sábado, 15 de julho de 2017

Espelho


Não quis dizer
Palavra alguma
Apenas papel e caneta
Lembrança e presença
Em suas mãos
Juntas
Em prece

Memória guardada entre retalhos
Restos e pedaços de dias sem cor

Ninguém por perto

Um grito agudo
Janela fechada
Porta com tranca
Tempestade presa
Dentro de si

Um muro ao redor
Ninguém entra nada sai
Tudo persiste na boca estômago vísceras
E vai e volta e percorre
Está em suas veias e sangue e ossos e pele


Não foi nada já passou estou bem obrigada até logo
Silêncio na casa vazia
Olhos no espelho
Corpo nu
Contornos e curvas
Sorriso sincero

Expurgo da dor que ali fez morada

Nada do que ouviu restou
Nada do que foi dito restou
Nada restou
A não ser ela mesma

Nem medo nem fúria nem ódio

Abraço no amor
Que não conhecia

Prazer,sou eu
Estou aqui
Contigo
Para sempre
Teu lar
Em ti

domingo, 4 de junho de 2017




Da saudade


Não ouviu a voz.
Não sentiu na pele.
Lembrança que insiste em ficar.
E fica.

Presença que pulsa.
E fala a todo instante


"Estou aqui, estou aqui"


Tempo que não é mais tempo.
Sorrisos e memórias.
Nada em seu lugar.
Retrato caído no chão.
Copo vazio.
Livro fechado.
Páginas que não foram lidas.
Palavras que não dizem.
Imagem nítida.
Constante.

Um grito que não deixa dormir.
E que, dormindo, sussurra baixinho


"Estou aqui, estou aqui"


No silêncio, silencia
E mostra que a ausência
É só passagem.

O cheiro.

Negros cabelos escorrendo entre os dedos.
O toque das mãos.
Os olhos que carregam o universo.
Aqueles olhos que carregam o universo.

Todos os minutos.
A toda hora.
Em todos os dias.


“Estou aqui, estou aqui”


E já não há o que separe.
Não há distância que esmaeça
As cores no jardim do teu sorriso.

Nome riscado sobre a mesa.
Desenho na parede.
Laço desfeito.
Linha cortada antes do fim.
Do fim.

Sete luas e sóis.
Um rosto nas nuvens.
Espaço entre nós.
Ruas sem gente.
Tarde no parque.
Caminhos cruzados.
Gota que cai sobre a testa.
Vento que faz as folhas dançarem no ar.
Restos de luz. 

A falta que faz
O agora,
O antes
E o depois que não veio (ainda).

Na despedida.
No adeus que não foi dito.
No sonho de todas as noites.
Na lágrima que escorre pela face.
No amor que espera o reencontro.
Estás aqui.

Aqui.

Em mim.

sábado, 20 de maio de 2017

O assassino acordou antes do amanhecer




Faltavam sete minutos para as cinco horas da manhã quando ele despertou. Sabia que iria matar naquela noite. Seus dedos formigavam.

Uma garganta cortada. Um corpo na areia à beira do lago.

Não fazia aquilo por mal. Sentia uma espécie de compulsão. Algumas pessoas precisam de sua hora de exercícios logo após o amanhecer, outras não conseguem dormir sem uma dose de uísque puro. Ele precisava matar.

Não sentia remorso, pois não entendia fazer algo errado. Era um hábito que adquirira e que, agora, depois de tantos anos, não se via mais em condições de abandonar.

Cedo naquela manhã, enquanto tomava uma batida de banana com leite e comia torradas lambuzadas com mel, lia o jornal com a habitual tranquilidade. Tinha interesse especial pela sessão de quadrinhos e pelas páginas de esportes. Gostava muito de tênis e até arriscava alguns saques, rebatidas e voleios nos finais de semana sempre que podia. Lhe fascinava a elegância dos movimentos, o girar dos quadris a cada backhand, o bailar das pernas em cada subida à rede, os saltos acrobáticos quando de um smash. Era o balé na quadra que o encantava e não o jogo em si. Não se importava muito com quem ganhasse ou perdesse, desde que lhe apresentassem um espetáculo para os sentidos. Naquele dia, havia uma boa foto vertical de um tenista que ele não conhecia muito bem, mas que tinha um nome cheio de consoantes e, estranhamente, exibia largas costas de nadador, algo pouco típico em um atleta das quadras. Como de praxe, recortou a imagem e a colocou em seu álbum, junto com todas as outras.

Vestiu-se, conferiu o penteado no espelho, perfumou-se e saiu. Trabalhava em um banco. Atendia as pessoas. Era o responsável pela autorização de empréstimos e pela concessão de linhas de crédito imobiliário. Passava o dia ouvindo histórias tristes de gente que precisava muito do dinheiro para pagar a cirurgia de um parente qualquer e histórias fofas de gente que sonhava em comprar uma casa e iniciar uma vida nova em seu próprio cantinho.

Ele se emocionava com cada drama que ouvia. Assassinos também têm coração.

Levava em um estojo dentro da mochila uma faca de açougueiro curta, com a lâmina curvada e cuidadosamente polida. Achara a faca quando tinha 13 anos de idade, no fundo de um baú com coisas que haviam pertencido ao seu avô materno. O velho, Carmelo, era um imigrante italiano da Toscana que veio ganhar a vida como açougueiro na América. As histórias familiares diziam que ele era muito bom no que fazia. Tinha mãos firmes e precisas, e um corte rápido e limpo.

Ele gostava daquelas histórias. Sentia não ter conhecido o avô. Parecia ter sido um homem de princípios. Um chefe de família rígido, rude, iletrado, mas um homem digno, autodidata em seu ofício e, acima de tudo, consciente da importância daquilo que fazia. O que seria do mundo sem os açougueiros? Preferia nem pensar nisso. Seu avô havia sido um açougueiro famoso na comunidade e ele tinha orgulho.

De Carmelo, herdara a faca de lâmina curta e curva, o modo de gesticular com as mãos e a habilidade no corte da carne.

Aquele dia de trabalho foi bastante agitado para ele. Pela manhã, atendera cinco pessoas. Todas elas precisavam de dinheiro emprestado. Uma mãe de meia idade que queria comprar um computador novo para os filhos; um homem beirando os 40 que necessitava quitar dívidas de jogo; um senhor com seus oitenta e tantos que tinha de pagar os custos do enterro de sua esposa; um jovem na casa dos 20 que estava ansioso para comprar o anel de noivado para sua amada; e uma moça beirando os 18 que não tinha dinheiro para pagar a fiança do namorado. Concedeu o dinheiro a todos, menos à moça da fiança, pois ela era menor de idade. À tarde, encaminhou três contratos de financiamento imobiliário que lhe tomaram muito tempo e um pouco de bom humor. Ainda assim, mesmo cansado, mostrava-se um rapaz simpático e educado com todos. Mantinha a fala rápida e o olhar interessado que tanto encantavam os clientes do banco. Por isso, era o funcionário queridinho do gerente.

Fazia sol quando o expediente acabou. Saiu do trabalho e foi dar uma caminhada pelo parque central. Gostava de olhar o movimento de fim de tarde. Observar os tipos que frequentavam o lugar. Começava a escurecer quando resolveu ir a um pub que ficava a algumas poucas quadras dali. Por quase três horas, bebeu cerveja escura sentado junto ao balcão.

Olhava o entra e sai buscando compreender o que levava as pessoas àquele lugar sujo, escuro e impregnado com cheiro de vômito de dezenas, quem sabe centenas, de bêbados que despejaram ali mesmo, no chão do salão, o que levavam em seus estômagos já cansados de serem tão maltratados.

Era geralmente em lugares como aquele que ele escolhia suas vítimas. Não era uma escolha aleatória. Tinha dias em que demorava muito e só lá para o fim da madrugada, início da manhã, encontrava o que procurava. Ele não se via com um caçador. Ao contrário, enxergava-se como um penhasco que atraia os desesperados. Sentia que o senhor destino mexia seus pauzinhos e colocava em seu caminho as pessoas certas, aquelas que procuravam força ou esperavam a última gota transbordar a sua vida cheia de tristezas e derrotas. Apenas fazia aquilo que eles próprios não tinham coragem suficiente para fazer. Assumia o fardo do trabalho sujo. Carregava o peso de cada vida que ceifara.

Não se sentia mal por isso. Prestava favores a pessoas que não haviam lhe pedido ajuda, mas que precisavam dela. Ao menos, era assim que pensava. Era um trabalho como qualquer outro. A diferença é que ele não era contratado por ninguém e não cobrava pelos serviços prestados.

Naquele dia, fazia pouco mais de meia hora que estava bebericando e observando cada um que entrava no bar, quando viu cruzar a porta uma jovem de cabelos negros e olheiras profundas sob os olhos.

Ela vestia uma jaqueta de couro sobre uma camiseta de banda de rock. Ele não conseguiu identificar qual era a banda com a iluminação fraca do lugar. Calças jeans surradas e tênis de solado baixo. Ela estava sozinha e se sentou em uma poltrona mofada que ficava num canto. Ninguém sentava naquela poltrona. Ela era velha, fedia e ficava quase ao lado da porta do banheiro. Apenas uma pessoa que já não tinha mais nada a perder, que desistira de sua vaidade, que não cultivava perspectivas, se sentaria naquela poltrona.

Era esse tipo de pessoa que lhe atraía. De certa forma, acreditava que cumpria uma missão. Aquelas pessoas das quais arrancava a vida lhe encontravam. De um modo ou de outro, acabavam lhe encontrando. Ele não procurava ninguém. Nunca havia procurado. Era um instrumento pelo qual algum tipo de força maior agia. Respondia a um chamado que não sabia de onde via, mas que ouvia em seu íntimo.

Sentado em seu banco alto em frente ao balcão, observava a moça atentamente. Não olhava fixamente para ela. Sua análise não podia ser ostensiva a ponto de a deixar desconfortável e fazer com que ela fosse embora antes de ele ter um diagnóstico completo e totalmente confiável.

Tinha de se aproximar sem ser notado. Encostar nela sem sair do lugar. Sentir o que ela sentia sem saber o seu nome. Para isso, necessitava da combinação perfeita entre tempo e espaço. Precisava se conectar com a garota. Vibrar na mesma frequência que ela. Sentir em seu peito o bater do coração que batia no peito dela. Só depois disso, apenas após encontrar-se envolto da energia emanada por ela, poderia saber se estava correto em sua impressão inicial. Às vezes, ficava por horas tentando encontrar o ponto certo de equilíbrio e, ainda assim, não chegava nem perto. Em outras ocasiões, porém, bastavam cinco minutos para ter certeza de que aquela era a pessoa que estava destinada a ele.

Nunca se arrependera de um assassinato. Nunca perdera o sono por ter matado.

