terça-feira, 21 de abril de 2015

Era o Gato de Schrödinger


Em vão, ele tentava se desvencilhar de uma relação que o prendia ao nada. Não era amor, era frágil. Tampouco paixão, não era elétrico. Sentia-se se movendo em um terreno arenoso. Dispendia grande esforço a cada passo, mas não saía do lugar. Há meses, vivia em um constante looping. Tinha necessidade de avançar, de seguir em frente, mas era o personagem de uma história que não viveu.

Tentava não pensar mais nela. Não havia motivos para pensar nela. Não mais do que pensava em qualquer outra pessoa que conhecia. Seu cérebro lhe pregava uma peça. Era o Gato de Schrödinger. Ao mesmo tempo, estava e não estava em um relacionamento.

Via-se preso em uma teia de fatos que não haviam acontecido e sensações que não havia sentido. Era um fantoche controlado por si mesmo. Com frequência, se pegava pensando de quem era a culpa. Era sua, sem dúvidas. Iludira-se com uma promessa que nunca fora feita. 

Caçava nuvens como se fossem borboletas. Tocava-a, mas não a sentia em suas mãos. Estava perturbado. Todos em seu círculo de convívio já haviam percebido. Tentava disfarçar, buscava um refúgio em piadas que não lhe divertiam.

Ela o enganava. Aproximava-se para controlá-lo, mas conservava uma distância segura para manter viva a ilusão de que o queria, mesmo sem tê-lo desejado uma vez sequer. E ele vivia essa ilusão. Sabia que estava sendo usado, mas não conseguia evitar fazer parte daquele mise em scène. Era o jogo e o jogador. Vítima de si mesmo e da vontade de ser mais do que apenas um indivíduo. Queria fazer parte de algo maior. Queria ser parte da vida de outra pessoa.

Estava confuso. Intercalava momentos de profunda racionalização com instantes de emocionalismo juvenil. Dizia para si mesmo que era preciso ignorar seus sentimentos, mas não ouvia a própria voz. Além disso, seu corpo teimava em somatizar a ilusão que seu cérebro criava.

Não era uma pessoa com uma vida social muito ativa. Tinha poucos amigos. Passava os seus dias trabalhando, lendo, escrevendo e dormindo. Depois que a conheceu, porém, produzia pouco no trabalho, lia, mas não prestava atenção nas palavras, escrevia, mas não dizia nada.

O sono era um caso à parte. Já não se lembrava de quando fora a última vez em que dormira uma noite inteira sem sonhar com ela. Acordava sempre no meio da madrugada e a história terminava sem um final. Levantava da cama, caminhava pela casa, saía porta afora. A brisa, a escuridão e o silêncio - quebrado somente pelo ladrar dos cães ao longe - o acalmavam. Tentava esvaziar a cabeça, se livrar de todos os pensamentos. Buscava um estado anterior ao da consciência. Queria encontrar-se com o nada. Fracassava todas as noites.

Tentou evitá-la. Seu envolvimento com ela, porém, estava além da presença física. Era mais do que físico. Era metafísico. Não sabia ao certo se o que o atraia era ela, em sua essência, carne e presença, ou se era o que ela representava. Nem mesmo sabia o que ela representava. Era mais o efeito que ela produzia nele do que a existência dela. Era mais o saber que ela existia do que o fato de ela realmente existir.

E ela existia mais dentro dele do que fora. Ela se tornara parte dele. Estava com ele, ia para onde ele ia. Ela se tornara mais real nele do que em si mesma. Com o passar do tempo, ele a desfizera e a reconstruíra em sua experiência sensorial. Ela era única para ele.

Estava, assim, de certa forma, feliz. Ela não seria de mais ninguém. Mesmo nos braços de outros, mesmo revivendo inacabados amores antigos, ou descobrindo excitantes novas paixões, ela seria somente dele. Aquela a quem ele criara em seu íntimo, não seria de mais ninguém.

Deste modo, tendo conseguido se ver livre da existência dela fora de si mesmo, ele passou a ser indiferente à sua presença física. Ela já não o tirava dos trilhos. O atraía assim como qualquer outra bela e inteligente mulher o atraía. Conversavam, divertiam-se juntos. Ele ainda a desejava. Àquela a quem via quase que diariamente. Quem estava em seus pensamentos, porém, era a outra.

Por muitos e muitos meses, essa dualidade o deixou sereno. Não havia mais conflito. Não tinha com o que se preocupar. As aparências estavam mantidas. O segredo, protegido.

Não era mais o olhar, era a representação do olhar recriado em sua imaginação. Sabia que não era real, que tudo era um produto de sua mente. Isso, entretanto, não impedia que se sentisse em meio a um conflito que, o mesmo tempo, lhe confundia os sentidos e lhe impelia a buscar uma resposta que sabia que não queria encontrar.

Aos poucos, foi perdendo o controle. Já não conseguia mais distinguir uma da outra. Eram tão diferentes, mas eram a mesma. Estava tudo embaralhado, peças de um quebra-cabeça girando sob um chão de imagens ora nítidas e cristalinas, ora escuras e opacas. A realidade não era mais tão real. A fantasia se materializava diante dos seus olhos incrédulos.

Flertava com a loucura. Andava de mãos dadas com o medo.  

Teria de matá-la. Era isso, teria de matá-la. Já não conseguia mais viver com ela. Já não conseguia mais viver sem ela. Teria de matá-la. Sim, teria de matá-la.

Mas a quem teria de matar? A sua adorável invenção imaginária, ou aquela mortal de carne e ossos que o enfeitiçara? A criatura ou a criação? As duas, quem sabe?

Não era um assassino. Não mataria uma pessoa real. Gostava dela. Não poderia matá-la. Não faria isso. Estava certo, entretanto, de que também não seria capaz de dar fim à mulher que moldara à sua própria maneira. Ela era exclusiva, uma obra de sua ilimitada capacidade criativa. Orgulhava-se dela. Não a apagaria de sua mente.

Chovia muito na noite em que ele fez o que sabia que teria de fazer. De uma forma ou de outra, teria de fazer. Já era madrugada e ele caminhava sozinho pela rua. Havia perdido a noção do tempo. Não levava um relógio consigo. Não se importava com isso. Horas, minutos, segundos. Nada disso importava. Queria se concentrar. Precisava buscar dentro de si uma resposta. Procurou em todos os esconderijos de sua mente. Reencontrou-se consigo mesmo no passado e percebeu que sempre fora um bom homem. Dia após dia, ano após ano, da sua infância àquela noite chuvosa, revisitou a sua vida. Compreendeu, então, que fora uma ilha. Fora tudo aquilo que as pessoas que cruzaram o seu caminho faziam parecer que era o que admiravam em alguém, mas que, na realidade, era o que desprezavam. Não era um canalha aproveitador. Era um bom homem. Este havia sido o seu erro.

Aquela que acreditava ser sua principal qualidade, a crença fiel no seu semelhante, havia lhe traído.

Eis, então, que, por um instante, teve uma epifania. A tempestade havia passado, as nuvens se dissiparam. Um céu de um azul inocente cobria todo o horizonte. Aos seus pés, campos de lírios forravam a terra fértil.

Era isso. Definitivamente, faria o que sabia que tinha de fazer.

