domingo, 5 de maio de 2019




Antes de acabar o dia


Antes de acabar o dia,
Eu quero ouvir de novo a tua voz.
Um sussurro, apenas, que seja.
Uma palavra, uma canção.
Não quero respostas.
Não farei perguntas.
Não tenho dúvidas.
Está tudo bem.
Está tudo bem.


Antes de acabar o dia,
Vou pegar a estrada e partir.
Horizonte em frente.
Sem olhar para trás.
Sem pressa.
O tempo é meu companheiro.
O caminho, minha redenção.
Mais uma vez.
Mais uma vez.


Antes de acabar o dia,
Espero sentir meus pés na areia.
Água salgada em minhas mãos.
Luz queimando minha pele.
Nenhum arrependimento.
Nenhuma dor.
Nenhum medo.
Já passou.
Já passou.


Antes de acabar o dia,
Vou escrever versos sobre nós.
Vou revirar as fotos na gaveta.
Lembrar de quando te perdi.
Não haverá lágrima.
Nenhum remorso.
Eu não direi o seu nome.
Acabou.
Acabou.


Antes de acabar o dia,
Quero voltar para casa.
Para dentro de mim.
Ficar só.
O silêncio ao meu lado.
Um adeus na memória.
Um sonho perdido.
Apenas saudade.
Apenas saudade.
De nós.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

CARTA PARA UM AMOR QUE PASSOU




Olá, quanto tempo, como você está?
Desculpe por não te procurar.
Foi difícil para mim.
Espero que você entenda.

Andei pensando durante esse tempo.
Eu precisava pensar.
Precisava disso.
Muito.

Não nos vimos mais depois daquele dia.
Fomos nos afastando aos poucos.
Você não mais me quis.
Eu tive de entender.

Nunca estamos preparados.
Por mais que tenhamos visto, ouvido e pensado sobre isso, nunca estamos preparados.

Poderia ter sido diferente, eu sei.
Eu poderia ter sido, você poderia ter sido, mas foi desse jeito.
Será que não era assim que deveria ser?

Eu precisava pensar.
Precisava estar comigo antes de voltar a ter contigo.
Tudo aquilo que eu acreditava, todas as crenças, se esfarelaram em minhas mãos trêmulas.

Sabes quando já não se acredita em mais nada?
Quando a dúvida é a única certeza?
Tudo aquilo que sempre fora real tornara-se um canto sutil ao meu ouvido.
E eu quase já não mais podia ouvi-lo.

Mas, é preciso seguir.
Sim, é preciso seguir.

Sigo tentando encontrar o caminho, confesso.
E, se me afasto, é por que ainda sinto a sua falta.
Muita.
Mais do que achei que poderia sentir a falta de alguém.

De todos os erros que cometi, amar-te não foi um deles.
Talvez, esperar que o teu amor fosse igual ao meu.
Quem sabe, acreditar que ele era.
Mas não te amar.
Amar-te não foi um erro.
Amar nunca é um erro.

Torço para que estejas bem.
Feliz.
Plena.

Eu ainda estou de pé.
Vivo.
Em paz.
Comigo.
Contigo.
Conosco.

sexta-feira, 8 de março de 2019

ELA



Quando criança, houve uma época em que ela quisera ser bombeira. Pediu para o pai cravar um corrimão improvisado no meio do pátio para que pudesse treinar sua descida escorregando. Achava o máximo aquela descida. Imaginava-se fazendo aquilo em meio a um chamado. Um enorme galpão cheio de grãos e palha seca em chamas. Precisava ser rápida. Sempre mais rápida. Cronometrava o tempo desde quando saía correndo do quarto, passava pelo corredor voando, cruzava a sala como um raio, deixava a cozinha para trás, ganhava o jardim dos fundos, subia na escadinha de um pulo e descia pelo cano de PVC fincado no chão. Adorava aquilo.

Assim que cansou de apagar incêndios imaginários, passou a querer ser astronauta. Os mistérios do universo. Estrelas, cometas, planetas, luas e sóis, asteroides, buracos negros, nebulosas. Galáxias inteiras. Infinitas descobertas. Fez dois buracos em um balde que estava jogado em um canto na área de serviço e pronto, já tinha um capacete. Pegou uma capa de chuva, umas luvas que sua mãe usava para cozinhar e umas botas velhas de seu pai. Já tinha a roupa completa. Durante um bom tempo, quisera pisar em marte. Depois que descobriu que o planeta vermelho era um grande deserto de rochas sem graça, passou a preferir vagar livre pelo cosmos. Gravidade zero, aventuras mil. Apenas flanar, somente flanar.

Por poucas semanas apenas, quisera ser mágica. Coelho na cartola, pomba sob o lenço, cartas na manga. Perdeu o entusiasmo quando seus pais não deixaram que colocasse seu irmão mais novo dentro de uma caixa de papelão para que pudesse cortá-lo ao meio. Era seu maior truque. Desinteressou-se e aposentou a capa, a varinha e as palavras cabalísticas. Uma pena, tinha muito talento para a coisa.