Ela bebia em silêncio um uísque sem gelo. Por vezes, ele tinha a impressão de que ela também o observava furtivamente. Ela era de uma discrição total. Gestos contidos, expressão plácida. À distância, ele tentava desvendar o mistério que ela representava. Era diferente de todos os outros alvos. Não dava sinais, ocultava as pistas. Dificultava seu trabalho ao extremo. Ele gostava disso.

Sentia-se desafiado. Ela atiçava nele um desejo de conquista que era mais curiosidade do que posse. A cada minuto que passava, tinha mais certeza de que era ela. Fora colocada em seu caminho para que ele pudesse provar para si mesmo que estava desenvolvendo seus instintos, que podia ir além do óbvio, podia encontrar o inseto embaixo da pedra.

Ela era um ponto de interrogação em meio à penumbra e ele não encontrava a resposta. Nem chegava perto. Olhava mais e mais para ela. Colocava sua missão em risco, mas não conseguia fingir indiferença diante de tamanho magnetismo.

No estojo dentro da mochila colocada aos seus pés, a faca de açougueiro de lâmina curta e curva de seu Carmelo pulsava. Seus dedos formigantes tamborilavam no balcão velho de madeira. A respiração rápida.

Ela parecia impassível. Não demonstrava reação alguma. Agora, fumava um cigarro. Despreocupada. Não estava nem aí para o mundo. Não havia um mundo. Não fora daquele bar, não longe daquela mesa. Seu olhar, ora mirava o copo baixo que ela mexia para fazer o uísque balançar, ora apontava para o ventilador de teto que girava lentamente e não fazia vento algum, mas dava um certo ar blasé ao lugar.

Diante do ineditismo da situação, ele começou a duvidar de si mesmo, da sua capacidade, do seu dom. Teria perdido seus poderes? Não, não era isso. Ela o levava ao limite, o fazia seguir por caminhos desconhecidos. Pensou em mudar sua estratégia. Levantar, se aproximar, pedir licença, puxar uma cadeira, sentar junto e puxar papo. Nunca fizera isso. Nunca pensara em fazer isso. Mas, nunca, também, se vira em um cenário como aquele. Não sabia o que fazer. Admitiu para si mesmo que não sabia o que fazer. Depois de tantos anos naquilo, via-se como um iniciante. Tateava no escuro.

Já tinha perdido a noção do tempo quando percebeu que ela se levantara, deixara algumas notas de dinheiro sobre a mesa e já cruzava a porta em direção à rua. Levantou-se de um salto e deu passou rápidos rumo à saída quando ouviu seu nome gritado pelo atendente do balcão. O homem gritou três vezes até ele ouvir. Voltou, pagou a conta, e saiu correndo. Na calçada, percorreu com os olhos a rua já vazia àquela hora da noite. Ela não estava lá. Ela não estava em lugar algum.

A tinha perdido. Pela primeira vez, tinha perdido um de seus alvos. Não poderia seguir adiante sem fazer o que tinha de ser feito. Ainda sob o efeito da adrenalina secretada em seu corpo, tinha os sentidos aguçados como os de um caçador no meio de uma floresta fechada. Sentiu no ar o cheiro de cigarro barato, o mesmo tipo que ela tragava no bar. Seguiu a passos rápidos a trilha de fumaça até que ela desapareceu. Havia caminhado uns dois quilômetros, mais ou menos. Entrou em um boteco, um muquifo onde vagabundos da noite bebiam cerveja barata e falavam banalidades à espera do amanhecer enquanto esqueciam de suas vidinhas ordinárias. Perguntou ao homem no caixa se ele havia visto uma mulher com as características dela. O homem disse que sim, que uma moça igual àquela que ele descrevera havia estado ali há alguns minutos, comprara chicletes e partira. Ele agradeceu com um aperto caloroso de mão – que carregava consigo uma nota de vinte pratas – e saiu ao encalço dela.

Caminhou por pouco mais de 10 metros, e viu no chão uma embalagem. Abaixou-se e a pegou, percebendo que se tratava do doce que ela tinha comprado no bar. Havia deixado uma pista. Conscientemente ou não, ela havia deixado uma pista para ele seguir. E ele seguiu. Uma a uma. Uma bagana de cigarro. O chiclete já mascado e cuspido no chão. Uma pegada na terra molhada pelo sereno da madrugada. Outra bagana.

Quando deu por si, estava perto da Usina. Àquela hora, o movimento nas ruas era bem fraco. Alguns poucos transeuntes caminhando solitários, um casal trocando intimidades na praça, um mendigo revirando as cestas de lixo, três jovens fumando um baseado sentados sob uma árvore.

Ao longe, em meio à penumbra, conseguiu visualizar uma silhueta. Apenas um vulto, mas teve certeza de que ela era. Sentiu a energia de novo. Apertou o passo. Não poderia perdê-la mais uma vez. Atravessou a avenida em disparada. Não gostava do que estava fazendo. Sempre fora discreto em suas abordagens. Nunca despertou suspeitas. Nenhuma. Agora, estava correndo em desespero pelas ruas atrás de seu alvo.

À beira do lago, procurava na areia pegadas que pudessem indicar para onde ela teria ido. Na escuridão, precisava sentir a sua presença mais do que vê-la. E foi assim que, de repente, um ar quente de respiração bafejou sua nuca. Por não mais do que apenas um instante, ficou estático, sem nenhum movimento, sem pensar em nada. Não precisou olhar nos seus olhos, sentir o seu cheiro, para saber que era ela. Não precisou se virar para compreender o que acontecia ali. Finalmente entendia o que aquele sentimento pela manhã, o que aquele encontro no bar, o que aquela perseguição pela noite significavam.

Havia sido um tolo presunçoso. Achara que era único. Percebia, agora, porém, que fora uma marionete em um jogo do qual não tinha noção de que estava participando. Não cumpria uma missão, ao menos não uma missão pessoal. Não era um enviado de uma força superior.

Lembrou de Carmelo. O avô que chegara àquela terra sem nada e que se fez homem à base de seu trabalho. A habilidade com as facas herdada do velho. Talvez conseguisse, se fosse rápido o bastante...

Levou a mão na mochila, mas não teve tempo sequer de tocá-la. A mão esquerda em seu ombro, o movimento preciso da lâmina rasgando a garganta

No chão, enquanto se engasgava com o próprio sangue, olhou para ela. Não enxergou remorso ou pena ou qualquer tipo de sentimento em seu olhar frio.

...

Era esse tipo de pessoa que a atraía. De certa forma, acreditava que cumpria uma missão. Era um instrumento nas mãos de algo maior. Respondia a um chamado.

Faltavam doze minutos para as três horas da manhã quando deitou-se para dormir. Sobre a cômoda ao lado da cama, a navalha que havia sido de seu pai, que fora barbeiro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Lindo foi o dia em que choveu amor



Lindo foi o dia em que choveu amor naquela cidadezinha pacata do interior.

Era o meio da tarde de uma quarta-feira de outono. Fazia um frio incomum para a época do ano. As pessoas caminhavam encasacadas pelas ruas e quase não se ouviam vozes. Na janela, senhorinhas observavam o movimento enquanto tomavam chá quente. No campo, os plantadores e colhedores semeavam e colhiam sob o céu de um azul celeste sem uma nuvem sequer em todo o horizonte que os olhos podiam ver. Na escola primária, a professora passava uma lição de matemática para uma turma de atentos alunos. O carteiro levava na bolsa o relato de um filho que sentia saudades da mãe que deixou para trás. Uma menina corria de bicicleta pela estrada de terra batida. Um velho homem pescava sozinho no açude.

Tudo ocorria como sempre ocorrera. Era apenas mais um dia normal naquela cidadezinha pacata do interior.

Até que choveu amor.

Foi de repente. Não houve anúncio. Nem um trovão sequer. Veio uma gota. E depois outra. E, depois, vieram todas as demais. Era uma chuva quente e leve. De início, ninguém percebeu que aquela era uma chuva especial. Seguiram todos nos seus afazeres. Aquilo não os atrapalharia.

Quem primeiro notou que havia algo de diferente nos pingos que caíam lépidos do céu foi uma menina. Sete anos de idade. Cabelos escuros abaixo dos ombros. Grandes e curiosos olhos castanhos. Ela estava sozinha, sentada no meio-fio da calçada em frente à casa onde morava com a mãe e a avó. Nas mãos, tinha um livro. Ela quase sempre tinha um livro nas mãos. Quando não os segurava, carregava no cesto da bicicleta, ou deixava na mesinha ao lado da cama, ao alcance de um espichar de braço. Naquela tarde, ela estava sentada no meio-fio da calçada em frente à casa onde morava com a mãe e a avó.

Quando a primeira gota explodiu sobre as páginas do seu livro aberto, ela não se assustou nem saiu correndo para se abrigar. Ficou onde estava e sorriu. De pronto, percebeu que aquela não se tratava de uma chuva comum. Sentiu o calor tocando sua pele e um perfume de rosas no ar. Ouviu os pássaros inquietos saírem dos galhos das árvores e dançarem em conjunto no ritmo do bater das asas.   

Luana era o seu nome. Ela estudava pela manhã e era uma aluna bem adiantada na sua turma. Na escola, tinha fama de bagunceira, mas não era verdade. O que os professores entendiam como desobediência e indisciplina, era, na realidade, insatisfação com o básico. Luana tinha em si aquele sopro de curiosidade viva que todos têm quando nascem e que vão perdendo com o passar dos anos. Apenas alguns poucos o mantém. Aquele sopro. Luana o manteve.

Olhou para o céu e viu nuvens cor de rosa formando desenhos. A menina ficou de pé. Maravilhada, tirou os óculos de aros grossos, esfregou os olhos, e voltou a colocá-los. Ela não duvidava daquilo que via. Não achava que aquilo era um sonho ou algum tipo de alucinação. Ela acreditava na possibilidade de coisas extraordinárias acontecerem. Sempre acreditara. Nunca fechara seu coração para o fantástico. Nunca deixara de acreditar no impossível.

Era um ponto colorido em meio ao cinza. Pele rosada junto à palidez. Estrela brilhante no céu noturno.

Um formigamento tomou conta de seu franzino corpo. Começou a dar pequenos saltos no mesmo lugar. Precisava correr. Olhar tudo, percorrer os caminhos de sua infância, gritar bem alto, avisar a todos. Por que não estavam na rua como ela? Por que se escondiam sob os telhados? Por que não olhavam para o céu? Do que fugiam?

Fechou os olhos e respirou fundo. O mais fundo que podia respirar. Ali, em seu momento íntimo consigo mesma, Luana buscava encontrar-se com sua essência. Ela sabia que aquilo iria acontecer uma hora ou outra. Sempre soube. Não gostava de ficar em seu quarto. Ia para a escola caminhando, não de ônibus. Insistia para os professores darem aulas ao ar livre. Não perdia a oportunidade de tomar um banho de chuva por nada. Andava descalça sempre que podia. Era livre em sua imaginação e isso lhe bastava para ser feliz.

