domingo, 15 de abril de 2012

Fui embora ...



Estrada


Fui embora com o vento.
Levei comigo a vida e nada mais.
Andei por terras mil, e o pensamento.
Voou por sobre campos irreais.

Fui embora passo a passo.
Percorri caminhos livres devagar.
Risquei no céu azul meu próprio traço.
Gravei cruas imagens no olhar.

Fui sozinho, sem ter pressa.
Cruzei estreitas ruas sem final.
Fui a estrela do meu tempo (que não cessa).
 Flanei por entre prédios de cristal.

Fui embora e nunca mais voltei.
Parti pra onde o sonho me levou.
Deixei parte de mim onde passei.
Vivi, como a estrada me ensinou.

sábado, 10 de março de 2012

Sobre um soco na ponta do queixo (e um velho gato preto no telhado)

Foi como um tapa na cara. Hmm ... não, não. Definitivamente não. Fez menos barulho, mas foi mais forte. Bem mais forte. Foi como um soco. Um cruzado de direta no queixo. Daqueles rápidos, que você nem sabe de onde veio. Olhos abertos e BOOOM. Quando você retorna à consciência, está caído. Não há sangue nem qualquer outra marca física. Mas você está caído e não sabe por quanto tempo está assim. Foi um belo soco. Realmente foi.

Ele voltou pra casa. Simplesmente pegou suas coisas que haviam se espalhado no chão úmido, as colocou na mochila e foi pra casa.
Não havia muito o que fazer. Mais do que a força, o que o derrubou foi a surpresa. Ele não esperava por aquele soco. E, assim, ele não soube como reagir. Caiu. Levantou. Foi pra casa.

Ele foi dando passos descoordenados. Às vezes rápidos e sequenciados. Pé após pé após pé após pé. De repente, o ritmo era outro. Arrastado, modorrento. Pé ........................ após pé ............................ após pé .....................

A cabeça. Ora baixa. Terra, areia, granito, cimento, brita, asfalto (BIIIIIIIIII!!!! “Sai do meio da rua, abobado!”), lajotas, barro, poça d’água (havia chovido pela manhã). Ora alta. Azul, branco, azul, branco, azul, cinza, azul, branco (olha! um coelho nas nuvens).

E, assim, ele foi. E começou a pensar o que poderia ter motivado aquele murro. Não conseguiu lembrar de nada que pudesse ser a causa. Pequenas rusgas, nada demais. Nada demais para ele, pelo menos. Algumas discordâncias, mas eram tão poucas... e então pensou que, talvez, não houvesse razão e que (talvez) as coisas não precisem de razão para acontecer. Mas isso não fez muito sentido para ele. Não naquele momento. Deveria haver uma razão. Não precisava ser uma boa razão (e ele não achava que fosse, seja ela qual fosse, SE ela existisse). E ele conjecturou e conjecturou e conjecturou (mesmo não tendo a menor ideia do significado da palavra “conjecturar”). Quiçá, tivesse sido um ato instintivo, algo impensado, emocional, quase irracional. É, era uma possibilidade. Mas, ele, sinceramente, não acreditava muito nessa possibilidade.

O fato é que foi um belo de um soco no queixo que o levou a nocaute instantaneamente. Pelo menos, ele sentiu como se tivesse sido um. Na hora nem doeu. Ele simplesmente apagou. Mas depois... ahh, depois doeu e doeu muito. E mal ele fazia ideia de quanto e por quanto tempo ainda iria doer.

E ele seguiu rua após rua. Quadra após quadra. Ele ainda estava um pouco tonto. O primeiro murro na ponta do queixo a gente nunca esquece. E aprendemos com ele. Ele aprendeu com aquele soco. Aprendeu a se esquivar, aprendeu a se proteger, aprendeu a prever o golpe e, assim, estar preparado quando ele vier. E ele veio. Algumas vezes mais.

Realmente, aquele soco mudou a vida dele. Aquele soco o mudou. Hoje ele agradece a quem lhe deu a pancada (até ali também né, até ali).

