei-me.  Ele pareceu não me notar. Com a mão direita, tirei o cabelo de sua testa. Ele suava. Sentei-me na cama. Fiquei em silêncio. Não sabia o que dizer. Não sabia o que ele queria ouvir. Fiquei ali por mais de três horas. Segurei sua mão. Estava quente. Ele tinha febre.

Minha mãe chegou por volta das 17h. Havia trabalhado o dia todo. Estava exausta. Trouxe alguns biscoitos e suco. Ela ficou conosco até perto das 22h. Despediu-se dele com um longo beijo na testa. Eu ganhei um abraço. Passei aquela noite ao lado do meu irmão. Dormi sentado em uma cadeira junto à cama. Não dormi muito, mas o suficiente para conseguir me manter desperto depois do amanhecer. Acordei por diversas vezes na madrugada. Conferia como ele estava, se dormia bem, e tentava voltar a pegar no sono.
Por volta das 6h15min, fui acordado pela correria no interior do quarto. De pronto, vi ao menos quatro pessoas vestidas de banco ao redor da cama onde jazia meu irmão. Empurrei um deles, tentei chegar mais perto, mas fui puxado com rispidez por um enfermeiro alto e corpulento. Meu irmão se retorcia sobre o leito e eles tentavam segurá-lo para aplicar algum tipo de medicamento. Eles ficaram ali por poucos instantes. A cena toda não durou mais do que dois ou três minutos. Quatro, quem sabe. Ao fim, meu irmão estava imóvel. Parecia dormir. Uma auxiliar de enfermagem baixinha e risonha, com a qual eu fizera amizade e que me trouxe pão com geleia na noite anterior, disse-me que a febre havia aumentado muito, passado dos 42 graus e que meu irmão tivera uma convulsão. Perguntei se isso era normal. Ela não soube ou não quis me precisar. Disse somente que o que ele tinha era mais sério do que pensava a equipe médica. Despediu-se me dando dois tapinhas no ombro e dizendo para eu ter fé.

Não gostei daquilo. As pessoas costumam apelar para a fé somente quando a solução dos problemas está fora do seu alcance. Eu não fui à escola naquele dia. Meu irmão teve mais duas convulsões durante a tarde e duas outras na madrugada. Na manhã seguinte, ele foi levado para a UTI. Eles não sabiam o que ele tinha. Eu não entendia o que estava acontecendo.

A partir daí, eu não pude ficar ao seu lado o tempo todo. Ainda assim, corria para o hospital logo após as aulas. Na maior parte das vezes, saía na hora do recreio. Eu ficava na sala de espera até perto da meia noite, quando passava o último ônibus que me levaria para casa. Durante aqueles dias, conheci os hábitos do local. O almoço era servido aos pacientes dos quartos por volta das 11h20min. Às 14h30min, um médico passava para dar uma olhada neles, fazer anotações no prontuário e dar instruções para a equipe de enfermagem. Os médicos falavam pouco. A maioria apenas dava explicações vagas quando os parentes perguntavam o que o familiar internado tinha, se era grave, qual o tratamento, quando ele iria ganhar alta. Eu não gostava muito deles. Pareciam se sentir superiores. Não demonstravam interesse profundo na situação das pessoas as quais tratavam. A exceção era uma médica.

Era jovem. Residente, talvez. Tinha o cabelo negro liso preso em um rabo de cavalo. Fazia o turno da noite. Eu a via chegar por volta das 19h30min. Usava roupa esportiva. Acho que vinha direto da academia. Depois de cerca de 20, 25 minutos, ela reaparecia, já vestida de branco, com o estetoscópio no pescoço e os óculos de armação de acrílico preto no rosto. Nossa, ela era muito diferente dos outros. Doutora Anne. 

Ela sentava ao meu lado e queria saber de mim, perguntava como eu estava, se sentia fome, se precisava de alguma coisa. Eu não costumava me queixar. Mas ela mostrava interesse, e isso me fazia sentir especial.
Anne me deixava entrar na UTI uma vez por noite, dois minutos no máximo. Ela me dava instruções, dizia para eu não mexer em nada, e saía. Éramos somente eu e o meu irmão. E as outras pessoas na sala, claro, mas eu não ligava para elas. Eu ficava em pé ao lado da cama e conversava com ele. Na verdade, não era uma conversa, era um monólogo. Ele não respondia. Mas eu sempre esperava que ele viesse a fazer isso. Era um tipo de esperança maluca que eu alimentava. Fazia-me bem pensar que ele me ouvia e que iria me responder uma hora ou outra.

