domingo, 10 de agosto de 2014




Chegou, chegou...

Chegou, chegou.
Não disse oi.
Não deu bom dia.
Não escondeu a dor da alegria
De estar de volta ao lar.

Chegou, chegou.
Não deu as mãos.
Não abraçou.
Não viu a paixão que restou
No claro azul do olhar.

Não perguntou.
Não respondeu.
Não escutou.
Nem percebeu.

Que tudo mudou de lugar.
Que o vento ainda está a soprar.
Que a vida nunca existiu.

Que o sonho não basta sonhar.
Que o tempo cansou de esperar
O amor que um dia sentiu.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O homem mais romântico do mundo


Ele, definitivamente, era o homem mais romântico do mundo.

Não era preciso conhecer todos os outros bilhões de seres humanos do sexo masculino existentes no planeta para saber disso. Não era preciso conhecer mais nenhum deles. Bastava conhecê-lo.
Seus atos falavam por si só. Um exemplo?

Ele não mandava flores para a mulher alvo de sua paixão. Isso era simples demais, envolvia pouco sentimento. Ele as plantava. As cuidava. As protegia. Ele conversava com elas. Ele depositava nelas todo o seu amor e as colhia com a sutileza de uma brisa da manhã.

Ele era assim. Um poço de sentimentos. Um oceano de carinho, repleto de ilhas de simpatia, recifes de compreensão, istmos de doçura e continentes de amor. Muitos continentes do mais puro, intenso e inexplicável amor.

Como todo bom romântico que se preze, ele sofria por amor. Entretanto, como era o homem mais romântico do mundo, seu sofrimento era muito maior do que o dos outros. Ele sofria superlativamente. Seu coração ficava doloridíssimo. Sua alma, despedaçadíssima.

Ele exagerava as coisas. Até aí, normal para um romântico. O amor que sentia, sempre era o maior amor de todo o universo, conhecido e desconhecido. No caso específico, porém, a coisa extrapolava os limites que, para ele, não existiam quando se ama. Ele passava noites e noites em claro escrevendo poemas para paixões que nunca teria. Entregava-se ao álcool e cogitava suicídio a cada olhar não retribuído. Derrubava seus livros da estante e se deitava no chão ao lado de Byron, Álvares de Azevedo, Musset, Casimiro de Abreu, Goethe. Via-se entre eles. Imaginava-se morrendo de tuberculose em um porão úmido e cheirando a mofo. Ficava triste ao perceber que já não era jovem o suficiente para ter uma morte trágica e precoce. Além disso, morava em um arejado apartamento no sétimo andar.

Sentia as dores da rejeição de um modo peculiarmente sublime. No seu ponto de vista, obviamente. Para ele, o amor não correspondido não era um amor perdido. Era, sim, um amor superior, um amor que ultrapassava as relações, que vencia as necessidades físicas e alimentava as chamas que iluminavam a essência do seu ser. Para ele, o amor não correspondido era um amor tão forte que não precisava de complemento, era completo por si só, era inteiro, era pleno. Um amor não correspondido era, em suma, a prova de que o amor é força motriz, é fogo e oxigênio, é terra e semente. É vida. Vida além do tempo, vida além do instante, vida além do antes, além do agora, além do depois. O amor não correspondido era prova de que o amor é tudo e de que tudo, tudo é amor (para quem ama).

Ainda com tenra idade, ele dava indícios de que, em um futuro breve seria, o homem mais romântico do mundo. Com oito anos, se apaixonou por uma coleguinha da escola. A menina, uma ruivinha de cabelos encaracolados e sardas no rosto, não dava muita bola para ele, mas era simpática e brincalhona. Todos os dias, na hora do recreio, enquanto as outras crianças se divertiam no extenso pátio da escola, ele, discretamente, apanhava flores do jardim da casa do zelador e as colocava sobre a classe dela. Quando a menina retornava para a sala, encontrava o mimo e não entendia nada. Ele não deixava nenhum bilhete ou recado. Era tímido demais. Sempre foi tímido demais. Apenas as flores. Isso durou quase um ano inteiro. Só parou quando a esposa do zelador o pegou no flagra roubando de seu jardim e lhe deu uma carraspana daquelas. No ano seguinte, a menina ruiva mudou de escola e ele nunca mais a viu. Jamais viria a se esquecer de sua primeira paixão infantil. Foi aquela dura da mulher do zelador que fez com que ele passasse, depois de adulto, a plantar e cuidar de suas próprias flores.