Saiu em disparada, pulando poças. Seria naquela mesma noite. Teria de ser naquela mesma noite. Parado junto a um prédio, olhou por não mais do que um instante para o bloco de concreto que se erguia à sua frente. Nunca havia estado ali antes, mas sabia exatamente onde a encontrar. A decisão estava tomada. Não iria voltar atrás. Respirou o mais fundo que pôde. Estalou os dedos das mãos e seguiu.

Matou-a.

Uma brisa fresca tirou a sua franja dos olhos. O temporal cessara. O dia estava prestes a amanhecer. Estava leve.

Quando acordou pela manhã, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi uma dúvida. Não sabia distinguir de qual das duas havia tirado a vida. A real ou a imaginária. Talvez tivesse eliminado ambas. Isso não lhe preocupou, porém. Tanto fazia. Estava, enfim, livre. Estava livre da mentira que o corroía, livre da mentira que sugava suas forças e o impedia de ir em frente. A havia matado e estava bem consigo mesmo. Tão doce era o sabor da liberdade. Lambuzou-se com o mel da redenção e sentiu nas mãos o apaixonante toque da verdade.

Carregou em seu íntimo, porém, o doloroso e pesado fardo da dúvida por todos os seus anos de vida restantes. Quando, no leito de morte, estava prestes a expirar, ouviu uma voz manipuladora e escorregadia, uma cruel e insensível voz aguda, sussurrar ao seu ouvido.

“Sempre foste meu. Nunca fui tua.”

Em sábio silêncio, sorriu um sorriso ácido e pensou consigo mesmo: 

“Pobre criança, tão rasa é a consciência dos que acreditam na reciprocidade do amor.”


domingo, 22 de março de 2015

Aquela bala que levava o seu nome teria de lhe encontrar



Ele acordou sobressaltado. Sabia exatamente o dia, a hora e como iria morrer. Não sabia ao certo se havia sido um sonho, se havia viajado no tempo, ou qualquer outra coisa. Apenas sabia. Iria morrer em um dia 12, às 18h39min, de um uma bala perdida que atravessou seu peito e rasgou seu coração.

Descalço, caminhou trôpego, esfregando os olhos, até o banheiro. Abaixou a cabeça junto à pia e borrifou água corrente. Estava desperto. Na cozinha, encheu uma caneca com café forte e fumegante. Abriu a porta que dava para a sacada do apartamento e sentou-se do lado de fora na cadeira de palha que comprara no brique por um preço bem em conta.

Enquanto bebia o café em goles rápidos, tentava buscar em sua cabeça detalhes de sua perturbadora experiência. Não havia um lugar. Não conseguia visualizar um local específico. Era uma via movimentada. Muitos carros, muita gente. Prédios muito altos e comércio por todo o lado. Não recorda de ter visto árvores. Nem pássaros. Barulhos diversos. Motores, buzinas, betoneiras, gente gritando em microfones.

O dia começava a ganhar vida lá fora. Do alto – morava no quinto andar – podia ver os estudantes com suas mochilas correndo para não perder o ônibus, os trabalhadores das fábricas do Norte da cidade com suas bolsas a tiracolo, os homens dos escritórios com o jornal sob o braço e o smartphone em uma das mãos, os vigilantes voltando para casa, sonolentos, depois de mais uma madrugada de tediosa atenção.

Olhou para a estante da sala e viu, de longe, o calendário. Era dia 9. Poderia ser dentro de três dias. Três dias. Andando na rua, um estampido seco, o impacto no peito, um grito de horror, sangue nas mãos, caído na calçada, dor lancinante, a visão turva, as forças se esvaindo, o silêncio eterno.

Jogou a caneca na pia cheia de louça suja e foi tomar banho antes de ir para o trabalho. Era um vendedor de seguros de meia idade. Passava o dia todo batendo perna nas ruas, oferendo apólices para qualquer pessoa que encontrasse e na qual enxergasse um potencial comprador. Ele não era bom naquele trabalho. Não havia nascido para fazer aquilo. Tinha a fala arrastada e em tom baixo. Não convencia ninguém de que assinar um contrato de seguro de vida era algo imprescindível. Sendo assim, era um fracasso como vendedor.

Não desistia, porém. De certa forma, acordar cedo, vestir uma camisa, colocar uma gravata, uma calça social, calçar sapatos desconfortáveis que lhe machucavam os calcanhares e pegar uma maleta cheia de papéis, era o que lhe sustentava. A companhia de seguros lhe fornecia tíquetes de alimentação para o almoço e um lanche da tarde. Além disso, ganhava um salário fixo que, mesmo sendo uma mixaria, era o suficiente para pagar as contas. Não pagava aluguel. O apartamento havia sido deixado no testamento por sua avó como herança para ele, o único neto.

Quando pôs os pés na calçada da rua em frente ao prédio, sentiu-se vulnerável. Sabia que não seria ali. Morava em uma rua transversal calma, movimento só de moradores, apenas uma padaria como comércio, prédios antigos e com poucos andares. Se quisesse fazer alguma venda, entretanto, teria de ir para as vias mais agitadas da cidade, com muita circulação de pessoas. Respirou fundo e iniciou a caminhada até o ponto de ônibus. Definitivamente não seria ali e não seria naquele dia.

Acordou cedo no dia 12. Na verdade, dormira bem pouco. Estava ansioso. Tinha medo. Ainda não havia amanhecido. Caminhou apoiando-se nas paredes até a cozinha. Abriu a geladeira e encheu um copo com água gelada. Tinha a boca seca. Foi à janela e percebeu que chovia. Forte. Chovia forte. De súbito, percebeu que, no seu sonho ou digressão, seja lá o que tenha sido aquilo, não chovia quando ele era alvejado no peito. Ao contrário, um grande sol raiava em um céu de um azul brilhante. Não haveria de ser naquele dia, portanto. Ele teria, ao menos, mais um mês de vida. Sorriu. Um mês não é muita coisa, mas é melhor do que apenas algumas horas.

O mês se passou. Ele trabalhara bastante, caminhara muito, muito mesmo. Seus joelhos doíam e seus pés o faziam gritar de dor ao final dos dias. Havia feito cinco vendas. Cinco vendas em um mês. Duas delas, ficou sabendo depois, foram canceladas no mesmo dia. A pessoa se empolgou, achou interessante e assinou. Chegou em casa, pensou melhor, conversou com a família, e voltou atrás. Acontecia sempre. Para ele não fazia muita diferença. Recebia sua comissão independentemente de o cliente desistir depois de assinar ou não. Fizera seu papel. Convencera a pessoa a comprar. Se o produto não era bom o suficiente para manter o cliente, a culpa não era dele.

Nos trinta dias seguintes, viveu como se estivesse em uma contagem regressiva. Custava a pegar no sono. Ficava pensando em sua sina. Por quê? Era um bom sujeito. Honesto, trabalhador, educado com as pessoas. O que fizera para merecer essa maldição? Não conseguia recordar de nada. Sequer matava os insetos que entravam voando pela janela do apartamento. Os recolhia de algum modo e os colocava para fora. Era um bom sujeito, sem dúvida. Por que não viu o mês? Por que não viu o ano? Seria bem mais fácil aceitar sua sina se assim tivesse sido. Mas não foi. Agora, sabia, tinha absoluta certeza, de que morreria em um dia 12, às 18h39min, de um balaço no peito. Eram 12 as possibilidades de morrer no ano, em qualquer um dos dias 12, em qualquer uma das 18h39min, hora que, percebeu depois, somando-se os algarismos, resultava no número 21, que é 12 ao contrário. Sim, estava ficando maluco.