Quando começou a chover amor naquela tarde, percebeu que tudo se encaixava. Tudo fazia sentido. Tudo finalmente fazia sentido. Cada escolha. Cada olhar. Cada sensação. Seu corpo, agora respondia ao que seu espírito sempre lhe mostrou. Estava certa em sua inocente rebeldia.

Foi retirada de seu transe quando, da janela, sua avó gritou pelo seu nome. Mandando a neta entrar para se proteger da chuva e não pegar um resfriado, ela chegou a elevar o tom da voz, mas Luana não lhe deu ouvidos. Aquilo não fora um desrespeito a avó que a amava tanto. Acima de tudo, a menina respeitava o espetáculo que a vida e o universo lhe proporcionavam naquele instante e que não sabia se iria se repetir. Provavelmente não. Nunca ouvira falar que, no passado, já chovera amor na cidade. Era a primeira vez. Talvez, a última. Possivelmente, a única. Assim, antes de obedecer à avó, Luana precisava respeitar a sua natureza inquieta. Precisava ouvir a sua voz interior que, desde que ela se conhecia por gente, gritava bem alto por mais, por muito mais.

Saiu em disparada pelas ruas de pedra regular. Os cabelos soltos e as mãos balançando a cada passo, a cada salto. Não levava nada nas mãos. Deixara o livro sobre o meio fio da calçada. Percorrendo as ruas, dobrando as esquinas, cruzando os caminhos, ela ia batendo em todas as portas de todas as casas. Queria que todos que viviam naquela cidadezinha pacata do interior saíssem à rua, vissem o que estava acontecendo, sentissem o que estava acontecendo.

Enquanto corria, abria os braços para sentir a chuva tocar sua pele e abria a boca tentando capturar uma gota aqui e outra ali. Sempre imaginara como seria o gosto do amor se ele fosse uma fruta. Em sua imaginação, o amor não seria igual a nenhuma outra fruta conhecida. Seria algo novo, totalmente diferente. Teria todas as cores, seria doce e forte e suave e teria o poder de transformar a vida de quem a provasse. E brotaria em todos os lugares, desde que fosse regada com afinco, desde que fosse cuidada e valorizada. Desde que fosse tratada sempre como a primeira, sempre como a única.

Não foram muitas as almas que se sentiram tocadas pelo chamado de Luana. Foram bem poucas, aliás. O barbeiro olhou para a porta com cara de poucos amigos e seguiu lendo seu jornal. O farmacêutico continuou fazendo o balanço de seu estoque de remédios. A costureira sequer se levantou de onde estava pregando botões em um vestido de noiva. A advogada abriu rapidamente a cortina para ver se era um novo cliente e, desanimada, voltou aos processos.

Luana seguia correndo. Entrou no pátio da escola e bateu nas portas de todas as salas, inclusive na da diretora, que, ao sair, só viu o rastro de poeira deixado para trás no corredor. A menina até tentou entrar no hospital, queria trazer os doentes para a rua, um por um, para experimentarem aquilo que ela experimentava, a vida em sua magnitude, mas os guardas mal-humorados não a deixaram passar da recepção. Uma pena, pois achava que, se o amor, um novo amor, tinha o poder de curar um coração partido, o que não faria com uma pneumonia?

Cansada de correr e gritar sem ser ouvida, a menina teve de parar e recuperar o fôlego. Olhando a chuva cair, percebeu que tudo ao seu redor estava diferente. Havia mais frutos nas árvores e a grama no parque estava mais verde. Os jardins floriram fora de época e o vento assoviava canções de ninar.

Sozinha na rua sob a chuva de amor, Luana se pegou pensando em quão formidável era aquilo que se passava naquela pequena cidade do interior e em quão sortuda ela era em estar ali naquele momento. Olhando para o céu, para o chão, olhando à sua volta, para suas mãos, a menina imaginou qual a probabilidade de aquilo ocorrer uma única vez na história do mundo e ser na sua cidade e ser em uma época em que ela estava viva caminhando sobre a Terra. Luana era boa em matemática, mas achou que gastar alguns minutos para fazer o cálculo seria um desperdício de vida. Bastava saber que a possibilidade de todos aqueles fatores ocorrerem era mínima, menor do que mínima, quase inexistente.

Era uma privilegiada, portanto. O universo age de modos misteriosos e inexplicáveis e, desta vez, conspirara para que chovesse amor naquele fim de mundo. E foi assim que aconteceu.

Findou seu périplo pela cidade e se viu na praça central, bem no meio dela. A chuva cessara. Um arco-íris colorido pintava o céu.

Ao seu redor, a cidade permanecia a mesma. Nada mudara. Ninguém saíra à rua para ver a chuva. Ninguém abrira a boca para sentir o gosto das gotas na ponta da língua. Todos seguiram suas rotinas ordinárias, em suas vidas coreografadas.

Luana vivera um sonho. Se aquilo tudo fora real ou não, não sabia ao certo.

Na janela de sua casa, a avó gritava por seu nome. “Vai pegar um resfriado, menina!”, dizia. Provavelmente, ela estava certa. Luana corria grande risco de se resfriar. Seus cabelos pingavam, o vestido estava encharcado e os pés descalços estavam sujos de lama. Ainda sem responder ao chamado da avó, a menina fechou os olhos e tentou se desligar de todos os pensamentos. Queria gravar com tinta forte em sua memória aquilo que havia vivido há pouco. Respirou fundo e sorriu. Estava feliz. Profundamente feliz.

Aos sete anos de idade, Luana soube qual era o seu lugar no universo. Todas as terras distantes, todos os recantos escondidos, todas as cidades e campos, ao Norte e ao Sul. Não importa onde estivesse, não importa por onde andasse, ela sempre estaria ali, naquela rua, em frente à sua casa, banhada por gotas de amor.

Lindo foi o dia...

sábado, 16 de julho de 2016

Os quatro muros de Júlia



Acordou, levantou-se da cama, abriu a janela, e viu, do outro lado da rua, uma frase pintada no muro. Coçou os olhos para enxergar melhor. Estava lá.

“Ainda te amo, Júlia.”

Depois da morte do irmão mais novo, ela não costumava sair muito de casa. Tornara o apartamento uma espécie de fortaleza onde sentia-se segura e, mais ainda, acolhida de um modo que nunca conseguia se sentir em lugar algum. Não havia olhares, nem julgamentos. Estava longe de tudo o que lhe fazia mal.

Trabalhava em casa como consultora de uma pequena editora local. Garimpava novos talentos, cuidava de originais, dava pareceres, revisava, mantinha contato com os autores. Era a ponte invisível que ligava os escritores, em sua maioria iniciantes pretensiosos, ao editor, um professor universitário aposentado que viu no mercado literário um passatempo pouco lucrativo, mas que dava bastante retorno com a bajulação nos círculos sociais.

Sua vida andava nos trilhos nos últimos dois anos. Levara um ano inteiro para se curar da depressão que quase lhe tirou a vida após a tragédia familiar. Mas agora estava bem. Encontrara um trabalho que lhe satisfazia intelectualmente e que lhe rendia o suficiente para se manter. Não precisava sair de casa pela manhã cedo nem voltar tarde da noite. Fazia as compras no mercadinho da esquina que, apesar de ser mais caro do que o supermercado dois quarteirões abaixo, estava sempre vazio às tardes, e ela pagava alguns reais a mais com gosto para não ficar em filas ou ter de desviar ou esbarrar em pessoas nos corredores. O sossego tem o seu preço.

Júlia havia entregue seu último trabalho na noite anterior. Era um ótimo livro de poesias eróticas escrito por uma senhora de seus sessenta e tantos anos, bancária aposentada, e que escrevia sob um pseudônimo, pois tinha vergonha do seu talento. Ela tentou por dois meses convencer a mulher a revelar para o mundo o quão sensível e bela era a sua visão do sexo. Mandou e-mails, mensagens no celular, telefonemas, até pensou em fazer uma visita, mas aí já seria demais. De nada adiantou. Devolveu o trabalho ao editor com muitos elogios e uma extensa recomendação para publicação.

Ainda pela manhã, iniciaria sua nova tarefa. Sabia que seria um serviço de edição completo. Iria trabalhar os originais, cortar, incluir, reorganizar e revisar o texto, trocar e-mails com o autor para obter as aprovações a respeito das mudanças e, depois de cerca de um mês, devolver o material prontinho para ir para a gráfica. Não tinha ideia do que se tratava a obra e não se importava com isso. Enxergava as leituras para o trabalho como trabalho. Não se divertia, não relaxava. Via de regra, esquecia do que tratava o texto dois ou três dias depois de terminar de lê-lo. Não podia se envolver com a história, com os personagens, sob o risco de perder a objetividade na avaliação.

Acordara disposta naquele dia. Ainda não eram sete horas da manhã quando abriu a janela para deixar o luz do sol entrar e, assim, poder fazer seus exercícios de yoga no quarto. Ela não contava, porém, com aquela frase no muro. Aquela frase mudou tudo.

Alguém ainda a amava.

Não se lembrava da última vez em que ouvira uma declaração de amor. Sequer tinha certeza se alguém já havia se declarado para ela. Talvez sim, talvez não. Mais provável que não. Iria se lembrar. Não se esquece um “eu te amo” sincero. Ela não esqueceria. Tinha uma excelente memória. Recordava o nome o sobrenome de todos os seus colegas de jardim de infância. E isso tinha sido há uns 25 anos. Lembraria de um “eu te amo”. Certamente lembraria.

Ninguém passa incólume a um “eu te amo”. Júlia sabia disso. Sabia que um “eu te amo” mexe com as pessoas. Poucas eram as histórias que lera em que um “eu te amo” não estivesse escrito em uma página, ou em mais de uma, geralmente no meio, algumas vezes no início, e raramente, no fim.

Júlia tinha sete anos de idade quando os pais se separaram. Aquilo não a deixou mal. Eram as brigas diárias no café da manhã e no jantar que a faziam chorar. Era isso que vinha à sua cabeça quando tentava se lembrar da época em que viveram na mesma casa ela, o irmão e os pais. Eles brigavam por qualquer coisa. Sobre o programa que iriam ver na televisão, sobre um par de meias que não tinha sido lavado, sobre a geleia de morango que estava no fim e não tinha sido reposta, sobre quem iria na reunião de pais e mestres na escola. Não gostavam um do outro e, assim, transformavam qualquer pequena discordância irrelevante em uma declaração de guerra. Júlia e o irmão viviam em meio ao fogo cruzado. Mesmo não sendo os alvos, seguidamente saíam chamuscados pelas chamas do combate.