Ele estava mais magro. A alimentação líquida via sonda o fez perder uns quantos quilos, não pude precisar. A partir do quinto dia, meu pai não apareceu mais no hospital. Minha mãe me disse que ele não se sentia bem vendo o filho naquela situação. Não acreditei muito na justificativa, mas podia ser verdade.

Em nossa casa, evitava-se falar sobre meu irmão. Acho que, de alguma forma, com o passar dos dias, todos foram se dando conta de que teríamos de nos preparar para o pior. Minha mãe fazia o possível para tentar se mostrar forte. Esboçava alguns sorrisos discretos nas conversas com os vizinhos, tentava manter a rotina dos lides da casa. Ela não sabia, mas eu a via chorar pela manhã, quando ela entrava no quarto dele para despertá-lo e não o encontrava lá. Ela sentava na cama e tomava nas mãos o porta-retratos que ficava na escrivaninha. Permanecia ali por pouco tempo, uns cinco, seis minutos, no máximo. Era o suficiente para lágrimas brotarem em profusão dos seus olhos.

Uma semana havia se passado desde o dia da internação. A essa altura, meu pai já não escondia de ninguém que não acreditava que iria ver seu filho novamente em casa. Quando minha mãe o repreendia, dizendo que o pessimismo não ajudava em nada, ele retrucava vociferando que não adiantava se iludir, que aquele era um caminho sem volta, que precisávamos estar cientes de que ele iria nos deixar.

Nos últimos três dias de vida do meu irmão, eu não fui ao colégio. Acordava por volta das 6h, tomava uma ducha rápida, colocava duas fatias grossas de goiabada em um pão francês e partia em direção ao hospital. Eu preferia ficar lá a ficar em casa, ou em qualquer outro lugar. Ele estava lá. Ele precisava de mim. Eu precisava dele. Além disso, ao menos lá havia alguém que se preocupava comigo também. Em como eu me sentia. Eu contava as horas para vê-la cruzando os corredores com seus tênis de corrida. Ela sempre sorria para mim quando passava. Eu retribuía o sorriso. Apesar de tudo, eu me sentia protegido, me sentia seguro. Ela não iria me deixar sozinho.

Eu chegava perto das 8h15min no hospital. Já tinha feito amizade com a segurança da portaria e eles me deixavam subir para o terceiro andar, onde ficava a UTI, sem problemas. Eu ficava a maior parte do tempo sentado em um banco, no corredor. Havia um espaço específico para familiares, uma sala de espera, mas eu não gostava de lá. Era muito choro, muito movimento, muita falação. Quando não estava ao lado dele, eu queria ficar comigo mesmo.

Enquanto estava sentado, aguardando a noite chegar para eu poder entrar por alguns minutos na sala e ver meu irmão, eu ficava sabendo sobre diversos outros pacientes da UTI. Na maioria das vezes, descobria as coisas por meio das conversas da equipe médica. Entre eles, médicos, enfermeiros e auxiliares, não havia rodeios na hora de falar sobre um dos doentes. Sobre o jovem que perdeu o controle da motocicleta e colidiu em um poste, o médico chefe da unidade foi taxativo: “só sai daqui em um caixão”. No caso da mulher que foi atropelada por um ônibus ao atravessar uma via, o diagnóstico era um pouco mais animador: “essa aí nunca mais vai andar de novo”, cochichou uma das enfermeiras para uma auxiliar. Eu não sei como aquele jovem saiu do hospital, tampouco se a mulher atropelada voltou a andar. Espero que ambos estejam por ai, ele respirando, e ela fazendo caminhadas pelo parque ao entardecer.

Nunca os ouvi falarem algo sobre o meu irmão. Talvez se policiassem em razão de eu estar sempre por ali, talvez não houvesse nada a ser dito. Eram umas 3h30min quando eu fui acordado por uma correria. Levantei de um salto e tentei espiar pela porta entreaberta da sala da UTI. Quatro pessoas vestidas de branco cercavam o meu irmão. Pude identificar uma delas. Era Anne. Eles falavam todos ao mesmo tempo. Não pude compreender nada. Somente frases soltas. “Muito sangue”, “precisamos conter agora”, “anda rápido”, “fecha aquela porta”. Foi quando Anne veio fazer isso que pude perceber que a situação era grave. Por um instante, seus olhos cruzaram com os meus. Foi apenas um instante, mas eu senti que havia algo de muito errado acontecendo. Ela chorava.

