terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tamires queria voar


Desde muito pequena, Tamires dava sinais de que era uma menina diferente das outras.

Ela sempre se sentia no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas. Era isso e era sempre assim.

Era tudo muito estranho. Sentia-se deslocada, como se fosse a protagonista da história de outra pessoa. As coisas não faziam sentido. Não se encaixavam. Uma valsa descompassada.

Palavras vazias sem contexto.

Recortes de histórias pueris.

Retratos de gente sem rosto.

Ela, porém, não se queixava. Tentava se adaptar. Na medida do possível, levava uma vida normal. Mas ela não era normal. Ela era diferente. Diferente aos olhos dos outros e diferente aos seus próprios olhos. Ela era um ponto de exclamação.

Ser menina não é fácil. Não é naturalmente fácil. Por isso que elas são mais fortes. O mundo cobra mais, elas respondem na mesma moeda. Tamires tinha uma personalidade inflamável. Era lago tranquilo quando calma e em paz. Era mar revolto quando provocada. Podia ser brisa, podia ser furacão.

Era uma força da natureza.

Doce e indócil. Raio e trovão.

Na escola, ela sempre fora uma ótima aluna. Dedicada, atenciosa, educada. As boas notas nas provas e nos boletins escolares eram o resultado de uma combinação de sua rapidez de raciocínio, sua curiosidade e desejo de sempre querer saber mais sobre tudo, e de sua constante insatisfação e inconformidade com o básico.

Não gostava da planície. Preferia os altos e baixos.

Ela sempre pensava um passo adiante. Sempre vislumbrava o próximo movimento. Teria sido uma brilhante enxadrista se tivesse se interessado pelo jogo. Mas ela nunca foi uma entusiasta de jogos. Suas vitórias vinham em cada descoberta, em cada aprendizado, em cada porta que se abria em seu cérebro e que fazia com que novos lugares pudessem ser conhecidos.

Ela era uma exploradora. Sua imaginação a desafiava.

Campos de plácidas vidas, de vivas cores.

Nuvens de algodão doce, estrelas de neon.

Tamires não tinha muitos amigos. A bem da verdade, eles eram bem poucos. Ela despertava uma reação paradoxal nas pessoas. Atração e repulsa andavam lado a lado. De vez em quando, tocavam as mãos. Nesses instantes, era puro frisson. Tamires era magnética.

Ela era o caos.

Um turbilhão.

Uma tempestade.

Um grito de horror.

Um riso incontido.

Pois bem. Apesar de ainda na infância já se sentir uma estranha onde quer que estivesse, com quem quer que fosse, foi na transição da adolescência para a idade adulta que o sentimento de não pertencimento se apossou de Tamires por completo. Ela não era daquele lugar. Não era de lugar algum.

Tamires floresceu. Um lírio em meio ao deserto.

Enquanto todos os que a rodeavam buscavam sensações – frugais, banais, viscerais, lancinantes –, ela buscava sentimentos – intensos, profundos, duradouros, plenos.

Vivia paixões. Estava permanentemente apaixonada. Amores platônicos, imaginados, imaginários. Assim eram os seus preferidos. Tivera relacionamentos, daqueles clássicos de adolescentes. Amor? Talvez tenha amado, não sabia ao certo. Sempre se achou muito mais madura do que qualquer pessoa da sua idade, principalmente meninos. Preferia se perder nas histórias de seus livros a buscar alegria rasa e banal em um copo de cerveja ou em uma noitada de risos vazios, abraços vazios, gritos vazios, beijos vazios. Não fugia ou se escondia de seus problemas. Enfrentava-os, não sem derramar algumas lágrimas. Nunca foi atraída por festas, nunca gostou de agitação. Tinha em suas coisas, seu quarto, seus pensamentos malucos e suas ideias mirabolantes o seu casulo.

Música alta e saltos sobre a cama.

Ela era uma inconformada. Uma incompreendida. Uma incompreendida inconformada. Difícil de entender, ainda mais difícil de explicar.

Inexplicável. Incompreensível.

Entretanto, ela era uma menina do seu tempo. Suscetível às influências da cultura local. Suscetível ao ambiente que a rodeava. Vivia em uma cidade de tamanho médio. Nem pequena nem grande. Isso já a incomodava. Não gostava do meio termo, da imparcialidade. Ela sempre tinha um lado. Era entusiasta dos extremos!

Gostava dos sorrisos enormes, das gargalhadas. Quando chorava, as lágrimas escorriam por sua face em profusão. E ela chorava com frequência. Nunca teve problemas com isso. Nunca teve problemas em se expor.

Era crua. Era bruta. Era joia incomum. Onda quebrando na praia. Gota de chuva explodindo na terra.

Medos? Tinha muitos. Todos eles, talvez. Tinha medo de barata, medo de ficar sozinha em noites silenciosas. Tinha medo de morrer, mas não de viver. Fazia isso com excelência de uma serelepe criança. E era assim, com impulsiva força vital, que enfrentava os seus temores. Não há glória em não sentir medo. Isso não é coragem. Tamires segurava o medo com suas mãos, segurava-o com força, fazia dele parte de si mesma. Ela era os seus medos.

Passava uma falsa imagem de fragilidade. Fisicamente, era pequena. Aos olhos de quem a via e não a conhecia (como eu a conhecia), ela parecia poder se quebrar ao primeiro toque, ao primeiro abraço.

Talvez, essa tenha sido uma das razões para ter construído uma fortaleza ao redor de si. Não a única razão. Tampouco a mais importante. Sentia-se sozinha. Sentia-se principalmente sozinha quando estava rodeada de pessoas. Em família, nas ruas, na faculdade, no trabalho. Nada em comum. Uma intrusa em terras hostis. Sendo assim, nada mais natural do que se proteger, se manter acuada.

Essa muralha que a mantinha a uma distância segura de tudo aquilo que poderia machucá-la, aborrecê-la ou magoá-la, por outro lado, alimentava a sua furiosa vontade de ser livre. Perdida no mundo em que vivia, criou o seu próprio. Seu mundinho particular. Lá, ela poderia ser quem quisesse, inclusive ela própria. Lá, não havia julgamentos, preconceitos ou inveja. Tudo era tão harmonioso e sincero naquele mundinho particular. Tudo era tão belo, tão singelo.

Campos de flores multicoloridas. Rios e lagos de águas límpidas. Montes nevados e vales verdejantes. Uma casinha de madeira simples, no meio da mata, longe de tudo. E um amor. Ela não precisava de mais nada.

Tamires era uma das pessoas raras. De uma espécie única. Para alguns, excêntrica. Para outros, arrogante. Uma vez eu li em um dicionário que excêntrico é aquele que está afastado do centro. Combinava com ela. Combinava direitinho.

Gostava do silêncio. Quietinha, sentindo a respiração. Ouvindo o coração bater. Estar consigo mesma. Sentir-se plena.

Era uma força interior. Uma chama latente. Era uma águia selvagem, um corcel indômito. Precisava se libertar. Precisava tomar o tempo em suas mãos. Precisava sentir o mundo girando sob seus pés.

Era um domingo. Ela havia acordado mais tarde do que de costume. Brincava com Princesa, sua cadela de estimação, quando percebera algo estranho em si mesma. Havia alguma coisa de diferente. Era algo físico, mas era mais do que isso. Seu espírito parecia inquieto. Seu coração pulsava em um ritmo frenético.  Estava arrepiada. Não conseguindo, porém, descobrir o que era, tratou de deixar para lá. Não havia de ser nada demais. Tentou esquecer.

Almoçou com a família e se recolheu ao quarto. Foi ali que, pela segunda vez no dia, sentiu que havia algo errado. Alguma coisa a incomodava, um desconforto, mas ela não tinha a menor ideia do que poderia ser. Deitou-se na cama, catou um livro na estante e começou a leitura. Percorreu as páginas por não mais do que meia hora. Era um bom livro, mas não a fez ingressar na história, não a fez querer estar lá, junto com os personagens, ser um deles. História bem escrita, mas sem vida. Sentiu as pálpebras pesarem sobre os seus olhos. Deixou o livro sobre o criado mudo e recostou-se. Dormia.

Então, se viu no alto de uma montanha. Ventava forte. Um ar limpo e fresco adentrava em seus pulmões e os enchia de pura vida. No horizonte, montes, vales, rios e lagos. Cores múltiplas. Uma pintura. Estava em casa. Seus olhos marejaram. Chorou.

Quando despertou daquele sonho, sabia exatamente o que havia de estranho, sabia o que estava diferente. Quando despertou daquele sonho, sabia o que precisava fazer. Não tinha mais dúvidas. Estava claro, límpido como um céu de primavera.

