quarta-feira, 12 de junho de 2019

NÃO TE AMO PORQUE...




Em uma úmida madrugada de um dia 12 de junho, ele preparou uma caneca de chá quente, pegou seu caderno de amareladas folhas, um lápis, sentou na varanda vendo os clarões da tempestade que se aproximava, e riscou as razões pelas quais não a amava.

"Não te amo porque preciso de ti, ou porque és minha metade.
Te amo porque não preciso de ti e, mesmo assim, te quero.
Te amo porque sou inteiro, completo, e tu, tu me transbordas.

Não te amo porque me fazes sorrir ou porque sinto tua falta.
Te amo pelo teu sorriso.
Te amo porque, embora não estejas, sempre estás – e estarás.

Não te amo porque me olhas com carinho, porque me tocas, porque me acolhes.
Te amo porque me enxergas até quando me escondo em mim.
Te amo porque me estendes a mão.
Porque me empurras para fora e me mostras como pode ser frio por lá e como é quente junto a ti.

Não te amo porque sonho com o ‘para sempre ao teu lado’.
Te amo porque te desejo aqui, comigo, agora.

Não te amo porque me escutas, porque me fazes companhia
Te amo porque me deixas só e me silencias.

Não te amo porque dizes que me ama.
Te amo porque não dizes e, ainda assim, te amo."

sábado, 1 de junho de 2019

Relato de um encontro casual qualquer





Não se lembrava de já tê-lo visto. Ainda assim, ele parecia ter um rosto familiar. Ela remexia suas memórias em busca de um nome, de um lugar. Uma imagem sem foco, lembrança distante de algum momento que não tinha certeza de ter vivido. Talvez um retrato na parede de uma sala de estar, ou uma história sem final perdida em um baú de espantos.

Em vão, tentou recordar de um instante, de uma palavra, de alguém. Sem encontrar sua resposta, aceitou que existem coisas que a vida não explica. Simplesmente ocorrem. Recordações imprecisas de fatos que nunca aconteceram. Restos de tempo.

Estavam sentados lado a lado.

Ele, de cabeça baixa, lia um livro repousado no colo e que ela tentava descobrir qual era. Ela, se esforçando para tentar disfarçar o nervosismo, estalava os dedos sem saber para onde olhar.

Ela notara que ele estava inquieto e interpretara como um sinal de que, talvez, realmente já tivessem se visto antes. Não seria algo incomum. A cidade era grande, mas tinha um quê de interior. Seguidamente reencontrava ao acaso pessoas que já tinham cruzado o seu caminho em algum momento e que, assim como chegaram, tinham ido embora. Agora, se via frente a alguém que não lhe era de todo estranho, mas que não tinha ideia de quem poderia ser, de qual momento passaram juntos.

Ele parecia mais jovem do que ela, mas não muito. Não haviam sido colegas de escola ou de faculdade, portanto. Nada impedia, porém, que tivessem amigos em comum, que já tivessem sido apresentados um ao outro, que uma música em uma festa qualquer pudesse tê-los aproximado.

De fato, a simples presença daquele rapaz ao seu lado lhe despertou uma sensação de deja vu. Ele não precisou dizer ou fazer nada. Ela não precisou ligar aquele momento a nenhuma memória antiga. Era ele. Apenas ele.

Havia algum tipo de conexão entre ambos. Enquanto ele lia, sem conseguir esconder algum desconforto pela situação, ela pensava e pensava, fazendo ilações com acontecimentos importantes de sua vida e buscando nos lugares mais escondidos e escuros de suas lembranças alguma passagem que pudesse lhe dizer de onde o conhecia.

Poderia dar fim àquele martírio pedindo licença por interromper a leitura e perguntando se, por acaso, já haviam se visto antes. Quem sabe ele se lembraria. Suspeitou que algum tipo de bloqueio a estivesse impedindo de encontrar a reposta para a dúvida que a perturbava desde que sentara naquele banco de ônibus há alguns minutos. Teria de desapegar daqueles pensamentos. Sim, teria de fazer isso. Era uma iniciante nas práticas da meditação e sabia que uma das formas de acessar suas recordações esquecidas era não pensar em como encontrá-las, não pensar em nada relacionado a elas, distanciar-se, apagar as memórias recentes e, assim, abrir caminho para as lembranças perdidas.

