sábado, 5 de dezembro de 2015

Quando o Amor encontrou a Felicidade em um beco sem saída qualquer




Quando o Amor encontrou a Felicidade em um beco sem saída qualquer, fazia um calor dos diabos. Era uma daquelas noites de verão em que o ar entra pesado em seus pulmões e atravessa seu sistema respiratório como lava incandescente. Você inspira e sente ele te queimando por dentro.

Há algum tempo, eles já vinham caminhando paralelamente. Quase que lado a lado. Trocavam olhares lascivos, mas hesitavam em se tocar, hesitavam em falar um com o outro.

Entretanto, naquela noite quente, naquele beco sem saída qualquer, eles sem encontraram. Não havia como evitar. Os caminhos foram afunilando. Estavam cada vez mais perto. Os ponteiros no relógio da torre do antigo prédio corriam. O sino da catedral dobrava.

A primeira reação após o primeiro contato foi de estranhamento. Nunca haviam estado juntos antes. Viam-se, ao longe, mas, sempre que tentavam se aproximar, algo acontecia, algum tipo de força alheia às suas vontades agia sobre eles, os empurrava para outra direção, tomava o controle de seus movimentos, os incitava a se afastarem.

O primeiro a chegar foi o Amor. Na verdade, foi um ressurgimento. Ele já aparecera em algumas ocasiões anteriores. Permanecera por algum tempo, ganhara espaço, tomara conta de tudo, e, depois, fora embora. Deixara um vazio em todas as vezes que desaparecera sem dizer por que.

Agora, ele havia voltado. Descaradamente. Como se não existisse um passado. Simplesmente bateu à porta em um dia de verão. E, com pura inocência apaixonada, sua vítima recorrente voltou a convidá-lo a entrar, a sentar à mesa, a acompanhá-lo em suas tarefas diárias, a ir com ele aonde quer que fosse. Amava. Mais uma vez.

A Felicidade, sim, foi uma novidade. Nunca haviam se encontrado. Nem um esbarrão sequer em uma rua movimentada. Pensou que a havia visto uma vez, mas não tinha certeza. Podia ter se enganado. Provavelmente tinha se enganado.

Ele sempre acreditara que uma coisa levaria à outra. Não eram dependentes, mas abririam caminhos. Achava que era possível ser feliz sem amar e que era possível amar sem ser feliz. Realmente achava. Entretanto, tinha a convicção de que o Amor poderia ser um atalho para a Felicidade.

Depois do encontro inicial, decidiram, de comum acordo, que deveriam passar o maior tempo possível juntos para se conhecerem melhor e, assim, estreitarem a relação.

Como já era de casa, o Amor não fez cerimônias. Chegou bagunçando tudo, trocando as coisas de lugar, remexendo em baús velhos cheios de lembranças do passado. Era sempre assim. Cada vez que ele aparecia, seus dias viravam de cabeça para baixo. Sabia que iria acontecer de novo. Era como o efeito colateral de um remédio, talvez o único remédio, que poderia salvá-lo.

A primeira semana de convivência conjunta foi extremamente prazerosa para ambos. Aproximaram-se. As afinidades afloraram. Eram carne e unha. Completavam as frases um do outro. Sentiam-se afinados, em perfeita sintonia.

Com o passar dos dias, porém, pequenas arestas começaram a surgir naquela relação tão lisa, tão uniforme. A convivência sob o mesmo teto exigia um desprendimento, uma certa dose de sacrifício que não tinham certeza se estavam dispostos a fazer.

O Amor, com sua aparente doçura e compreensão, agia em busca de tudo aquilo que lhe fizesse bem. Ele era egoísta. Era parte de seu instinto. O egoísmo o fazia existir. Buscar sempre o melhor para si mesmo, esse era o seu lema. Na grande maioria das vezes, isso fazia bem ao outro também, mas era apenas uma consequência.

A Felicidade, por sua vez, em plena satisfação, não conseguia compreender os motivos que levavam seu parceiro a procurar suprir suas necessidades independentemente de isso importar ou não aos que conviviam a seu redor. Por quê? De que servia ser amor, se não era compartilhado?