Com a vida se equilibrando em uma tênue linha invisível, ele passava seus dias como se estivesse, emocionalmente, em uma montanha russa. Alternava momentos de euforia incontida, com instantes de prostração intensa. Comia pouco e rapidamente, evitava dormir, passava as noites em claro, zanzando pelas ruas, sentado junto a balcões de bares, bebendo em festas com gente que não conhecia. Não queria perder um segundo sequer de sua vida. Não podia se dar ao luxo de perder um segundo sequer. Corria contra o relógio. Não podia perder, não antes da linha de chegada. Não iria se entregar. Estava decidido, não iria se entregar. Aquela bala que levava o seu nome teria de lhe encontrar. Não seria fácil. Não iria deixar que fosse fácil. Esgueirava-se por entre becos escuros, passos rápidos e precisos. Os olhos bem abertos, atentos, feito uma zebra na savana africana.

Não tinha mais medo. Deixou o medo em uma das esquinas nas quais dobrara. Iria lutar contra um destino que estava escrito, mas que poderia muito bem ser editado. Reprogramou sua vida. Faria todos os caminhos e visitas pelas principais e mais movimentadas vias em todos os dias que não fosse o dia 12. No dia 12, caminharia por ruas tranquilas, por dentro dos bairros, descobriria uma cidade que não conhecia. Não importa se não venderia nenhuma apólice de seguro. Sua vida valia mais do que uma comissão de 10%. Ao menos, ele achava isso.

Perdia horas e horas dentro de ônibus nos quais não precisava ter embarcado, somente para evitar passar pelas zonas comerciais. Evitava tudo o que envolvesse os números 12 e 21. Depois de um tempo, passou também a fugir do 3, que era a soma dos algarismos de suas dezenas do azar.

Viu paixões se desfazerem, viu a morte de amores que ainda não haviam nascido. Viu velhos amigos se afastarem, viu novas amizades se esvaírem. Viu fantasmas andando ao seu lado. Nunca mais foi feliz.

Assim, feito um escravo de um sonho, viu os anos escorrerem por entre seus dedos magros. O tempo foi cruel com ele. Passou lentamente, arrancando, em vão, cada parte de uma vida à espera de um fim.

Tinha 93 anos quando seu coração parou de bater em razão de um infarto. Estava sozinho.


Morreu cansado de esperar por uma morte que não veio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tamires queria voar


Desde muito pequena, Tamires dava sinais de que era uma menina diferente das outras.

Ela sempre se sentia no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas. Era isso e era sempre assim.

Era tudo muito estranho. Sentia-se deslocada, como se fosse a protagonista da história de outra pessoa. As coisas não faziam sentido. Não se encaixavam. Uma valsa descompassada.

Palavras vazias sem contexto.

Recortes de histórias pueris.

Retratos de gente sem rosto.

Ela, porém, não se queixava. Tentava se adaptar. Na medida do possível, levava uma vida normal. Mas ela não era normal. Ela era diferente. Diferente aos olhos dos outros e diferente aos seus próprios olhos. Ela era um ponto de exclamação.

Ser menina não é fácil. Não é naturalmente fácil. Por isso que elas são mais fortes. O mundo cobra mais, elas respondem na mesma moeda. Tamires tinha uma personalidade inflamável. Era lago tranquilo quando calma e em paz. Era mar revolto quando provocada. Podia ser brisa, podia ser furacão.

Era uma força da natureza.

Doce e indócil. Raio e trovão.

Na escola, ela sempre fora uma ótima aluna. Dedicada, atenciosa, educada. As boas notas nas provas e nos boletins escolares eram o resultado de uma combinação de sua rapidez de raciocínio, sua curiosidade e desejo de sempre querer saber mais sobre tudo, e de sua constante insatisfação e inconformidade com o básico.

Não gostava da planície. Preferia os altos e baixos.

Ela sempre pensava um passo adiante. Sempre vislumbrava o próximo movimento. Teria sido uma brilhante enxadrista se tivesse se interessado pelo jogo. Mas ela nunca foi uma entusiasta de jogos. Suas vitórias vinham em cada descoberta, em cada aprendizado, em cada porta que se abria em seu cérebro e que fazia com que novos lugares pudessem ser conhecidos.

Ela era uma exploradora. Sua imaginação a desafiava.

Campos de plácidas vidas, de vivas cores.

Nuvens de algodão doce, estrelas de neon.

Tamires não tinha muitos amigos. A bem da verdade, eles eram bem poucos. Ela despertava uma reação paradoxal nas pessoas. Atração e repulsa andavam lado a lado. De vez em quando, tocavam as mãos. Nesses instantes, era puro frisson. Tamires era magnética.

Ela era o caos.

Um turbilhão.

Uma tempestade.

Um grito de horror.

Um riso incontido.

Pois bem. Apesar de ainda na infância já se sentir uma estranha onde quer que estivesse, com quem quer que fosse, foi na transição da adolescência para a idade adulta que o sentimento de não pertencimento se apossou de Tamires por completo. Ela não era daquele lugar. Não era de lugar algum.

Tamires floresceu. Um lírio em meio ao deserto.

Enquanto todos os que a rodeavam buscavam sensações – frugais, banais, viscerais, lancinantes –, ela buscava sentimentos – intensos, profundos, duradouros, plenos.

Vivia paixões. Estava permanentemente apaixonada. Amores platônicos, imaginados, imaginários. Assim eram os seus preferidos. Tivera relacionamentos, daqueles clássicos de adolescentes. Amor? Talvez tenha amado, não sabia ao certo. Sempre se achou muito mais madura do que qualquer pessoa da sua idade, principalmente meninos. Preferia se perder nas histórias de seus livros a buscar alegria rasa e banal em um copo de cerveja ou em uma noitada de risos vazios, abraços vazios, gritos vazios, beijos vazios. Não fugia ou se escondia de seus problemas. Enfrentava-os, não sem derramar algumas lágrimas. Nunca foi atraída por festas, nunca gostou de agitação. Tinha em suas coisas, seu quarto, seus pensamentos malucos e suas ideias mirabolantes o seu casulo.

Música alta e saltos sobre a cama.

Ela era uma inconformada. Uma incompreendida. Uma incompreendida inconformada. Difícil de entender, ainda mais difícil de explicar.

Inexplicável. Incompreensível.

Entretanto, ela era uma menina do seu tempo. Suscetível às influências da cultura local. Suscetível ao ambiente que a rodeava. Vivia em uma cidade de tamanho médio. Nem pequena nem grande. Isso já a incomodava. Não gostava do meio termo, da imparcialidade. Ela sempre tinha um lado. Era entusiasta dos extremos!

Gostava dos sorrisos enormes, das gargalhadas. Quando chorava, as lágrimas escorriam por sua face em profusão. E ela chorava com frequência. Nunca teve problemas com isso. Nunca teve problemas em se expor.

Era crua. Era bruta. Era joia incomum. Onda quebrando na praia. Gota de chuva explodindo na terra.