E quando ele se deu por conta, estava em frente a uma porta. Não bateu nem tocou a campainha. Colocou a chave e girou. E então, estava em casa. Entrou no quarto. Jogou a mochila no chão (ali no canto, ao lado do violão). E sentou na cama. E, com os cotovelos sobre os joelhos, pôs as mãos no rosto. E chorou. Não chorou muito, porque ele não é muito de chorar. Mas chorou. Um pouco. E não chorou pela dor física da pancada. Chorou pelo inesperado. Chorou pela falta de motivo. Ele já enxugava as lágrimas quando ouviu um barulho. Era um fim de tarde bem silencioso. Daqueles em que o barulho de uma gota que cai da torneira que não foi bem fechada ecoa como um trovão. Mas ele ouviu algo que quebrou aquele microssistema que estava ali posto. Ele, então, foi à janela e o viu. Um gato. Preto. Um gato preto sobre o telhado da casa do vizinho. Era um gato grande, desses que já não tem a agilidade de outrora, mas possuem a sabedoria que somente os velhos bichanos têm. O gato lambia-se tranquilamente, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo. Naquele instante, aquele era o seu mundo. Nada era mais importante para aquele gato preto do que lamber-se. E lambia e lambia e lambia. Com calma, cuidadosamente, devagar. Para aquele velho gato, lamber-se era mais do que uma necessidade. Para aquele velho gato preto, lamber-se era uma arte. Uma arte executada e aperfeiçoada com o tempo.
E ali ficaram ambos, o gato e ele. O gato praticando seu ato, que mais parecia algum tipo de meditação, algo quase transcendental. E ele olhando. Em completo silêncio. Completa harmonia. Ele não sabe precisar por quanto tempo permaneceram ali. Podem ter sido segundos, podem ter sido minutos, parece que foram horas. E então o gato parou e virou a cabeça. E o gato olhou pra ele. O velho gato preto sobre o telhado o mirou com aqueles aguçados olhos de felino. E olhou. E olhou. E olhou. E seguiu olhando. E olhou. E olhou. Ele sentiu que algo estava acontecendo ali. Algum tipo de conexão. Algo que, se ele estivesse nos anos 60 sob o efeito de ácido, faria muito sentido.

BREVE EPIFANIA

Entra no carro, capota abaixada, aumenta o volume (alto, BEM ALTO) acelera e acelera, vento no cabelo, olhos no céu e vai. Ai ai ...

FIM DA BREVE EPIFANIA

O gato parou. O gato olhou pra ele. O gato voltou a se lamber.

Um pardal inocente pousou no telhado, perto do velho gato, que deu uma olhadela e seguiu seu ritual. Não era hora de caçar. Era hora de lamber. O pardal voou e foi embora.

E, então, ele deixou o gato seguir sua prática e deitou-se na cama. E pensou. Pensou que ele devia ser como o gato (não, ele não passaria a se lamber deitado sobre o telhado do vizinho). Que todos deveríamos ser como aquele velho gato preto. Que ele devia viver o instante. Que todos deviam viver o instante. Usar tudo o que aconteceu e o que aprendeu no passado, para viver intensamente o instante.  Pensou que não havia como mudar passado. O que aconteceu, aconteceu. Ponto. Doía. Doía bastante. E a dor persistiria por mais algum tempo. Mas, cedo ou tarde, essa dor iria cessar. Mas o soco já havia sido desferido. Ele já havia recebido o impacto. Nada mudaria isso. Agora era hora de parar e curtir o momento. Agora era hora de digerir aquilo e, assim, aprender a se defender quando da próxima vez. Agora era hora de se lamber.

E ele fechou os olhos. E dormiu. Profundamente. Como um velho gato sobre o telhado.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Mulher Sentada Sobre os Pneus (ou À Espera da Vida)

O homem passa. A mulher passa. A criança passa. O cachorro passa. Passa o caminhão do lixo. Passam os carros. Passam as motos. Os aviões passam no céu. A lua passa e o sol também. As nuvens passam. A chuva chega ... e passa. O vento passa e leva as folhas secas com ele. A tristeza passa. A dor passa. A alegria passa. O frio passa, assim como o calor. Os segundos passam. Passam os minutos e as horas logo atrás. Passam os dias. Passam as noites. As semanas passam. Passam os meses. Passam os anos.
E ela segue ali.
Sentada.
Tudo passa por ela. Todos passam por ela. Ela está sempre ali. Sentada. Em silêncio. Com a cabeça baixa. Como que hibernando. Às vezes, ela gesticula, mexe os braços e conversa com seus botões. É raro, mas de vez em quando acontece.
Todos passam por ela, mas ninguém a enxerga. As pessoas a vêem. Mas vêem como vêem uma árvore na calçada. Vêem como vêem uma pedra no chão. Vêem como vêem um hidrante na esquina. As pessoas a vêem, mas não a enxergam.
Ela é invisível aos olhos que a vêem.