As rusgas, inicialmente, foram vistas por ele como algo normal. Inevitáveis, até certo ponto. Tinha de administrar a situação, contemporizar os desentendimentos. Sentia-se extremamente bem nas horas que ambos, Amor e Felicidade, dividiam momentos de harmonia. Os atritos valiam a pena.

Todos ao seu redor percebiam o quanto ele estava mudado. O sorriso largo, que há muito estava sumido, reaparecera. Comprara roupas novas, voltara a participar de confraternizações sociais, recuperara a autoestima. Alguns creditavam sua Felicidade ao Amor que havia reencontrado. Outros achavam que estava feliz, e, por isso, amava. Ele não se importava com os motivos. A vida estava sendo generosa. Era grato por isso.

O tempo – e suas circunstâncias –, porém, trouxe a reboque a rotina e, junto com ela, vieram as dúvidas, as indagações, as incertezas. As brigas passaram a ser mais comuns. Ficavam dias sem se falar. O Amor, orgulhoso, exigia toda a atenção. Tudo deveria girar ao redor dele, afinal, era um velho conhecido. A novata, por sua vez, tentava ser o mais simpática possível. Buscava agradar a todos, e isso não era falsidade de sua parte. Ela realmente ficava realizada ao fazer os outros se sentirem bem. A Felicidade era puro altruísmo e ficava pasma ao perceber que o Amor também não o era.

Cego de Amor e em torpor diante de tamanha Felicidade, ele não conseguia enxergar o que se passava consigo. Dominado pelo sentimento e pelo estado, deixava-se levar por ambos, agindo conforme os interesses de cada um. Sem perceber que se tornara um fantoche de si mesmo, ficara à mercê de um embate que, independentemente do resultado, não teria vencedores.

Os amigos se afastaram, cansados de tentar alertá-lo da situação em que se encontrava. A família insistia em fazê-lo ver o que se passava, mas ele não queria sequer ouvir coisa alguma de quem via problemas na sua vida. Simplesmente seguia. Seus desejos o controlavam.

Com o raciocínio prejudicado, seu isolamento dos círculos sociais se intensificou. Não tardou para que a perturbação custasse seu emprego. Ele sabia que havia muita coisa errada, mas não queria se desfazer de suas conquistas. Batalhara muito por aquele Amor. Buscara a Felicidade durante toda a sua existência. Não iria desistir assim, tão facilmente. Vivia o seu sonho. Um sonho atribulado, cheio de idas e vindas, altos e baixos. Um sonho diferente do que havia sonhado, mas que, ainda assim, era um sonho, o seu sonho. Amar e ser feliz. Não queria e não precisava de mais nada.

Foi em uma noite de chuva quente que seu castelo sobre as nuvens começou a ruir. Chegou em casa após passar o dia na rua procurando emprego, e a encontrou sentada no sofá da sala. As pernas cruzadas e um copo de uísque com gelo na mão. A conversa foi rápida. Ela pegou a bolsa e saiu sem lhe dar um abraço de despedida.

Mais uma vez, o Amor se fora. Assim como nas outras, partiu e levou consigo uma parte dele. A Felicidade, sua parceira das melhores horas da vida, não resistiu àquela perda. Ela tentou, ela realmente se esforçou, mas não resistiu.

Nos meses que se seguiram ao ocorrido, ele buscou conforto em prazeres fugazes. Tentou esquecer os bons momentos para, assim, não sofrer com a falta deles. Em vão, procurou em outros corpos, em outras bocas, sensações que pudessem aplacar a dor da ausência.

Em seus momentos consigo mesmo, esquadrinhava o passado atrás de lembranças que lhe mostrassem quais haviam sido seus erros. Encontrara muitos, mas nenhum que achasse importante o suficiente para motivar o rompimento. Talvez estivesse enganado, interpretara erradamente as situações que se passaram entre eles. Em seu íntimo, porém, sabia que não era o culpado. Dedicara-se intensamente àquela relação. Dera tudo de si. Fizera sacrifícios. Nada disso fora suficiente.

