sábado, 23 de fevereiro de 2019






Reencontro

Ela disse que havia perdido a fé no amor.
Ele disse que o amor era a própria fé.
Ela disse que não acreditava mais em um príncipe encantado.
Ele disse que a nobreza não estava em coroas e cavalos brancos.
Ela disse que não queria aventuras.
Ele disse que viver era a maior aventura.
Ela disse que estava cansada de promessas vazias.
Ele disse que não lhe faria promessas.
Ela disse que queria um tempo para si.
Ele disse que não tinha pressa.

Olhos para o céu. Respiração forte

Ela disse que não era mais a mesma garota de outrora.
Ele disse que também havia mudado.
Ela disse que não podia mais se arriscar.
Ele disse que se arriscaria por ela.

Voz embargada. Suor correndo nas costas.

Ela disse que tinha um filho.
Ele disse que “tudo bem”.
Ela disse que mataria quem fizesse algo de ruim para o seu menino.
Ele disse que daria o primeiro tiro.

Sorrisos sutis.

Ela disse que já não tinha a beleza de antigamente.
Ele disse que ela nunca fora tão bela.
Ela disse que jamais o esquecera.
Ele disse que se lembrava de cada momento.

Toque das mãos.

Ela disse que, dessa vez, teria de ser para sempre.
Ele disse que sempre fora para sempre.

Levantaram-se, se abraçaram, se despediram e foram embora.

Ela, cheia de dúvidas.
Ele, com a mesma certeza.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Ainda que fosse apenas um sonho



Ele se esforçara. Só ele sabia como se esforçara. Tentara de tudo. Buscara caminhos que não conhecia. Tentara esvaziar sua cabeça de tudo o que lembrasse ela, de tudo que fosse ela. Nada funcionara. Se desfez e se reconstruiu. Ele, que não era de beber, procurou no álcool a solução daquilo que lhe atormentava. Não adiantou também. Experimentara o isolamento e a companhia. Nada. Ela permanecia lá. Impassível. Dona de si mesma, como sempre fora. Iria sair quando quisesse. Não seria ele, com suas tentativas vãs de expulsá-la, que conseguiria desalojá-la de onde ela estava tão confortavelmente instalada. Na verdade, parecia ter sempre vivido ali. Era como se tivesse ali nascido, crescido, se desenvolvido, e dali não pretendesse sair tão cedo.

Ela estava nos pensamentos dele.

A muito custo, conseguira deixar de pensar nela o tempo todo. Descobrira empiricamente que o difícil não é esquecer – sequer queria isso. O difícil é deixar de lembrar. Por muitos meses, procurou maneiras de libertar-se. Por vezes, conseguia dias de alívio. Não demorava, porém, para ela retornar. Ora era o seu rosto ímpar, ora seus negros cabelos em ondas, ora era seu cheiro, ora era a mistura de frases que ele tinha dito apenas para ela com a recordação do que as palavras representaram – “o beijo mais doce do mundo”.

Ele já não lembrava do tempo em que ela não estivera em sua cabeça. Talvez tenha se acomodado ali ainda muito pequena, sem ele perceber. Talvez tenha ficado assim, quietinha, sem se fazer notar, por tantos e tantos anos, conhecendo o terreno, se acostumando com o lugar, construindo seu ninho.

E ela o construiu. Vivia, agora, no seu inconsciente. Quando ele menos esperava, quando seus pensamentos estavam longe de tudo aquilo que poderia fazer a imagem dela se materializar diante de seus olhos, mesmo que fechados, ela surgia.

Passados muitos meses que ela se fora fisicamente, sua presença tornou-se constante em seus sonhos. Nem quando estavam juntos, sonhava tanto com ela. Seu cérebro, sábia e ardilosamente, tratou de compensar a ausência do corpo com a presença da ilusão.

Não passava um dia sem que sonhasse com ela. Em boa parte deles, tinha sonhos múltiplos na mesma noite de sono. Em seus sonhos, ela continuava igual à última vez em que se viram. No rosto, porém, não carregava a expressão pesada daquela tarde de quarta-feira. Tudo, quem sabe, já estivesse decidido ali. Nunca iria saber ao certo. Nos sonhos, ela sorria. Sorria como na tarde de piquenique no jardim florido. Nos sonhos, estavam apaixonados. Nos sonhos, ele era feliz.