Ela viu muito da vida. O rosto marcado pelo tempo, as costas arqueadas e o olhar distante deixam claro que ela já deu muitos passos nessa estrada. Talvez por isso ela permaneça sentada. Suas pernas estão cansadas.
É interessante prestar atenção no modo como as pessoas olham para ela. Alguns expressam pena. Outros, algum tipo de repúdio. Outros balançam a cabeça de um lado para o outro. A maioria, porém, não revela nenhuma mudança na face. Era como se ali, sobre aqueles pneus empilhados, não houvesse ninguém. Como se ali não houvesse nada.
Nunca vi aquela mulher pedir algo a alguém. Nunca a vi importunar alguém. Ela não mora nas ruas. Suas roupas estão sempre limpas. Seguidamente a vejo desembarcar do ônibus e se dirigir para o seu lugarzinho, junto aos pneus. Já a vi trabalhando, limpando o chão, tirando o pó. Era uma mulher batalhadora, percebe-se. Agora não a vejo mais trabalhando. Quem sabe a tenham dispensado em razão da idade? Quem sabe. Agora só a vejo ali. Sentada sobre os pneus. Com um olhar tranquilo. Com uma expressão serena. Com a característica calma dos que lutaram a boa luta. Agora só a vejo ali. Sentada sobre os pneus. Esperando.
O que será que ela espera? Quem será que ela espera? Será que ela espera algo? Será que ela espera alguém?
Poder-se-ia dizer que ela, talvez, esteja esperando a morte. Não creio. Acho que ela espera a vida. Acho que ela espera que alguém a enxergue. Acho que ela espera que alguém pare, a olhe nos olhos, e lhe pergunte como está. Que alguém se sente ao seu lado e ali fique, pelo tempo necessário, sem pressa. Que alguém lhe estenda a mão. Que alguém lhe dê um sorriso. Acho que ela espera que alguém passe, a olhe e leve aquela imagem consigo. Que alguém lhe dê um “bom dia” sincero. Que alguém ouça a sua voz. Acho que ela espera a vida, mas não a própria vida. Acho que ela espera a vida dos outros.
Já ouvi, enquanto aguardava o ônibus, pessoas comentando sobre a senhora sentada sobre os pneus. Já ouvi as palavras “coitada”, “pena”, “tristeza”, “sozinha”, “doente”, “louca” sendo ditas a respeito dela por pessoas que passaram ao seu lado e não a viram, ou fizeram de conta que não a viram.
Seria ela uma coitada? Seria ela uma pessoa digna de pena? Seria ela triste? Será que ela está sozinha? Será que está doente? Seria ela louca?
Não acho nada disso. Quem não a enxerga, quem não se importa com ela, quem não sente nada ao passar ao seu lado é que é digno de pena, é que é um coitado. Quem não a olha de verdade é que é triste, é que está sozinho, é que está doente.
Ela é humana. Aquela senhora sentada sobre os pneus é profundamente humana. É demasiada humana. Ela não foi ainda afetada pela modernidade frugal, por esse turbilhão que a todos engole, mistura, massifica, embrutece.
Ela conversa consigo mesma. Ela fala sozinha. Ela gesticula e balança os braços no ar. Ela não parece se importar com o olhar reprovador dos outros. Ela não se importa em parecer louca. Ela é louca. Viver é para os loucos. Para os raros, como diz Hesse.