Não dormi no resto da madrugada. Levou quase duas horas para que tudo se acalmasse. Ele havia tido uma hemorragia interna. Os médicos suaram, mas conseguiram contê-la. Muito sangue havia sido perdido. Agora, ele dormia. Estava sedado. Procurei Anne em todo o andar para saber mais detalhes, mas não a encontrei. Fui à sala da enfermagem e perguntei sobre o que havia se passado, mas elas me disseram que o médico iria conversar com a minha mãe sobre o assunto. Disseram para eu ir dormir. Idiotas. Tive raiva delas. Meu irmão sofrendo em uma cama de UTI e elas me mandando ir dormir. A raiva não durou muito. Sabia que elas não tinham culpa de nada. Ninguém tinha.

Minha mãe chegou bem cedo no hospital. Uma ligação a tinha avisado sobre os acontecimentos da madrugada. Não fui eu quem ligou. Essa ideia nem passou pela minha cabeça. Pouco depois das 9h, ela conseguiu falar com um médico. “Só a senhora, por favor”, disse ele, meneando a cabeça em minha direção. Eu fiquei sentado no banco. Eles foram para uma sala reservada.

Quando voltou, uns 20 minutos depois, ela tinha os olhos inchados de quem chorou muito. Sentou-se ao meu lado, em silêncio. Abraçou-me e chorou novamente. Eu tentei demonstrar força. “Não chore, não desabe, ela precisa de você agora.” Não adiantou nada. Eu também chorei. Nossas lágrimas se misturaram. Nossa dor se fez uma só.

Eu não perguntei a ela o que o médico tinha lhe dito. Já não importava mais. Boa parte daquele dia eu passei caminhando no parque, que ficava quase ao lado do hospital. Consegui até dormir por quase uma hora na sombra de uma frondosa árvore. No resto do tempo, eu pensei em como tudo ficaria depois de ele partir. Como seria? Eu vivi quatro anos da minha vida sem ele. Não conseguia imaginar como seria viver o resto dela da mesma forma.

Naquela noite, eles não me deixaram entrar para vê-lo. Não me deram justificativas plausíveis. Apenas disseram que ele não poderia receber visitas. Não discuti, não quis criar caso. Estava muito cansado para isso. Eu não sabia que aquela seria a última noite do meu irmão.

Eu acordei bem cedo naquele dia. Perguntei a uma auxiliar se havia alguma novidade em relação ao estado dele. Ela disse que não, e eu fui para casa. Tomei um bom banho quente, seguido pelo melhor café da manhã dos últimos dias. Preparei o meu sanduíche da noite. Olhei rapidamente as notícias no jornal que meu pai havia deixado sobre o sofá da sala. Mais do mesmo. Antes de sair, dei uma passada no quarto dele. Estava tudo lá. Era como se ele apenas tivesse saído para jogar taco com os amigos, como sempre fazia nos sábados pela manhã. O quarto era de uma organização ímpar. Ele tinha muito cuidado com as coisas, todas elas estavam em seus devidos lugares. Nenhum sapato jogado em qualquer lugar, nenhum caderno fora da mochila ou da gaveta do material escolar. Nem poeira sobre os móveis tinha, pois, em sua ausência, minha mãe fazia uma rápida, mas cuidadosa, limpeza diária. Sobre a escrivaninha, repousava seu caderno de desenhos. Ele desenhava muito bem. Tinha um talento nato. Um traço fino, detalhado, firme. O caderno estava aberto. Na página, uma gravura inacabada de algum tipo de criatura mitológica. Acho que era um dragão, mas não tenho certeza. Ao lado do caderno, o estojo com os diversos lápis de desenho. Meu pai lhe deu o kit quando ele fez 10 anos. Era o seu tesouro pessoal. Pensei em levar o caderno e os lápis para o hospital. Deixar ao lado da cama para, quando ele acordasse daquele doloroso pesadelo, pudesse terminar o desenho. Pensei um pouco mais e preferi deixar como estava. Seria um motivo para ele retornar àquele quarto. Ele precisava concluir aquele desenho.