Sempre que os pais começavam uma discussão, Júlia pegava o irmão três anos mais novo pela mão e o levava para o seu quarto. Lá, com uma pequena lanterna, cobria ambos com um lençol. Ficavam ali inventando histórias até que a briga acabasse. Aquela era a fortaleza que os mantinha a salvo. O primeiro muro que ela criara para si foi para proteger o seu irmão.

O divórcio trouxe calma àquela casa. O pai de Júlia se mudou para outro estado. Mandava dinheiro para a mãe e, muito de vez em quando, ligava para conversar com as crianças por alguns poucos minutos. O irmão menor sentiu muito a separação. Ele era o preferido do pai e, toda a vez que se falavam brevemente ao telefone, perguntava quando ele iria visitá-los. A resposta sempre era um “logo, logo”, mas a visita só veio no Natal. Nos três Natais seguintes ao divórcio, ele veio visitar e dar presentes aos filhos. Depois, nunca mais apareceu.

A mãe de Júlia era professora de História e, enquanto o filho mais novo ficava o dia inteiro em uma creche comunitária do bairro onde moravam, a primogênita estudava pela manhã na mesma escola em que ela dava aulas. Após o almoço, que fazia na cantina da escola junto com a mãe, sem ter nenhum de seus colegas de turma para conversar, a menina recolhia-se à biblioteca, onde ficava até o horário em que a mãe saía, por volta das seis da tarde. Foi na biblioteca, a maior parte do tempo sozinha, que ela se envolveu com o mundo dos livros. Além de ler, analisava tudo, tipo de papel, formato da edição, desenho da capa. Brincava com a bibliotecária de adivinhar o número de páginas dos livros conforme a grossura de cada um deles. Ela ficou tão boa naquilo que a bibliotecária passou a apostar com alguns professores que a garota acertaria sempre. Ganhou uma graninha até que a diretora da escola ficou sabendo da jogatina e acabou com a festa na biblioteca.

Foi no segundo ano do Ensino Médio que Júlia se apaixonou pela primeira vez. O garoto, magricelo e alto, chegou no segundo bimestre, transferido de outra escola. Como não conhecia nenhum dos colegas, não conseguiu se enturmar e passava os recreios sozinho comendo um sanduíche com leite achocolatado e fazendo exercícios de matemática. Júlia ficou com pena do menino e se aproximou dele. Com o passar dos dias e dos recreios e intervalos entre as aulas, foram se conhecendo mais e mais e descobrindo que tinham muitas coisas em comum um com outro. Assim como ela, ele também era filho de pais separados. Assim como ele, ela também era antissocial. Os dois esqueciam das horas quando estavam mergulhados em livros. Os dele, de matemática, os dela, de literatura.   

Aquele menino tímido e de óculos de aros grossos foi o primeiro rapaz com o qual Júlia se deitou. Não foi especial como ela imaginava que iria ser. Na verdade, foi bem desagradável. O namoro entre os dois durou pouco mais de seis meses. As notas dele caíram muito e a mãe decidira mudá-lo de escola mais uma vez. Júlia nunca mais o viu.

O segundo homem para o qual Júlia se entregou era um jovem bem bonito. Altura mediana, cabelos negros e olhos faiscantes. Ele estudava na mesma faculdade que ela, mas estava um ano à frente no curso. Era um rapaz bastante popular e, falava-se nos corredores, já havia se envolvido com diversas meninas da faculdade. Ela o conhecia de vista e admirava sua beleza, mas não sentia nada especial. Júlia almoçava sozinha em uma mesa de canto do restaurante universitário quando sentiu alguém se aproximar, levantou os olhos e viu que era ele. O jovem lhe disse “olá” e perguntou se poderia se sentar. Ela relutou por um instante, mas acabou consentindo. Durante os vinte minutos em que ficaram frente à frente enquanto comia, ele foi educado, respeitoso e agradável. Júlia achou aquele jovem bem diferente da descrição que costumava ouvir ao seu respeito no banheiro feminino. A cena se repetiu no dia posterior, e no outro, e no outro também. No quarto dia, uma quinta-feira, após se despedirem, ele a convidou para irem ao cinema na noite seguinte. Ela aceitou de pronto. O filme não era muito bom, e eles passaram boa parte daquela hora e meia se acariciando, se olhando nos olhos, e se beijando. Ao fim da sessão, já na rua, ele a chamou para ir ao seu apartamento, beber alguma coisa, terminar o que haviam começado. Ela pensou um pouco e disse não. Ele insistiu. Ela manteve o não. Ele levantou a voz. Ela disse que gritar não iria fazê-la mudar de ideia. Ele lhe agarrou com força pelo braço. Ela se soltou com um movimento brusco. Ele lhe deu um tapa no rosto. Ela caiu. Ele cuspiu aos pés dela, a chamou de vadia, entrou no carro e foi embora cantando pneus. Ela ficou sentada. Quis chorar, mas não o fez. Durante uma hora inteira ela ficou sentada sozinha, querendo chorar, mas não chorando. Foi ali que Júlia ergueu seu segundo muro.

Após terminar a faculdade de Letras, passou a fazer trabalhos freelancer de revisão e tradução de textos. Não ganhava muito, mas era o suficiente para se sustentar. Morava em um apartamento que era de sua avó e, portanto, não pagava aluguel. Durante três anos viveu assim, de trabalhos esporádicos. Até que recebeu uma ligação do velho professor perguntando se ela poderia ir ao seu escritório, pois ele queria contratar uma faz tudo para a sua editora e ela havia sido muito bem recomendada por um amigo próximo. Ela foi, gostou do trabalho oferecido e ainda mais do seu futuro patrão. O salário era bom, mas ele cobrava exclusividade, pois exigia um serviço do mais alto padrão de qualidade. Ela topou na hora.

Com o novo emprego, Júlia pôde se mudar do pequeno apartamento da avô para um outro mais amplo, com dois quartos. Trabalhava em casa, não tinha contato pessoal direto com seu chefe e tampouco com os clientes. Fazia algo que gostava e não imaginava um modo de as coisas ficarem melhores do que estavam.

Foi em um domingo à noite que Júlia recebeu uma ligação que a fez perder o equilíbrio da vida que levava. Ela preparava um parecer sobre uns originais que havia recebido há pouco mais de uma semana. A ideia da autora, uma garota de 19 anos, até que era boa - o processo de desintegração de uma família de classe média contado pelos olhos da filha autista de seis anos de idade -, mas a menina necessitava urgentemente de aulas de português. Muitas aulas, muito urgentemente.

Sentada na cama, com as costas escoradas na cabeceira e com o computador sobre o colo, Júlia bebericava uma taça de vinho tinto quando o celular, que estava, como de costume, no silencioso, vibrou em cima do criado mudo. Ela olhou o número no visor, viu que era do telefone do seu irmão, e atendeu. A voz do outro lado da linha não era a do seu irmão. Era a voz de um homem mais velho. O homem se identificou como inspetor de polícia e perguntou se ela era Júlia e se ela conhecia o dono daquele celular. Ela disse que sim e que ele era seu irmão mais novo. O homem ao telefone, então, foi direto no que queria falar.

“Sinto lhe dizer, mas encontramos o seu irmão morto há pouco”, disse com um lamento na voz. “Ele se suicidou. Seria bom se a senhora viesse ao apartamento dele agora.”

Enfrentando o choque que aquelas palavras lhe haviam causado, ela levantou-se rapidamente, trocou de roupa e saiu rua afora esperando cruzar com um táxi que a levasse ao apartamento do irmão. Vinte minutos depois, passava pelos carros de polícia estacionados em frente ao prédio e subia correndo as escadas até o quinto andar. No corredor, os vizinhos a olharam com tristeza quando ela irrompeu ofegante em direção à porta, sendo contida por dois policiais que a seguraram.

“É o meu irmão. É o meu irmão”, disse aos gritos. Os vizinhos confirmaram que a moça que respirava com dificuldade e o jovem que morava no apartamento em frente eram irmãos e um dos policiais, então, a acompanhou até o quarto. Chegando lá, ela o viu. Pendurado pelo pescoço com um cinto no ventilador de teto. Não havia sangue, não havia bagunça. A pele do seu rosto já descamava. O cheiro forte no quarto foi o que o fez com que os vizinhos chamassem o síndico, que, por sua vez, após bater na porta e ligar para o morador do apartamento 512 por quase uma hora, resolveu chamar a polícia. O perito que registrava o ocorrido disse à Júlia que ele morrera há uns três ou quatro dias.

Ela cuidou de toda a burocracia envolvendo um suicídio, velório e enterro. Enquanto sua mãe chorava continuamente ao lado do caixão fechado, permanecia firme. Não derramou uma lágrima sequer. Estava destruída, mas não chorou. Por algum motivo que nunca soube entender muito bem, Júlia não chorou a morte do seu irmão querido. Escorada no caixão, chegou a quase sorrir algumas vezes ao recordar das brigas que tiveram, das brincadeiras no pátio da casa da avó. O irmão fora a única pessoa que sempre estivera ao seu lado, acontecesse o que acontecesse. E ela sempre fora a única que esteve junto dele em todos os momentos, bons e ruins. Desde que ele se envolvera com as drogas pela primeira vez, ela lhe dava o apoio que ele não encontrava em mais ninguém. A namorada o deixou. Os amigos também. Os pais desistiram, mas Júlia não. Ela acreditava nele. Acreditava que ele iria vencer. Mas ele não venceu e, antes de fazer algo que pudesse deixar sua irmã envergonhada, ele resolvera que era hora de partir. Naquele dia, ao lado do caixão do seu irmão, sem conseguir chorar, mas sentindo uma dor que sabia que nunca mais iria sentir, Júlia construiu o terceiro muro ao seu redor.

Durante um longo ano, vivera como se estivesse permanentemente em uma montanha russa de emoções. Tinha dias muito bons, mas a maioria deles era de profunda tristeza. A prostração tornou-se uma rotina e ela passou a se distanciar. Quando já não ouvia o que precisava ouvir, preferiu o silêncio. Havia encontrado um lugar somente seu, em que se sentia, ao mesmo tempo, protegida e completa. Buscou no trabalho solitário e, ainda mais, na convivência sincera consigo mesma, a serenidade que traria o equilíbrio que desejava.

Superada a fase difícil, vivia agora do jeitinho que queria viver. Vivia para si e, mesmo sozinha, nunca se sentira tão inteira na vida. Demorara, mas compreendera que não era possível se sentir plena sem uma dose de individualismo. Buscara nos outros a paz de uma vida suave, mas somente encontrara a dor do falso interesse.

Mais do que momentos de efusiva alegria, de intenso êxtase, o riso fácil, o prazer vazio, procurava dentro de si a sintonia com as energias ao seu redor que pudesse trazer significado para o que sentia, sentido para o que entendia e clareza para o que sonhava em conhecer.