Anos depois, ele ainda guardava em si as marcas daqueles dias de sua vida. Custava a compreender o que se passara. Fora tudo tão rápido, tudo tão intenso, tão visceral. Concluíra que fora enganado. Não era amor, era medo, com toques de insegurança e requintes de sadismo. A Felicidade, que fizera de sua vida um misto de êxtase e serenidade, meio loucura, meio sonho, se foi sem avisar. A morte em vida, a dor que não doía, o fim sem final. Tudo havia sido obra de sua imaginação doentia.

Sempre acreditara que nunca iria encontrar a Felicidade se não vivesse o Amor final. Perfeito, tranquilo, parceiro, leal, para toda a vida. Desistiu de obter o que sempre desejara. A mentira que construíra para iludir a si mesmo o havia enganado. Criara realidades paralelas, mas esquecera que paralelas não se cruzam.


Dia desses, viu, de longe, do outro lado da rua, seu antigo Amor passar. Sorriu. Feliz aquele que vivera um real amor de mentira.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Nenhum grito de horror



Acordou sobressaltado com frementes batidas à porta. Olhou o relógio de neon que luzia na parede oposta à da cabeceira da cama. Três e doze da manhã. As batidas explodiam na madeira oca com fúria. Havia se mudado há duas semanas para aquele apartamento. Conhecia pouco do bairro e ainda menos da vizinhança. Poderia ter algum vizinho psicopata sedento por sangue jovem. Poderia ter uma vizinha ninfomaníaca ávida por sexo selvagem na madrugada. Torcia para que fosse a segunda opção, mas temia que fosse a primeira.

Levantou-se, calçou os chinelos e foi à janela. Morava no décimo segundo andar de um prédio no Centro da cidade. Lá fora, chovia uma chuva intensa, daquelas com gotas curtas e finas, que fazem pouco barulho quando tocam o chão. Não ventava. A cidade adormecia. Um casal trocava carícias sob uma marquise. As luzes amarelas dos postes davam tons pasteis enegrecidos às ruas.

À porta, as batidas haviam cessado. Ele já não as ouvia enquanto olhava pela janela. Do alto, achou a cidade tão bela. Desejou conhecer melhor aquela cidade vazia. Dobrar suas esquinas, sentir o seu cheiro. Conhecer as pessoas que vagavam sozinhas na madrugada.

Um raio irrompeu ao longe e assustou o casal que namorava. Ele saiu de seu transe e voltou a ouvir as coléricas batidas. Caminhou até a sala tentando imaginar o que levaria uma pessoa a bater na porta de outra no meio da madrugada. Poderia ser um assalto. Ou um fugitivo da polícia buscando um lugar para se esconder. Mas ele morava no décimo segundo andar. Ninguém subiria até o décimo segundo andar para assaltar ou se esconder. Poderia ser algum conhecido. Um amigo, quem sabe. Por que não um familiar? Ele tinha dois irmãos. Talvez algum deles tivesse se envolvido em uma briga de bar e estivesse com um corte na mão em razão de uma garrafada que levara. Era uma possibilidade. Seu irmão mais novo costumava sair muito à noite e gostava de se envolver em confusão.

Junto à porta, lamentava profundamente o fato de nunca ter achado necessário colocar um olho mágico. Vinte reais economizados.

Tinha duas opções bem claras. Não era uma decisão muito difícil aquela. Ou abria ou não abria a porta. Ainda assim, precisava pensar. Era uma escolha simples, sem dúvidas, mas que poderia gerar consequências com as quais ele não saberia lidar sem estar devidamente preparado para tal. Assim, precisava pensar.

Poucas pessoas sabiam que ele havia se mudado recentemente e um número ainda menor delas, umas duas ou três, tinha conhecimento do seu novo endereço. Se fosse alguma delas, porém, muito provavelmente, já teria ligado para o seu celular, pois, se sabia onde ele estava morando agora, com certeza tinha o número do seu telefone. Não, não era ninguém conhecido, decididamente.