Mas ela o deixara. Ela se fora. Nele permanecia, porém, a lembrança de tudo aquilo que viveram juntos. Os momentos bons lhe tiravam lágrimas ao sussurrarem ao seu ouvido “veja o que perdeste, rapaz”. Os momentos ruins já não pareciam ter sido tão ruins. Até os momentos ruins, com ela, eram bons.

Nos sonhos, no entanto, não havia momentos ruins. Nos sonhos, ele vivia aquele quadro que pintara para si mesmo. Colorido, instigante, cheio de energia.

Vivia em um paradoxo de difícil solução. A queria de volta em sua vida, mesmo sabendo que não a teria. A queria longe dos seus sonhos, ainda que soubesse que ela iria permanecer ali.

Desassossego, angústia, incompreensão.

Não tinha com quem dividir o peso que carregava. Teria de lidar com aquilo sozinho. Teria sido mais fácil, muito mais fácil, se tivesse nutrido algum sentimento negativo em relação a ela. Raiva, ódio, ressentimento. Nada disso ele sentiu, porém. Teria sido muito mais fácil.

Um dia, ela lhe disse que o amor fica. Que independentemente do que acontecesse, se nunca mais se vissem de novo, o amor que um dia sentiram um pelo outro permaneceria. Para sempre. Talvez ela tivesse dito da boca para fora, apenas para consolá-lo após o fim. Era possível. Ele acreditara naquilo, porém. Levara aquelas palavras ao pé da letra.

Ainda a amava.

Assim, mesmo que tentasse deixar para trás, ainda que soubesse que ela nunca mais iria voltar, ele se via preso ao que viveu, e ao que sentiu, preso à lembrança, ao toque, ao cheiro, à voz, ao olhar. Ela plantara nele algo que ele nunca vira antes florescer em si. Quando o deixou, levou consigo as flores, mas esqueceu de arrancar as raízes.

Para ele, havia acabado antes do fim. Era como se a linha do tempo tivesse sido rompida. Ficara um vazio. Um vazio que os sonhos constantes tentavam preencher. Ela vivia em seus sonhos assim como vivera em sua realidade. Era a mesma por quem se apaixonara. Inteligente, esperta, culta. O mesmo rosto que lhe acalmava só de olhar.

Durante todo o dia, ele contava as horas para a noite chegar.


Só queria fechar os olhos e tê-la novamente junto de si. Nem que fosse só por uma noite. Ainda que fosse apenas um sonho.


domingo, 4 de novembro de 2018

Ainda não é tarde



Ainda não é tarde


Correu o tempo.
Choveu e fez sol.
Nasceu e morreu.
Chorou e sorriu.
Plantou e cresceu.
Chegou e partiu.

Ouviu e cantou.
Sonhou e fugiu.
Imaginou as horas.
Correu e pulou.
Amanheceu e dormiu.
Aprendeu e errou.

Já não toca as mãos.
Não sente o cheiro.
Já não escuta a voz.
Não tem ao lado.

Correu o tempo.
Feito moinho.
Viveu.
Voou pra longe.
Um passarinho.
Mas ainda não é tarde.

(pra voltar)



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os mesmos olhos castanhos, as mesmas mãos miúdas




Foi quando percebeu que já não havia mais o que ser feito, que ele se acalmou. Era inevitável. Ocorreria independentemente do que fizesse ou deixasse de fazer. Sequer demoraria muito. Uma semana ou duas no máximo. Nessa noite, dormiu o sono mais tranquilo e profundo dos últimos dois anos.

Uma amiga estava com ele no quarto quando recebeu a notícia. Os familiares deixaram de visitá-lo já faziam três meses. Sentiram-se ofendidos quando ele disse que, se não queriam estar ali, não deveriam estar e, se não deveriam estar, ele não permitiria que estivessem. Como todos realmente não queriam, aproveitaram a deixa e partiram para não voltar mais.

Eram amigos há pouco tempo. Uns três anos, mais ou menos. Trabalharam juntos por um período, mas ela recebeu um convite tentador de uma empresa concorrente e saiu depois de pouco mais de seis meses de trabalho. Isso, porém, não fez com que se distanciassem. Ao contrário, ao não trabalharem juntos, tinham mais assunto quando se falavam e nunca ficavam com tédio quando estavam um com o outro.

O diagnóstico final foi dado por um médico rechonchudo de bochechas rosadas, cabelo ralo e óculos de aros grossos na ponta do nariz. Segurou a sua mão magra. A pele enrugada e áspera, as veias saltadas. Pôde sentir os ossos finos. Parecia que se quebrariam a qualquer aperto mais forte.