Levantou-se e saiu correndo em disparada.

Sem nada nas mãos. Os olhos, bem abertos, faiscavam. Não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas estava indo. O mais rápido que podia. Nada importava além de si e da vontade insana de seguir em frente. Não pensava em nada.

Enquanto corria, sentia, mais uma vez, aquela sensação estranha. Estava elétrica. Algo estava prestes a acontecer. Algo muito grande estava prestes a acontecer. Sentia isso em sua pele.

E, então, correu ainda mais rapidamente. Seus pés quase não tocavam o asfalto. Ela flanava. Estava descalça.

Suas costas formigavam. Seu sangue fervilhava em suas artérias.

Sentia que toda a sua vida fora uma preparação para aquele momento. Todas as dificuldades, todas as barreiras, todas as conquistas. Todas as emoções. Toda a dor. Tudo. Tudo fora um processo de maturação. E eis que, agora, ela estava pronta. Havia chegado a hora. Tudo se conectava, todos os fatos, todos os momentos, os dissabores e as alegrias, todos formavam uma teia perfeita de eventos que a levaram até ali.

Cada vez mais rápido. Cada vez mais rápido. Mais rápido. Mais rápido. Mais rápido.

Mais rápido.

Tamires vivia no mundo da lua. Aquele era o seu mundo. Os olhos, sempre voltados para o alto. O pensamento, nas nuvens. Era lá que ela queria estar.

Nunca gostou de ter os pés no chão. Aquilo lhe limitava. A natureza havia lhe desafiado. Aquela era a sua provação.

Ultrapassar os limites, cruzar os céus.

Braços para o alto, mãos espalmadas.

Seus sonhos eram o seu impulso. Seu espírito, suas asas.  

Tamires queria voar.

Um risco no azul, por entre as nuvens, um ponto no céu.

Tamires era pássaro, era estrela, era raio. Tamires era energia pura.

Tudo era pequeno demais para ela aqui em baixo. Tudo muito restrito. Tudo muito mesquinho. Ela queria mais. Precisava de mais.

Foi em um domingo à tarde que ela se libertou.

Agora, está exatamente onde deveria estar.

Pode ser vista rasgando o céu nos dias de ventania.

Pode ser sentida nas noites quentes de verão.


Livre.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015



Despertar

Florir da manhã.
Pedaço de céu.
Olhar infantil.

Passos entre as nuvens.
Cores no campo.
Gesto sutil.

Café sobre a mesa.
Resquício de tempo.
Sentir e tocar.

Aceno pra rua.
Carinho de mãe.
Sorrir e sonhar.

Sussurro no ouvido.
Palavra não dita.
Silêncio vazio.

Viver de saudade.
Lembrança que brota.
Nas águas do rio.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Gota de sangue sobre um nome riscado em uma página de jornal


Sentado na antiga cadeira estilo Luis XV que havia comprado em um antiquário há cerca de um mês, ele olhava para a pistola que tinha em mãos. Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.

O apartamento estava uma bagunça. Janelas fechadas, penumbra, cheiro de mofo. Garrafas jogadas pelo chão, contas vencidas sobre mesa da cozinha. A vida havia lhe abandonado. Agora, ele pensava se devia deixá-la ir também. Há tempos já não se davam bem. Não se entendiam. Tinham suas próprias prioridades. Não carregava mágoas. Tiveram seus bons momentos. Era hora de se despedirem. Cada um para o seu lado. Um adeus. Um aceno distante.

Não tinha sido difícil conseguir a arma. Bastava dar alguns telefonemas, conhecer as pessoas certas, ter dinheiro em mãos. Voilá! Sem perguntas, sem nomes. Um negócio de cavalheiros. Há pouco mais de seis meses, fizera um empréstimo com um facilitador financeiro urbano, ou um agiota, como queira. Um profissional famoso na cidade, também conhecido como Lambari. A alcunha havia sido dada em razão de todos saberem que o velhote magro, de movimentos ágeis e precisos, e de poucos cabelos, era peixe pequeno no esquema de empréstimo de dinheiro a juros altíssimos. Era só um testa de ferro. Os tubarões sequer passavam perto daquela parte da cidade em que atuava. Ele nunca havia feito uso de tais serviços. Sabia que era um poço sem fundo. Um caminho sem volta. Mas, desta vez, o perigo era real. Dívidas de jogo, cobradores furiosos e sem escrúpulos. Precisava estar preparado para se defender, se fosse preciso. Com o dinheiro, comprou a arma. Contraiu uma nova dívida para se defender de quem iria atrás dele cobrar dívidas antigas. Ele não pensava muito no que fazia. Apenas fazia.

Não sabia atirar. Nunca havia feito um disparo na vida. Mal sabia manejar a pistola que jazia dentro da gaveta do armário de roupas, sob as cuecas e meias. Aliás, sempre tivera aversão a armas de fogo. Era um pacifista convicto. Acreditava na força da palavra como meio para se resolver tudo. Agora, porém, ele estava ali, sozinho em meio à sua decadência, com uma pistola automática nas mãos, tentando criar coragem para dar fim a tudo aquilo que lhe perturbava, que lhe causava dor.

Aquele fatídico dia amanhecera nublado. Não era possível ver nem uma pequena nesga de azul no céu plúmbeo. Ele acordara com uma ressaca colossal. Havia passado boa parte da madrugada bebendo whisky vagabundo, fumando cigarros baratos, jogando pôquer à dinheiro e flertando com garotas sem esperança. Mais um dia normal.

Abriu a geladeira para ver o que tinha lá dentro e que poderia saciar sua fome. Pouca coisa. Uma caixa de leite pela metade, duas fatias de pizza de calabresa, uma jarra de água e alguns tomates estragados. Pegou a caixa de leite. Esvaziou-a no liquidificador e jogou dentro dele duas bananas pra lá de maduras que jaziam na fruteira ao lado do botijão de gás vazio. Bebeu dois copos da batida. Já se sentia melhor. Com as mãos unidas em concha, jogou água no rosto marcado por uma vida errática de excessos. Pegou as chaves e saiu.

Caminhava com dificuldade. Arrastava-se. Sentia na boca uma mistura pastosa de banana, fumaça e álcool. Na banca do fim da rua, pegou o jornal do dia. Ainda antes de dobrar a esquina em direção ao porto velho, comprou dois maços de cigarro de um ambulante.

Não tinha ideia de como seria o seu dia. Não cultivava planos. Fazia o que tinha de fazer e esperava para ver no que ia dar. Assim, tudo ficava muito mais fácil. Sem projeções. Sem complicações desnecessárias.

Não tinha perspectivas. Vagava pelas ruas sem direção. Era um vagabundo. Um vadio. Agia conforme seus instintos. Ia para onde eles o levavam. Naquele dia, decidira que iria dar uma volta nos arredores do porto velho. Gostava de lá. Gostava dos prédios históricos caindo aos pedaços, do cheiro de peixe podre. Gostava da gente com sandálias de couro puído. As faces vincadas pelo tempo e tostadas pelo sol litorâneo.  Gostava do sal que dava a tudo um aspecto de corroída aspereza. Aquele sal o havia forjado. Ele era assim. Oxidado pelo tempo. Era apenas o resquício de quem um dia fora.

Sempre que precisava de uns trocados, ajudava a descarregar algum pequeno pesqueiro que ainda insistia em vender seu trabalho de um dia inteiro para comerciantes decadentes que sobreviviam pagando muito pouco pelo pescado na origem e vendendo o produto abaixo do preço dos mercados das redondezas. O serviço pagava uma mixaria, mas o suficiente para poder comprar seus cigarros. Além disso, desviava pacotes de sardinhas, que levava para casa e comia fritas na banha de porco que ganhava de um amigo de infância, que, por sua vez, a desviava do açougue no qual trabalhava.

Sustentava-se com o dinheiro ganho nas mesas de pôquer e truco. Era bom com as cartas e ainda melhor sem elas. Blefava com singular maestria. Além disso, tinha o dom da bravata. Provocava os adversários ao extremo, tirava-os do sério, fazia com que eles se desconcentrassem, fazia com que a raiva tomasse o lugar da razão. A raiva não é uma boa companheira nas mesas de jogo. Dispersa, tira o foco, cria valentões. E, assim, na base do blefe e da bravata, ele ganhava sua vida. De vez em quando, também ganhava alguns socos, uma garrafada, algumas ameaças de morte, mas nada que o fizesse achar que deveria mudar de hábito. Achava aquilo tudo muito divertido. Talvez um dia fosse surrado até a morte, ou baleado pelas costas em uma viela escura qualquer. Enfim, os riscos existiam, sabia disso. Mas, entre arranjar um emprego e virar um operário padrão, e ganhar seu dinheiro jogando cartas, bebendo whiskies baratos e galanteando garotas sem pudores, ele preferia, de longe, a segunda opção.