Nos primeiros anos da adolescência, quisera ser artista circense. Aquela foi uma ideia bem maluca. Era um calorento sábado quando seu pai a levou ao circo. Inicialmente, odiou aquilo. Ninguém na sua idade ia a circos. Se seus colegas na escola descobrissem, viraria motivo de chacota por todo o resto do ano. Ninguém descobriu e ela pirou no que viu sob a lona amarela. Primeiro, quis ser malabarista. Destruiu o vasilhame de garrafas de cerveja do seu pai. Depois, tentou o trapézio. Esfolou mãos e braços na terra. Por fim, em um ato de desafiadora coragem irresponsável, amarrou a ponta de uma corda no galho da goiabeira do jardim e a outra em um ipê que ficava na calçada, do lado de fora do pátio. Tentou ir de uma árvore à outra, caminhando na corda bamba. Deslocou a clavícula e quebrou o pulso da mão direita. Depois disso, achou que seria sensato abandonar a ideia. Por enquanto, pelo menos.

Não seria, porém, um fracasso qualquer que faria com que ela deixasse de ser quem quisesse ser. Com 15 anos, desejou ser policial. Defender a lei, garantir a ordem. Um distintivo no peito e uma pistola na cintura. O símbolo ela fez com um pedaço de latão qualquer. A arma esculpira em madeira. Fizera um ótimo trabalho. Tinha talento com a talhadeira. Era um revolver pequeno, de cano curto, mas com grande poder de fogo. Ela era uma policial firme, mas justa. Era conhecida por todos no bairro que patrulhava por sua dedicação e perspicácia. Seu trabalho duro e diuturno deu fim à alta criminalidade do local. Não restava mais um bandido sequer. A paz havia sido alcançada graças à sua competência, destreza e olhar apurado. Sem mais malfeitores a combater, abandonou a farda. Sua missão havia sido cumprida.

Durante toda a sua vida, foi bombeira, foi astronauta, foi mágica, foi artista de circo, foi policial. Foi médica, foi advogada, foi cientista, foi juíza, foi general, foi presidente... Foi tudo aquilo que um dia quis ser. Foi ela mesma. Nunca deixou de ser ela mesma. Foi menina, foi moça, foi mulher.

Foi mulher, e isso já era ser tudo.

#8m

sábado, 23 de fevereiro de 2019






Reencontro

Ela disse que havia perdido a fé no amor.
Ele disse que o amor era a própria fé.
Ela disse que não acreditava mais em um príncipe encantado.
Ele disse que a nobreza não estava em coroas e cavalos brancos.
Ela disse que não queria aventuras.
Ele disse que viver era a maior aventura.
Ela disse que estava cansada de promessas vazias.
Ele disse que não lhe faria promessas.
Ela disse que queria um tempo para si.
Ele disse que não tinha pressa.

Olhos para o céu. Respiração forte

Ela disse que não era mais a mesma garota de outrora.
Ele disse que também havia mudado.
Ela disse que não podia mais se arriscar.
Ele disse que se arriscaria por ela.

Voz embargada. Suor correndo nas costas.

Ela disse que tinha um filho.
Ele disse que “tudo bem”.
Ela disse que mataria quem fizesse algo de ruim para o seu menino.
Ele disse que daria o primeiro tiro.

Sorrisos sutis.

Ela disse que já não tinha a beleza de antigamente.
Ele disse que ela nunca fora tão bela.
Ela disse que jamais o esquecera.
Ele disse que se lembrava de cada momento.

Toque das mãos.

Ela disse que, dessa vez, teria de ser para sempre.
Ele disse que sempre fora para sempre.

Levantaram-se, se abraçaram, se despediram e foram embora.

Ela, cheia de dúvidas.
Ele, com a mesma certeza.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Ainda que fosse apenas um sonho



Ele se esforçara. Só ele sabia como se esforçara. Tentara de tudo. Buscara caminhos que não conhecia. Tentara esvaziar sua cabeça de tudo o que lembrasse ela, de tudo que fosse ela. Nada funcionara. Se desfez e se reconstruiu. Ele, que não era de beber, procurou no álcool a solução daquilo que lhe atormentava. Não adiantou também. Experimentara o isolamento e a companhia. Nada. Ela permanecia lá. Impassível. Dona de si mesma, como sempre fora. Iria sair quando quisesse. Não seria ele, com suas tentativas vãs de expulsá-la, que conseguiria desalojá-la de onde ela estava tão confortavelmente instalada. Na verdade, parecia ter sempre vivido ali. Era como se tivesse ali nascido, crescido, se desenvolvido, e dali não pretendesse sair tão cedo.

Ela estava nos pensamentos dele.