Tentou se concentrar, mas, a cada balanço do ônibus ao passar por um desnível na pista, a cada campainha sinalizando que um passageiro iria descer, a cada buzina tocada por um motorista impaciente, perdia o fio de sua experiência sensorial e se via, mais uma vez, diante do homem que sabia que conhecia, mas não tinha a menor ideia de quem era.

Passou, então, a prestar atenção nos detalhes. Talvez alguma característica peculiar a fizesse lembrar quem ele era. O jeito com que movia os lábios ao ler em silêncio, o modo como arqueava a sobrancelha direita a cada passagem do texto que o chamava atenção, a maneira com que coçava a barba da boca até a ponta do queixo.

Nada.

Ela era psicóloga. Tinha um consultório no Centro da cidade e um bom número de clientes. Já havia ouvido de tudo. Conhecia bem os meandros da mente humana. Sabia que seu cérebro poderia estar enganando-a. E sabia até porque ele poderia estar fazendo isso.

Saber o que se passava em sua cabeça, porém, não diminuía sua aflição. Ao contrário. Racionalizava o cenário e esquadrinhava as possibilidades que seu estudo e experiência lhe indicavam.

Sempre teve o controle de tudo. Sempre fora tão dona de si, de seus pensamentos, de suas atitudes, de seu passado e de seu futuro. Agora, seu presente lhe pregava uma peça.

Os pontos de ônibus iam ficando para trás e ela via o tempo para solucionar aquele enigma escorrer por suas mãos suadas.

Ele, por sua vez, lia sem sequer erguer a cabeça. Precisava terminar aquele livro. Estava preso a ele há quase três meses. Era um livro chato, mas ele nunca abandonara uma leitura antes do fim. Fosse ruim ou fosse péssima. Não seria daquela vez que o faria.

Ela pensou em iniciar uma conversa. Ouvir a voz dele poderia acionar algum lugar escondido de suas lembranças. Colocar luz sobre um momento que ficou esquecido sob camadas e mais camadas de novos acontecimentos

Isso. Precisava ouvir a voz dele.

Tinha de ser discreta, porém. Ele não podia notar seu interesse.

Assim, forjou uma cruzada de pernas que resultou em um pisão no pé direito dele.

- Perdão, perdão... sou muito desastrada mesmo –, disse, esperando que, em troca, ele lhe falasse algo, um “não foi nada”, que fosse.

Não logrou êxito na iniciativa, porém.

Ele apenas deu um meio sorriso e meneou a cabeça brevemente, retornando suas atenções para o livro no seu colo.

Mais alguns pontos ficaram para trás. Ela tinha de encontrar uma solução urgente, um meio, qualquer meio, para resolver aquele mistério e acalmar seus pensamentos.

Ela sabia que aquilo iria lhe atormentar por muito tempo. Conhecia-se muito bem. Era obsessiva compulsiva. Não iria conseguir descansar até encontrar a resposta que procurava. Sabia também que, após descer daquele ônibus, as coisas ficariam mais difíceis. Pouco a pouco, a face dele iria se perder, assim como os trejeitos, o modo de sentar e levar o dedo indicador à boca para poder trocar de página. Tudo isso iria sumir e, sumindo, tornariam sua empreitada quase impossível.

Corria contra o relógio. Ficava feliz cada vez que o coletivo parava e muitas pessoas embarcavam e desembarcavam. Isso lhe dava mais tempo.

A tranquilidade dele a incomodava demasiadamente. Se ela o conhecia, ele deveria conhecê-la também. Porque, então, não demonstrava intenção alguma em resolver aquilo? Porque não se incomodava com aquela situação? Porque não reagia?

- Por acaso, tu poderias me dizer as horas? –, perguntou, esperando que ele abrisse a boca para dizer algo de verdade e não apenas mover os lábios no ritmo da leitura silenciosa.

Como que zombando do desespero dela, ele tomou o telefone celular do bolso, apertou em um botão lateral, e mostrou os 19h27min que brilhavam na tela.

- Obrigada –, disse ela, com um perceptível tom de desapontamento na voz.