Medos? Tinha muitos. Todos eles, talvez. Tinha medo de barata, medo de ficar sozinha em noites silenciosas. Tinha medo de morrer, mas não de viver. Fazia isso com excelência de uma serelepe criança. E era assim, com impulsiva força vital, que enfrentava os seus temores. Não há glória em não sentir medo. Isso não é coragem. Tamires segurava o medo com suas mãos, segurava-o com força, fazia dele parte de si mesma. Ela era os seus medos.

Passava uma falsa imagem de fragilidade. Fisicamente, era pequena. Aos olhos de quem a via e não a conhecia (como eu a conhecia), ela parecia poder se quebrar ao primeiro toque, ao primeiro abraço.

Talvez, essa tenha sido uma das razões para ter construído uma fortaleza ao redor de si. Não a única razão. Tampouco a mais importante. Sentia-se sozinha. Sentia-se principalmente sozinha quando estava rodeada de pessoas. Em família, nas ruas, na faculdade, no trabalho. Nada em comum. Uma intrusa em terras hostis. Sendo assim, nada mais natural do que se proteger, se manter acuada.

Essa muralha que a mantinha a uma distância segura de tudo aquilo que poderia machucá-la, aborrecê-la ou magoá-la, por outro lado, alimentava a sua furiosa vontade de ser livre. Perdida no mundo em que vivia, criou o seu próprio. Seu mundinho particular. Lá, ela poderia ser quem quisesse, inclusive ela própria. Lá, não havia julgamentos, preconceitos ou inveja. Tudo era tão harmonioso e sincero naquele mundinho particular. Tudo era tão belo, tão singelo.

Campos de flores multicoloridas. Rios e lagos de águas límpidas. Montes nevados e vales verdejantes. Uma casinha de madeira simples, no meio da mata, longe de tudo. E um amor. Ela não precisava de mais nada.

Tamires era uma das pessoas raras. De uma espécie única. Para alguns, excêntrica. Para outros, arrogante. Uma vez eu li em um dicionário que excêntrico é aquele que está afastado do centro. Combinava com ela. Combinava direitinho.

Gostava do silêncio. Quietinha, sentindo a respiração. Ouvindo o coração bater. Estar consigo mesma. Sentir-se plena.

Era uma força interior. Uma chama latente. Era uma águia selvagem, um corcel indômito. Precisava se libertar. Precisava tomar o tempo em suas mãos. Precisava sentir o mundo girando sob seus pés.

Era um domingo. Ela havia acordado mais tarde do que de costume. Brincava com Princesa, sua cadela de estimação, quando percebera algo estranho em si mesma. Havia alguma coisa de diferente. Era algo físico, mas era mais do que isso. Seu espírito parecia inquieto. Seu coração pulsava em um ritmo frenético.  Estava arrepiada. Não conseguindo, porém, descobrir o que era, tratou de deixar para lá. Não havia de ser nada demais. Tentou esquecer.

Almoçou com a família e se recolheu ao quarto. Foi ali que, pela segunda vez no dia, sentiu que havia algo errado. Alguma coisa a incomodava, um desconforto, mas ela não tinha a menor ideia do que poderia ser. Deitou-se na cama, catou um livro na estante e começou a leitura. Percorreu as páginas por não mais do que meia hora. Era um bom livro, mas não a fez ingressar na história, não a fez querer estar lá, junto com os personagens, ser um deles. História bem escrita, mas sem vida. Sentiu as pálpebras pesarem sobre os seus olhos. Deixou o livro sobre o criado mudo e recostou-se. Dormia.

Então, se viu no alto de uma montanha. Ventava forte. Um ar limpo e fresco adentrava em seus pulmões e os enchia de pura vida. No horizonte, montes, vales, rios e lagos. Cores múltiplas. Uma pintura. Estava em casa. Seus olhos marejaram. Chorou.

Quando despertou daquele sonho, sabia exatamente o que havia de estranho, sabia o que estava diferente. Quando despertou daquele sonho, sabia o que precisava fazer. Não tinha mais dúvidas. Estava claro, límpido como um céu de primavera.

Levantou-se e saiu correndo em disparada.

Sem nada nas mãos. Os olhos, bem abertos, faiscavam. Não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas estava indo. O mais rápido que podia. Nada importava além de si e da vontade insana de seguir em frente. Não pensava em nada.

Enquanto corria, sentia, mais uma vez, aquela sensação estranha. Estava elétrica. Algo estava prestes a acontecer. Algo muito grande estava prestes a acontecer. Sentia isso em sua pele.

E, então, correu ainda mais rapidamente. Seus pés quase não tocavam o asfalto. Ela flanava. Estava descalça.

Suas costas formigavam. Seu sangue fervilhava em suas artérias.

Sentia que toda a sua vida fora uma preparação para aquele momento. Todas as dificuldades, todas as barreiras, todas as conquistas. Todas as emoções. Toda a dor. Tudo. Tudo fora um processo de maturação. E eis que, agora, ela estava pronta. Havia chegado a hora. Tudo se conectava, todos os fatos, todos os momentos, os dissabores e as alegrias, todos formavam uma teia perfeita de eventos que a levaram até ali.

Cada vez mais rápido. Cada vez mais rápido. Mais rápido. Mais rápido. Mais rápido.

Mais rápido.

Tamires vivia no mundo da lua. Aquele era o seu mundo. Os olhos, sempre voltados para o alto. O pensamento, nas nuvens. Era lá que ela queria estar.

Nunca gostou de ter os pés no chão. Aquilo lhe limitava. A natureza havia lhe desafiado. Aquela era a sua provação.

Ultrapassar os limites, cruzar os céus.

Braços para o alto, mãos espalmadas.

Seus sonhos eram o seu impulso. Seu espírito, suas asas.  

Tamires queria voar.

Um risco no azul, por entre as nuvens, um ponto no céu.

Tamires era pássaro, era estrela, era raio. Tamires era energia pura.

Tudo era pequeno demais para ela aqui em baixo. Tudo muito restrito. Tudo muito mesquinho. Ela queria mais. Precisava de mais.

Foi em um domingo à tarde que ela se libertou.

Agora, está exatamente onde deveria estar.

Pode ser vista rasgando o céu nos dias de ventania.

Pode ser sentida nas noites quentes de verão.


Livre.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015



Despertar

Florir da manhã.
Pedaço de céu.
Olhar infantil.

Passos entre as nuvens.
Cores no campo.
Gesto sutil.

Café sobre a mesa.
Resquício de tempo.
Sentir e tocar.

Aceno pra rua.
Carinho de mãe.
Sorrir e sonhar.

Sussurro no ouvido.
Palavra não dita.
Silêncio vazio.

Viver de saudade.
Lembrança que brota.
Nas águas do rio.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Gota de sangue sobre um nome riscado em uma página de jornal


Sentado na antiga cadeira estilo Luis XV que havia comprado em um antiquário há cerca de um mês, ele olhava para a pistola que tinha em mãos. Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.

O apartamento estava uma bagunça. Janelas fechadas, penumbra, cheiro de mofo. Garrafas jogadas pelo chão, contas vencidas sobre mesa da cozinha. A vida havia lhe abandonado. Agora, ele pensava se devia deixá-la ir também. Há tempos já não se davam bem. Não se entendiam. Tinham suas próprias prioridades. Não carregava mágoas. Tiveram seus bons momentos. Era hora de se despedirem. Cada um para o seu lado. Um adeus. Um aceno distante.