“Em uma época falsa, para estabelecerem-se relações sinceras com os homens, não é necessário um surto de insanidade?”
Ralph W. Emerson


Há alguns dias, eu passei em frente à mulher sentada sobre os pneus, como já fizera incontáveis vezes. Ela sempre me chamou a atenção, sempre me intrigou, sempre me fascinou. Desta vez, quando eu passava, ela ergueu, timidamente, a cabeça e me olhou. Eu retribuí o olhar e disse um “boa tarde”. Ela sorriu e meneou a cabeça para baixo, cumprimentando-me. Fiquei com aquela imagem guardada. Ainda a tenho aqui comigo. Aquele sorriso discreto, mas sincero e cheio de emoção, foi muito importante pra mim. Acredito que, de algum modo, minhas duas palavras também significaram algo e foram importantes para ela. Gosto de pensar assim. Gosto de pensar que ela sentiu vida ao redor dela. Sentiu vida além da presente sobre os pneus.
Hoje passei, novamente, por ela. Uma mulher que caminhava à minha frente puxou a criança que levava pela mão e a passou para seu outro lado, para o pequeno não passar próximo da senhora sentada sobre os pneus. Senti pena da criança. Mesmo. Esse texto sai escarrado. Sinto-me melhor agora.
O homem passa. A mulher passa. A criança passa. O cachorro passa. Passa o caminhão do lixo. Passam os carros. Passam as motos. Os aviões passam no céu. A lua passa e o sol também. As nuvens passam. A chuva chega ... e passa. O vento passa e leva as folhas secas com ele. A tristeza passa. A dor passa. A alegria passa. O frio passa, assim como o calor. Os segundos passam. Passam os minutos e as horas logo atrás. Passam os dias. Passam as noites. As semanas passam. Passam os meses. Passam os anos.
E ela segue ali.
Sentada.
À espera.
Da vida.
Dos outros.

domingo, 18 de dezembro de 2011

...

Caminhada

Saí da estrada
Percorri um caminho livre
Busquei em tudo o nada
Os pés - no chão – deixei
Morri
Na vida que tive
Vivi
Na morte que sonhei