Júlia não sabia se iria viver aquele amor pintado. Ela sequer sabia se voltaria a viver um amor. Havia se distanciado de todas as coisas que pudessem lhe magoar. Criara muros imaginários ao seu redor, recolhera-se a uma vida segura. Pagava o preço por isso. Sentia falta de ser especial para outra pessoa. Não tinha com quem conversar após um dia de intenso conflito com um egocêntrico autor irredutível. Não tinha com quem debater o filme que aguardava ansiosamente para ver. Não tinha quem lhe preparasse um chá quente quando sofria com seus recorrentes resfriados. Não vivia a vida que queria viver, mas a que podia suportar.

Pintado no muro em frente à janela, uma declaração de amor.

“Ainda te amo, Júlia.”

Antes de dormir, depois de passar o dia inteiro pensando naquilo, ela guardou no armário da área de serviço a pequena lata de tinta e o pincel ainda manchado. Por uma semana, ela seria intensamente amada. Alguém haveria de considerá-la muito especial na próxima segunda-feira. Alguém haveria.

sábado, 14 de maio de 2016

Quando o sol se punha por trás dos morros a Oeste da cidade

Houve uma época de minha vida em que eu me via como uma pena em meio a um furacão. Qualquer pequeno movimento do ar me afetava e me percebia totalmente insignificante em meio a tudo o que ocorria ao meu redor. Eu tinha 12 anos de idade e me sentia invisível dentro de minha própria casa. Quando não estava na escola, passava a maior parte do tempo dentro do meu quarto. Não havia conversa, não havia atenção, não havia carinho.

Eu tinha de me virar. Com 12 anos de idade, eu tinha de me virar. Ninguém estava preocupado com as minhas notas no colégio, ninguém me repreendia por dormir muito tarde, ninguém queria saber se eu havia escovado os dentes após o almoço. Eu vivia em um ambiente anárquico e não gostava disso. Quando somos crianças, o que mais queremos é a liberdade, mas o que mais precisamos é de controle. Normalmente, só percebemos isso quando somos adultos. Eu não. Eu me sentia perdido. Um órfão morando com os pais.

Foi um período bem difícil aquele. Minha irmã mais velha se tornara uma rebelde que fazia questão de testar até aonde poderia ir sem quebrar a cara pra valer. Recordo que a transformação pela qual ela passou me chocou de um modo intenso. Em três meses, deixou de ser a menina que era o orgulho do papai, primeira da turma, estudante de piano clássico, e se tornou uma garota punk, com piercing no nariz e no lábio, que usava roupas de couro e jeans rasgados, coturno velho e cabelos desgrenhados. Eu até que achava legal essa nova irmã. Ela era um sopro de ar fresco naquela casa que cheirava a mofo. Meus pais, porém, não passavam um dia sem desferir sua ladainha moralista contra o que chamavam de “despautério adolescente”. Eu não sabia o que era um despautério, mas podia imaginar que não devia ser algo muito bom.

Enquanto tentavam reverter a transformação de minha irmã, meus pais viviam o seu próprio turbilhão no processo que, depois, viria a resultar no divórcio. Aos meus olhos infantis, eles agiam com uma irracionalidade bestial. Era tudo muito confuso, não havia pausa. Palavras e mais palavras atiradas contra o outro com a única intenção de machucar.

Os gritos. Os gritos sempre me faziam mal. Eu me trancava no quarto e tampava os ouvidos com as mãos. Ficava cantando para tentar não ouvir. Mas sempre ouvia. Os gritos.

Eu não tinha amigos nessa época. Acho que uma coisa influenciava a outra. O conturbado ambiente familiar fez com que me isolasse, tanto dentro de casa quanto fora dela. Na escola, costumava ficar sozinho o tempo todo. Não fazia trabalhos em grupo, não participava das brincadeiras no recreio. Eu gostava muito de desenhar. Tinha talento para isso. Carregava sempre comigo um caderno com folhas brancas e um estojo com lápis de diversos tipos. Não usava cores. Tinha predileção pelo grafite. Era nas páginas daquele caderno que eu criava o meu mundo. Ali, despejava o que sentia. Ele era, ao mesmo tempo, a família que me ignorava e o amigo que eu não tinha.

Com o passar dos meses, comecei a ficar cada vez menos tempo em casa. Meu quarto já não me protegia mais. Foi quando ouvi o primeiro tapa (ou teria sido um soco?), seguido do primeiro choro, que soube que precisava de um novo refúgio. Na garagem, jazia a antiga bicicleta da minha irmã. Ela era branca, com linhas curvas e um cesto em frente ao guidão. Estava empoeirada, com os pneus murchos e a correia precisava de um pouco de graxa, mas, de resto, permanecia impecável. Tirei-a de lá e a limpei com carinho. Levei à borracharia que ficava a três quadras de casa, onde os pneus foram consertados e o borracheiro, que conhecia meu pai, fez questão de lubrificar a correia para mim.

A partir de então, comecei a me afastar de casa sempre que podia. Aquele ambiente estava me tornando uma pessoa que eu não queria ser. Nunca quis ser um solitário. Nunca quis. De certa forma, aquela bicicleta velha de menina foi a minha salvação. Ela me mostrou que existia vida fora daquele quarto.

Ficava o dia inteiro na rua. Por todas as ruas em que passava, as pessoas ficavam olhando para mim. Eu era um menino pequeno andando em uma bicicleta grande de menina. Não me importava com isso. Não me importava nem um pouco. Só voltava para casa quando o sol se punha por trás dos morros a Oeste da cidade.

Minha irmã foi detida por posse de drogas em uma sexta-feira à noite. Nada demais, apenas uma trouxinha de maconha. Era para consumo próprio, ela não era traficante. Meses depois, ela me confessou que nem era dela, e sim do namorado, que era maior de idade. Ela, aos 16 anos, assumiu a culpa para ele não se dar mal. Meus pais tiveram de ir à delegacia. Ela era primária, estudava, tinha endereço fixo, e meu pai trabalhava para uma das mais famosas bancas de advogados da cidade. Foi liberada na mesma noite.

Aquele fato gerou outra discussão. Uma das grandes. A maior delas, talvez. Eles começaram a brigar ainda na sala do delegado, seguiram pelos corredores e pelo pátio da delegacia, continuaram dentro do carro e deram prosseguimento em casa. A coisa foi feia de verdade. Eles se acusaram, dedos em riste. Os gritos. Os gritos. Vaso contra a parede. Minha irmã e eu calados. Porta batendo. Pneus cantando na garagem. Minha mãe sentada à mesa da cozinha segurando a cabeça com as mãos.

Meus dias continuavam os mesmos, mas o seguinte era sempre diferente do anterior. Descobrindo novos lugares, vendo novas cores, sentindo novos perfumes das flores que brotavam a cada estação. Eu, os meus desenhos e a minha bicicleta feminina. Todo o tempo em que estava perambulando ou sentado sob a sombra de alguma árvore desenhando, eu buscava esquecer das coisas que aconteciam dentro de minha casa. Nunca consegui.

Não precisava cruzar o portão da frente nos fins de tarde para começar a ouvir que nada havia mudado. Tudo continuava igual. Meus pais já não dormiam no mesmo quarto. Minha irmã chegava em casa cada vez mais tarde, mas eu não via isso como um problema. Ela estava se divertindo. Isso não é ruim. Acho que, assim como eu, ela havia encontrado uma válvula de escape. No meu caso, era a bicicleta e os desenhos. No dela, as festas, a bebida, os beijos descompromissados. Eu não via muita diferença.

Setembro havia chegado e, junto com ele, uma estranha calmaria. Um silêncio há muito tempo esquecido tomou conta de tudo. Nos quartos, na cozinha, na sala, na varanda. Não se ouvia nada. Nem um cochicho. Apenas o farfalhar das folhas das árvores quebrava a monotonia daquele lugar. O ódio havia dado lugar à indiferença.

Estar naquela casa passou a ser uma tortura para mim. Os xingamentos ainda ecoavam e eu podia os ouvir mais altos, mesmo em silêncio. Minha mãe vivia em um permanente estado de prostração. Ela não se queixava de nada, nunca reclamava. Dificilmente, aliás, era possível ouvir a sua voz. Havia emagrecido, mas mantinha a beleza de outrora. Os traços finos, os olhos amendoados e negros, os cabelos castanhos, agora curtos. Ela era uma mulher alta, de ombros largos e silhueta esguia. Sempre fora muito elegante. Atraía os olhares de todos por onde passava. Agora, no tempo em que ficava em casa, passava assistindo televisão ou lendo livros velhos que há muito jaziam empoeirados na estante da sala.

Meu pai, por sua vez, raramente era visto em casa. Acordava muito cedo, antes de o sol nascer, e saía. Tomava o café da manhã na rua e ia para o trabalho. Ele era o responsável pelo departamento financeiro de um escritório de advocacia. Não ganhava mal, mas o tédio daquele lugar escuro e apertado o corroía. Quando criança, sonhara em ser piloto de avião. Era um sonho difícil, mas possível de ser realizado. Na juventude, desejou ele próprio ser um advogado. Participar de grandes julgamentos, proferir contundentes discursos. Vestido com o terno de meu avô, gravata bem alinhada e cabelo penteado para trás com gel, chegava a passar horas ensaiando em frente ao espelho. Agora, quando chegava em casa à noite, minha mãe já dormia no quarto de casal. Ele tomava banho, bebia um copo de leite com uma fatia de pão, arrumava suas roupas de cama sobre o sofá e se deitava para, no dia seguinte, recomeçar tudo de novo.

Já não havia mais brigas e, de certa forma, isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e triste. Feliz, porque eu não gostava das brigas. Não gostava de nenhum tipo de briga. Sempre fui muito racional. Achava, mesmo ainda jovem, que, quando duas ou mais pessoas tinham de apelar para uma disputa física para resolver um desentendimento, era sinal de que elas haviam falhado como seres humanos e nós, ao seu redor, por permitir aquilo, fracassado como sociedade. A tristeza, por sua vez, se abatia sobre mim porque eu percebia que, em sintonia com o distanciamento, com a inexistência de ódio, com a indiferença, o amor também havia desaparecido. Eu vivia em uma casa em que não havia uma gota sequer de amor. Nem um pequeno resquício abandonado em um canto qualquer. Não existia mais amor entre meus pais e isso era ruim, mas não era o pior. O pior era sentir que não havia mais amor entre eles e nós, minha irmã e eu. Era como se tivéssemos deixado de existir para eles. Tornamo-nos fantasmas dentro de nossa própria casa.