Não tinha sido difícil conseguir a arma. Bastava dar alguns telefonemas, conhecer as pessoas certas, ter dinheiro em mãos. Voilá! Sem perguntas, sem nomes. Um negócio de cavalheiros. Há pouco mais de seis meses, fizera um empréstimo com um facilitador financeiro urbano, ou um agiota, como queira. Um profissional famoso na cidade, também conhecido como Lambari. A alcunha havia sido dada em razão de todos saberem que o velhote magro, de movimentos ágeis e precisos, e de poucos cabelos, era peixe pequeno no esquema de empréstimo de dinheiro a juros altíssimos. Era só um testa de ferro. Os tubarões sequer passavam perto daquela parte da cidade em que atuava. Ele nunca havia feito uso de tais serviços. Sabia que era um poço sem fundo. Um caminho sem volta. Mas, desta vez, o perigo era real. Dívidas de jogo, cobradores furiosos e sem escrúpulos. Precisava estar preparado para se defender, se fosse preciso. Com o dinheiro, comprou a arma. Contraiu uma nova dívida para se defender de quem iria atrás dele cobrar dívidas antigas. Ele não pensava muito no que fazia. Apenas fazia.

Não sabia atirar. Nunca havia feito um disparo na vida. Mal sabia manejar a pistola que jazia dentro da gaveta do armário de roupas, sob as cuecas e meias. Aliás, sempre tivera aversão a armas de fogo. Era um pacifista convicto. Acreditava na força da palavra como meio para se resolver tudo. Agora, porém, ele estava ali, sozinho em meio à sua decadência, com uma pistola automática nas mãos, tentando criar coragem para dar fim a tudo aquilo que lhe perturbava, que lhe causava dor.

Aquele fatídico dia amanhecera nublado. Não era possível ver nem uma pequena nesga de azul no céu plúmbeo. Ele acordara com uma ressaca colossal. Havia passado boa parte da madrugada bebendo whisky vagabundo, fumando cigarros baratos, jogando pôquer à dinheiro e flertando com garotas sem esperança. Mais um dia normal.

Abriu a geladeira para ver o que tinha lá dentro e que poderia saciar sua fome. Pouca coisa. Uma caixa de leite pela metade, duas fatias de pizza de calabresa, uma jarra de água e alguns tomates estragados. Pegou a caixa de leite. Esvaziou-a no liquidificador e jogou dentro dele duas bananas pra lá de maduras que jaziam na fruteira ao lado do botijão de gás vazio. Bebeu dois copos da batida. Já se sentia melhor. Com as mãos unidas em concha, jogou água no rosto marcado por uma vida errática de excessos. Pegou as chaves e saiu.

Caminhava com dificuldade. Arrastava-se. Sentia na boca uma mistura pastosa de banana, fumaça e álcool. Na banca do fim da rua, pegou o jornal do dia. Ainda antes de dobrar a esquina em direção ao porto velho, comprou dois maços de cigarro de um ambulante.

Não tinha ideia de como seria o seu dia. Não cultivava planos. Fazia o que tinha de fazer e esperava para ver no que ia dar. Assim, tudo ficava muito mais fácil. Sem projeções. Sem complicações desnecessárias.

Não tinha perspectivas. Vagava pelas ruas sem direção. Era um vagabundo. Um vadio. Agia conforme seus instintos. Ia para onde eles o levavam. Naquele dia, decidira que iria dar uma volta nos arredores do porto velho. Gostava de lá. Gostava dos prédios históricos caindo aos pedaços, do cheiro de peixe podre. Gostava da gente com sandálias de couro puído. As faces vincadas pelo tempo e tostadas pelo sol litorâneo.  Gostava do sal que dava a tudo um aspecto de corroída aspereza. Aquele sal o havia forjado. Ele era assim. Oxidado pelo tempo. Era apenas o resquício de quem um dia fora.

Sempre que precisava de uns trocados, ajudava a descarregar algum pequeno pesqueiro que ainda insistia em vender seu trabalho de um dia inteiro para comerciantes decadentes que sobreviviam pagando muito pouco pelo pescado na origem e vendendo o produto abaixo do preço dos mercados das redondezas. O serviço pagava uma mixaria, mas o suficiente para poder comprar seus cigarros. Além disso, desviava pacotes de sardinhas, que levava para casa e comia fritas na banha de porco que ganhava de um amigo de infância, que, por sua vez, a desviava do açougue no qual trabalhava.

Sustentava-se com o dinheiro ganho nas mesas de pôquer e truco. Era bom com as cartas e ainda melhor sem elas. Blefava com singular maestria. Além disso, tinha o dom da bravata. Provocava os adversários ao extremo, tirava-os do sério, fazia com que eles se desconcentrassem, fazia com que a raiva tomasse o lugar da razão. A raiva não é uma boa companheira nas mesas de jogo. Dispersa, tira o foco, cria valentões. E, assim, na base do blefe e da bravata, ele ganhava sua vida. De vez em quando, também ganhava alguns socos, uma garrafada, algumas ameaças de morte, mas nada que o fizesse achar que deveria mudar de hábito. Achava aquilo tudo muito divertido. Talvez um dia fosse surrado até a morte, ou baleado pelas costas em uma viela escura qualquer. Enfim, os riscos existiam, sabia disso. Mas, entre arranjar um emprego e virar um operário padrão, e ganhar seu dinheiro jogando cartas, bebendo whiskies baratos e galanteando garotas sem pudores, ele preferia, de longe, a segunda opção.

Depois de um dia de bebidas em copos alheios, tragadas em cigarros alheios e escarradas em calçadas alheias, resolvera curtir a noite na companhia de amigos que não sabiam qual era o seu nome. O Nautilus Drink Bar não estava muito movimentado. Por algum motivo desconhecido, o dono do lugar, um velhote de sessenta e tantos anos, que tinha um sotaque castelhano e se dizia chileno, mas que todos sabiam que era do Chuí mesmo, era leitor de Verne. Sabia de cor diversas passagens de Vinte Mil Léguas Submarinas. Tinha até um quê de Capitão Nemo, a barba comprida e espessa, os trejeitos de comandante, nariz adunco e olhar furioso.

Recostou-se no balcão e pediu uma bebida. Fazia calor e o pequeno lugar não tinha um ventilador sequer. As gotas de suor escorrendo pelas costas em profusão. O cabelo sujo grudado na testa. As envelhecidas mãos por sobre o tampo de madeira que já fora parte de um pesqueiro local. Sua cabeça doía, seus pés ardiam de bolhas causadas pelos sapatos batidos.

Não tinha mais esperanças. As havia perdido todas. Uma a uma. Ficaram pelo caminho. Deixou um rastro delas para trás. Agora estava ali, no balcão de um bar, à espera de alguém que estivesse disposto a jogar cartas por um dinheiro que ele não tinha.
 O relógio ensebado que ficava sobre a chapa onde se aqueciam os pães das torradas marcava cinco para a meia noite quando ele se levantou um pouco tonto, escorando-se no balcão e nos bancos, e saiu porta afora.