Almocei com minha mãe naquele dia. Percebi um certo conformismo nela. Não gostei daquilo, mas não disse nada. Discutir não iria melhorar as coisas. Depois disso, ela foi para casa. Eu, para o hospital. O dia estava nublado, bem cinza, e uma brisa gelada corria pelas ruas daquela parte da cidade. Eu sentia frio, mas não o bastante para me fazer ir em casa buscar um agasalho. As horas passaram com vagar. Sentado no banco do corredor, eu li em uma revista deixada por alguém um artigo sobre como ganhar peso rapidamente e mantendo a saúde. Meu irmão tinha emagrecido muito. Também ouvi música para tentar me distrair. Desta vez, não havia esquecido em casa o mp3 player e os fones. Além disso, o time pelo qual torcíamos jogava no início da noite e eu queria poder dar a notícia do resultado da partida para ele. Não me importava se ele respondesse ou não. Eu sabia que ele estaria me ouvindo e que ficaria feliz com uma vitória.

O relógio de ponteiros na parede, ao lado da sala de enfermagem, mostrava 20h quando um médico foi chamado com urgência na UTI. Eu fiquei de pé. Anne apontou no fim do corredor. Ela caminhava um trote rápido. Quase corria. Ao passar por mim, agarrou minha mão direita com força, soltou-a e entrou na sala. Passaram-se 10 minutos e mais um médico entrou, acompanhado de um enfermeiro e uma auxiliar.

Era o meu irmão. Eu sabia que era ele. Eu sentia que era ele.

Do lado de fora, eu não conseguia parar quieto. Andava de um lado para outro. Perdi a conta das vezes em que fui ao bebedor molhar a garganta. Eu sentia frio, mas suava de tensão e nervosismo. Eu queria entrar naquela sala, ver o que estava acontecendo. Era isso que eu queria. Mas a porta estava trancada. Eu sei, pois tentei entrar.

Foram cerca de duas horas de intensa dúvida. Foi torturante. Telefonei para a minha casa, mas ninguém atendeu. Eu estava só. Assim como meu irmão.

A porta se abriu. Toda a equipe saiu com expressões desanimadoras. Anne foi a última a deixar a sala. Ela tirou a máscara branca do rosto, enxugou o suor da testa e veio em minha direção. Com a mão no meu ombro, disse para eu sentar no banco. Eu obedeci.

Foi uma conversa rápida. Ela sabia que prolongar a explicação tornaria aquilo ainda mais doloroso. Ela foi direta. Meu irmão não tinha mais muito tempo de vida. Algumas poucas horas, talvez. Ou poucos minutos, quem sabe. As hemorragias se espalharam pelo corpo, eles não conseguiram estancá-las. Os pulmões estavam comprometidos. Eles fizeram o que podia ser feito. Ela me garantiu que ele já não sentia mais dor, que a única medicação que podiam lhe dar eram analgésicos. Morfina, no caso. Eu não chorei desta vez. Não sei por qual razão, mas não chorei. Anne disse que eu poderia entrar na sala da UTI, se quisesse. Ela foi sincera comigo. Falou que, provavelmente, seria a última oportunidade para vê-lo vivo. A sedação tinha sido diminuída. Ele estava desperto. Fiquei de pé. Ela me deu um abraço apertado. Disse para eu ser forte. Eu disse que seria.

Ele não parecia desperto. Os olhos fechados. A máscara de oxigênio sobre a boca e o nariz. Eu me aproximei sem fazer barulho. Cheguei ao lado da cama e segurei a sua mão. Ele apertou a minha. Com força. Senti seus ossos.

Ele tinha hematomas nos braços. Eu disse o seu nome e ele abriu os olhos. Bem devagar. Sorriu um sorriso puro ao me ver. Uma lágrima correu pela sua face pálida. Foi então, que, com a voz combalida de quem estava cansado de lutar, ele me disse:

“Eu não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer.”

Não contive o choro. Não consegui. Eu não fui forte como havia prometido para Anne.

Eu disse que não o iria deixar morrer. Disse que iria ficar tudo bem. Que aquilo tudo iria passar e que, no futuro, iríamos rir feito idiotas em uma mesa de bar quando relembrássemos da cena melodramática daquele dia.

Eu não falei a verdade.
Não ficou tudo bem.
Aquilo tudo não passou.

Ainda dói quando recordo daqueles dias. Já faz mais de 20 anos, mas ainda dói. Muito. Cerca de quarenta minutos depois da minha falsa promessa, ele morreu.

Nós nunca rimos feito idiotas em uma mesa de bar.


A última coisa que eu lhe disse foi uma mentira.