Depois de um dia de bebidas em copos alheios, tragadas em cigarros alheios e escarradas em calçadas alheias, resolvera curtir a noite na companhia de amigos que não sabiam qual era o seu nome. O Nautilus Drink Bar não estava muito movimentado. Por algum motivo desconhecido, o dono do lugar, um velhote de sessenta e tantos anos, que tinha um sotaque castelhano e se dizia chileno, mas que todos sabiam que era do Chuí mesmo, era leitor de Verne. Sabia de cor diversas passagens de Vinte Mil Léguas Submarinas. Tinha até um quê de Capitão Nemo, a barba comprida e espessa, os trejeitos de comandante, nariz adunco e olhar furioso.

Recostou-se no balcão e pediu uma bebida. Fazia calor e o pequeno lugar não tinha um ventilador sequer. As gotas de suor escorrendo pelas costas em profusão. O cabelo sujo grudado na testa. As envelhecidas mãos por sobre o tampo de madeira que já fora parte de um pesqueiro local. Sua cabeça doía, seus pés ardiam de bolhas causadas pelos sapatos batidos.

Não tinha mais esperanças. As havia perdido todas. Uma a uma. Ficaram pelo caminho. Deixou um rastro delas para trás. Agora estava ali, no balcão de um bar, à espera de alguém que estivesse disposto a jogar cartas por um dinheiro que ele não tinha.
 O relógio ensebado que ficava sobre a chapa onde se aqueciam os pães das torradas marcava cinco para a meia noite quando ele se levantou um pouco tonto, escorando-se no balcão e nos bancos, e saiu porta afora.

Era uma noite quente aquela. Não havia nem mesmo a constante brisa que vinha do mar e trazia junto aquele gosto de peixe seco salgado que entrava pela garganta e entranhava no corpo. Ele estava sozinho. Caminhava a esmo no cais abandonado. Velhos barcos adernados, canoas com água pela metade, redes de nylon rasgadas jogadas pelo chão, cestos com escamas e tripas em decomposição.

Sentado na beira das docas desativadas, sentia a água escura chocar-se contra seus pés. Não pensava em nada. Sua cabeça fervilhava, mas ele não pensava em nada. Flashes de imagens cruzavam à frente dos seus olhos. Memórias perdidas surgiam como relâmpagos errantes. Seus pais, a velha casa em estilo português onde crescera, o corpo de seu irmão cercado de flores, um beijo.

Em meio ao turbilhão de sensações, tentava organizar seu caos interior. Estava confuso. Por um instante, uma ideia passou por sua cabeça. E se ele deixasse de existir? E se sumisse? Ou se morresse? Alguém sentiria a sua falta? Alguém choraria? Alguém levaria flores no seu túmulo? Ou será que dançariam sobre ele? Tentou pensar em nomes, em pessoas que, talvez, pudessem perceber a sua ausência. Não tinha família. Nenhum amigo de verdade. Talvez os vizinhos, mas ele nem os cumprimentava pela manhã. Alguma amante? Não, não. A maioria delas sequer perguntava o seu nome. Quem sabe o dono na banca da esquina?  Bem possível. Não tinha um dia em que deixava de comprar o jornal pela manhã, logo cedo, quando voltava para casa cambaleando após mais uma noite de jogatina. Sim, o dono da banca provavelmente notaria o seu sumiço. Estava convencido disso. Sorriu. Ele gostava do dono da banca da esquina. O homem não fazia perguntas. Apenas pegava as moedas e lhe entregava o jornal. Teve vezes em que nem cobrou pelo produto. Era um cliente antigo, fiel. Normal que, um dia ou outro, as cartas não lhe favorecessem. Essas coisas acontecem. Solitário no cais, ergueu a mão direita e, como se segurasse uma fina taça de cristal, fez um brinde ao seu amigo, o dono da banca de revistas. Era um bom homem aquele.

Em um instante, sentiu algo tocar seus tornozelos submersos na água turva. Pensou ter visto a silhueta de um peixe, talvez uma sardinha perdida. Possivelmente era uma alga, ou uma sacola de plástico. Sentiu sede. Levantou-se e caminhou até o Mercado do Peixe, que, na verdade, não tinha nada de mercado. Era só um lugar com umas pias e onde, nos finais de tarde, pescadores artesanais vendiam o que tinham conseguido trazer do mar durante o dia. Abriu a torneira e pôs a cabeça embaixo, sorvendo goles de água quente e salobra. Um cheiro forte de pescado entrou por suas narinas e tomou conta de seu corpo. Vomitou. Achou estranho. Aquela era a primeira vez que vomitava em razão do cheiro de peixe. Nascera naquele lugar, crescera nele. Estava mais do que acostumado com os odores. Agora, como um rapazote imberbe da capital que viera visitar os avós nas férias, sentia nojo, seu estômago revirava. Estava envergonhado. Não se reconhecia. Era um rascunho de si mesmo. Grafite sobre o papel.

Ergueu-se como pôde e começou a caminhar. Precisava se recompor. Nem bêbado estava. Talvez tivesse sido o sanduíche de atum que comera à tarde que lhe fizesse mal. Sabia que não era isso, mas buscava uma explicação a todo custo, como quem busca a sorte no truco em uma rodada às cegas. Sabia que a chance de obtê-la era mínima, mas o desespero e, ainda mais, a desesperança, já não sussurrava ao seu ouvido como outrora. Agora, ambos gritavam desafinadamente.

Foi quando as primeiras gotas da chuva quente de verão explodiram em sua face que a triste ideia cruzou a sua mente pela primeira vez naquela madrugada. Não se apegou a ela. Passou feito um raio.

Seguiu por entre as vielas estreitas calçadas com pedra. A essa hora, restavam pelas ruas apenas os homens sem casa, as mulheres sem sonhos. Gente que não tinha para onde ir e que não queria ficar onde todos os outros se conformavam em estar. Gente cansada.  Os olhos caídos, as mãos nos bolsos, o cigarro pendendo do canto da boca. Fracassados. Achava que todos eram uns fracassados. Ele não. Ele não era um fracassado. Estava ali por escolha própria. Sempre fora um marginal. Vivia à margem. Corria paralelamente à linha guia. Gostava disso. Gostava de se sentir livre. Sem rédeas para lhe conter. Sabia, porém, que a liberdade cobrava seu preço. E ele pagava com juros altos.

Lembrou-se de sua infância. Nunca tivera vida fácil. O comportamento exemplar, as boas notas, o respeito aos professores faziam dele um rebelde em um ambiente escolar em permanente tensão. Sentia-se sempre como se tivesse um alvo pintado às costas. Foi assim, entre uma sessão de espancamento gratuito e outra, entre uma fuga desesperada e uma súplica por piedade, que ele forjou sua instável personalidade.

Era um produto do sistema. Um subproduto do sistema. O sistema o mastigara, quando jovem, e o cuspira fora. Já não tinha mais sabor de nada. Era o resto, a sobra.

Levava uma vida normal. Trabalhava oito horas por dia na biblioteca na faculdade Letras da universidade local. Era um rapaz culto, um leitor voraz. Se quisesse, poderia trabalhar como guia da biblioteca. Às vezes, até se imaginava caminhando pelos corredores, entre as estantes altas, indicando com as mãos algumas obras e falando sobre elas e seus autores por muitos minutos. Sentia-se bem quando estava naquele lugar. Sentia-se protegido. Alimentava, porém, um desejo que lhe consumia as forças. Seu coração nunca estivera dentro daquela biblioteca. Foi aí que veio a rejeição. Uma paixão não correspondida. Seu coração, despedaçado.

Quando não pôde suportar a dor que lhe comprimia o peito, largou tudo. Deixou o emprego, os costumes, nunca mais fez contato com a família. A rua passou a ser o seu escritório. Batia ponto lá diariamente. Abandonou o apartamento que seus pais haviam lhe cedido e passou a viver em pequenos quartos de hotéis de quinta categoria. Consigo, levava apenas algumas peças de roupa, um par de sapatos, duas gravatas, e uma mala cheia de livros amarelados.

Na rua, se sentia em casa. E era na rua que estava agora, perambulando. A essa altura, já não enxergava direito as coisas ao seu redor. Tinha os olhos embaçados. Não adiantava esfregá-los. Era como uma pasta grudenta que teimava em não sair. Enxergar mal não era um problema para ele. Conhecia aquela zona em detalhes. Todas as ruas, todas as avenidas, todos os prédios em ruínas, toda a gente sem esperanças. Ainda assim, tropeçou em uma pedra do calçamento que estava fora de lugar. Caiu. Seu corpo chocou-se no chão com um barulho seco. Com muita dificuldade, ergueu-se. Tinha os joelhos esfolados, as mãos arranhadas. Sangue gotejava de seu rosto. Havia perdido dois dentes. Não sentia dor. Estava entorpecido.