Era uma noite quente aquela. Não havia nem mesmo a constante brisa que vinha do mar e trazia junto aquele gosto de peixe seco salgado que entrava pela garganta e entranhava no corpo. Ele estava sozinho. Caminhava a esmo no cais abandonado. Velhos barcos adernados, canoas com água pela metade, redes de nylon rasgadas jogadas pelo chão, cestos com escamas e tripas em decomposição.

Sentado na beira das docas desativadas, sentia a água escura chocar-se contra seus pés. Não pensava em nada. Sua cabeça fervilhava, mas ele não pensava em nada. Flashes de imagens cruzavam à frente dos seus olhos. Memórias perdidas surgiam como relâmpagos errantes. Seus pais, a velha casa em estilo português onde crescera, o corpo de seu irmão cercado de flores, um beijo.

Em meio ao turbilhão de sensações, tentava organizar seu caos interior. Estava confuso. Por um instante, uma ideia passou por sua cabeça. E se ele deixasse de existir? E se sumisse? Ou se morresse? Alguém sentiria a sua falta? Alguém choraria? Alguém levaria flores no seu túmulo? Ou será que dançariam sobre ele? Tentou pensar em nomes, em pessoas que, talvez, pudessem perceber a sua ausência. Não tinha família. Nenhum amigo de verdade. Talvez os vizinhos, mas ele nem os cumprimentava pela manhã. Alguma amante? Não, não. A maioria delas sequer perguntava o seu nome. Quem sabe o dono na banca da esquina?  Bem possível. Não tinha um dia em que deixava de comprar o jornal pela manhã, logo cedo, quando voltava para casa cambaleando após mais uma noite de jogatina. Sim, o dono da banca provavelmente notaria o seu sumiço. Estava convencido disso. Sorriu. Ele gostava do dono da banca da esquina. O homem não fazia perguntas. Apenas pegava as moedas e lhe entregava o jornal. Teve vezes em que nem cobrou pelo produto. Era um cliente antigo, fiel. Normal que, um dia ou outro, as cartas não lhe favorecessem. Essas coisas acontecem. Solitário no cais, ergueu a mão direita e, como se segurasse uma fina taça de cristal, fez um brinde ao seu amigo, o dono da banca de revistas. Era um bom homem aquele.

Em um instante, sentiu algo tocar seus tornozelos submersos na água turva. Pensou ter visto a silhueta de um peixe, talvez uma sardinha perdida. Possivelmente era uma alga, ou uma sacola de plástico. Sentiu sede. Levantou-se e caminhou até o Mercado do Peixe, que, na verdade, não tinha nada de mercado. Era só um lugar com umas pias e onde, nos finais de tarde, pescadores artesanais vendiam o que tinham conseguido trazer do mar durante o dia. Abriu a torneira e pôs a cabeça embaixo, sorvendo goles de água quente e salobra. Um cheiro forte de pescado entrou por suas narinas e tomou conta de seu corpo. Vomitou. Achou estranho. Aquela era a primeira vez que vomitava em razão do cheiro de peixe. Nascera naquele lugar, crescera nele. Estava mais do que acostumado com os odores. Agora, como um rapazote imberbe da capital que viera visitar os avós nas férias, sentia nojo, seu estômago revirava. Estava envergonhado. Não se reconhecia. Era um rascunho de si mesmo. Grafite sobre o papel.

Ergueu-se como pôde e começou a caminhar. Precisava se recompor. Nem bêbado estava. Talvez tivesse sido o sanduíche de atum que comera à tarde que lhe fizesse mal. Sabia que não era isso, mas buscava uma explicação a todo custo, como quem busca a sorte no truco em uma rodada às cegas. Sabia que a chance de obtê-la era mínima, mas o desespero e, ainda mais, a desesperança, já não sussurrava ao seu ouvido como outrora. Agora, ambos gritavam desafinadamente.

Foi quando as primeiras gotas da chuva quente de verão explodiram em sua face que a triste ideia cruzou a sua mente pela primeira vez naquela madrugada. Não se apegou a ela. Passou feito um raio.

Seguiu por entre as vielas estreitas calçadas com pedra. A essa hora, restavam pelas ruas apenas os homens sem casa, as mulheres sem sonhos. Gente que não tinha para onde ir e que não queria ficar onde todos os outros se conformavam em estar. Gente cansada.  Os olhos caídos, as mãos nos bolsos, o cigarro pendendo do canto da boca. Fracassados. Achava que todos eram uns fracassados. Ele não. Ele não era um fracassado. Estava ali por escolha própria. Sempre fora um marginal. Vivia à margem. Corria paralelamente à linha guia. Gostava disso. Gostava de se sentir livre. Sem rédeas para lhe conter. Sabia, porém, que a liberdade cobrava seu preço. E ele pagava com juros altos.

Lembrou-se de sua infância. Nunca tivera vida fácil. O comportamento exemplar, as boas notas, o respeito aos professores faziam dele um rebelde em um ambiente escolar em permanente tensão. Sentia-se sempre como se tivesse um alvo pintado às costas. Foi assim, entre uma sessão de espancamento gratuito e outra, entre uma fuga desesperada e uma súplica por piedade, que ele forjou sua instável personalidade.

Era um produto do sistema. Um subproduto do sistema. O sistema o mastigara, quando jovem, e o cuspira fora. Já não tinha mais sabor de nada. Era o resto, a sobra.

Levava uma vida normal. Trabalhava oito horas por dia na biblioteca na faculdade Letras da universidade local. Era um rapaz culto, um leitor voraz. Se quisesse, poderia trabalhar como guia da biblioteca. Às vezes, até se imaginava caminhando pelos corredores, entre as estantes altas, indicando com as mãos algumas obras e falando sobre elas e seus autores por muitos minutos. Sentia-se bem quando estava naquele lugar. Sentia-se protegido. Alimentava, porém, um desejo que lhe consumia as forças. Seu coração nunca estivera dentro daquela biblioteca. Foi aí que veio a rejeição. Uma paixão não correspondida. Seu coração, despedaçado.

Quando não pôde suportar a dor que lhe comprimia o peito, largou tudo. Deixou o emprego, os costumes, nunca mais fez contato com a família. A rua passou a ser o seu escritório. Batia ponto lá diariamente. Abandonou o apartamento que seus pais haviam lhe cedido e passou a viver em pequenos quartos de hotéis de quinta categoria. Consigo, levava apenas algumas peças de roupa, um par de sapatos, duas gravatas, e uma mala cheia de livros amarelados.

Na rua, se sentia em casa. E era na rua que estava agora, perambulando. A essa altura, já não enxergava direito as coisas ao seu redor. Tinha os olhos embaçados. Não adiantava esfregá-los. Era como uma pasta grudenta que teimava em não sair. Enxergar mal não era um problema para ele. Conhecia aquela zona em detalhes. Todas as ruas, todas as avenidas, todos os prédios em ruínas, toda a gente sem esperanças. Ainda assim, tropeçou em uma pedra do calçamento que estava fora de lugar. Caiu. Seu corpo chocou-se no chão com um barulho seco. Com muita dificuldade, ergueu-se. Tinha os joelhos esfolados, as mãos arranhadas. Sangue gotejava de seu rosto. Havia perdido dois dentes. Não sentia dor. Estava entorpecido.

Já não tinha mais dinheiro consigo. Nem uma moeda sequer. Precisava beber. A sobriedade o perturbava. Não gostava disso. Ainda tinha cigarros, mas a nicotina, por si só, já não lhe saciava. Necessitava sentir o álcool em sua corrente sanguínea. Era o álcool que alimentava o fogo dentro de si. O cigarro só o acendia.