Ele todo era apenas uma imagem apagada daquele homem que um dia fora. Já não tinha mais forças para se levantar sozinho da cama. Circulava pelos corredores e tomava seu banho de sol diário sentado na cadeira de rodas. Perdera trinta quilos desde que recebera o diagnóstico. Alimentava-se por sonda. O câncer no estômago aniquilara com a figura sempre disposta, atlética e divertida de outrora.

Foi tudo muito rápido. Era uma terça-feira quando sentiu um mal-estar digestivo no meio da tarde quando estava no trabalho. Se automedicou e foi para casa já um pouco melhor. No dia seguinte, pela manhã, não conseguiu tomar o café reforçado com leite, pão e frutas. Tomara um iogurte apenas. Passara a quarta e a quinta-feira assim. Na sexta, resolveu ir ao hospital. Fez alguns exames clínicos e viu nos olhos do médico que lhe atendia um ar de hesitação. Foi para casa e, no sábado pela manhã, recebeu uma ligação pedindo que retornasse ao hospital para que mais exames fossem feitos. Estranhou a urgência, mas foi. Testes de imagem, primeiro, e uma biópsia, depois. Era melhor que passasse a noite ali, em observação, lhe disse o doutor. Ficou sem muitos questionamentos. Não havia ninguém lhe esperando em casa mesmo. Na tarde de domingo, pouco depois das cinco horas, três médicos entraram no quarto. As faces tentando esconder algo. Enquanto falavam em tom de tristeza, tentavam transmitir um otimismo que ele percebia que não sentiam. Nunca soubera de um caso de câncer sequer na família. Fora o premiado. Tinha 34 anos.

Era um homem jovem, o tumor era pequeno, não parecia muito agressivo. A equipe médica lhe dizia que um câncer sempre é ruim, mas, se fosse para ter, que ocorresse sempre assim. Ele iria se curar. As chances eram superiores a 90%.

O problema é que ele nunca estivera entre os 90%. Sempre fizera parte dos 10%. Na maioria das vezes, dos 10% melhores. Seja na escola, no vestibular, na faculdade, nas aulas de língua estrangeira, seja nas avaliações no trabalho ou nas estatísticas obtidas em testes cientificamente questionáveis da internet. Desta vez, não era diferente. Estava entre os 10%.

Durante dois anos inteiros, se submeteu aos mais torturantes tratamentos. Tudo o que a medicina tinha para oferecer, passou pelo seu corpo. Um amigo insistiu para que fosse a um médium que incorporava o espírito de um médico alemão e fazia cirurgias milagrosas. Cético como sempre fora, recusou a sugestão. Não desacreditava de todo em milagres. Jamais entenderia, porém, como uma pessoa deixaria um maluco qualquer se dizendo incorporado por um espírito de um médico que vivera em uma época em que não se sabia quase nada sobre doenças enfiar tesouras pelo seu nariz à procura de um tumor. Estava morrendo, mas não perdera a razão.

A medicina, que, para tentar curá-lo, o massacrou durante tanto tempo, foi incapaz de evitar a sua morte. Tão jovem. Jazia na cama do hospital. Fraco, era um rascunho daquele que um dia fora. Um resto mastigado e cuspido fora. Vivia uma semivida, uma vida de mentira.

Agora, porém, tudo isso havia passado. Já não alimentava esperanças de cura. Não iria se safar desta. Morreria. Perderia a batalha contra a doença que tanto o maltratou. Fora uma adversária difícil. Aquele câncer que iria matá-lo fora atacado de todas as formas, por todos os lados, em todos os momentos. E resistira. Fraquejara em alguns momentos, mas voltara ainda mais obstinado. Fora bombardeado por tudo o que o conhecimento humano descobrira e criara para eliminá-lo e não fora derrotado. Era um inimigo valente, corajoso e, sobretudo, forte. Ele respeitava aquele câncer. Aprendeu a respeitá-lo. Não raro, se via conversando com o tumor que lhe deixara naquele estado, que lhe fizera tanto mal. Acostumara-se a ele. Tornaram-se parceiros de uma jornada longa e dolorosa, mas que somente eles sabiam realmente o que ela representava. Para ambos.