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um dia cinza

Era um dia frio. Não era um dia excepcionalmente frio, mas era um dia frio, assim como a maior parte dos dias nessa época do ano. O inverno do ano anterior havia sido um dos mais rigorosos das últimas duas décadas. Assim, as temperaturas pouco abaixo de zero grau não pareciam deixar o dia tão frio. Mas era um dia frio. A presença do sol só podia ser notada pelo fato de não ser noite e de as luzes nos postes nas ruas estarem apagadas. De resto, era impossível ver qualquer pequena parte dele. Nem um raio sequer. Não havia sombras. Nuvens escuras cobriam todo o céu que se podia enxergar. Os diferentes e acentuados tons de cinza formavam uma bela pintura por sobre as cabeças que, em sua maioria, estavam cobertas por chapéus que as protegiam de uma possível queda repentina de flocos de neve e impediam que os cabelos balançassem a cada rajada de vento.
O tempo se esvaiu rápido naquele dia. As horas escorreram por entre os dedos e a ausência das vivas cores impedia os olhos de perceberem que a manhã já não era manhã e que a tarde já não era tarde e que a noite já estava logo ali, espreitando.
Cinza.
Era um dia cinza. Era um dia cinza no céu e era um dia cinza na terra. As pessoas estavam cinza. Vestidas de cinza. As faces eram cinza. Os homens caminhavam com rapidez, olhando para o chão cinza, com suas pastas cinza em uma das mãos e um jornal cinza na outra. As mulheres carregavam suas compras cinza e empurravam carrinhos de bebê cinza, ambos, o carrinho e o bebê. Também elas olhavam para o chão.
Era uma época de poucas palavras aquela. Pelo menos entre as pessoas. Elas ouviam muitas palavras. Elas eram forçadas a acreditar e, em sua maioria, acreditavam, em palavras. Mas falavam pouco. Aquela era uma época de pessoas cansadas. Era uma época de pessoas cansadas não pelo que estava ocorrendo, mas pela perspectiva do que estava por vir. Era uma perspectiva triste. As pessoas viam se repetindo no futuro as coisas que aconteceram no passado. As pessoas não gostavam de ver isso. Mas elas não tinham muitas dúvidas de que veriam tudo acontecer novamente, só que em uma intensidade e escala maior. Muito maior. A dúvida que elas tinham era somente uma: quando? Elas sabiam o “porquê” e o “como”. Só não sabiam, exatamente, “quando”.
O dia estava frio e cinza.
Um homem e uma mulher caminhavam em uma estação de trem.
Eles caminhavam com passos rápidos. Eles queriam que aquilo acabasse logo. Eles levavam no cenho uma expressão que misturava um pouco de medo, uma pitada de desgosto, uma dose de cansaço, algumas gotas de complacência, uma porção de resignação e um sutil resquício de esperança. Muito sutil. Quase imperceptível.
Ela carregava uma mala cinza na mão esquerda. Ele carregava outra, também na mão esquerda.
As duas malas eram dela.
Eles caminhavam lado a lado, ele à direita dela. Os passos pareciam ter sido ensaiados. A sincronia era perfeita. As pernas direitas se projetavam à frente, enquanto as esquerdas permaneciam no mesmo lugar. Assim eles seguiram, fazendo uma macilenta coreografia.
Uma rajada de vento fez algumas folhas e bilhetes descartados dançarem no chão úmido. Isso trouxe lembranças à cabeça dele. Ele lembrou de como em uma noite quente do último verão as estrelas tomaram conta do céu. E de como ele levantou de onde estava sentado e convidou-a para dançar. “Cada passo, uma estrela”, foi o que ele disse, baixinho, no ouvido dela. Dançaram ao ritmo das nuvens. E, dessa forma, eles ficaram por muitos minutos, aventurando-se nas constelações. Começaram por Auriga, seguiram para Perseu, passaram lepidamente por Andrômeda, e então Peixes, e Áries, e Touro e, por fim, Órion. Até que ela parou e ele perguntou-a, sem dizer uma palavra, o que havia acontecido. “Mais noites virão, o universo é infinito. Vamos sonhar agora”, foi o que ela disse. E, então, ambos deitaram sobre a relva, deram-se as mãos, fecharam os olhos. E sonharam.
As lembranças se foram e ele voltou à estação. E ele olhou para a sua esquerda. E ele a viu. E passou a mala da mão esquerda para a direita.
E ele segurou a mão dela.
Ela seguiu andando.
Ambos, porém, quase que ao mesmo tempo, mudaram a velocidade com que os passos eram dados. Eles foram ficando mais lentos, mais arrastados. Até que as pernas fizessem somente pequenos movimentos para frente. Agora eles avançavam devagar.