Trôpego, seguia. Ouviu, ao longe, um som de piano. Não conseguiu, de pronto, identificar a melodia. Estava disperso demais. Precisava se concentrar para identificar as notas. Dava passos lentos, descoordenados. Dobrou uma esquina e ouviu a música ainda mais alta (seria Vivaldi?). Ele sabia de onde vinha o som. Somente um bar naquela região tinha um piano. Aproximou-se da fachada. Encostou a testa no vidro. Pôs o jornal na cintura, como se fosse um revólver, e, com as mãos paralelas às têmporas, olhou para dentro. O cenário não era muito diverso do visto em todos os outros bares decadentes do porto velho. Homens fumando charutos vagabundos, bebendo cachaça barata e cuspindo pelo chão. Havia apenas uma mulher no recinto. Cabelos longos e negros feito a madrugada lá fora. Senta, às sós, em uma mesa, ela ouvia a música e bebericava um drink que ele, da rua, não conseguia identificar qual era. Possivelmente, alguma coisa com vodka. Talvez um Martini.

O pianista tocava para ela. Podia sentir isso. Era nela que ele estava concentrado.  A música (sim, Vivaldi e suas quatro estações!) ecoava nas pedras portuguesas dos calçamentos. Ele estava hipnotizado. As mãos do pianista moviam-se freneticamente durante o Verão. A tensão entre o artista e a mulher de pernas longas e batom vermelho faiscante era crescente. Do lado fora, ele não conseguia se mover. Seu cérebro dizia para entrar, puxar uma cadeira, acender um cigarro. Seu corpo dizia que não, que deveria ficar exatamente onde estava, que sua presença naquele sistema iria desequilibrá-lo, que ele iria romper com a eletricidade do momento. O que será que pensava a mulher? O que fazia ali àquela hora? Desejava o pianista? Sofria? Amava?  Quando a música cessou, também findou o encanto. O pianista esvaziou seu copo de whisky, se levantou e foi ao banheiro. A mulher virou o corpo em direção ao barman e pediu mais uma dose de sua bebida. Ele saiu de seu torpor, girou nos calcanhares e retomou o seu caminho.

Aquela cena o havia afetado de alguma forma. Pela primeira vez, ele percebia beleza naquele ambiente tão hostil. Talvez seu olhar tivesse mudado. Ele não tinha certeza, mas sentia-se diferente.

Foi aí que, pela segunda vez, a triste ideia lhe tomou os pensamentos de assalto. Agora, porém, não foi um flash de luz. Não foi um arrepio. Foi arrebatador. Foi fluxo constante.

Caminhou com obstinada determinação. Já não tinha as mãos trêmulas. Já não tinha os passos arrastados. Era o mesmo, mas já era outro. De um modo que ele não entendia como, sabia muito bem o que tinha de fazer. A neblina se dissipara. Tudo estava tão límpido, cristalino.

Quando deu por si, corria. Sobre seus longos e lisos cabelos castanhos, as gotas da chuva caiam, escorrendo pelo rosto magro. Sua visão clareara. Os olhos injetados.

Dando saltos, dobrando esquinas. Via sua vida refletida em cada poça d’água. Um mosaico de imagens multicoloridas. Cada memória, cada lembrança. Estavam todas lá. Uma a uma, surgiam como furacões. O rosto dela. Palavras ao alcance das mãos. Podia tocá-las se quisesse. Mas não queira. Preferia senti-las. Ondas de emoções. Absorvia-as. As mãos dela. Retratos jogados pela rua, feito peças de um quebra-cabeça que teimam em não se encaixar. Imagem sem sentido. Música para camaleões. Seus pais na varanda dando adeus. Nenhum amigo para se despedir. A voz dela. Contrastes. Campos de flores à beira da estrada. Caminho de pétalas. Desenhos de nuvens no céu. Coelhos, dragões, unicórnios e linces. Vida além da vida. Doce saudade de um passado imaginário. O beijo dela.

Adentrou o prédio e se atirou sobre a porta. Não havia tempo para chaves. Abriu as janelas. A luz da lua. Sombras e silhuetas. Na parede, o velho relógio de ponteiros gritava. Ele não ouvia nada além de sua ofegante respiração. Caminhou em direção ao quarto.  Abriu a gaveta onde guardava meias e cuecas. Do fundo, retirou uma pistola. De volta à sala, deixou o corpo cair sobre a poltrona. Estava exausto. Permaneceu ali, imóvel. A ideia fixa. A ideia fixa.

Esticou o braço direito e pegou a caneta que usava para conferir os bilhetes de loteria. A chuva aumentou, já era um temporal.  Pedras de gelo chocavam-se colericamente contra a janela. Baixou os olhos. O relógio ainda gritava.

No jornal em suas mãos, quatro letras aleatoriamente dispostas em uma página estavam circuladas com fúria. Um nome. Sobre elas, escorriam gotas de sangue quente, de um vermelho vivo.


Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.


domingo, 23 de novembro de 2014


Caixa de Música 

Entre a verdade e o sentir,
Há curvas e caminhos
Que não me deixam mentir.

Entre o desejo e a covardia,
Existem flores e espinhos
Que não podem me ferir.

Mas eu não quero acreditar.
Eu simplesmente não quero acreditar.

É tudo tão bonito.
Perigoso e insinuante.

Não quero acreditar.

É tudo tão doce.
Carinhoso e delirante.

Entre a palavra e o mistério.
Entre o silêncio e o adeus.
Entre a presença e a saudade.
Entre os meus olhos e os teus.

Existe amor e compaixão.
Existe flor.
Existe vida.

Existe raiva e ilusão.
Existe dor
E despedida.

E, entre todas as mentiras,
As frases que não foram ditas.
E, entre respostas pueris,
Os pensamentos proibidos.

Foi tudo um sonho.
Tudo não passou de um sonho.

(Não quero acreditar)

E, vivos na imaginação,
Estão a chave e o segredo.
Dentro da caixa, toca a canção.
Abre a janela, guarda esse medo.
  

domingo, 2 de novembro de 2014

Uma conversa sobre o amor




Estávamos ali. Sentados, frente a frente, no chão de nossa sala de estar. Era um dos últimos dias do outono, não me recordo da data exata. Já havíamos bebido um pouco, mas não o bastante para ficarmos altos. Nem alegres estávamos. Não mais alegres do que costumávamos ficar quando tínhamos nossos momentos juntos.

Já haviam cessado os momentos de risadas. Já haviam cessado os momentos de carinho. Durante uns cinco minutos, só ouvíamos o barulho de nossa respiração. Ritmada, mas não única. Cada uma na sua sintonia. O silêncio foi quebrado por uma pergunta.

“Você me ama?”, disse ela, meneando um pouco a cabeça para o lado esquerdo.

Eu já devia ter dito que a amava algumas centenas, quem sabe milhares de vezes. Mas sempre tinha sido espontâneo. Ela nunca havia me perguntado se eu a amava.

Fiquei um pouco desconcertado, confesso. Uma coisa é você dizer a alguém o que sente ou o que acha que sente por ela. Outra bem diferente é esse sentimento ser questionado.