A doença havia lhe proporcionado um estado de lucidez que nunca experimentara antes. Distinguia muito bem todas as coisas. Sem a perspectiva de um futuro, já não mais vivia o momento em razão do que estava por vir. Apenas vivia o momento. Era o instante em si que importava, e não mais o que ele representaria para o dia seguinte.

Acordou bem cedo na primeira manhã após o definitivo anúncio do fim. Pediu para uma enfermeira buscar na cantina no térreo um café da manhã dos campeões. Suco de laranja, torradas com mel, iogurte natural, uma omelete e mamão fresco. Não era política do hospital servir refeições especiais para paciente algum, mas aquela enfermeira o acompanhava desde o diagnóstico. Tornaram-se amigos. Muito amigos. Nessa relação, de um lado, ela cedia às excentricidades dele, e, de outro, ele seguia às suas recomendações e cumpria tudo o que era acertado no tratamento. Agora, além de ser um amigo, ele era um amigo em fase terminal. Não havia motivos para lhe negar um belo desjejum sempre que pedisse e pagasse.

Comeu com a sutil tranquilidade de quem já não se alimentava para matar a fome, e sim para sentir os sabores em sua boca. Decidira ainda naquela manhã que não mais comeria a papa insossa que o hospital lhe servia nas refeições. Iria comer aquilo que tivesse vontade de comer, na quantidade que quisesse comer. Sem restrições. A medicina não salvara a sua vida, e não seria ela a lhe privar de comer uma gordurosa omelete de bacon com presunto e queijo logo cedo. Não mesmo.

No decorrer de toda aquela jornada, sempre manteve viva a esperança de que iria vencer a doença. Nunca deixou de acreditar. Levou a vida com o câncer do mesmo modo com que levara toda ela antes do mal lhe colocar naquela cama de hospital. Era um otimista. Sempre fora um otimista. Com seus olhos míopes, via ao seu redor um mundo cheio de cores e de possibilidades. Era tudo uma questão de acalmar os ânimos, respirar fundo, erguer a cabeça, e seguir em frente.

A cada novo fracasso de um tratamento, dizia para si mesmo e para a equipe médica que isso não era um problema, ao contrário. A conclusão de que um medicamento falhara era uma porta que se abria e lhes deixava seguir outro caminho. Um tratamento que não dava certo era um passo a mais em direção à combinação de remédios e terapias que o iriam curar.

Tudo iria dar certo. Ao fim, tudo iria dar certo.

- Coisas boas passam. Coisas ruins também. Vamos com calma que logo, logo os doutores vão achar a solução -, costumava dizer para a amiga que estivera ao seu lado durante todo o tempo.

Ela, por sua vez, não compartilhava da percepção positiva do amigo. Lera bastante sobre aquele tipo de tumor e conversara ainda mais com os médicos. As perspectivas não eram boas. Em nenhum momento houve uma remissão do câncer. O máximo de notícia boa que receberam foi de que a doença havia se estabilizado. Mas isso durou pouco mais de dois meses. Depois, o tumor continuou a crescer e se espalhar por outros órgãos.

Primeiro o fígado, depois o intestino, depois a bexiga e, por fim, os pulmões. Um após o outro, foram sendo invadidos e corroídos. Agora, ele respirava com dificuldade, uma sonda recolhia sua urina e uma bolsa externa, suas fezes.

Nunca havia pensado na morte. Em nenhum momento. Só racionalizou a respeito da possibilidade de morrer naquele fim de tarde em que os médicos o desenganaram. A amiga se dispôs a passar a noite ali, ao seu lado, mas ele não quis. Agradeceu a boa intenção, mas não quis. Precisava ficar sozinho.

O grande hospital silenciara. Todo o vai e vem do dia findava nas noites e madrugadas. Quando alguém caminhava pelo corredor, era possível escutar de longe o barulho dos passos no piso. Era disso que ele necessitava naquela noite. Silêncio para poder pensar.

Do que se tratara a sua vida? O que fizera dela? Como seria lembrado depois que morresse? Fizera algo de único durante o tempo em que caminhara pela Terra? Quem iria sentir a sua falta?

Quem iria sentir a sua falta?

Não tinha respostas convincentes para dar a si mesmo. A vontade de se iludir com palavras que o fariam acreditar que tudo valera a pena o seduzia. Morreria feliz e satisfeito. Teria tido uma vida plena.