Era final de novembro, uma quarta-feira pela manhã, bem cedo, quando vozes estranhas me acordaram. Levantei da cama e caminhei, descalço, pelo corredor, de onde espiei e vi meu pai e minha mãe sentados frente a frente na mesa de jantar. Ao lado deles, dois homens engravatados. Eles faziam anotações e remexiam papéis que tiravam e voltavam a guardar em pastas translúcidas de plástico. Meus pais pouco falavam e, quando o faziam, não se dirigiam um ao outro. Faziam comentários ao pé do ouvido dos homens engravatados que conversavam seriamente entre si.

Eu não sabia do que se tratava a conversa, mas reconheci um dos homens. Já o havia visto uma vez, quando meu pai me levara para o trabalho, pois minha mãe tinha de visitar uma irmã doente e iria ficar dois dias fora da cidade. Ele era um dos advogados do escritório.

Mais três encontros como aquele ocorreram até meados de dezembro. Já fazia três semanas que meu pai havia deixado a nossa casa quando o último deles aconteceu. Após os dois assinarem algumas folhas de papel, os homens engravatados apertaram as mãos, trocaram tapinhas nas costas e risinhos discretos antes de se despedirem e irem embora.

Somente alguns dias depois, fui saber que os papeis assinados naquela manhã oficializavam a separação. Não fiz muito caso ao ficar sabendo. Não iria mudar nada para mim. Eu nutria a esperança, porém, de que, ao se sentirem livres um do outro, meus pais voltassem a viver em plenitude. Juntos, mesmo que só no papel, eles viviam uma vida pela metade. Separados, poderiam voltar a serem inteiros, serem eles mesmos e não parte de algo que terminou antes do planejado.

Depois do divórcio, minha mãe voltou a sorrir. Flores podiam ser vistas por toda a casa. As cores e os perfumes inundaram os ambientes. Havia mais luz, janelas abertas. Não havia passado um mês e ela já tinha conseguido um emprego. Meio período em uma loja de departamentos. Seis meses depois, namorava. Eu voltara a receber a atenção que já havia me esquecido que um dia recebera. Minha irmã mantinha a rebeldia, mas estava mais suave. As coisas, enfim, haviam melhorado.

Meu pai seguia trabalhando no escritório. Nenhuma nova paixão cruzara o seu caminho. Sua sala continuava escura e ainda cheirava a mofo. Ele permanecia infeliz. Era o mesmo homem que sempre fora.

De tudo o que vivi naqueles meses turbulentos de minha infância, o que me marcou de verdade e que eu carrego comigo até hoje, mais de vinte anos depois, são as certezas de que nossa felicidade não depende de ninguém, de que o amor não resiste a um espírito covarde e de que uma bicicleta, uma folha de papel e um conjunto de lápis podem ser os melhores companheiros de um jovem coração solitário.

Minha mãe voltou a se casar, meu pai morreu de um ataque cardíaco fulminante. Minha irmã se formou em Psicologia e eu ganho a vida escrevendo uma coluna semanal sobre literatura para um jornal da cidade. Não tenho filhos. Ainda carrego comigo o caderno de desenhos.

domingo, 27 de março de 2016

Carne humana está sendo vendida nos mercados



O cerco à cidade já durava dois anos. Não havia mais esperança de que aquilo fosse acabar. Na consciência de cada um de nós, já não havia mais esperança de que aquilo fosse acabar. Viveríamos para sempre cercados, à espera da estocada fatal.

Nós não tínhamos muita informação sobre o que acontecia fora dos limites da cidade. E aquela que chegava, não era confiável. Na guerra, a primeira vítima é a verdade. Agarramo-nos à vida com força. Era preciso resistir. Cada pedaço de pão, cada porção de farinha, cada copo de água. Tudo era celebrado como uma vitória. Cada dia era uma nova vitória na nossa batalha particular contra a morte por inanição.

A fome caminhava ao lado do frio. À frente deles, o medo não nos deixava dormir. Batia à porta todas as noites. Com insistência.

Morávamos na mesma casa eu e meus dois irmãos menores, uma menina de nove e um menino de sete anos. Meu pai engrossava as fileiras do Exército há pouco mais de seis meses. Ele era ferreiro e foi convocado pelo esforço de guerra. Todos os homens que pudessem lutar eram imprescindíveis. Quem tinha algum treinamento militar, como ele tinha, não escapava de jeito nenhum. Meu pai havia feito carreira na caserna, chegando ao posto de sargento, mas foi dispensado do serviço militar em razão de uma paralisia na perna esquerda causada pela poliomielite. Agora, em meio ao caos e desespero, até um ex-sargento manco era muito bem-vindo no front.

Minha mãe morrera já nos primeiros dias do cerco. Ela trabalhava no hospital de campo quando ele foi atacado pela artilharia aérea inimiga. Destruir os locais de atendimento em saúde, as linhas de energia e onde se produzia comida era um modus de ação chave para a que a cidade se rendesse. Sem ter como cuidar dos feridos, como se comunicar com o exterior e o que dar de comer aos civis e, principalmente, aos soldados, a resistência fraquejaria e o invasor não teria dificuldades para ocupar as ruas.

Àquela altura, eu já não sabia se meu pai ainda estava vivo. As mortes eram tantas, as notícias, tão poucas e desencontradas. Além disso, eu tinha mais com o que me preocupar. Eu tinha duas crianças sob minha responsabilidade. Ele era um homem feito, saberia se cuidar. Meus irmãos só tinham a mim.

Eu tinha 16 anos quando meu pai saiu pela porta depois de dar um abraço em cada um de nós. Ele não disse nada. Não precisou dizer nada. Esperava-nos pronto junto à mesa da cozinha. Nossas porções de pão diárias e meia caneca de leite de cabra para cada um estavam lá. Comemos todos em absoluto silêncio. Depois, veio o abraço, os passos tortos para a rua, a mão de minha irmã apertando a minha.

As crianças ficavam o tempo todo dentro de casa. Não se viam crianças pelas ruas. As bombas caíam a todo momento. Não havia um horário para os bombardeios. Eles ocorriam pela manhã, à tarde, à noite, nas madrugadas. Mesmo quem não entendia nada de estratégia de guerra, percebia que o plano do inimigo era claro. Disseminar o terror. Não havia onde se esconder. Os ataques eram implacáveis. Escolas, igrejas, hospitais, fábricas, depósitos, casas. Nada era poupado.

Escapar dos assaltes era uma questão de sorte. Não existia um local seguro. Não havia alvos. Tudo era alvo. Por algum motivo inexplicável qualquer, a nossa casa se mantinha intocada. Talvez pelo fato de ser bem pequena, um quarto, uma cozinha e um banheiro, talvez por ficar em uma rua em que não havia prédios, apenas residências baixas, talvez pelos alemães terem uma péssima mira. Não sei por quê.

A partir de determinado momento depois do início do cerco, as sirenes alertando sobre os aviões inimigos deixaram de soar. Se o fizessem, não dariam um minuto sequer de descanso a ouvidos cansados de explosões, de gritos. As escolas estavam em escombros e as aulas não foram retomadas em lugar algum. Reunir crianças e jovens em um único local era um risco que a cidade não podia correr.

Ainda que em meio ao caos, mesmo no limiar entre a loucura e a desesperança, as pessoas buscavam abrigo em seus pequenos hábitos, em suas rotinas, em suas lembranças de uma vida que sabiam que jamais seria a mesma, mas à qual se agarravam com tamanha fúria, com tamanha paixão, que faziam com que desistir, se entregar, não fosse uma opção. Eles iriam lutar. Iriam lutar por suas vidas, mas, mais do que isso, iriam lutar por sua terra, por sua gente, lutar contra a barbárie, contra o medo, e, assim, também lutar pelo direito de sonhar. Aqueles alemães não sabiam com quem tinham se metido. Eles não tinham ideia.

Dormíamos o mínimo possível. O problema maior não eram as bombas. Elas poderiam irromper o teto e cair sobre nossas cabeças a qualquer hora, estando nós acordados ou não. O perigo era o risco de uma invasão, de nossas defesas ao redor da cidade serem rompidas, de blindados tomarem conta das ruas, de soldados falando uma língua estranha nos dando ordens e matando gente. Era isso que temíamos, não a morte.

Eu acordava bem cedo todas as manhãs. Colocava minhas roupas, minhas botas e agasalhos e ia ao centro de distribuição de mantimentos, que, a cada dia, ficava em um lugar diferente, para tentar despistar os ataques inimigos. Meus irmãos ficavam dormindo. Nas ruas, as pessoas caminhavam placidamente, como em pequenas procissões que se uniam em seu destino final. Não havia interação alguma. Apenas seguiam.

A porção diária de pão estava restrita a 125 gramas, por volta de duas fatias. Por mês, tínhamos direito a 400 gramas de carne, 650 gramas de cereais e 300 gramas de óleo de semente de girassol. Eu nunca esqueci esses números. Diante da falta do que comer, a busca por alimentos se tornou uma questão de sobrevivência. Galhos de árvores cozidos faziam parte da dieta corriqueira. Não se viam mais cães ou gatos vivos. Sempre que aparecia um, era caçado pelas vielas por uma horda de famintos com lanças, facões, pedras e paus nas mãos. Ratos, camundongos, lagartixas, pássaros quaisquer. Nada que podia virar alimento era poupado.

Pessoas foram presas por comerem pessoas. Carne humana estava à venda nos mercados.

Meu pai deixara um rifle comigo. Um rifle e uma caixinha de madeira cheia de cartuchos. “É para proteger seus irmãos”, disse na noite antes de partir. Eu sabia atirar. Costumávamos sair para caçar durante as duas últimas semanas do outono, antes da chegada do inverno. Trazíamos para casa o máximo de carne que podíamos. Defumávamos e estocávamos no porão. Foi assim que aprendi a atirar. Caçando com meu pai. O rifle que ele me dera ficava embaixo da minha cama. Carregado, mas não engatilhado. Era para proteger os meus irmãos.

Não havia muito o que se fazer durante o cerco. Nada restara na cidade. Não havia mais praças em condições de uso, não havia mais cinema, o teatro fora transformado em centro de recuperação para os soldados feridos que já tinham sido tratados pelos médicos e que não podiam ficar ocupando lugar nos hospitais de campanha. Em nossa casa, tínhamos um rádio. Um rádio à válvula. Era um aparelho muito bom. Funcionava que era uma beleza. As linhas de transmissão de energia, porém, foram destruídas e, além disso, nossas forças de defesa determinaram que somente o centro de operações militares seria abastecido com óleo e carvão para os geradores. Nós tínhamos um gerador. Meu pai o havia comprado em um leilão de coisas velhas da companhia de eletricidade. Pagou um preço bem em conta. Era um gerador antigo, mas, depois de uns ajustes, umas peças trocadas e um pouco de lubrificação, ficou feito novo. A nossa sorte em meio ao racionamento de combustível era que o capitão responsável pelo gerenciamento dos estoques de carvão e óleo era amigo de infância de meu pai. E meu padrinho. Então, toda a semana, um pouco antes de anoitecer, eu ia até o galpão de estocagem e ele me dava um galão de cinco litros de óleo. Ninguém mais circulava pelas ruas depois das cinco da tarde. Todos respeitavam o toque de recolher. Assim, eu não corria risco algum de ser visto caminhando a passos rápidos com um galão de óleo desviado.