Na adolescência, teve um grande amor. Ela era espevitada e não gostava muito de estudar. Apesar disso, por ser bem esperta, costumava tirar boas notas no colégio. Ele era louco por ela. A ideia de enlouquecer por amor, aliás, sempre esteve presente em seus pensamentos. “Não há razão para o amor, não há razões para amar”, dizia durante suas delirantes explanações alcoólicas. Para ele, o amor era algo tão transcendental, tão impossível de ser entendido e explicado, que somente os loucos conheciam, de fato, o seu significado.

Ele imaginava uma vida inteira ao lado dessa paixão adolescente. Pensava nela durante todo o dia, todos os dias. Sonhava com ela toda a noite, todas as noites. Preenchia folhas de seu caderno com o nome dela. Somente o nome dela. Para ele, ela era a menina perfeita. Tudo nela era perfeito. Até seus defeitos eram perfeitamente defeituosos. Assim como no caso da menina ruiva com sardas no rosto, ele não teve nenhum relacionamento íntimo com o seu amor juvenil. Eles não namoraram. Sequer um beijo.

Foi por ela, por essa paixão adolescente, que ele sofreu por amor pela primeira vez, quando descobriu que a sua amada estava nos braços de outro. Aquela dor forjou o seu caráter.

Ainda na juventude, teve grandes lampejos de paixão. Todos muito rápidos, lancinantes. Intensos. Chama alta em poças de álcool, que queima forte e se vai. Assim, em um átimo.

O homem mais romântico do mundo era um poeta. Não era um bom poeta, entretanto escrevia poemas, poemas ruins, mas, ainda assim, poemas. Ele tinha muita dificuldade para construir rimas. Passava noites e noites em claro, roía as unhas a ponto de suas carnes sangrarem. E elas sangravam. Também escrevia prosa, mas não gostava muito. Achava-se melhor prosista do que poeta. Entretanto, não escrevia um conto com o mesmo sentimento com o qual formava versos. Achava a prosa um texto deveras frio. Enfim, ele não entendia muito de literatura.

Em muitas das madrugadas em que não conseguia dormir, imaginava-se vivendo no fim do século XIX. O cenário e as situações eram, quase sempre, os mesmos. Caminhava à noite pelas ruas iluminadas com lampiões acesos com querosene. Imaginava-se de casaca, bengala na mão direita, sapatos de couro e um chapéu. As pessoas o cumprimentavam quando passavam por ele e cochichavam entre si “esse é o grande poeta”. Naquela época, um poeta que escrevia com coração na ponta da pena era um homem apreciado, hoje, faz papel de ridículo. Ele costumava dizer com alguma frequência que sentia que nascera na época errada. A vida moderna não valoriza o que as pessoas sentem, e sim o que elas fazem ou o que elas são. “As coisas acontecem muito rapidamente, em um estalar de dedos. As pessoas não têm mais tempo para amar”, dizia. Por isso ele gostava do século XIX. Tudo era tão mais calmo, mais natural. O som dos cascos dos cavalos puxando as charretes. O vendedor de jornais gritando as manchetes do dia. O envelope da carta rasgado. Ele sentia uma saudade dos tempos que não havia vivido.

Costumava se deprimir quando não estava apaixonado. Questionava tudo. As coisas não faziam sentido algum. Não via razão em uma vida sem amor. Deixava a barba crescer, não se penteava, usava as roupas que estavam ao alcance das mãos, arrastava os chinelos velhos a cada passo que dava. Não existia amor próprio quando não estava amando.

O homem mais romântico do mundo não sentia a necessidade de ser amado. Para ele, bastava amar. Era amando que ele se satisfazia. Amando, se sentia realizado.

O homem mais romântico do mundo nunca viveu um grande amor. O amor que ele sentia afastava suas paixões. Elas não suportavam tamanho envolvimento. Ele não compreendia porque as mulheres não retribuíam suas tão calorosas provas de afeição. Em algumas raras ocasiões, chegou a se perguntar se aquilo tudo valia a pena. A resposta era sempre a mesma, decorada do poema Mar Português, de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se alma não é pequena.” E a sua alma era enorme, assim como era enorme o amor que ele levava no peito, e lhe comprimia o coração.

Os anos passaram. O tempo lhe deixou marcas. Dissabores tornaram cada vez mais raros os sorrisos em seu rosto. Ele era um sobrevivente. Sentia-se um sobrevivente de uma época em que amar não era algo banal. Amar era divino.

Era um fim de tarde chuvoso de inverno quando, após duas semanas completamente sumido, encontraram o seu corpo. Ele morrera em seu apartamento, no quarto de leitura, consumido por seus sentimentos. Nas mãos, um bilhete riscado com sua caneta tinteiro.


“Àqueles que encontrarem este corpo putrefato, peço apenas uma coisa: retirem este coração quente para estudos. Nenhum outro amou tanto.”