Os dois perceberam, quando as mãos se tocaram, que aquela poderia ser a última vez que isso iria ocorrer. E decidiram, então, aproveitar ao máximo aqueles instantes. Os braços unidos formavam um V. E eles seguiram. Caminhando lentamente, eles seguiram, como em um dos inúmeros passeios que fizeram pelo parque que ficava no meio da distância entre as suas casas. Eles entravam no parque de mãos dadas e percorriam todos os caminhos por entre as árvores. Tinham suas trilhas prediletas, aquelas que, na primavera, eram mais rodeadas de flores. Gostavam especialmente das rosas brancas. Nunca arrancaram uma sequer. Deixando as rosas brancas lá, vivas, no parque, haveria sempre um motivo para eles saírem juntos de novo. Findado o passeio por entre as árvores e as flores e os arbustos e os pequenos animais, eles iam pelo estreito caminho de pedras que atravessava o parque, de ponta a ponta. E caminhavam vendo o dia ir embora e a noite esconder as cores. E então o caminho acabava. Era hora de deixar o parque. Era o fim.
Era o fim.
Eles pararam.
Uma chuva fina começou a cair.
E então veio o silêncio. Um silêncio tumular. Um silêncio tão silencioso que percorria celeremente as ruas e dobrava as esquinas e desfilava ainda mais rápido nas largas avenidas e entrava nas casas sem bater à porta e ecoava nos ouvidos daqueles que não ouviam nada. Tudo isso sem ser notado.
O silêncio.
O silêncio rompe as amarras que determinam os limites do tempo. Não há tempo que dure mais do que o tempo de um silêncio. Aqueles instantes duraram e duraram e duraram e duraram. Eles já haviam se despedido, já haviam se abraçado, um abraço apertado, um abraço com tanta intensidade que já não eram duas pessoas. Os braços que, no começo, cercavam os corpos, penetraram neles. Os dois se fizeram em um. Não houve dor. Só silêncio e um lamento que podia se sentir no ar. Um lamento com um odor almiscarado, que se fazia perceber a metros de distância. Aquele abraço de não mais de meio minuto durou uma eternidade.
Mas acabou.
Nada foi dito depois do abraço.
O silêncio.
Ela se virou sem ao menos olhar para ele e começou a caminhar. Eram passos decididos aqueles. Eram passos firmes. Ela parecia marchar. Que ironia, ela parecia marchar.
Ele ficou estático. Nem mesmo um leve movimento nos músculos do rosto. Ele sentiu um aperto no peito. Uma sensação que foi se espalhando por todos os seus ossos. Ele queria correr. Ele queria correr atrás dela, segurá-la pelo braço e dizer para ela não ir, para eles enfrentarem aquilo tudo juntos. Depois ele pensou em correr até lá, segurá-la pelo braço e dizer que iria junto. Que os dois fugiriam. Que deixariam para trás o que os impedia de ficarem unidos, que encontrariam um lugar para viver e que viveriam assim, juntos, por muito e muito tempo, até que A Inevitável chegasse e os levasse embora. Juntos. Por fim, ele quis correr até ela, tomá-la nos braços e beijá-la. Beijá-la como nunca a havia beijado. Os olhos estariam fechados. Ele pensou nisso. Ele quis fazer isso.
Ele não fez isso. Nada disso.
Ele ficou imóvel.
E, assim, parado, ele a viu se distanciar. E viu nesse espaço entre eles todas as histórias da sua própria vida que ele se imaginou escrevendo ao lado dela. Todas as imagens estavam no chão. Todas as palavras estavam no chão. O chão estava gelado. Ele sentiu esse frio tomar conta do seu corpo, enregelar seu sangue.
Uma lágrima caiu de seu olho esquerdo e escorregou por sua face.
O trem já estava prestes a partir, a última chamada já havia sido feita há bastante tempo.
Ela deu mais um passo. Estava em frente à porta que lhe levaria para longe do futuro que esteve presente nos seus sonhos. O futuro agora era escuro e metálico. O futuro cheirava a mofo. Ela não sabia o que estaria dentro dele e para onde ele levaria a sua vida.
Foi aí que veio o impulso. Um impulso repentino. Um impulso tão forte que fez com que aquela frieza marcial que ela, até então, estampava, se desfizesse. Ela sentiu que tinha de fazer aquilo. Ela se arrependeria se não o fizesse. Ela sentiu que poderia ser a última vez que o veria.
E então ela se virou. E ela olhou para ele. O rosto magro continuava sem esboçar reação. Os olhos não. Ela concentrou nos olhos todo o seu sentimento. Ela deixou que os olhos negros mostrassem a ele o que ela queria lhe dizer e o que ela queria fazer.
E assim ela ficou. Por poucos instantes. Alguns segundos apenas. Fitando-o.
Ele sorriu. Ele permaneceu sem se mexer. Ele apenas sorriu.
Ele olhou. Ele sabia que ela não iria voltar. Mas ele olhou. E, quando ela se virou e o viu, ele sorriu. Ela levou esse sorriso. Ele ficou com aquele olhar.
E ela pôs a perna direita à frente e adentrou na caixa de metal.
Ele permaneceu ali. Imóvel. Em silêncio. Por algumas horas ele ficou ali. E a chuva acabou. E o céu abriu.
Juntar os cacos. Unir o resto. Contar os passos. Expôr o gesto. Cortar os laços. E ir
E ele se foi. Ele se foi pensando em como poderia ter sido e em como ainda poderia ser. Ele não tinha certeza alguma. Ele não sabia o que iria acontecer. Ele só queria deitar naquela relva e passar a noite olhando as estrelas. Vendo o bailar das nuvens no negro tablado celeste.
Assim foi o final.
Ou o início.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lições para um jovem jornalista