Escutávamos vinte minutos de rádio todos os dias antes de dormir. Meu irmão gostava de ouvir música. Conseguíamos sintonizar uma estação de ondas curtas que tocava canções durante todo o dia. À noite, cerca de uma hora depois de o sol se pôr, até o amanhecer, era música clássica que saía dos autofalantes. Eu não gostava muito, mas meu irmão adorava. Ficava paralisado, em completo silêncio, os olhos estalados, o queixo apoiado nas mãos. Minha irmã e eu preferíamos nos atualizar com as notícias vindas da capital. Esperávamos ouvir boas novas, o recuo das tropas inimigas, a rendição de uma divisão, e de outra, e de mais outra. O fim da guerra. Nossas vidas de volta. Enfim, esperávamos todos os dias por notícias que nunca vinham. Mas seguíamos esperando.

A gente nunca pensa na morte até sentir que ela está à espreita, esperando uma brecha, sentindo a nossa respiração, silenciosa. Eu tentava não pensar nisso, não pensar na morte. Talvez por ser uma realidade tão presente, por ser algo quase inevitável para todos nós diante daquela situação, por ter se tornado cotidiana, a ideia de morrer não me assustava mais. Morrer não parecia ser o pior dos destinos. A vida já não tinha valor. Os corpos pelas ruas. O cheiro de carne em decomposição. O fogo nos prédios. A mãe que não tinha lágrimas para chorar pelo filho morto em seus braços. 

Ela não nos pegaria de surpresa. A aguardávamos com a mesa posta, com chá quente.

Apesar de não temer a morte, essa vizinha que batia à nossa porta todos os dias, eu sabia que tinha de viver, se não por mim, por meus irmãos. Eu fazia tudo para eles. Preparava a comida, o banho, cuidava da roupa, da saúde. Com o fechamento das escolas na segunda semana do cerco, passei a lhes dar aulas também. Tudo o que tinha aprendido, tentava os ensinar. Eu não era um grande professor, mas tinha muita paciência com as suas dificuldades. Se tivesse de explicar cem vezes a mesma coisa, explicava.

Enquanto estava em casa, antes de ir para o front, meu pai não dava a mínima para nós. Éramos um estorvo. Um fardo que ele teria de carregar por alguns anos até que fôssemos adultos. Após a morte de minha mãe, ele se tornou um fantasma. Uma sombra. Vivia para si mesmo e o fazia porque não se via com forças para morrer. A possibilidade de, mais uma vez, voltar a empunhar um fuzil, de matar aqueles que haviam lhe arrancado o amor de sua vida, foi o que o tirou daquele estado de prostração. Muitas coisas podem levar um homem à guerra. Poder, dinheiro, desesperança, obrigação, necessidade, ódio, amor. Meu pai queria vingança. Ele somente desejava matar o maior número de alemães que pudesse. De preferência, com requintes de crueldade.

Meu pai era um homem rude. Desde muito pequeno, trabalhava com meu avô na lavoura de trigo. Mas ele não via no arado e na enxada o seu futuro. Era ambicioso. Assim que a idade permitiu, pegou suas coisas, fugiu de casa e se alistou no Exército. Foi no ambiente militar que conhecera minha mãe. Ela trabalhava na enfermaria. Cuidava dos pequenos ferimentos, escoriações, cortes. Quando ele apareceu pela terceira vez na mesma semana com um hematoma na perna, ela desconfiou que as intenções do garoto eram outras. Dentro de dois meses, estavam namorando. Casaram-se oito meses depois

Minha mãe era uma mulher de tratos finos. Sutil, fala baixa, discreta. Tinha longos cabelos claros e grandes olhos castanhos, feito amêndoas. Era de uma família de posses, mas foi rejeitada por seus pais quando anunciou o noivado com um reles soldado que não tinha onde cair morto. Depois do meu nascimento, decidiu largar o trabalho e se dedicar à família. Quando a guerra estourou, deixou o marido e os três filhos em casa e voltou ao trabalho, atuando no hospital de campanha nos limites da cidade.

Eles não poderiam ser mais diferentes um do outro. Eram brisa e fogo. Davam-se tão bem que, quando ela se foi, ele se foi também, mas permaneceu conosco. Após a morte de minha mãe, meu pai se tornou um homem sem sentimentos ou que, pelo menos, não demonstrava aquilo que sentia. Nem sorrisos nem lágrimas. Apesar de achar que ele realmente desejava muito matar por vingança, em meu íntimo, sempre acreditei que, mais do que vingar nossa mãe, ele voltou às armas para encontrar a morte que, injustamente, a havia levado, cheia de vida, e o tinha deixado, um corpo sem espírito. Morrer por amor, ou por vingança, ou por simplesmente não ver mais sentido em seguir vivo. Nunca mais tivemos notícias dele. Pode ter sido capturado pelos inimigos, pode ter sido morto e enterrado em uma vala comum. Nunca saberemos. Talvez ainda esteja por aí.


A vida em meio à guerra nos exigia autocontrole, disciplina, o estabelecimento de comportamentos padronizados diante de determinadas situações e planos traçados para casos de emergência. Tínhamos tudo acertado entre nós, até os mínimos detalhes. Em caso de bombardeio próximo, íamos para o porão e ficávamos juntos, sob uma das vigas de concreto que meu pai mandara reforçar no início da guerra. Se ocorresse uma invasão inimiga, esconder-se não era uma opção. Tínhamos de fugir para o Oeste, nos embrenhar na mata e rezar para sermos encontrados por nossas tropas.

As estrelas no céu estremeciam quando canhões trovejavam lançando peças flamejantes de aço sobre a cidade. Cada bomba que caia em cada casa, era como uma flecha em chamas sendo cravada nos nossos corações. Morríamos com cada morte, sentíamos a dor que cada um sentia, e era isso que nos dava força para resistir. Estávamos juntos e juntos iríamos morrer. Ou viver. Viver para que a morte do outro tivesse algum sentido.

Esse era um sentimento genuíno. Não era algo insuflado por propaganda. Meu pai costumava vociferar quando ouvia um líder político ou militar falar no rádio que nossos soldados deveriam morrer com honra pela pátria. Ele dizia que não havia honra alguma em morrer no campo de batalha. Que não havia gloria em agonizar empapado no próprio sangue, implorando por sua vida, querendo ver sua mãe, desejando apenas voltar para casa.

Conforme os dias passavam, aumentava a fome, e, conforme aumentava a fome, aumentava o desespero e, quanto maior o desespero, mais fundo nós íamos em busca da sobrevivência. Nossa dignidade teve de dar lugar ao nosso desejo de seguir respirando.

Passava de uma da madrugada. As investidas aéreas inimigas haviam cessado por volta das dez da noite. Aquele era um dos raros momentos de silêncio. Nós já dormíamos quando fortes batidas à porta me despertaram. Tentei ignorar. Talvez, desistissem e fossem embora. Mas não desistiram. Levantei da cama, peguei o rifle e fui em direção à porta. Perguntei quem era e não ouvi resposta. As batidas continuaram. Perguntei mais uma vez, e, novamente, ninguém disse nada. Engatilhei a arma, ameacei atirar se não se identificassem, e as batidas cessaram. Respirei fundo, duas vezes, e pensei em voltar para a cama quando ouvi um choro infantil do lado de fora. Dei meia volta e espiei por uma fresta entre as tábuas de madeira da parede. Uma criança - um menino, três, quatro anos - de mãos dadas com uma garota, da minha idade, provavelmente. Abri a porta e saí para não acordar meus irmãos.  

Tivemos uma conversa rápida. Ficar na rua àquela hora não era aconselhável. Eram irmãos. A mãe havia morrido há dois meses de uma gripe, que passou à pneumonia e acabou com seus pulmões. O pai desaparecera na segunda semana de cerco. O telhado da casa onde viviam havia sido arrancado e duas paredes tombaram com o último bombardeio. Tinham passado as últimas horas batendo de porta em porta em busca de um abrigo. Ninguém abriu. Receber mais duas pessoas significava ter de dividir a água e a comida com mais duas pessoas. A solidariedade acaba quando se está flertando com a morte.

Mas eu, por algum motivo que ainda não sei ao certo qual, decidi trazê-los para dentro. De certa forma, acho que me identifiquei com eles. Irmãos lutando para se manterem vivos. Tremiam de frio quando entraram e se acomodaram no chão, sobre algumas caixas de papelão abertas. Lhes servi uma caneca de café quente que dividiram meio a meio. Expliquei as regras da casa: ninguém mexe na comida, a não ser eu; ninguém mexe na água, a não ser eu; ninguém mexe no combustível, a não ser eu; ninguém sai à noite; ninguém se cansa ou gasta energia desnecessariamente; durante o dia, todos que saírem à rua devem trazer para a casa o máximo de roupa e comida que puderem. Resumidamente, era isso. Emprestei uma das minhas peles de ovelha para se cobrirem e eles dormiram abraçados para esquentarem um ao outro.

Seu nome era Martina. O do menino eu já não lembro mais. Martina era ruiva, tinha os cabelos longos no meio das costas e sardas nas maçãs do rosto e no nariz. Era mais alta do que eu e tinha dedos longos e finos. Falava baixinho como se não quisesse causar incômodo algum. Já na primeira manhã conosco, disse que não iria comer nossa comida, que iria sair e dar um jeito de arranjar algo. Dividi o pão e a água entre todos. Não tinha a intenção de tirar comida da boca dos meus irmãos para colocar na deles. Não mesmo. Tivemos a sorte, porém, de, uma semana antes da chegada inesperada à nossa porta, os alemães terem lançado uma das cargas de suprimentos para as suas tropas um pouco antes da hora e uma corrente de vento ter trazido o paraquedas para dentro da cidade e o pacote ter caído a poucos metros de nossa casa. Um homem mais velho com um chapéu surrado sobre a cabeça se abraçou à preciosa caixa de um lado enquanto eu fiz o mesmo do outro. Discutimos por um instante e combinei com ele de soltarmos ao mesmo tempo e dividirmos aquilo entre nós. Ele pensou por um momento e balançou a cabeça afirmativamente. Quando ele largou o pacote e se pôs de pé, eu, em apenas um movimento, peguei o rifle que tinha deixado no chão e disparei um tiro em seu peito. Apenas um tiro. Ele caiu de costas com os olhos bem abertos. Peguei a caixa e espantei os outros famintos que se aproximavam do presente caído do céu como lobos se aproximam de sua presa antes de abatê-la. Depois de ameaçar muito e ter de empurrar alguns que não viam na arma um perigo maior do que a fome, trouxe a conquista para casa. Não me orgulho disso, mas um homem não é obrigado a ser confiável quando luta por sua vida.