Sendo um desconhecido que o acordara e que seguia esmurrando sua porta, a situação exigia ações enérgicas e corajosas. Parou por um instante para tentar entender completamente a situação e analisar as possibilidades que tinha para agir. Quando deu por si, recitava o salmo 91 enquanto segurava nas mãos e apertava contra o peito o escapulário que havia ganhado de sua mãe quando decidira sair de casa e ir morar sozinho.


... não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti...


“Isso vai te proteger”, disse ela. “Carrega sempre contigo”, completou após lhe dar um beijo na testa. Desde então, ele nunca ficou longe daquele escapulário. Vinha dando certo. Até aquela madrugada, pelo menos.

Não queria dar uma de herói. Poderia chamar a polícia, mas não é crime uma pessoa bater à porta de outra, mesmo que seja na madrugada. Iria alegar o quê? Perturbação do sossego? Talvez, mas isso não seria prioridade para os tiras. Levaria muito tempo para chegarem. Não, não. Teria de encontrar outra solução. Uma solução rápida.

Enquanto pensava no que fazer, as batidas ora cessavam, ora voltavam ainda mais fortes e insistentes. Encostou o ouvido na porta para tentar escutar alguma conversa, descobrir se o visitante indesejado estava sozinho ou não. Nada.

Voltou para a sala. Esfregando as mãos, caminhava em círculos em busca de uma luz. Tinha de pensar e agir sem demora. As batidas estavam mais fortes, mais rápidas. Seus olhos estalados. As batidas. As pernas trêmulas. As gotas se chocando com ira na janela. A respiração ofegante. As batidas tão fortes. O suor escorrendo pelas costas. Um raio! As batidas. A porta. A chuva. O medo.

Sentia tudo, mas tudo havia se tornado uma coisa só. Um misto de terror e ansiedade. O corpo elétrico. A mente em incandescente caos.

Foi então que, em um breve instante de racionalidade, percebeu que a chuva havia cessado, assim como as batidas na porta. Era um silêncio tão profundo que podia ouvir seu coração pulsando alto em seu peito. Estava vivo.

Inspirou profundamente. Fechou os olhos. Inspirou mais uma vez. Os abriu e percebeu que estava sentado na cama, os pés descalços tocando o chão frio. Tudo havia passado. Era como se nada tivesse acontecido. Relaxou e sorriu. Olhou ao redor e pensou se, talvez, não tivesse sonhado com aquilo tudo.

Levantou-se e caminhou até a cozinha. Encheu um copo com água fresca e olhou para a porta. Balançou a cabeça rindo da peça que sua imaginação havia lhe pregado.

Deu três passos curtos. Virou a chave, destrancou a trava, girou a maçaneta e puxou.

Do lado de fora, um homem com olhos injetados e cabelos revoltos lhe encarou por um breve momento.

Nada foi dito.

Um tiro na testa.

Poça de sangue no chão.

Nenhum grito de horror.

Lá fora, a noite estava calma. A cidade ainda dormia.


Ele deveria ter colocado um olho mágico.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Retrato em preto e branco de um amor




Chovia.

Sentado no sofá da sala, que dava de frente para a grande janela na qual as gotas grossas explodiam em fúria, ele olhava para a rua enquanto pensava. Entre os dedos médio e indicador da mão esquerda, um cigarro barato qualquer. Com a mão direita, segurava um copo com conhaque. Na mesinha ao lado do sofá, o aparelho de telefone e, sobre as teclas, um pedaço de papel com bordas irregulares trazia escrito um número. Em seu colo, o retrato em preto em branco de um amor.

Ele queria tomar o aparelho nas mãos, pressionar as teclas certas, esperar o telefone chamar, uma, duas, três, quatro, cinco – não esperaria mais de cinco chamados – e ouvir a voz dela. Mas ele sabia que, no momento em que fizesse isso, estaria reabrindo uma porta que já havia sido fechada há muito tempo. Estaria revirando baús velhos, remexendo caixas que já acumulavam poeira.