Sozinho, ouvindo apenas seus pensamentos, ele sabia, porém, que não havia motivos para se enganar. Tivera amigos, mas quase todos haviam ficado pelo caminho. Tivera amores, mas nenhum permanecera. Um deles em especial o marcara deveras. Foi bem curto. Do dia em que se conheceram ao dia em que terminaram passaram pouco mais de cinco meses. Ela fora a melhor coisa que acontecera na sua vida. Fora o toque de extraordinário em sua jornada até então comum. Amara mais do que achara ser possível amar. Mas acabou. Levou algum tempo para se recuperar daquilo. Quando estava livre de toda a culpa e de toda a dor, a doença aparecera.

O câncer fez com que ela deixasse de habitar regularmente seus pensamentos. Achava que a tinha esquecido. Não havia espaço para um amor perdido em uma mente que lutava pela vida. Enganara-se, porém. Estava tão viva e bela quando da última vez em que a tinha visto. Os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos castanhos, as mesmas mãos miúdas.

A morte próxima a fizera ressurgir em sua cabeça. A certeza do definitivo fim trouxera calma às suas lembranças dos dias em que passaram juntos. Percebera seus erros mais claramente e os dela também. Erraram ambos. Fora um tolo, mas quem não o é quando se apaixona?

Pegou-se imaginando onde ela estaria agora, o que andava fazendo, qual livro estava lendo, qual fora o último filme que vira, o que sonhara na noite passada. Amava-a ainda e sentia-se bem ao pensar que ela estava melhor e feliz sem ele.

Naquela noite, a noite em que o médico rechonchudo de bochechas rosadas lhe disse que não havia mais nada que pudesse ser feito para lhe salvar a vida, ele lembrou dela e percebeu que vivera um amor. O amor de sua vida. Um grande amor. O perdera no meio do caminho, mas quantas pessoas podem morrer com a certeza de que encontraram o amor da vida? Ele tinha. Desde o dia em que recebera o diagnóstico do câncer no estômago, nunca tivera uma noite de sono tão tranquila como aquela.

Nos dias que se passaram até a noite em que deixara de respirar, tratou de fazer seus últimos momentos terem algum significado. Os aproveitaria na rua, procurando divertir-se o máximo possível. Percebeu, porém, que, ao fazer isso, teria apenas alguma alegria passageira. Uma diversão vazia. Não. Isso não daria um sentido aos seus derradeiros instantes na Terra.


Por mais que tentasse desviar sua atenção, fazer suas ideias tomarem um rumo diferente, ele só conseguia pensar em uma coisa. Precisava vê-la mais uma vez, uma única vez, uma última vez.

Sabia, no entanto, que sua condição de saúde o limitava. Sem os equipamentos que o ajudavam a respirar, que faziam o trabalho que seus rins já não conseguiam fazer, que controlavam seus batimentos cardíacos, não teria muito tempo, algumas poucas horas, provavelmente.

Tinha, assim, em uma mão, a manutenção da sua vida e, na outra, a plenitude da sua existência. Cada vez que o ponteiro do grande e empoeirado relógio que ficava sobre a porta do quarto do hospital cruzava o número doze, ele via-se mais próximo do fim. Perdera aquele minuto. Não havia como recuperá-lo. Aquele minuto escapou por entre seus dedos esquálidos. Mal se dera conta disso e outra fração de tempo se fora.

De súbito, ergueu-se da cama, descolou de sua pele pálida os fios que o conectavam aos aparelhos e, demonstrando uma força que nem ele mais imaginara ter, caminhou com passos firmes pelo corredor rumo à porta de saída do hospital.

Estava decidido a não morrer deitado em uma cama estéril em um quarto onde apenas sofrera. Não tivera um bom dia sequer ali. Aquele lugar era sinônimo de sofrimento e dor. Não iria levar aquelas paredes e teto brancos como imagem última gravada em suas retinas.

Existem certos momentos na vida de uma pessoa em que todas as coisas – os astros, os deuses, os espíritos, as coincidências, enfim, toda a sorte possível – conspiram ao seu favor. São poucas as vezes em que isso ocorre. Para algumas pessoas, é um acontecimento único. Pois, para ele, aconteceu naquela madrugada. Um assistente novato pegou no sono e não percebeu quando, na tela do computador à sua frente, uma mensagem pipocava informando que os aparelhos do quarto 221 haviam sido desconectados do paciente. Percorreu os corredores sem encontrar uma viva alma, pois as equipes de enfermagem de plantão tiveram de, às pressas, correr para tentar conter um paciente que estava tendo um surto psicótico e gritava desesperadamente dizendo que extraterrestres estavam chegando para lhe abduzir. Já no saguão, encontrara a portaria vazia, visto que o guarda e a moça da cafeteria estavam dando uns amassos atrás do balcão.