Lição nº. 1: não seja amigo das fontes


Qualquer tipo de relacionamento exige compromissos. Amigos têm compromissos uns com os outros. Irmãos têm compromissos entre si. O pai tem compromisso com o filho e o filho com ele. O namorado tem compromisso com a namorada e a esposa com o marido. Inclusive relacionamentos profissionais subentendem compromissos. O subordinado tem compromisso para com o chefe e vice-versa.
Destarte, portanto, meu caro jovem jornalista, não seja amigo de suas fontes. Meu caro jovem jornalista, não seja um “conhecido” das suas fontes. Meu caro jovem jornalista, não tenha nenhum relacionamento com suas fontes. O profissional jornalista só tem dois compromissos: com a verdade e com a sociedade. Poderíamos citar um terceiro compromisso, que é o com a empresa para qual trabalha, mas esse é outro tipo de obrigação.
Cada vez que vou a alguma pauta e percebo que a fonte não sabe o meu nome, mesmo eu já a tendo entrevistado diversas vezes, volto para a redação em regozijo. Estou fazendo bem o meu trabalho. Não tenho compromisso algum com fontes. O compromisso de reproduzir em exatidão o que ela me diz não é um compromisso com ela, e sim com a verdade.
Não tenho um relacionamento profissional com as fontes. Simplesmente não tenho relacionamento algum com elas. Não quero ter. Elas não têm obrigações comigo nem eu com elas. Se ela for um agente público, suas obrigações são com a sociedade, não comigo.
Independência é o maior troféu que um jornalista pode ter. Credibilidade pode ser perdida mesmo com você não fazendo nada para que isso ocorra. Um boato mentiroso que corre de boca em boca pode fazer você perder a credibilidade. Nada pode tirar sua independência, se assim você quiser. Um diploma enquadrado na parede não faz de alguém um jornalista. Compromissos com a verdade factual e com a sociedade, independência, ceticismo, indignação com as injustiças e olhar apurado para enxergar aquilo que não está na superfície fazem de você um jornalista.
Esteja preparado para, sendo independente, “sofrer” com as consequências. Você, meu caro jovem jornalista, muito provavelmente deixará de ser convidado para jantares e almoços cortesia. Meu caro jovem jornalista, você com certeza deixará de receber “tocos” bastante atraentes. Talvez você não consiga ou tenha dificuldades em realizar algumas entrevistas. Você não receberá uma ligação lhe avisando antecipadamente quando algo está para ocorrer. Meu caro jovem jornalista, você dificilmente ganhará algum prêmio jornalístico na aldeia. Você não será popular, meu caro jovem jornalista.
Meu caro jovem jornalista, você não terá e não conseguirá muitas coisas que a imensa maioria de seus colegas de profissão terão e conseguirão. Você, meu caro jovem jornalista, porém, fará algo que eles, provavelmente, nunca farão na vida. Você fará Jornalismo, meu caro colega.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não texto