Já não tinha mais dinheiro consigo. Nem uma moeda sequer. Precisava beber. A sobriedade o perturbava. Não gostava disso. Ainda tinha cigarros, mas a nicotina, por si só, já não lhe saciava. Necessitava sentir o álcool em sua corrente sanguínea. Era o álcool que alimentava o fogo dentro de si. O cigarro só o acendia.

Trôpego, seguia. Ouviu, ao longe, um som de piano. Não conseguiu, de pronto, identificar a melodia. Estava disperso demais. Precisava se concentrar para identificar as notas. Dava passos lentos, descoordenados. Dobrou uma esquina e ouviu a música ainda mais alta (seria Vivaldi?). Ele sabia de onde vinha o som. Somente um bar naquela região tinha um piano. Aproximou-se da fachada. Encostou a testa no vidro. Pôs o jornal na cintura, como se fosse um revólver, e, com as mãos paralelas às têmporas, olhou para dentro. O cenário não era muito diverso do visto em todos os outros bares decadentes do porto velho. Homens fumando charutos vagabundos, bebendo cachaça barata e cuspindo pelo chão. Havia apenas uma mulher no recinto. Cabelos longos e negros feito a madrugada lá fora. Senta, às sós, em uma mesa, ela ouvia a música e bebericava um drink que ele, da rua, não conseguia identificar qual era. Possivelmente, alguma coisa com vodka. Talvez um Martini.

O pianista tocava para ela. Podia sentir isso. Era nela que ele estava concentrado.  A música (sim, Vivaldi e suas quatro estações!) ecoava nas pedras portuguesas dos calçamentos. Ele estava hipnotizado. As mãos do pianista moviam-se freneticamente durante o Verão. A tensão entre o artista e a mulher de pernas longas e batom vermelho faiscante era crescente. Do lado fora, ele não conseguia se mover. Seu cérebro dizia para entrar, puxar uma cadeira, acender um cigarro. Seu corpo dizia que não, que deveria ficar exatamente onde estava, que sua presença naquele sistema iria desequilibrá-lo, que ele iria romper com a eletricidade do momento. O que será que pensava a mulher? O que fazia ali àquela hora? Desejava o pianista? Sofria? Amava?  Quando a música cessou, também findou o encanto. O pianista esvaziou seu copo de whisky, se levantou e foi ao banheiro. A mulher virou o corpo em direção ao barman e pediu mais uma dose de sua bebida. Ele saiu de seu torpor, girou nos calcanhares e retomou o seu caminho.

Aquela cena o havia afetado de alguma forma. Pela primeira vez, ele percebia beleza naquele ambiente tão hostil. Talvez seu olhar tivesse mudado. Ele não tinha certeza, mas sentia-se diferente.

Foi aí que, pela segunda vez, a triste ideia lhe tomou os pensamentos de assalto. Agora, porém, não foi um flash de luz. Não foi um arrepio. Foi arrebatador. Foi fluxo constante.

Caminhou com obstinada determinação. Já não tinha as mãos trêmulas. Já não tinha os passos arrastados. Era o mesmo, mas já era outro. De um modo que ele não entendia como, sabia muito bem o que tinha de fazer. A neblina se dissipara. Tudo estava tão límpido, cristalino.

Quando deu por si, corria. Sobre seus longos e lisos cabelos castanhos, as gotas da chuva caiam, escorrendo pelo rosto magro. Sua visão clareara. Os olhos injetados.

Dando saltos, dobrando esquinas. Via sua vida refletida em cada poça d’água. Um mosaico de imagens multicoloridas. Cada memória, cada lembrança. Estavam todas lá. Uma a uma, surgiam como furacões. O rosto dela. Palavras ao alcance das mãos. Podia tocá-las se quisesse. Mas não queira. Preferia senti-las. Ondas de emoções. Absorvia-as. As mãos dela. Retratos jogados pela rua, feito peças de um quebra-cabeça que teimam em não se encaixar. Imagem sem sentido. Música para camaleões. Seus pais na varanda dando adeus. Nenhum amigo para se despedir. A voz dela. Contrastes. Campos de flores à beira da estrada. Caminho de pétalas. Desenhos de nuvens no céu. Coelhos, dragões, unicórnios e linces. Vida além da vida. Doce saudade de um passado imaginário. O beijo dela.

Adentrou o prédio e se atirou sobre a porta. Não havia tempo para chaves. Abriu as janelas. A luz da lua. Sombras e silhuetas. Na parede, o velho relógio de ponteiros gritava. Ele não ouvia nada além de sua ofegante respiração. Caminhou em direção ao quarto.  Abriu a gaveta onde guardava meias e cuecas. Do fundo, retirou uma pistola. De volta à sala, deixou o corpo cair sobre a poltrona. Estava exausto. Permaneceu ali, imóvel. A ideia fixa. A ideia fixa.

Esticou o braço direito e pegou a caneta que usava para conferir os bilhetes de loteria. A chuva aumentou, já era um temporal.  Pedras de gelo chocavam-se colericamente contra a janela. Baixou os olhos. O relógio ainda gritava.

No jornal em suas mãos, quatro letras aleatoriamente dispostas em uma página estavam circuladas com fúria. Um nome. Sobre elas, escorriam gotas de sangue quente, de um vermelho vivo.


Tudo seria tão mais fácil se pressionasse o cano da arma contra a têmpora e puxasse o gatilho.


domingo, 23 de novembro de 2014


Caixa de Música 

Entre a verdade e o sentir,
Há curvas e caminhos
Que não me deixam mentir.

Entre o desejo e a covardia,
Existem flores e espinhos
Que não podem me ferir.

Mas eu não quero acreditar.
Eu simplesmente não quero acreditar.

É tudo tão bonito.
Perigoso e insinuante.

Não quero acreditar.

É tudo tão doce.
Carinhoso e delirante.

Entre a palavra e o mistério.
Entre o silêncio e o adeus.
Entre a presença e a saudade.
Entre os meus olhos e os teus.

Existe amor e compaixão.
Existe flor.
Existe vida.

Existe raiva e ilusão.
Existe dor
E despedida.

E, entre todas as mentiras,
As frases que não foram ditas.
E, entre respostas pueris,
Os pensamentos proibidos.

Foi tudo um sonho.
Tudo não passou de um sonho.

(Não quero acreditar)

E, vivos na imaginação,
Estão a chave e o segredo.
Dentro da caixa, toca a canção.
Abre a janela, guarda esse medo.
  

domingo, 2 de novembro de 2014

Uma conversa sobre o amor




Estávamos ali. Sentados, frente a frente, no chão de nossa sala de estar. Era um dos últimos dias do outono, não me recordo da data exata. Já havíamos bebido um pouco, mas não o bastante para ficarmos altos. Nem alegres estávamos. Não mais alegres do que costumávamos ficar quando tínhamos nossos momentos juntos.

Já haviam cessado os momentos de risadas. Já haviam cessado os momentos de carinho. Durante uns cinco minutos, só ouvíamos o barulho de nossa respiração. Ritmada, mas não única. Cada uma na sua sintonia. O silêncio foi quebrado por uma pergunta.

“Você me ama?”, disse ela, meneando um pouco a cabeça para o lado esquerdo.

Eu já devia ter dito que a amava algumas centenas, quem sabe milhares de vezes. Mas sempre tinha sido espontâneo. Ela nunca havia me perguntado se eu a amava.

Fiquei um pouco desconcertado, confesso. Uma coisa é você dizer a alguém o que sente ou o que acha que sente por ela. Outra bem diferente é esse sentimento ser questionado.

Ela não perguntou o que eu sentia por ela. Perguntou se eu a amava. Era uma questão que exigia uma resposta de “sim” ou “não”.

Mas eu nunca fui de responder apenas “sim”, ou somente “não”. Ela sabia disso.

Eu retruquei com outra pergunta.

“O que é o amor para ti?”

Um novo silêncio.

Ela buscou com a mão direita a taça de vinho. Estava vazia. A garrafa também.

Titubeou por alguns instantes. Quem não titubearia?

“Acho que... acho que é querer tanto e tão bem ao ponto de, na maior parte do tempo, você se esquecer de si, e pensar somente no outro. Acho que isso é amor.”

Era uma boa resposta. Simples e simplória, mas boa. Inegavelmente boa.

Eu concordei. Amor era isso. Não era somente isso, mas era isso também.