Tudo deu certo. Saiu do hospital pela porta da frente com as vestimentas de paciente sem 
ser interpelado por ninguém. Tomou um ônibus, pulou a catraca e contou com a compreensão de um senhor idoso que lhe cedeu o lugar para dar fim ao constrangimento de ter um homem vestido com roupas de hospital – abertas na parte de trás – em pé no corredor do coletivo.

Durante o caminho, tentou pensar em o que dizer quando chegasse a hora. Fracassou miseravelmente. Estava tão elétrico, tão excitado, tão cheio de adrenalina, que pensar em algo qualquer coisa, não era possível. Respirava rápido, transpirava por lugares que sequer sabiam que transpiravam. Estalava os dedos, roía as unhas, batia os pés, rangia os dentes, engolia em seco.

Cada ponto de ônibus que ficava para trás, era um ponto de ônibus que estava mais perto do seu destino. Precisava se acalmar, mas não queria ficar calmo. Sentia-se vivo. A morte já não lhe ameaçava.

Desembarcou na avenida. Dali até o prédio onde ela morava, teria de caminhar por duas longas quadras. Se alguém lhe dissesse que teria de fazer isso há alguns dias, riria da piada. Mal conseguia se manter em pé para ir ao banheiro no hospital. Não tinha mais forças para manter seu corpo esquelético ereto. No entanto, a certeza de que não tinha mais volta, de que não havia saída, somada a um propósito real, lhe enchera de uma energia que não havia como explicar de onde saíra. Talvez, estivesse dentro dele durante todo o tempo. Talvez, fosse aquela última reserva de força, aquela fagulha que o corpo guarda para lutar pela sobrevivência até o momento final.

Mas ele já não queria mais lutar contra a morte. Fora derrotado naquela disputa e iria sair de cena como um bom perdedor.

Respirava com dificuldade. Dava passos lentos e arrastados. As mãos, trêmulas, pendiam feito galhos secos de uma árvore prestes a tombar.

Fazia calor naquela noite. Sua boca suplicava por um gole de água. Mas ninguém prestava atenção nele. Estava sozinho e tudo bem. Não queria auxílio de ninguém mesmo. Aquela era a sua missão. Tinha de ser assim.

Quando, depois de longos minutos de caminhada trôpega, viu-se em frente ao condomínio de prédios amarelos, deteve-se. Respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Mais do que retomar o fôlego, queria entender o que estava para acontecer. Sempre fora assim. Apaixonava-se e envolvia-se até a medula, mas nunca deixava de raciocinar a respeito do que vivia. Brincava com a amiga leal dizendo-se um cientista do amor. Um exagero, sem dúvida. Mas viver sem exageros é navegar permanentemente em águas calmas. E ele adorava as tempestades.

Aproveitou um descuido do porteiro e esgueirou-se silenciosamente por um estreito espaço que ficara aberto no grande portão por onde entravam e saiam veículos. Seguiu até a entrada do bloco onde ficava o apartamento dela. Sentados em cadeiras na rua sorvendo seu mate, alguns moradores trocavam olhares e cochichos sobre aquela estranha figura que, cambaleante, cruzava o pátio, feito um espectro errante.

Entrou no prédio e, apoiando-se nas paredes, se arrastou até o elevador. Quinto andar.

Em frente à porta do apartamento dela, ameaçou tocar a campainha, mas desistiu. Com as costas arqueadas, o peito arfante, e os olhos semicerrados, sentia a vida fugir a cada dolorosa tentativa de respirar. Esforçava-se para puxar o ar que teimava em não inflar seus pulmões. Apoiando uma mão na parede, usou a outra para bater à porta. A tentativa pareceu mais uma carícia – as suas mãos entre os cabelos negros dela. Na segunda tentativa, fez o melhor possível.

TOC

...

TOC

Espera. Espera. Espera

Um barulho seco.

Silêncio.

A porta se abrindo.

Os mesmos olhos castanhos, as mesmas olheiras feito nuvens negras sob eles. As mesmas mãos miúdas levadas à boca após um grito.

Caído aos seus pés, lá estava ele. O que restara dele.