Iria desistir. Provavelmente, nunca haviam se visto antes. Sua mente estava lhe pregando uma peça, certamente. Não seria a primeira vez. Andava muito cansada do trabalho e a reta final da tese de seu doutorado estava lhe tirando noites e noites de sono. Precisava de um dia ou dois de folga. Apenas dormir. Era isso que estava precisando: dormir.

Ela fechou os olhos e imaginou a cidade que ficava para trás do lado de fora. Tentou deter seu nervosismo. As ruas se fizeram borrões e os pensamentos escorreram junto com a chuva fina que descia pelo vidro.

Ficou ali, alheia a tudo ao seu redor, por alguns minutos, uns cinco, ou dez, ou talvez apenas um ou dois. Só saiu de seu transe quando o coletivo freou bruscamente para evitar um atropelamento.

O seu ponto de desembarque era o próximo.

Era isso. Ela estava indo embora. Ele iria seguir. Possivelmente, nunca mais o veria. Tinha a certeza, porém, de que a lembrança dele e daquele fim de tarde no coletivo a iriam perseguir por meses e meses e, quem sabe, anos e anos.

O ônibus reduziu a velocidade gradualmente até parar. A porta se abriu. Ela desceu os degraus lentamente. Antes de dar o último passo, porém, virou-se para olhar para ele pela última vez.

Ele, que permanecera imóvel durante todos aqueles pequenos momentos, ergueu a cabeça, como que movido por uma força oculta que o obrigava a fazer isso, e, então, seus olhares se cruzaram por um instante.

Foi o bastante.

Já na rua, parada e sozinha, olhando o coletivo se distanciar ao som das gotas explodindo no asfalto, ela via as memórias se desenrolarem em sua mente como um novelo. Era ele. Sabia que o conhecia. Era ele. Depois de tanto tempo, depois de tantas outras histórias, aquelas páginas ainda estavam lá, empoeiradas, esquecidas, amareladas. Mas ainda estavam lá.

Dentro do ônibus, ele guardou o livro na mochila. Tirou os óculos, esfregou os olhos e olhou através da janela para a rua. As luzes e as cores borradas, assim como os rostos e todo o resto. Era difícil de acreditar. Ela não o reconhecera. Depois de tanto tempo, depois de tantas outras histórias, aquelas páginas, as que escreveram juntos, já não estavam mais lá. Foram esquecidas, rasgadas e descartadas. Não estavam mais lá.

Eles já não eram os mesmos. A vida os afastara e os transformara. Os mastigara e os cuspira.

Mas a viagem seguia.

A viagem sempre segue...


domingo, 5 de maio de 2019




Antes de acabar o dia


Antes de acabar o dia,
Eu quero ouvir de novo a tua voz.
Um sussurro, apenas, que seja.
Uma palavra, uma canção.
Não quero respostas.
Não farei perguntas.
Não tenho dúvidas.
Está tudo bem.
Está tudo bem.


Antes de acabar o dia,
Vou pegar a estrada e partir.
Horizonte em frente.
Sem olhar para trás.
Sem pressa.
O tempo é meu companheiro.
O caminho, minha redenção.
Mais uma vez.
Mais uma vez.


Antes de acabar o dia,
Espero sentir meus pés na areia.
Água salgada em minhas mãos.
Luz queimando minha pele.
Nenhum arrependimento.
Nenhuma dor.
Nenhum medo.
Já passou.
Já passou.


Antes de acabar o dia,
Vou escrever versos sobre nós.
Vou revirar as fotos na gaveta.
Lembrar de quando te perdi.
Não haverá lágrima.
Nenhum remorso.
Eu não direi o seu nome.
Acabou.
Acabou.


Antes de acabar o dia,
Quero voltar para casa.
Para dentro de mim.
Ficar só.
O silêncio ao meu lado.
Um adeus na memória.
Um sonho perdido.
Apenas saudade.
Apenas saudade.
De nós.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

CARTA PARA UM AMOR QUE PASSOU




Olá, quanto tempo, como você está?
Desculpe por não te procurar.
Foi difícil para mim.
Espero que você entenda.

Andei pensando durante esse tempo.
Eu precisava pensar.
Precisava disso.
Muito.