Senta, pega a caneta, pega o papel. Minutos passam. Bate a caneta (ritmadamente) na mesa. Mais alguns minutos. Morde a tampa da caneta. Levanta. Vai à cozinha e faz um café forte. Volta pro quarto. Senta, pega a caneta, pega o papel. Leva a caneca do líquido escuro quente à boca. Sorve um belo gole. Coloca a caneca na mesa. Pergunta-se de onde veio aquele café. Vai à cozinha, olha a embalagem. Interior de São Paulo. Nenhuma novidade. Já esperava que fosse. Por curiosidade, olha a caixa de leite que está no armário para ver se é de Minas Gerais. Não, não é. É do Rio Grande do Sul mesmo. “O tempo da República do Café com Leite se foi mesmo”, diz pra si mesmo. Põe mais café. Volta pro quarto. Senta. Cinco minutos se passam. Começa a bater o pé esquerdo no chão. Pega o papel, pega a caneca de café e levanta. Caminha pelo quarto. Faz círculos. Olha para o papel. Branco. Olha para o interior da caneca. Preto. Falta cor. Abre a janela. 2h da madrugada. Uma neblina espessa o impede de ver o lago. Fecha a janela e senta de novo. Coloca o papel sobre a mesa e a caneta sobre o papel. A caneca está ao lado. Leva as mãos à face e fecha os olhos. Pensa. Pensa. Pensa. (pensa... pensa... pensa...). Tira as mãos do rosto. Boceja. Olha para o relógio. Os ponteiros se moveram bem rápido dessa vez. Uma leve dor começa a surgir na parte frontal da cabeça. Levanta. Pega o papel, a caneta e a caneca. Senta no chão e se encosta na parte lateral da cama. Bate com a caneta no chão. Como foi o dia que passou? Nada que renda frases interessantes. Alguma polêmica, alguma discussão? Nada. Coloca um cd no som (baixinho). Não gosta da música. Não é boa. Não para o momento. Desliga o som. Levanta. Vai até o banheiro. Joga uma água (fria) no rosto. Já passa das 3h. Pega o papel e a caneta que estavam no chão e os coloca sobre a cômoda, ao lado da cama. A caneca ele coloca na mesa. Ainda resta um pouco de café, mas já esfriou. Ele não gosta de café frio. Quente (bem quente) e forte. Uma lembrança de uma discussão a respeito da ausência de sentido no café descafeinado surge. Ele não lembra com quem discutiu. Na verdade, não foi uma discussão, foi um debate. Uma conversa acalorada. Melhor assim, uma conversa acalorada. “Café descafeinado é como cerveja sem álcool. Cerveja sem álcool não é cerveja e café descafeinado não é café. Pode ser qualquer coisa, menos café. Simples assim.” Ele riu. Foi uma boa lembrança. Deita. Fecha os olhos, cobre-se com dois cobertores que estão sobre a cama. Vira-se para um lado. Menos de um minuto passa. Vira-se para o outro. Um minuto e meio, talvez. Experimenta, na sequência, mais algumas formas de se acomodar para tentar dormir. Não consegue. Pensa. Pensa. Pensa. (pensa... pensa... pensa...). Não para de pensar. Pensa porque não para de pensar. Pensa porque pensa porque não para de pensar. O café! Bebeu muito café. Café de verdade. Forte. É isso. Bebeu muito café. Não vai conseguir pegar no sono tão cedo. Levanta. Pensa em ler alguma coisa. Olha para a estante. Uns quantos livros ainda não lidos. Fazer escolhas perto das 4h não é muito fácil. Às 4h, já se age por instinto. Há pouco raciocínio. Desiste. Ar em movimento se choca contra a janela e faz barulho. Ele a abre para ver se a chuva se aproxima e uma lufada de vento entra quarto adentro e faz com que o papel caia no chão, uns dois metros adiante, perto da porta. Não parece que vai chover. Foi só uma rajada mesmo. Fecha a janela. Pega as folhas caídas e as recoloca sobre a cômoda. Senta na cama. Põe os cotovelos sobre as pernas e apoia a cabeça nas mãos. Ele se sente um pouco cansado. Sente sono, mas não consegue dormir. O cérebro não para. Levanta e se dirige para a porta da frente da casa. Abre (“sem fazer barulho, sem fazer barulho”) e sai. Vai dar uma volta na rua. Temperatura amena, ao redor dos oito graus. A neblina diminuiu. Talvez o vento a tenha levado embora. O céu está nublado. De relance, por um momento, ele consegue ver uma estrela. Permanece olhando para cima por mais alguns instantes. Não vê mais nada, a não ser nuvens. Senta na escada que leva à porta da cozinha. Fica ali, olhando para o chão. Perde a noção de tempo. Vai longe. Pensa em pessoas. Pensa em pessoas que conhece. Pensa em pessoas que não conhece. Pensa em pessoas que estão perto. Pensa em pessoas que estão longe. Pensa em pessoas das quais gosta. Pensa em pessoas das quais gosta muito. Pensa em pessoas das quais não gosta nem um pouco. Projeta. Visualiza o futuro. A imagem não é muito clara, está meio confusa, embaçada (a neblina... a neblina...). Ele vê coisas boas. Ele vê coisas que gostaria de viver. Gotas começam a cair. Ele não se move. Mais gotas caem. Ele não se move. Muitas gotas caem. Ele permanece ali. Chove. Ali, sentado na escada, ele fica até que a pancada cesse. Levanta e volta para dentro de casa. No quarto, pega uma toalha, seca o rosto e o cabelo. Já são 5h. A chuva fez a temperatura cair. Ele sente frio. Em pé, olha para o papel e para a caneta. Ele se sente vencido. O branco do papel diz (grita) “desista”. Ele ouve atentamente. Suas costas doem. Suas pernas doem. Sua cabeça dói. Seu corpo dói. Mas, o que mais o machuca, é o branco do papel. Esse tortura. Fere fundo. Ele se deita. Pega um livro que está ao alcance da mão. Começa a ler. Percorre os olhos por sobre as páginas. Uma folha. E outra. E outra. E outra. E outras mais. Os olhos fecham lentamente. Ele dorme. A roupa ainda está molhada. O livro escapa pelas mãos e cai aberto no chão. Na página, a última frase lida. “Fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso.” Ao lado do papel em branco, a caneta descansa sobre a cômoda.