“Eu sinto isso por você”, ela completou, com um carinhoso sorriso sem mostrar os dentes.

Eu não soube como reagir. Ou melhor, eu não soube como ela reagiria à minha reação. É complicado, eu sei. Assim é o Amor. Assim são as pessoas.

Acho que a amava. Mas não sentia o Amor que ela dizia sentir por mim. Eu não me desapegava de mim mesmo daquela forma. Eu pensava nela a todo o instante, eu me entregava, mas acreditava que não poderia deixar de ser eu mesmo. Não poderia me despersonalizar.  

O silêncio pesava uma tonelada. Eu precisava dizer algo. Mas dizer o quê?

“E então, você me ama?”

Eu ainda não tinha uma resposta, mas comecei a falar.

E o que eu disse foi, mais ou menos, isso aqui:

Eu disse que não sabia se o que sentia por ela era Amor.

Disse que sabia o que sentia por ela, isso eu sabia muito bem, mas não tinha certeza de que aquilo era Amor. Poderia ser, poderia não ser. Eu não tinha certeza.

Eu a queria junto de mim. A queria perto.

Eu nunca havia sentido por alguém o que sentia por ela. Já tinha me apaixonado algumas vezes. Eu me lembrava perfeitamente de cada uma dessas paixões. Todas elas fizeram de mim a pessoa que eu era agora. Todas elas me ensinaram coisas. Elas adicionaram em mim, cada uma ao seu jeito, pitadas de sentimento.

Eu disse que, hoje, sentia de um modo mais completo, mais profundo, mais alicerçado. Não era pueril. Não era arrebatador. Não era fulminante. Era sólido. Luminoso. Sem arestas.

Não era chama nem raio. Era mar sereno.

O que eu sentia por ela independia de momentos extremos. Ela me acalmava.

E quanto mais eu falava sobre o que ela significava para mim, sobre o homem que eu era ao lado dela e sobre como eu era antes de ela entrar em minha vida, mais eu questionava a mim mesmo se aquilo era Amor.

Havia desejo, havia excitação, havia muito, mas eles ocupavam uma posição secundária em relação ao carinho, ao querer estar junto, ao cuidado, à atenção.  

Eu disse para ela que achava o conceito de Amor algo muito abstrato. Ela custava a entender.

Disse que, em determinado momento de minha vida, achava que o Amor de verdade era uma coisa inatingível, pois nos relacionávamos com outras pessoas com o objetivo claro de satisfazer nossas vontades e desejos. Eu achava que gostávamos de estar com outra pessoa porque aquilo nos fazia bem, nos agradava, pouco importando o significado da relação para o parceiro. Eu via o envolvimento amoroso como algo deveras egoísta.

Ela balançava a cabeça negativamente. “Absurdo”, dizia. “Absurdo”.

Eu concordei. Agora eu já não pensava mais assim. Agora eu via o Amor como mais do que um sentimento. Eu via o Amor quase como um estado de espírito, assim como a felicidade. Achava, aliás, que os dois se completavam: o amor e a felicidade. Imiscuíam-se. Quase que dependiam um do outro. Não via a possibilidade de uma vida realmente feliz sem o Amor.

Os anos haviam me transformado, me enternecido. Disse que ela havia contribuído com isso. Ela era um dos motivos dessa mudança. Ela esboçou um sorriso discreto, mas bastante sincero. Apesar disso, me parecia claro que não estava satisfeita com minha resposta. Aliás, de fato, eu não havia respondido à sua pergunta, que era clara, direta e objetiva.


“Você me ama?”


Uma pergunta clara, direta e objetiva. Uma resposta confusa, sinuosa, complexa.

Assim era eu. Assim eu achava que era o Amor.


O que eu queria dizer para ela e que, talvez, não tenha conseguido fazer de forma certa naquela noite, era que o Amor não se define. Amor não se dá, não se recebe. Amor se sente.  

Por causa disso, por ser tão disforme, por ser tão escorregadio, tão singular, é que é tão difícil definir o que é o Amor. E é por ser assim, difícil de definir, difícil de dizer o que é e como é, que eu não conseguia olhar nos olhos dela e dizer se a amava ou não.


“Você não tem certeza do que sente por mim. Fica enrolando, tergiversa. Acho que você... sei lá... acho que você nunca amou ninguém de verdade.”


Ela podia ter razão em relação à segunda parte. Não acho que tinha, mas podia ter. Talvez eu nunca tivesse amado alguém de verdade. Sobre a primeira parte, sobre eu não ter certeza do que sentia por ela, ela não estava certa.

Eu nunca sentira por alguma pessoa o que sentia por ela. Eu estava sendo sincero. Se era Amor, se era intensa afeição, se era compaixão, eu não sei. Era forte.

Enquanto eu falava, olhava com atenção para o rosto dela. Como era bela. Cabelos negros. Olhos amendoados. Uma mistura luso-italiana típica. Expressão ameaçadora e dócil ao mesmo tempo. Ela era um pequeno furacão. Tinha um magnetismo sui generis. Atraía as atenções, mesmo calada, mesmo discreta. Eu não havia me apaixonado à toa.

Ela não me interrompia, mesmo estando claramente inquieta. Eu não parava de falar. Ela parecia querer ouvir.

Tentei explicar que o Amor era um sentimento, ou, como eu achava que era, um estado de espírito, muito pessoal. Que cada um sente de um jeito e, assim, cada um ama do seu próprio modo. Eu amava do meu jeito, que, obviamente, era diverso do jeito dela. Assim sendo, é possível que, pelo ponto de vista dela, eu não a amasse.

Foi aí que ela me interrompeu.


“Eu sei o que eu sinto por ti e eu digo que te amo. Eu até grito, se assim quiseres: EU TE AMO!! Tá bom assim? Eu não sei porque não podes dizer também. É tão simples, não dói. A mim não importa se o que tu sentes é diferente do que o que eu sinto. Não me importa se o teu amor é diferente do meu amor. Não me importa nem um pouco. A mim só importa se tu me amas. Só me importa se tu me amas do teu jeito de amar. É isso que me importa. Nada mais.”


Fiquei sem palavras. Eu, que tanto havia falado, fiquei sem palavras.

Era isso. Eu falei muito, ela dissera tudo o que havia para ser dito.  


“Sim”.

A minha resposta foi “sim”.


Ela sorriu um luminoso sorriso. Levantou-se e foi buscar outra garrafa de vinho.

Eu sabia que ela não acreditava naquele “sim”. Ela sabia que eu a amava. Muito.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Quando eles encontraram o meu corpo suspenso



Quando eles encontraram o meu corpo suspenso pelo pescoço por uma corda com laço duplo amarrada em um galho de uma goiabeira nos fundos de nossa casa no sítio, os sentimentos que tomaram a todos foram os mais diversos.

Ninguém esperava. Não havia passado pela cabeça de nenhum deles que algo como aquilo pudesse acontecer. Não comigo. Nunca comigo.

Todos sofreram. Cada um do seu jeito.

Minha mãe não se conformou. Não se conforma até hoje. Ela ainda chora todos os dias pela manhã, cedo, quando vai abrir as janelas do meu antigo quarto para deixar a luz do sol entrar. Ela não acreditava. Não achava que era real. Não podia ter sido eu. Eu não faria isso comigo. Eu não faria isso com ela. Não poderia ter feito. Ela ainda procura motivos. Não os encontrou. Nunca vai os encontrar. Eu sei.

Meu pai chorou muito nos dois dias posteriores. Depois, nunca mais. Ele sentia a minha falta tanto quanto ela, mas deixou de ser aquele que era antes da tragédia familiar. Tornou-se uma rocha. Junto com as lágrimas que caíram nas primeiras 48 horas, escorreram por sua face todos os seus sentimentos. Feito tempestade que chega rápida e intensa, que lava tudo, não deixa nada como antes, e se vai.

Minha irmã mais nova não pareceu se importar tanto. Ela sequer chorou. Nenhuma lágrima. Mas isso não quer dizer que não estava sofrendo. Ela estava. O que acontece é que ela era como eu. Sempre tive dificuldades em expressar meus sentimentos. Guardava-os para mim. Remoía-os. Ficava com eles até que secassem. Isso me fazia mal. Isso, de alguma forma, me levou a fazer o que fiz. Ela era assim também. Por isso não chorou. Mas sofria. Eu sei que sofria.

Meu cachorro, o Napo, ficou meio tristonho durante umas duas semanas. Na terceira, se engraçou com uma cadelinha vira-latas que apareceu no sítio. Acho que se esqueceu de mim. Hoje é pai de cinco bebês caninos. Ele não dá muita bola para eles. Prefere correr atrás de carros e motocicletas. Faz isso com uma sanha assassina nos olhos. Era um baixinho invocado e tanto, assim como o Bonaparte que lhe inspirou o nome. Sinto falta dele.