Ela não perguntou o que eu sentia por ela. Perguntou se eu a amava. Era uma questão que exigia uma resposta de “sim” ou “não”.

Mas eu nunca fui de responder apenas “sim”, ou somente “não”. Ela sabia disso.

Eu retruquei com outra pergunta.

“O que é o amor para ti?”

Um novo silêncio.

Ela buscou com a mão direita a taça de vinho. Estava vazia. A garrafa também.

Titubeou por alguns instantes. Quem não titubearia?

“Acho que... acho que é querer tanto e tão bem ao ponto de, na maior parte do tempo, você se esquecer de si, e pensar somente no outro. Acho que isso é amor.”

Era uma boa resposta. Simples e simplória, mas boa. Inegavelmente boa.

Eu concordei. Amor era isso. Não era somente isso, mas era isso também.

“Eu sinto isso por você”, ela completou, com um carinhoso sorriso sem mostrar os dentes.

Eu não soube como reagir. Ou melhor, eu não soube como ela reagiria à minha reação. É complicado, eu sei. Assim é o Amor. Assim são as pessoas.

Acho que a amava. Mas não sentia o Amor que ela dizia sentir por mim. Eu não me desapegava de mim mesmo daquela forma. Eu pensava nela a todo o instante, eu me entregava, mas acreditava que não poderia deixar de ser eu mesmo. Não poderia me despersonalizar.  

O silêncio pesava uma tonelada. Eu precisava dizer algo. Mas dizer o quê?

“E então, você me ama?”

Eu ainda não tinha uma resposta, mas comecei a falar.

E o que eu disse foi, mais ou menos, isso aqui:

Eu disse que não sabia se o que sentia por ela era Amor.

Disse que sabia o que sentia por ela, isso eu sabia muito bem, mas não tinha certeza de que aquilo era Amor. Poderia ser, poderia não ser. Eu não tinha certeza.

Eu a queria junto de mim. A queria perto.

Eu nunca havia sentido por alguém o que sentia por ela. Já tinha me apaixonado algumas vezes. Eu me lembrava perfeitamente de cada uma dessas paixões. Todas elas fizeram de mim a pessoa que eu era agora. Todas elas me ensinaram coisas. Elas adicionaram em mim, cada uma ao seu jeito, pitadas de sentimento.

Eu disse que, hoje, sentia de um modo mais completo, mais profundo, mais alicerçado. Não era pueril. Não era arrebatador. Não era fulminante. Era sólido. Luminoso. Sem arestas.

Não era chama nem raio. Era mar sereno.

O que eu sentia por ela independia de momentos extremos. Ela me acalmava.

E quanto mais eu falava sobre o que ela significava para mim, sobre o homem que eu era ao lado dela e sobre como eu era antes de ela entrar em minha vida, mais eu questionava a mim mesmo se aquilo era Amor.

Havia desejo, havia excitação, havia muito, mas eles ocupavam uma posição secundária em relação ao carinho, ao querer estar junto, ao cuidado, à atenção.  

Eu disse para ela que achava o conceito de Amor algo muito abstrato. Ela custava a entender.

Disse que, em determinado momento de minha vida, achava que o Amor de verdade era uma coisa inatingível, pois nos relacionávamos com outras pessoas com o objetivo claro de satisfazer nossas vontades e desejos. Eu achava que gostávamos de estar com outra pessoa porque aquilo nos fazia bem, nos agradava, pouco importando o significado da relação para o parceiro. Eu via o envolvimento amoroso como algo deveras egoísta.

Ela balançava a cabeça negativamente. “Absurdo”, dizia. “Absurdo”.

Eu concordei. Agora eu já não pensava mais assim. Agora eu via o Amor como mais do que um sentimento. Eu via o Amor quase como um estado de espírito, assim como a felicidade. Achava, aliás, que os dois se completavam: o amor e a felicidade. Imiscuíam-se. Quase que dependiam um do outro. Não via a possibilidade de uma vida realmente feliz sem o Amor.

Os anos haviam me transformado, me enternecido. Disse que ela havia contribuído com isso. Ela era um dos motivos dessa mudança. Ela esboçou um sorriso discreto, mas bastante sincero. Apesar disso, me parecia claro que não estava satisfeita com minha resposta. Aliás, de fato, eu não havia respondido à sua pergunta, que era clara, direta e objetiva.


“Você me ama?”


Uma pergunta clara, direta e objetiva. Uma resposta confusa, sinuosa, complexa.

Assim era eu. Assim eu achava que era o Amor.


O que eu queria dizer para ela e que, talvez, não tenha conseguido fazer de forma certa naquela noite, era que o Amor não se define. Amor não se dá, não se recebe. Amor se sente.  

Por causa disso, por ser tão disforme, por ser tão escorregadio, tão singular, é que é tão difícil definir o que é o Amor. E é por ser assim, difícil de definir, difícil de dizer o que é e como é, que eu não conseguia olhar nos olhos dela e dizer se a amava ou não.


“Você não tem certeza do que sente por mim. Fica enrolando, tergiversa. Acho que você... sei lá... acho que você nunca amou ninguém de verdade.”


Ela podia ter razão em relação à segunda parte. Não acho que tinha, mas podia ter. Talvez eu nunca tivesse amado alguém de verdade. Sobre a primeira parte, sobre eu não ter certeza do que sentia por ela, ela não estava certa.

Eu nunca sentira por alguma pessoa o que sentia por ela. Eu estava sendo sincero. Se era Amor, se era intensa afeição, se era compaixão, eu não sei. Era forte.

Enquanto eu falava, olhava com atenção para o rosto dela. Como era bela. Cabelos negros. Olhos amendoados. Uma mistura luso-italiana típica. Expressão ameaçadora e dócil ao mesmo tempo. Ela era um pequeno furacão. Tinha um magnetismo sui generis. Atraía as atenções, mesmo calada, mesmo discreta. Eu não havia me apaixonado à toa.

Ela não me interrompia, mesmo estando claramente inquieta. Eu não parava de falar. Ela parecia querer ouvir.

Tentei explicar que o Amor era um sentimento, ou, como eu achava que era, um estado de espírito, muito pessoal. Que cada um sente de um jeito e, assim, cada um ama do seu próprio modo. Eu amava do meu jeito, que, obviamente, era diverso do jeito dela. Assim sendo, é possível que, pelo ponto de vista dela, eu não a amasse.

Foi aí que ela me interrompeu.


“Eu sei o que eu sinto por ti e eu digo que te amo. Eu até grito, se assim quiseres: EU TE AMO!! Tá bom assim? Eu não sei porque não podes dizer também. É tão simples, não dói. A mim não importa se o que tu sentes é diferente do que o que eu sinto. Não me importa se o teu amor é diferente do meu amor. Não me importa nem um pouco. A mim só importa se tu me amas. Só me importa se tu me amas do teu jeito de amar. É isso que me importa. Nada mais.”


Fiquei sem palavras. Eu, que tanto havia falado, fiquei sem palavras.

Era isso. Eu falei muito, ela dissera tudo o que havia para ser dito.  


“Sim”.

A minha resposta foi “sim”.


Ela sorriu um luminoso sorriso. Levantou-se e foi buscar outra garrafa de vinho.

Eu sabia que ela não acreditava naquele “sim”. Ela sabia que eu a amava. Muito.