Não nos vimos mais depois daquele dia.
Fomos nos afastando aos poucos.
Você não mais me quis.
Eu tive de entender.

Nunca estamos preparados.
Por mais que tenhamos visto, ouvido e pensado sobre isso, nunca estamos preparados.

Poderia ter sido diferente, eu sei.
Eu poderia ter sido, você poderia ter sido, mas foi desse jeito.
Será que não era assim que deveria ser?

Eu precisava pensar.
Precisava estar comigo antes de voltar a ter contigo.
Tudo aquilo que eu acreditava, todas as crenças, se esfarelaram em minhas mãos trêmulas.

Sabes quando já não se acredita em mais nada?
Quando a dúvida é a única certeza?
Tudo aquilo que sempre fora real tornara-se um canto sutil ao meu ouvido.
E eu quase já não mais podia ouvi-lo.

Mas, é preciso seguir.
Sim, é preciso seguir.

Sigo tentando encontrar o caminho, confesso.
E, se me afasto, é por que ainda sinto a sua falta.
Muita.
Mais do que achei que poderia sentir a falta de alguém.

De todos os erros que cometi, amar-te não foi um deles.
Talvez, esperar que o teu amor fosse igual ao meu.
Quem sabe, acreditar que ele era.
Mas não te amar.
Amar-te não foi um erro.
Amar nunca é um erro.

Torço para que estejas bem.
Feliz.
Plena.

Eu ainda estou de pé.
Vivo.
Em paz.
Comigo.
Contigo.
Conosco.

sexta-feira, 8 de março de 2019

ELA



Quando criança, houve uma época em que ela quisera ser bombeira. Pediu para o pai cravar um corrimão improvisado no meio do pátio para que pudesse treinar sua descida escorregando. Achava o máximo aquela descida. Imaginava-se fazendo aquilo em meio a um chamado. Um enorme galpão cheio de grãos e palha seca em chamas. Precisava ser rápida. Sempre mais rápida. Cronometrava o tempo desde quando saía correndo do quarto, passava pelo corredor voando, cruzava a sala como um raio, deixava a cozinha para trás, ganhava o jardim dos fundos, subia na escadinha de um pulo e descia pelo cano de PVC fincado no chão. Adorava aquilo.

Assim que cansou de apagar incêndios imaginários, passou a querer ser astronauta. Os mistérios do universo. Estrelas, cometas, planetas, luas e sóis, asteroides, buracos negros, nebulosas. Galáxias inteiras. Infinitas descobertas. Fez dois buracos em um balde que estava jogado em um canto na área de serviço e pronto, já tinha um capacete. Pegou uma capa de chuva, umas luvas que sua mãe usava para cozinhar e umas botas velhas de seu pai. Já tinha a roupa completa. Durante um bom tempo, quisera pisar em marte. Depois que descobriu que o planeta vermelho era um grande deserto de rochas sem graça, passou a preferir vagar livre pelo cosmos. Gravidade zero, aventuras mil. Apenas flanar, somente flanar.

Por poucas semanas apenas, quisera ser mágica. Coelho na cartola, pomba sob o lenço, cartas na manga. Perdeu o entusiasmo quando seus pais não deixaram que colocasse seu irmão mais novo dentro de uma caixa de papelão para que pudesse cortá-lo ao meio. Era seu maior truque. Desinteressou-se e aposentou a capa, a varinha e as palavras cabalísticas. Uma pena, tinha muito talento para a coisa.

Nos primeiros anos da adolescência, quisera ser artista circense. Aquela foi uma ideia bem maluca. Era um calorento sábado quando seu pai a levou ao circo. Inicialmente, odiou aquilo. Ninguém na sua idade ia a circos. Se seus colegas na escola descobrissem, viraria motivo de chacota por todo o resto do ano. Ninguém descobriu e ela pirou no que viu sob a lona amarela. Primeiro, quis ser malabarista. Destruiu o vasilhame de garrafas de cerveja do seu pai. Depois, tentou o trapézio. Esfolou mãos e braços na terra. Por fim, em um ato de desafiadora coragem irresponsável, amarrou a ponta de uma corda no galho da goiabeira do jardim e a outra em um ipê que ficava na calçada, do lado de fora do pátio. Tentou ir de uma árvore à outra, caminhando na corda bamba. Deslocou a clavícula e quebrou o pulso da mão direita. Depois disso, achou que seria sensato abandonar a ideia. Por enquanto, pelo menos.