Eu não planejei aquilo. Não do jeito que se pensaria que uma coisa dessas poderia ser planejada. Uma sucessão de fatos me levou a tomar tal atitude. Ainda mais do que isso, uma sucessão de sentimentos me levou a tal ponto.

Comecei pelo fim de meus dias. Volto agora aos momentos que antecederam o meu passamento.

Eu acordei bem cedo naquele dia. Muito cedo. Não eram seis horas da manhã e já estava desperto. 

Ainda estava escuro, não havia amanhecido. Era estranho ver aquela casa em silêncio. Não tinha lembrança alguma dela daquele jeito. Era sempre muito barulho, sempre muitas vozes, discussões, gritos. Estava tudo calmo naquela manhã.  Sentado à mesa na cozinha, eu tomava uma xícara de café quente. Estava em paz.

Fazia frio. Lá fora, uma névoa úmida cobria tudo o que os olhos podiam ver. Eu tentava não pensar em nada. Fracassei. Só pensava nisso.

Ao longe, bem ao longe, um cão ladrava incessantemente. Meus pais dormiam, assim como minha irmã.

Fiquei por quase uma hora sentado naquela cadeira. Minhas costas doíam quando me levantei. Depois de tomar um banho rápido, fui ao meu quarto, onde peguei umas roupas aleatoriamente e joguei-as na velha mochila rasgada e com o zíper estragado. Antes de sair, peguei um pacote de bolacha que achei no fundo do armário da cozinha. Não tinha muito dinheiro para o almoço ou para algum lanche à tarde. Precisava garantir um mínimo que fosse.

Cheguei à estação rodoviária quando o sol começava a surgir. Havia passagens de sobra para a cidade onde ficava o sítio. Ninguém em sã consciência ia passar o final de semana naquele lugar.

Era um sábado.

Eu não acordei naquele dia pensando em ir para o sítio. Foi repentino, impulsivo. Tive vontade de ir e fui. Simples assim. Senti que tinha de me distanciar de tudo. Eu precisava exumar a mim mesmo.

Recostei a cabeça na janela e fui o caminho todo ouvindo Neil Young nos fones de ouvido. Eu era o único garoto de 17 anos de idade que conhecia que ouvia Neil Young. Na verdade, olhando agora, à distância, eu não me conhecia tão bem assim.

Pouco mais de uma hora depois, já estava caminhando no estradinha de terra batida em direção à nossa casa. Eucaliptos margeavam o estreito caminho. Eu ia chutando uma lata velha de ervilhas em conserva e assoviando alguma canção qualquer enquanto não enxergava surgir à frente a ponta do telhado de nossa casa. Eram inconfundíveis telhas portuguesas de barro. Estavam sempre muito limpas. Meu pai fazia questão de deixá-las reluzindo. Eram um dos seus orgulhos idiotas.

Tive de pular o portão de arame e madeira, pois esqueci de pegar a chave do cadeado. Sorte que lembrava perfeitamente do lugar secreto nem tão secreto onde ficavam as chaves extras das portas da casa: embaixo da única pedra ao redor do poço artesiano que tinha uma cor diferente. Estavam lá.

Tudo estava do mesmo jeito de sempre. Irritantemente do mesmo jeito de sempre. Todas as coisas em seus devidos lugares. A obviedade da ordem me dava asco.

Tirei os tênis, a camiseta e a calça. Vesti um velho calção que achei no quarto dos filhos (a casa tinha três quartos: um dos meus pais, um dos filhos e um para as visitas. Não importa que não recebêssemos visita alguma há anos. Meus irmãos e eu sempre tínhamos de ficar no mesmo quarto apertado quando íamos ao sítio. Maldito método), e sai para dar uma volta no campo.

Havia chovido na madrugada e o que se via a perder de vista era barro, muito barro. Eu gostava de sentir a terra molhada entrar por entre os dedos do pé. Era uma sensação única. O tipo de coisa impossível de se sentir na cidade. Não da mesma forma.

Nas parcas casinhas de madeira que lindavam a rua, casais idosos sorviam o mate enquanto a fumaça saía fumegante das chaminés, indicando que os fogões à lenha estavam à toda. Bolo de milho aqui, amendoim torrado ali.

Quanto mais eu caminhava em direção às partes altas da cidade, menos gente eu via e mais eu me sentia fazendo parte de algo maior. Difícil de explicar. Era um tipo de conexão. Algo cósmico, sei lá.

Aquilo tudo me renovava. Era como um sopro de vida entrando por minhas narinas e preenchendo meus alvéolos de tal forma que eu me sentia cheio de vida.

Lá em cima do morro, pastagens cobriam de verde todo o chão. A água das chuvas escorria para as partes baixas e o barro não tinha vez naquele lugar. Pouca gente costumava ir até o alto do morro. Aquela era uma cidade de pessoas velhas. Os jovens saíam de casa cedo para estudar, trabalhar ou simplesmente desbravar o mundo. Só voltavam, quando voltavam, para viverem sua última década, no máximo, de vida. Ir ao topo daquele morro exigia algum esforço físico que já não estavam mais dispostos a fazer. Ou tentar fazer.

Melhor para mim. Não seria incomodado por ninguém. Nunca fui incomodado no topo daquele morro. Lá, eu podia fazer o que quisesse. Lá, eu podia ser quem eu quisesse, inclusive eu mesmo.

No céu, o sol já reinava com altivez. Deitado na relva, com as mãos cruzadas sobre o peito, eu tentava esvaziar a minha cabeça. Naquele local, eu não precisava fazer uso de substâncias psicoativas para abrir a minha mente e experimentar sensações novas. Ali, eu podia ter aquela indolência de quem não tem nada a perder, nada a ganhar, de quem não deseja nada, apenas ser, apenas estar. Esse era eu, sozinho no morro em uma manhã de sábado.

Por um tempo que não consigo precisar quanto foi, senti-me como se estivesse flutuando. Era àquilo que a cultura oriental chamava de meditação. Não pensar em nada. Atingir um estado tal de tranquilidade até o ponto em que todo o externo deixe de existir. Fazer sua energia circular em um fluxo constante pelo seu corpo. É só você com você. Nada mais.

Voltei ao estado anterior de consciência, levantei-me e iniciei a caminhada morro abaixo em direção à minha casa. Estava leve. Flanava.

Almocei folhas verdes e batatas colhidas da horta que ficava na parte da frente do terreno, passando o portão. Cozi as batatas e as comi com manteiga, pimenta do reino e orégano. Estava uma delícia. Para beber, guaraná, daqueles que vem em garrafa de cerveja e que a gente só encontra em vendinhas de cidades do interior. A geladeira estava cheia daquelas garrafas. Minha irmã adorava guaraná. Eu também.

Após o almoço, tirei uma sesta. Coloquei um colchonete no chão da área onde ficava a mesa que sediava os jogos de canastra da família e me estirei. Costas retas, piso duro. A coluna doeu um pouco, no começo, mas, depois, se adaptou. Nosso corpo sempre se adapta, mesmo quando nosso espírito grita em desespero pelo novo.

Dormi por uma boa hora e meia. Foi um sono revigorante. É engraçado como uma noite inteira de sono na cidade grande não consegue ter o efeito que uma hora e meia em uma cidadezinha perdida no interior tem. Não sei identificar a razão da diferença. Talvez seja o ar mais puro, talvez seja o farfalhar constante das folhas das árvores no pomar, talvez sejam os mais variados cantos de pássaros que ajam como calmante. Talvez sejamos nós mesmos. Talvez seja apenas eu.

Tirei a tarde para caminhar. Caminhar por onde eu quisesse. Sem ruas para me dizer quais caminhos tomar, sem calçadas para me forçarem a seguir por um espaço determinado. Tudo é tão diferente quando a gente não se sente e não está, de fato, delimitado.


Zigue-zague.

Sobe e desce.

Vai e vem.

Desde que me conhecia por gente, aquela cidade era a mesma em minhas memórias. Nada mudara. Quando criança, passávamos as férias naquela casa no sítio. Eu costumava sair pelas ruas pedalando minha bicicleta. Eu zunia feito um caça supersônico, ressoava feito um trovão. Atrás de mim, um rastro de poeira esvoaçante. Caí muitos tombos, perdi muito sangue. Ainda tinha as cicatrizes nos joelhos. A bicicleta aro 20 estava jogada no galpão, pneus furados e toda enferrujada. Devia a ela uma parte do que me tornei. Aquela bicicleta mais do que me divertiu. Ela me ensinou. Aprendi com ela que cada tombo sofrido era um tombo a menos que eu ia cair. As quedas me tornavam um ciclista melhor, me davam mais controle sobre a bicicleta e me incitavam a ir além, a testar meus limites, a cruzar as fronteiras da prudência e do medo. Devia muito àquela bicicleta e fiquei triste em ver o seu estado. Já de volta à casa, tirei-a de lá e a limpei cuidadosamente. Com um pedaço de lixa gasta que achei dentro de uma caixa de papelão, tirei as ferrugens, que eram superficiais. Costurei um rasgo no selim, ajustei os cabos dos freios. Fiz o que pude para fazê-la voltar à vida. Só não consegui recuperar os pneus e a pintura. Paciência.