A morte chegara antes de ela enchê-lo de vida como sempre fazia quando estavam juntos.

Não vivera longamente, mas experimentara o intenso sabor doce de um amor verdadeiro.

Fora feliz.

Na vida e na morte.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018




Areia do tempo

Não ouviu a voz ao redor.
Não sentiu o pulsar no peito.
Caminhando por entre sombras ele estava.
Livre de toda a dor que um dia carregou consigo.


Distante de tudo, olhou para dentro de si.
Encontrou resquícios de inocência,
Restos de confiança,
Retalhos de saudade.

Nas mãos, impressas na carne, memórias que não pode apagar.
Irá levar para aonde for.
Como troféus.
Conquistas de uma vida de derrotas e vitórias.
De lágrimas e sorrisos sobrepostos.

Foi barqueiro de sua jornada.
Origem, caminho e destino da travessia.
Foi passo na estrada, vela ao mar.
Linha reta por entre curvas livres.

Os amores que teve,
Os lábios,
Os corpos,
Os olhares,
Eram ele.

Estavam em sua pele e ossos.
Estavam em seu sangue e músculos.
Estavam em suas células.
Em cada uma de suas células.

Não se despediu quando foi embora.
Não disse “adeus” nem “olá”.
Não havia início.
E não havia fim.

Sentiu saudade dos dias que não viveria mais.
O ponteiro correu.
O vento soprou.
A janela bateu.
A vida passou.

Por entre os dedos.
Feito areia
Do tempo
Que não volta mais. 


sábado, 28 de julho de 2018





Elíseos

   Eu queria ouvir uma sinfonia de flautas e harpas enquanto caminhava sem pressa pelos campos floridos dos Elíseos. Eu estaria cercado por borboletas coloridas e pássaros cantantes me despertariam em todas as manhãs. Um perfume agridoce tomaria o ar. Na boca, levaria para sempre o gosto dos lábios dela.

   Eu queria cantar a eternidade dos momentos bons, sorrir sem motivos, deixar correr por entre os dedos as águas cristalinas que brotam da terra cheia de vida. Por todos os lugares, em todos os momentos, eu seria aquele que sempre fui, mas seria diferente. A cada amanhecer, eu seria diferente, feito uma aquarela em construção pelas mãos do artista. As cores explodindo em harmonia e caos, formando sonhos lúcidos diante dos meus olhos. Ela estaria neles. Ela sempre estaria neles. Viva. Calor a aquecer minhas noites, presença a iluminar meus dias.

   Eu queria dançar sob as estrelas de um infinito céu azul. No chão, meus passos contariam nossa história, seriam letra e canção da música que escrevi para nós dois. Seria carne, seria espírito, seria toque e memória, lembrança e saudade. Não haveria medo, não haveria certezas. Tudo seria uma descoberta, uma permanente descoberta. Dentro de mim, amor. A transbordar, feito chuva de verão sobre a pele quente.

   Eu queria ser a poesia do olhar, queria ser a alma livre dos que sentem sem limites. Sem ter para onde ir, apenas iria. Até aonde quisesse, até aonde pudesse, até o fim do mundo, até o início de tudo. Barco a vela, avião de papel. Sinos ao longe, mãos dadas. Um universo ao alcance do toque, uma viagem ao interior de mim. Uma jornada para perto dela.

   Eu queria que fosse assim. Simples assim. A felicidade de um amor tranquilo. A tranquilidade de uma paz perene. Nada mais. Que a vida seja doce e que a morte traga consigo a leveza de um fim sereno. Eu queria que fosse assim. Eu queria que fosse.

   Mas, se assim não for, se não for feito um flanar por entre as nuvens, se não for feito relâmpago, não for feito trovão, que seja como tiver de ser. Que seja real, que seja duro. Que seja doloroso, até. Que seja perigoso, que seja cheio de tropeços. Que seja amargo. Que seja quente, que seja elétrico. Mas que seja calmo também. Que seja uma manhã de domingo, que seja um passeio no parque, que seja um sussurro no ouvido. Que seja um aceno ao futuro, que seja um lugar do passado. Que seja palavra riscada na areia, que seja onda do mar. Que seja amar.


Que seja vivo.

Que seja vida.

Que seja verso.

Que seja horizonte.

Que seja utopia.

Que seja travessia.

Que seja sutil.

Que seja humano.

Que seja singela.

Que seja eu.

Que seja nós.

Que seja ela.