Não seria, porém, um fracasso qualquer que faria com que ela deixasse de ser quem quisesse ser. Com 15 anos, desejou ser policial. Defender a lei, garantir a ordem. Um distintivo no peito e uma pistola na cintura. O símbolo ela fez com um pedaço de latão qualquer. A arma esculpira em madeira. Fizera um ótimo trabalho. Tinha talento com a talhadeira. Era um revolver pequeno, de cano curto, mas com grande poder de fogo. Ela era uma policial firme, mas justa. Era conhecida por todos no bairro que patrulhava por sua dedicação e perspicácia. Seu trabalho duro e diuturno deu fim à alta criminalidade do local. Não restava mais um bandido sequer. A paz havia sido alcançada graças à sua competência, destreza e olhar apurado. Sem mais malfeitores a combater, abandonou a farda. Sua missão havia sido cumprida.

Durante toda a sua vida, foi bombeira, foi astronauta, foi mágica, foi artista de circo, foi policial. Foi médica, foi advogada, foi cientista, foi juíza, foi general, foi presidente... Foi tudo aquilo que um dia quis ser. Foi ela mesma. Nunca deixou de ser ela mesma. Foi menina, foi moça, foi mulher.

Foi mulher, e isso já era ser tudo.

#8m

sábado, 23 de fevereiro de 2019






Reencontro

Ela disse que havia perdido a fé no amor.
Ele disse que o amor era a própria fé.
Ela disse que não acreditava mais em um príncipe encantado.
Ele disse que a nobreza não estava em coroas e cavalos brancos.
Ela disse que não queria aventuras.
Ele disse que viver era a maior aventura.
Ela disse que estava cansada de promessas vazias.
Ele disse que não lhe faria promessas.
Ela disse que queria um tempo para si.
Ele disse que não tinha pressa.

Olhos para o céu. Respiração forte

Ela disse que não era mais a mesma garota de outrora.
Ele disse que também havia mudado.
Ela disse que não podia mais se arriscar.
Ele disse que se arriscaria por ela.

Voz embargada. Suor correndo nas costas.

Ela disse que tinha um filho.
Ele disse que “tudo bem”.
Ela disse que mataria quem fizesse algo de ruim para o seu menino.
Ele disse que daria o primeiro tiro.

Sorrisos sutis.

Ela disse que já não tinha a beleza de antigamente.
Ele disse que ela nunca fora tão bela.
Ela disse que jamais o esquecera.
Ele disse que se lembrava de cada momento.

Toque das mãos.

Ela disse que, dessa vez, teria de ser para sempre.
Ele disse que sempre fora para sempre.

Levantaram-se, se abraçaram, se despediram e foram embora.

Ela, cheia de dúvidas.
Ele, com a mesma certeza.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Ainda que fosse apenas um sonho



Ele se esforçara. Só ele sabia como se esforçara. Tentara de tudo. Buscara caminhos que não conhecia. Tentara esvaziar sua cabeça de tudo o que lembrasse ela, de tudo que fosse ela. Nada funcionara. Se desfez e se reconstruiu. Ele, que não era de beber, procurou no álcool a solução daquilo que lhe atormentava. Não adiantou também. Experimentara o isolamento e a companhia. Nada. Ela permanecia lá. Impassível. Dona de si mesma, como sempre fora. Iria sair quando quisesse. Não seria ele, com suas tentativas vãs de expulsá-la, que conseguiria desalojá-la de onde ela estava tão confortavelmente instalada. Na verdade, parecia ter sempre vivido ali. Era como se tivesse ali nascido, crescido, se desenvolvido, e dali não pretendesse sair tão cedo.

Ela estava nos pensamentos dele.