Aquilo me fez bem. Era como se eu tivesse recuperado uma parte da minha história que estava esquecida. Era como retirar a poeira de sobre um livro velho.

Sentei-me ao pé da goiabeira e fiquei ali por um bom tempo. Descansando do trabalho na bicicleta e tentando deixar meus pensamentos livres. Ao lado da minha perna direita, uma carreira de formigas carregando grãos e pequenos pedaços de folhas seguia em fila. Provavelmente se dirigiam ao seu formigueiro. 

Pensei em como aquele senso coletivo era uma coisa incrível. As formigas não cumpriam ordens. Elas formavam uma equipe na qual cada uma delas sabia de sua responsabilidade para com o todo. Individualmente, eram insignificantes. Se eu esmagasse uma com o dedo naquele instante, não faria diferença alguma para as outras ou para o formigueiro. Elas, como indivíduos, faziam parte de um organismo maior. Era como se fossem células de um corpo humano. Todos os dias morrem diversas, que são substituídas por outras. O sistema segue funcionando. Juntas, elas são uma máquina que funciona quase à perfeição.

E foi aí que eu pensei em qual era o meu papel, como indivíduo, no todo que me rodeava. Eu não era um operário. A pele de minhas mãos era fina e clara. Eu não produzia. Nem intelectualmente eu produzia.  Vivia mais para mim mesmo do que para o todo. Talvez eu fosse um fardo. Ou um grande bebê. Quem sabe, futuramente, me tornasse uma figura notável, um homem das artes, um mago das letras. No momento, porém, eu dava despesas, atrapalhava, e não contribuía com nada. Meus pares ainda apostavam em mim. Acho que nutriam alguma esperança de que, de uma hora para outra, brotasse um espírito empreendedor ou acendesse a chama de inspiração e inciativa que me levaria a grandes feitos.

Eles me davam mais crédito do que eu mesmo o fazia.

Eu não tinha perspectivas. Sentia-me como uma engrenagem que teimava em girar em um ritmo diferente das outras que compunham uma grande máquina. Vibrava em outra sintonia. Mais cadenciadamente. Sem tanta pressa.

Eu queria escapar. Queria distância de tudo. Se pudesse, passaria todos os dias de minha vida no alto daquele morro. Ao meu redor, as pessoas que amo, meu cachorro, alguns livros. Nada mais.

Eu não queria ter de fazer escolhas que iriam afetar todo o resto de minha vida. Eu tinha 17 anos. A ideia do “para sempre” me assustava. Não queria nada para sempre. Não aos 17 anos. Aos 17 anos, o “para sempre” parece uma eternidade.

O cerco estava se fechando. As paredes se movendo em direção a mim. O tempo diminuía. Eu sufocava.

Eu não sentia raiva. Não odiava ninguém. Meu coração estava livre de dor. Não havia mágoa.

Foi com consciência total de minha escolha e dos efeitos dela e domínio completo dos meus atos que eu fiz o que fiz. Não estava bêbado, nem drogado, tampouco deprimido.

Sentia-me pleno. Minha alma era puro amor. Precisava me desapegar. Precisava evoluir. Eu queria mais. Eu sabia que podia mais.

Tinha de cortar as cordas que me prendiam.

Sem lágrimas. Sem carta de adeus.

Eu estava exatamente onde queria estar.

Enfim, sentia-me livre.


Em paz.

E feliz.

Como nunca antes havia sido.   

domingo, 7 de setembro de 2014

Até o próximo campo florido.




Era uma tarde de quarta-feira. Fazia sol e a temperatura estava amena para a época do ano. O café ficava em uma rua transversal à avenida que ladeava o parque. Ainda assim, eu conseguia ver os homens de meia idade passeando com os seus pequenos cães de raça, as moças jovens fazendo as suas corridas vespertinas, os casais adolescentes trocando carícias e rindo sem motivos durante a caminhada, os velhos senhores sentados no banco falando a respeito do clima, debatendo sobre política externa, recordando os “bons tempos” do regime autoritário, e analisando a rodada do Brasileirão.

Aquele era um dia como outro qualquer para todos eles. Não para mim. Eu já estava no meu terceiro expresso e ainda faltava meia hora para ela chegar. Isso se ela fosse pontual. Eu sorvia o café quente tentando acalmar meus nervos. Obviamente, não funcionou. Mas quem conseguiria manter o raciocínio em perfeitas condições estando em uma situação como a minha?

Enquanto a aguardava, tentei rever todos os passos de minha vida, todas as minhas escolhas, que fizeram com que eu estivesse ali naquele momento. Difícil lembrar de tudo. Muito tempo se passou. Porém, eu tenho uma memória excelente. Guardo tudo. Elas estão lá, em algum lugar, as lembranças. Basta procurar. Isso me atormenta. Não conseguir esquecer. Tudo seria tão mais fácil. Tão menos doloroso.

Mas não era, e, agora, eu estava me vendo com 19 anos. Cabelo na altura dos ombros, revoltos. Mochila nas costas. Em pé, escorado no poste no qual a placa que indicava que era ali que o ônibus tinha de parar estava afixada, eu lia Salinger.

Eu tinha acabado de sair de uma das aulas da faculdade. Não recordo qual era, mas lembro que tinha sido bem chata. O sol já estava prestes a se pôr. A noite se aproximava de mansinho.

Ela veio caminhando, discretamente, e parou próximo a mim. Eu a notei de cara. Cabelos negros, curtos. Usava sapatilhas e um vestido pouco abaixo dos joelhos. Óculos de armação grossa no rosto. Ela ficou parada, com as pernas cruzadas e as mãos às costas. Três minutos no máximo. O ônibus chegou e ambos subimos os degraus, cruzamos a roleta e sentamos. Ela, em um dos bancos do centro do coletivo. Eu, lá no fundão.

Durante toda a viagem, não consegui tirar os olhos dela. Foi magnetismo puro. Não me aproximei. Não lhe dirigi uma palavra sequer. Só fiquei observando. Criei todo um retrato imaginário. Ela era doce. Inteligente e esperta. Alegre. Gostava de dançar sozinha no quarto. Leitora de Asimov e Lovecraft. Ouvia The Cure e Neil Young. Adorava dormir à tarde e cantar enquanto secava os cabelos.

Ela desceu do ônibus cinco paradas antes de mim. Eu segui, me perguntando se voltaria a vê-la alguma vez mais. Veria.

Na segunda vez que nos cruzamos, novamente na parada de ônibus, engatamos uma conversa. Ela que puxou papo. Perguntou se não nos conhecíamos de algum lugar, pois o meu rosto era familiar. Respondi que sim, que já havíamos nos visto, três dias antes, ali, naquele mesmo local. Ela titubeou, mas disse que podia ser isso mesmo. Bem assim, “pode ser”, foi que ela disse.

Embarcamos e nos sentamos juntos, lado a lado. Eu na janela, ela no corredor. Descobrimos que estudávamos na mesma faculdade. Cursos diferentes e turnos diferentes até o semestre anterior. Agora, ela havia pedido transferência para a manhã, daí a razão de nos encontrarmos as duas vezes na parada de ônibus. Conversamos sobre alguns professores. Ela achava o de Teoria da Comunicação um pedante pretensioso. Eu o achava bacana. Um pedante pretensioso bacana. Ela achava que a professora de Introdução à Filosofia fumava maconha antes da aula. Eu concordava, e achava o maior barato. Seguimos conversando, basicamente, sobre a faculdade, sobre os colegas que tínhamos em comum em algumas disciplinas e sobre a pintura feita no centro acadêmico que acabou com toda a alma do lugar. O ponto em que ela desceria estava próximo. Ela se levantou, sem não antes me dar um beijo no rosto, e disse “até!”. A porta se abriu e ela já havia descido o primeiro degrau quando voltou o rosto para mim e falou, sorrindo: “Eu amo Salinger.”