Feridas haviam cicatrizado. O tempo os afastara e a distância soube acalmar a tempestade, aparar as arestas. Ele sentia, porém, dentro de si, uma força que o impulsionava de volta àquele passado que pensara já ter esquecido.

Depois do fim daquilo que por muito tempo acreditou ser o amor de sua vida, passou a ver com desconfiança qualquer relacionamento entre duas pessoas.  Não enxergava verdade. Esforçava-se, mas não enxergava. Tornou-se um cético.

Nos últimos anos, sua vida entrara nos eixos. Todo o encantamento, toda a paixão, todo o amor, todas as decepções, todas as brigas, toda a tristeza. Tudo havia ido embora. Eram parte de uma história que não queria esquecer para não repetir os mesmos erros, mas que preferia não lembrar a todo o momento, para não revivê-la.

Estava bem. Não tinha dias excepcionais, mas também não havia muito do que se queixar. Levara um bom tempo para se desapegar, carregou consigo uma soma incontável de mágoas e traumas, mas, agora, estava bem. Até deixar de tomar os remédios que tomava desde que ela havia partido ele deixara.

Não contava, porém, que, em uma agradável manhã de segunda-feira, uma carta chegaria em sua caixa de correio. Era uma carta. Quem envia cartas nos dias de hoje? Ele, com certeza, não. Sequer recordava a última vez que havia postado uma. Ouviu dizer que muitas pessoas ainda faziam uso do papel e da caneta, da cola e do selo. Não acreditava que essas pessoas eram muitas, mas também não pensava nisso com frequência. Naquela agradável manhã de segunda-feira, entretanto, uma carta repousava em sua caixa de correio e ele não conseguia esconder o misto de surpresa e êxtase que lhe tomava.

Uma carta! Tomou-a nas mãos e, de súbito, um frisson apossou-se de seu corpo. A mesma sensação que sentira no dia em que a viu pela primeira vez, e que sentira novamente quando a beijou pela primeira vez, e que sentira outra vez quando se amaram pela primeira vez. A mesma sensação de quando a viu cruzando a porta de sua casa pela última vez.

O envelope em branco, sem remetente, aumentou ainda mais o enigma. Aquilo havia sido deixado ali pela pessoa que o escrevera. Era alguém que fazia questão de entregar pessoalmente, mas que não quis o fazer em mãos. Mais mistério, mais mistério.

Cruzou o portão, olhou para ver se via alguém suspeito na rua, mas não enxergou ninguém. Era uma viela bem tranquila aquela, sem condomínios, com casinhas humildes, jardins modestos. Deu meia volta e entrou em casa.

Na cozinha, preparou um chá preto fumegante e se acomodou junto à mesa. Com o envelope, ainda fechado, à sua frente, tamborilava no vidro com a ponta dos dedos da mão direita. Esperava o momento certo para abri-lo. O seu momento certo.

Depois que ela se fora, tornou-se um homem metódico. Gostava de seguir certos ritos. Pela manhã, ao acordar, espreguiçava-se e fazia alguns alongamentos ainda na cama. Colocava, primeiramente, o pé direito no chão e, depois, calçava seus chinelos acolchoados de pelúcia. No banheiro, espirrava água fria no rosto, desejava um bom dia para si mesmo ao espelho e saltitava por alguns poucos segundos. Pronto. Estava desperto. O dia havia começado.

Olhando para o envelope, tentava imaginar a história por trás dele. Não apenas quem o deixara ali com o seu ainda oculto conteúdo. Imaginava o que levara uma pessoa a fazer isso e como ela o fizera. E quando e por que o fizera.

Ficou por quase meia hora daquele jeito. Tomando chá e encarando o envelope sem tocá-lo. Levantou-se e circulou a mesa caminhando lentamente. As mãos, ora nos bolsos, ora mexendo no cabelo, ora segurando o queixo. Os braços, cruzados, às costas, na cintura.

Tinha grande atração por correspondências. Uma carta, por exemplo. Uma carta é sempre um mistério. Uma carta não se mostra por antecipação. Ela se insinua. Desperta a curiosidade, incita a imaginação. Mas não se mostra.