A muito custo, conseguira deixar de pensar nela o tempo todo. Descobrira empiricamente que o difícil não é esquecer – sequer queria isso. O difícil é deixar de lembrar. Por muitos meses, procurou maneiras de libertar-se. Por vezes, conseguia dias de alívio. Não demorava, porém, para ela retornar. Ora era o seu rosto ímpar, ora seus negros cabelos em ondas, ora era seu cheiro, ora era a mistura de frases que ele tinha dito apenas para ela com a recordação do que as palavras representaram – “o beijo mais doce do mundo”.

Ele já não lembrava do tempo em que ela não estivera em sua cabeça. Talvez tenha se acomodado ali ainda muito pequena, sem ele perceber. Talvez tenha ficado assim, quietinha, sem se fazer notar, por tantos e tantos anos, conhecendo o terreno, se acostumando com o lugar, construindo seu ninho.

E ela o construiu. Vivia, agora, no seu inconsciente. Quando ele menos esperava, quando seus pensamentos estavam longe de tudo aquilo que poderia fazer a imagem dela se materializar diante de seus olhos, mesmo que fechados, ela surgia.

Passados muitos meses que ela se fora fisicamente, sua presença tornou-se constante em seus sonhos. Nem quando estavam juntos, sonhava tanto com ela. Seu cérebro, sábia e ardilosamente, tratou de compensar a ausência do corpo com a presença da ilusão.

Não passava um dia sem que sonhasse com ela. Em boa parte deles, tinha sonhos múltiplos na mesma noite de sono. Em seus sonhos, ela continuava igual à última vez em que se viram. No rosto, porém, não carregava a expressão pesada daquela tarde de quarta-feira. Tudo, quem sabe, já estivesse decidido ali. Nunca iria saber ao certo. Nos sonhos, ela sorria. Sorria como na tarde de piquenique no jardim florido. Nos sonhos, estavam apaixonados. Nos sonhos, ele era feliz.

Mas ela o deixara. Ela se fora. Nele permanecia, porém, a lembrança de tudo aquilo que viveram juntos. Os momentos bons lhe tiravam lágrimas ao sussurrarem ao seu ouvido “veja o que perdeste, rapaz”. Os momentos ruins já não pareciam ter sido tão ruins. Até os momentos ruins, com ela, eram bons.

Nos sonhos, no entanto, não havia momentos ruins. Nos sonhos, ele vivia aquele quadro que pintara para si mesmo. Colorido, instigante, cheio de energia.

Vivia em um paradoxo de difícil solução. A queria de volta em sua vida, mesmo sabendo que não a teria. A queria longe dos seus sonhos, ainda que soubesse que ela iria permanecer ali.

Desassossego, angústia, incompreensão.

Não tinha com quem dividir o peso que carregava. Teria de lidar com aquilo sozinho. Teria sido mais fácil, muito mais fácil, se tivesse nutrido algum sentimento negativo em relação a ela. Raiva, ódio, ressentimento. Nada disso ele sentiu, porém. Teria sido muito mais fácil.

Um dia, ela lhe disse que o amor fica. Que independentemente do que acontecesse, se nunca mais se vissem de novo, o amor que um dia sentiram um pelo outro permaneceria. Para sempre. Talvez ela tivesse dito da boca para fora, apenas para consolá-lo após o fim. Era possível. Ele acreditara naquilo, porém. Levara aquelas palavras ao pé da letra.

Ainda a amava.

Assim, mesmo que tentasse deixar para trás, ainda que soubesse que ela nunca mais iria voltar, ele se via preso ao que viveu, e ao que sentiu, preso à lembrança, ao toque, ao cheiro, à voz, ao olhar. Ela plantara nele algo que ele nunca vira antes florescer em si. Quando o deixou, levou consigo as flores, mas esqueceu de arrancar as raízes.

Para ele, havia acabado antes do fim. Era como se a linha do tempo tivesse sido rompida. Ficara um vazio. Um vazio que os sonhos constantes tentavam preencher. Ela vivia em seus sonhos assim como vivera em sua realidade. Era a mesma por quem se apaixonara. Inteligente, esperta, culta. O mesmo rosto que lhe acalmava só de olhar.

Durante todo o dia, ele contava as horas para a noite chegar.


Só queria fechar os olhos e tê-la novamente junto de si. Nem que fosse só por uma noite. Ainda que fosse apenas um sonho.