Senti um toque no ombro e voltei à mesa do café. Era o garçom, perguntando se eu queria mais um expresso. Aceitei. Quase 18 anos haviam se passado desde aquele dia em que eu a encontrei na parada de ônibus. Meus cabelos diminuíram de tamanho e cada vez mais fios brancos teimavam em aparecer e quebrar a monocromia existente até então. Tanto tempo passou. Agora, eu era um conhecido jornalista na cidade. Escrevia crônicas, mas ainda amava a reportagem. Meus anos de rebeldia aparente ficaram para trás. Agora, eu estava ali, sentado, no café, olhando as pessoas no parque, esperando, nervoso, uma menina de 17 anos chegar. Ela era minha filha.

Foi tudo muito rápido. Entre o dia em que nos conhecemos até o dia em que decidimos dar fim àquele romance juvenil, não se passaram três meses. Oitenta e um dias, mais precisamente. Ao fim do semestre, ela se mudou para a Austrália. Foi fazer intercâmbio. Eu nunca mais a vi. Nunca mais nos falamos.

Tirei do bolso e reli o e-mail que, duas semanas antes, havia chegado em minha caixa de entrada.




Dobrei o papel e o coloquei de volta no bolso.

Tudo fazia sentido. A idade, Mônica, a parada de ônibus, Holden Caufield. Tudo.

Poderia ser verdade. Poderia não ser.

Eu acreditei no que a menina escrevera. Não sei por que, mas acreditei.

Três dias depois de receber o e-mail, respondi dizendo onde estaria e o horário. Ela me retornou com um “ok”.

Eu aguardava aquela menina chegar e, possivelmente, revolucionar a minha vida, com um estranho nervosismo. Não tinha medo. Estava curioso. Como será que ela era? Parecia com a Mônica? Será que ela também colocava a mão esquerda nos quadris e arqueava a sobrancelha direita quando ficava braba? Tinha algum traço meu? O jeito de andar, quem sabe. Se ela conseguisse estalar os dedos das mãos nas três articulações, não haveria dúvidas: era minha filha. Nunca conheci alguém que conseguisse fazer isso.

O relógio marcava 18h01min quando uma moça de estatura mediana, cabelos negros e olhos faiscantes atravessou a rua e veio em minha direção. Ela tinha o meu jeito de andar.

Eu me levantei da cadeira e a aguardei. Ela se aproximou e me estendeu a mão. Retribui o gesto. Fiz sinal para que se sentasse. Ficamos frente a frente. Perguntei se ela queria um café. “Um mocaccino, por favor.” Ela tinha as mãos da Mônica.

Eu disse que não sabia como começar aquela conversa e perguntei se ela tinha uma sugestão. Sem piscar os olhos, ela falou que fazia questão de deixar uma coisa bem clara: não queria nada de mim, que não era para eu me preocupar. Eu não estava preocupado.

“Como vai sua mãe”, perguntei. Eu realmente estava interessado em saber sobre isso, não era uma pergunta qualquer para iniciar uma conversa. Ela me disse que Mônica estava bem, que era sócia de uma agência de publicidade em São Paulo e que falou muito bem de mim quando da conversa séria que elas tiveram a meu respeito. Mônica estava casada. Mariana não tinha irmãos.

Ela era uma garota muito bonita. Eu via nela muito daquela jovem estudante de publicidade pela qual me apaixonei no passado. Falava com uma voz meiga, mas firme e segura.

Disse a ela que sequer imaginava que tinha uma filha. Que a mãe dela nunca havia me dito nada, nunca mais me procurara. Não tinha como eu saber. “Você também nunca mais a procurou”, me falou. Era verdade.  Vivemos uma paixão, mas não chegamos a nos amar. Foi bom enquanto durou. Deu muito certo, mas acabou. Não houve lágrimas. Cada um seguiu o seu caminho.

Ela não estava magoada, tampouco braba. Falava com vigor e expressava suas ideias e opiniões de forma clara e franca. Quis saber como sua mãe e eu nos conhecemos, como ela era quando jovem, se nos amávamos. Eu respondi a todas as suas perguntas. Mesmo que a resposta fosse um “não sei”.

Não perguntou muito sobre a minha vida. Não quis saber sobre esse homem qualquer que ela nem sabia que existia até alguns minutos atrás. Até aquela tarde de quarta-feira, eu não era nada para ela, assim como ela para mim.

A conversa transcorreu, basicamente, comigo perguntando sobre ela, principalmente, e sobre Mônica, e com ela querendo saber detalhes a respeito do que aconteceu lá atrás, quando eu tinha 19 anos e os cabelos revoltos na altura dos ombros.

Mariana cursava o primeiro semestre de Arquitetura. Gostava de música clássica – Bach e Verdi, os seus preferidos – e de andar de bicicleta no Ibirapuera. Não era de sair à noite, mas tinha muita curiosidade de conhecer um baile funk em um morro carioca. Era uma leitora ávida e tinha em Fante seu autor predileto. Achava Salinger superestimado. Olhei de soslaio.

Quando o semestre acabou e Mônica me disse que iria para o outro lado do mundo, eu fiquei mal. Gostava dela. Gostava muito. Mas eu era jovem. Tinha 19 anos. Esses dolorosos sentimentos passam rápido quando se tem 19 anos. Foi intenso e caloroso. Foi juvenil. Nós sabíamos que aquilo não iria durar. Em nenhum momento nos imaginamos levando uma vida inteira lado a lado. Agora, sentado naquele café, eu tentava imaginar como teria sido.

Mônica não me contou que iria embora quando as aulas se encerrassem. Foi uma surpresa quando, dois dias antes de embarcar no voo que a levaria para longe de mim, muito longe, disse que iria sentir minha falta, que fora tudo maravilhoso, mas que tinha de partir. Não tive como me preparar. Quem sabe, eu fosse com ela. Improvável, eu sei. Quando me contou, disse que não me avisara antes para que eu não ficasse chateado. Ela não queria que o nosso envolvimento fosse afetado. Queria viver aquilo, daquele jeito, o máximo que pudesse.

Não fiquei brabo, na época. De que adiantaria?

Eu não fui ao aeroporto me despedir. Seria atiçar ainda mais uma dor que já ardia em fogo alto. Despedimo-nos na noite anterior. Amamo-nos. Foi doce. Quando eu despertei na manhã seguinte, ela não estava mais lá. Nenhum adeus. A última lembrança que eu tinha dela era o seu gosto na minha boca. Eu ainda o sinto.

Mariana falava em alta velocidade. Despejava palavras e informações em um ritmo frenético. Ela era uma tormenta. Eu a queria na minha vida a partir daquele instante. Não sabia, porém, se ela me queria na dela. Seria natural se não quisesse. Não existia vínculo algum entre nós. Ela não me via como pai. Eu era um estranho.

Ninguém teve culpa. Simplesmente aconteceu. Talvez eu devesse ter procurado Mônica. Talvez ela devesse ter me procurado. Talvez, talvez...

Há momentos em nossa vida os quais parece que pegamos carona em um trem o qual não sabemos para onde vai. Simplesmente embarcamos. Não somos responsáveis pela direção. Não escolhemos os caminhos.

Algumas coisas acontecem ao acaso. Outras, porque têm de acontecer. Muitos chamam de destino. Eu não. A ideia de destino sempre me pareceu muito fácil, um tanto quanto descompromissada, preguiçosa. Diria, até, covarde. Por destino, imagino algo sobre o qual não temos controle algum. Algo inevitável, que ocorre independentemente de nossa vontade. Não podemos fazer nada para alterá-lo.

Eu não acho que seja destino. Não acho que tenha sido o destino. Mesmo quando embarcamos naquele trem, mesmo sem saber para onde ele vai, por onde ele vai, mesmo sem saber onde estamos, ainda assim, podemos descer na próxima estação. Ainda assim, podemos pular no primeiro campo florido que virmos surgir ao lado dos trilhos. Isso não é destino. Isso é escolha.

Eu tinha de estar naquele dia, naquela hora, naquela parada de ônibus. Todas as circunstâncias de minha vida me levaram até aquele lugar, naquele momento. Noi foi destino. Não foi acaso.

Fizemos as nossas escolhas. Mônica e eu. Podemos nos arrepender delas. Podem não ter sido as melhores escolhas. Eu não acho que foram. Ela trocou de trem no meio do caminho. Eu preferi seguir no mesmo. Foi isso.

Agora eu estava ali. Quase 18 anos depois. Sentada à minha frente, uma menina que eu não conhecia. Minha filha.

Ao longe, eu ouvi o som. A composição se aproximando. O burburinho crescente na estação. Abraços de despedida. Lágrimas. Lenços abanando.

Eu embarquei de novo.

Mais uma viagem.

Para onde? Não sei.

Para qualquer lugar. Para nenhum lugar.

Até a próxima escolha.

Até o próximo campo florido.