A muito custo, conseguira deixar de pensar nela o tempo todo. Descobrira empiricamente que o difícil não é esquecer – sequer queria isso. O difícil é deixar de lembrar. Por muitos meses, procurou maneiras de libertar-se. Por vezes, conseguia dias de alívio. Não demorava, porém, para ela retornar. Ora era o seu rosto ímpar, ora seus negros cabelos em ondas, ora era seu cheiro, ora era a mistura de frases que ele tinha dito apenas para ela com a recordação do que as palavras representaram – “o beijo mais doce do mundo”.

Ele já não lembrava do tempo em que ela não estivera em sua cabeça. Talvez tenha se acomodado ali ainda muito pequena, sem ele perceber. Talvez tenha ficado assim, quietinha, sem se fazer notar, por tantos e tantos anos, conhecendo o terreno, se acostumando com o lugar, construindo seu ninho.

E ela o construiu. Vivia, agora, no seu inconsciente. Quando ele menos esperava, quando seus pensamentos estavam longe de tudo aquilo que poderia fazer a imagem dela se materializar diante de seus olhos, mesmo que fechados, ela surgia.

Passados muitos meses que ela se fora fisicamente, sua presença tornou-se constante em seus sonhos. Nem quando estavam juntos, sonhava tanto com ela. Seu cérebro, sábia e ardilosamente, tratou de compensar a ausência do corpo com a presença da ilusão.

Não passava um dia sem que sonhasse com ela. Em boa parte deles, tinha sonhos múltiplos na mesma noite de sono. Em seus sonhos, ela continuava igual à última vez em que se viram. No rosto, porém, não carregava a expressão pesada daquela tarde de quarta-feira. Tudo, quem sabe, já estivesse decidido ali. Nunca iria saber ao certo. Nos sonhos, ela sorria. Sorria como na tarde de piquenique no jardim florido. Nos sonhos, estavam apaixonados. Nos sonhos, ele era feliz.

Mas ela o deixara. Ela se fora. Nele permanecia, porém, a lembrança de tudo aquilo que viveram juntos. Os momentos bons lhe tiravam lágrimas ao sussurrarem ao seu ouvido “veja o que perdeste, rapaz”. Os momentos ruins já não pareciam ter sido tão ruins. Até os momentos ruins, com ela, eram bons.

Nos sonhos, no entanto, não havia momentos ruins. Nos sonhos, ele vivia aquele quadro que pintara para si mesmo. Colorido, instigante, cheio de energia.

Vivia em um paradoxo de difícil solução. A queria de volta em sua vida, mesmo sabendo que não a teria. A queria longe dos seus sonhos, ainda que soubesse que ela iria permanecer ali.

Desassossego, angústia, incompreensão.

Não tinha com quem dividir o peso que carregava. Teria de lidar com aquilo sozinho. Teria sido mais fácil, muito mais fácil, se tivesse nutrido algum sentimento negativo em relação a ela. Raiva, ódio, ressentimento. Nada disso ele sentiu, porém. Teria sido muito mais fácil.

Um dia, ela lhe disse que o amor fica. Que independentemente do que acontecesse, se nunca mais se vissem de novo, o amor que um dia sentiram um pelo outro permaneceria. Para sempre. Talvez ela tivesse dito da boca para fora, apenas para consolá-lo após o fim. Era possível. Ele acreditara naquilo, porém. Levara aquelas palavras ao pé da letra.

Ainda a amava.

Assim, mesmo que tentasse deixar para trás, ainda que soubesse que ela nunca mais iria voltar, ele se via preso ao que viveu, e ao que sentiu, preso à lembrança, ao toque, ao cheiro, à voz, ao olhar. Ela plantara nele algo que ele nunca vira antes florescer em si. Quando o deixou, levou consigo as flores, mas esqueceu de arrancar as raízes.

Para ele, havia acabado antes do fim. Era como se a linha do tempo tivesse sido rompida. Ficara um vazio. Um vazio que os sonhos constantes tentavam preencher. Ela vivia em seus sonhos assim como vivera em sua realidade. Era a mesma por quem se apaixonara. Inteligente, esperta, culta. O mesmo rosto que lhe acalmava só de olhar.

Durante todo o dia, ele contava as horas para a noite chegar.


Só queria fechar os olhos e tê-la novamente junto de si. Nem que fosse só por uma noite. Ainda que fosse apenas um sonho.


domingo, 4 de novembro de 2018

Ainda não é tarde



Ainda não é tarde


Correu o tempo.
Choveu e fez sol.
Nasceu e morreu.
Chorou e sorriu.
Plantou e cresceu.
Chegou e partiu.

Ouviu e cantou.
Sonhou e fugiu.
Imaginou as horas.
Correu e pulou.
Amanheceu e dormiu.
Aprendeu e errou.

Já não toca as mãos.
Não sente o cheiro.
Já não escuta a voz.
Não tem ao lado.

Correu o tempo.
Feito moinho.
Viveu.
Voou pra longe.
Um passarinho.
Mas ainda não é tarde.

(pra voltar)