Martina era encantadora e não demorou muito para que me apaixonasse por ela. Seus gestos mínimos, sua disponibilidade para ajudar em tudo, sua organização, seu cuidado para com meus irmãos. Levei quase dois meses para lhe roubar um beijo. Ela se assustou, mas retribuiu. Martina foi a primeira mulher com quem me deitei. Seu corpo era frágil, mas quente. Nos amamos em silêncio enquanto explosões clareavam a noite.

De modo geral, a presença de Martina e do irmão não dificultaram nossa vida de penúria. Tudo o que eu oferecia era recebido com brilho nos olhos e retribuído com muitos agradecimentos. Tivemos apenas um problema durante a estadia deles conosco.

A casa já adormecia quando eu ouvi um barulho vindo da dispensa de alimentos. Levantei-me e silenciosamente caminhei até lá, onde encontrei o irmão de Martina roubando pão. Puxei-o pela gola da camisa e o trouxe arrastado até o lugar onde dormia com a irmã. Ele se debatia e gritava pedindo para largá-lo. Todos na casa acordaram. Empurrei-o para o chão e disse que o tinha pego roubando comida. Ele negou, disse que era mentira minha. Martina o segurou pelos ombros e perguntou olhando nos olhos dele se estava roubando. Ele admitiu. Disse que estava com muita fome e que não aguentou. Ela mandou ele ir dormir e falou que iríamos resolver a questão pela manhã. Roubar comida de quem lhe alimenta, lhe dá um teto e lhe aquece não é digno. Se fosse qualquer outra pessoa, eu teria estourado os miolos com uma bala entre os olhos. Mas ele era irmão dela e, por isso, poupei-lhe a vida. Martina, porém, castigou o irmão e lhe deixou dois dias sem pão. Comeu apenas a carne enlatada do almoço.

Depois de tanto tempo de cerco, já havíamos nos adaptado aos hábitos que a privação nos obrigou a adotar. Eu e meu irmão íamos todos os dias pela manhã buscar água no rio. No inverno, tínhamos de nos equilibrar sobre o a água congelada e encher nossos baldes em uma estreita abertura feita no gelo. O ar pesado de fuligem e poeira dificultava nossa respiração, provocando rouquidão crônica e tosse constante. Vivíamos no limite que nossa saúde permitia.

Sem veículos para transporte, todos se deslocavam pela cidade à pé. Hordas caminhando silenciosamente, com seus frágeis corpos curvados e a cabeça baixa. Eu fazia de tudo para que meus irmãos ficassem o menor tempo possível fora de casa. Por mais que a morte esteja ao redor da gente e que a iminência dela cruzar conosco seja uma constante permanente, perceber que ninguém mais chora pela perda de seus irmãos, ninguém mais chora pela perda de seus filhos, é algo perturbador. Isso mexe com a cabeça da gente de um jeito que eu sabia que não iriam conseguir lidar. Era impossível dar três passos sem tropeçar, sem ter de desviar dos corpos magros caídos no chão. Eu não queria que essas imagens ficassem gravadas na memória deles para o resto de suas vidas. Já estavam na minha. Ainda estão.

De alguma forma, tentei transformar a nossa casa em uma fortaleza. Um refúgio no qual, apesar das dificuldades, mantínhamos protegidos os nossos sonhos e esperanças. Apenas a presença de Martina entre nós já era suficiente para suavizar a aspereza daqueles dias. Por mais bombas que caíssem do lado de fora, por mais gritos em desespero que ouvíssemos, ela nos trazia a calma. Por vezes, Martina lembrava minha mãe. Ambas carregavam consigo uma aura que enchia de tranquilidade os lugares onde estavam. Martina era pura ternura. Uma ternura repleta de coragem. Durante os meses em que estivemos juntos, era nela que eu buscava forças para seguir em frente. Era na sua serena sabedoria juvenil que eu me aconselhava nas horas mais escuras. Ela sempre sabia o que dizer. E quando não dizia nada e apenas segurava minha mão com força, eu sentia a sua energia me recarregando.

Com a proximidade do inverno, as esperanças de sobreviver para ver o fim daquilo se esvaiam a cada grau a menos nos termômetros. Junto com o frio, porém, surgiam notícias de que o inimigo vinha sofrendo derrotas em outras partes de nossa terra. Ainda era possível, portanto. Ainda era possível vencer, ainda era possível expulsá-los, ainda era possível acabar com o cerco. Precisávamos perseverar.

Naquela época, não sabíamos que o cerco estava no fim. Nós sequer imaginávamos. Todos nós, nascidos e criados em meio ao gelo, não víamos no inverno um grande perigo. A fome era o perigo. Martina e eu decidimos não deixar mais os pequenos saírem à rua sozinhos. Os boatos de desaparecimentos de crianças que seria mortas e teriam sua carne vendida para saciar os famintos cresciam. Não sei o que era verdade e o que não era, mas os boatos aumentavam e não podíamos arriscar. Passei a fazer todas as tarefas que exigiam circular pela cidade enquanto Martina ficava em casa com as crianças.

Sair sozinho fazia com que eu prestasse mais atenção no que ocorria. Baterias antiaéreas espalhadas por todos os lados, casamatas de concreto, ninhos de metralhadora. Havia um certo clima de segurança de que, se o inimigo fizesse uma investida para invadir a cidade, poderíamos resistir e repeli-lo. A grande guerra patriótica fez isso com a gente. Mesmo na iminência da aniquilação, ainda que não houvesse uma saída, acreditar era a saída. Era só o que nos restava, acreditar.

O clima no QG da defesa era de raro otimismo. Eu ainda passava por lá de vez em quando para ver se conseguia algo desviado para levar. Mas até isso foi escasseando com o tempo. Voltava para casa em uma dessas vezes. Fazia tanto frio que, mesmo usando luvas, nãos sentia a ponta dos dedos. Meus lábios sangravam por rachaduras verticais. Os corpos em decomposição caídos pelas ruas já não cheiravam tão mal e, por isso, de certa forma, dávamos graças pela chegada dos dias gelados.

Eu estava a uns seis quarteirões de minha casa quando vi o bombardeiro. Logo depois, veio a explosão. No mesmo instante, eu soube o que tinha acontecido. Eu percebi com clareza.

Corri como nunca antes havia corrido. Pulando escombros e corpos, desviando de paredes destruídas e de postes derrubados. Passando por crateras e artilharia. Ainda ao longe, pude ver que minha casa estava de pé. O impacto tinha sido ao Norte dela. Uns 10 metros ao Norte. A parede tinha várias perfurações de estilhaços, mas continuava firme. Era uma boa casa. Meu pai havia mandado reforçar a alvenaria logo que a guerra começara, bem antes do cerco. Respirei mais aliviado, diminui o ritmo dos passos e segui em direção à porta da frente. Tudo parecia em ordem. Pude ver três mortos próximos ao buraco que a bomba criara. Não pude distinguir bem, mas pareciam corpos de uma mulher e duas crianças. Mas não tive certeza.

Foi um grito, um grito agudo e rouco, que me fez voltar às atenções para a casa. Empurrei a porta e, deitada no chão, estava Martina. Meu irmão com sua cabeça sobre a coxa esquerda. O irmão dela com sangue nas mãos. Por um momento, fiquei estático. Levei alguns segundos para processar a informação visual que chegava a meu cérebro. A explosão, o bombardeiro rasgando o céu cinza, a fumaça, a corrida para casa, a cratera, os corpos no chão – acho que eram uma mulher e duas crianças, mas não tenho certeza – as paredes em pé, o grito.

Martina estava ferida. Não sei como, mas ela sangrava. Virei-me e olhei para a parede. Sim, estava de pé. Como, então? Foi aí que eu vi os buracos. Pequenos buracos. Estreitos e curtos. Olhei para Martina novamente. Estilhaços. Fui em direção à ela, afastei seu irmão com um safanão, me agachei e levantei sua blusa. Uma perfuração. Uns três dedos de tamanho. Ela ainda gritava. Eu não sabia o que fazer. Disse para os pequenos pressionarem o ferimento para estancar a hemorragia e saí correndo para tentar encontrar algum médico, um enfermeiro, enfim, qualquer pessoa que pudesse me ajudar. Ninguém. A dor, o sangue, a morte, já não comoviam ninguém. O desespero havia se institucionalizado como algo corriqueiro. Voltei para casa, tirei-a do chão e a coloquei sobre a cama. Ela ainda sangrava, mas não gritava mais. Segui pressionando a ferida até que já não havia mais sangue saindo de seu corpo.

Tirei sua blusa, limpei o corte. Ela respirava com alguma dificuldade, mas estava acordada. Sentei-me ao seu lado e encostei as costas na parede. Deitei-a e coloquei sua cabeça sobre o meu colo. Ela estava calma.

Ficamos naquela cama por três dias. E, então, ela morreu. Seus olhos estavam bem abertos. Fixos em mim. Ela estava calma.

A guerra me trouxe Martina, e a guerra a tirou de mim.

Dois dias depois, o cerco se desfez. O inimigo recuou. A cidade estava livre de novo.

Martina não vivera para ver a festa mórbida nas ruas.

Eu observava aquilo tudo com um misto de incredulidade, vergonha, asco, alívio e alegria. Finalmente havia acabado. Tínhamos resistido. Vencemos. Mas a que preço? Martina era uma mártir de uma guerra que não era dela. Uma vítima invisível em meio às estatísticas. Quem se lembraria dela? Seu nome não constaria nos registros históricos. Não havia uma lápide sobre seu corpo enterrado nos fundos da casa. Ela e seu sacrifício só existiriam em nossa saudade.

O martírio chegara ao fim, mas a maioria de nós não tinha sequer forças para celebrar. Martina e os quase um milhão de nossos irmãos que pereceram no decorrer daqueles 900 dias eram a voz do que se passara naquela cidade para a História. Quando os vivos já não podem falar, os mortos falam no lugar deles. Os nossos mortos gritariam pela eternidade.

Eu tinha sobrevivido. Já não era o mesmo, tinha cicatrizes que não iriam se fechar com o tempo. Perdi meus pais, perdi amigos, perdi um amor.

Ainda assim, agora que as peças haviam se movimentado no tabuleiro e nós estávamos em vantagem, eu não queria vingança, eu não sonhava com justiça.

Ao fim de tudo, apenas uma coisa vinha à minha cabeça.

Eu desejava, do fundo de minha alma, que, na hora de suas mortes, eles pensassem nas nossas mortes. Teriam de viver com isso. Para mim, bastava. Não queria e não precisava de nada mais.