Para ele, era um jogo. Aquela era, possivelmente, a coisa excitante que lhe acontecia em anos.

Tomou banho, arrumou sua bolsa, pôs o envelope no bolso da camisa, fechou o botão e saiu. Trabalhava em uma corretora de seguros. Analisava riscos. Era um homem bastante racional. E pragmático. Precisava se acalmar, deixar a emoção ir embora e pensar.

O dia de trabalho foi como qualquer outro. Nada demais. Planilhas, relatórios, cálculos. Mais do mesmo. Ele era bom naquele trabalho. Detalhista, perspicaz, e, acima de tudo, chato. É preciso ser chato para ser um bom analista de riscos. Um analista de riscos vê problemas em tudo. E, quando não existe um, ele cria. É o trabalho dele. Esgotar todas as possibilidades de algo dar errado.

Durante toda a manhã e tarde, o envelope fechado jazeu embaixo do teclado do computador. Intocado. Esperando ser violado e, assim, revelar ao mundo ou a apenas uma pessoa todo o seu conteúdo.

Tentou a todo o custo se concentrar em suas tarefas profissionais. Não conseguia, porém esconder de ninguém sua inquietação. Estalava os nós dos dedos das mãos sem parar. Roía as unhas. Tirava e recolocava os óculos. Passava álcool gel nas mãos. Coçava um cavanhaque que não tinha. Rangia os dentes. Bebia uma caneca de café atrás da outra. Os colegas de trabalho notaram que havia algo errado com ele. Às perguntas questionando se estava tudo bem, respondia com um movimento rápido de cabeça para cima e para baixo e um “tudo, tudo”. Não convenceu ninguém, mas sempre fora visto como um sujeito bem excêntrico por todos. Nenhum dos companheiros de labuta deu muita bola, portanto. Talvez, não tivesse conferido se o gás havia sido desligado, ou se as torneiras estavam todas fechadas, ou se a porta da geladeira tinha sido fechada.

Produziu pouco naquele dia. Muito pouco. Pouco mesmo. Quase nada. Arrumou suas coisas, recolheu canetas e anotações espalhadas sobre a mesa, colocou a bolsa a tiracolo e o envelope no bolso da camisa. Deu as costas a todos sem se despedir. Desceu as escadas rapidamente, quase correndo, cruzou a avenida por entre os carros sem esperar o sinal fechar para os veículos e esperou por três longos minutos na parada pelo seu ônibus.

Durante o caminho, tentou esvaziar sua cabeça, abster-se de pensamentos. Concentrar-se em nada. Precisava estar pleno de suas capacidades cognitivas. Dormiu. Necessitava daquele sono. Esgotou suas energias naquele dia de massacrante angústia à espera de uma descoberta que teimava em adiar.

Já em casa, tratou de tomar um banho quente. Acendia um cigarro sentado ao sofá quando começou a chover. Respirou fundo e tomou o envelope nas mãos. Rasgou a lateral com cuidado e retirou de dentro um pedaço rasgado de uma folha de caderno. Desfez as dobras, ajeitou os óculos que teimavam em correr para a ponta do nariz, sorveu um bom gole de conhaque e leu as palavras ali escritas.

“Sinto saudades.”

E um número de telefone.

Só isso. Nada mais.

Em letras miúdas. Escritas a lápis, em traço leve, sutil.

“Sinto saudades.”

Nenhuma assinatura. Nenhuma indicação de quem poderia ter escrito.

Ainda que a dúvida sobre o remetente misterioso martelasse em sua cabeça, ele sabia muito bem que somente uma pessoa poderia ter escrito aquilo. Tentava convencer-se de que estava enganado, de que aquilo poderia ser obra de algum garoto da vizinhança querendo lhe pregar uma peça, mas não conseguia ludibriar a si mesmo.

Sabia que era dela.

De quem mais haveria de ser?

Aquela simplicidade, aquele modo direto de falar tudo com poucas palavras.

“Sinto saudades.”

Quem mais haveria de ser?

Era ela. Definitivamente, era ela.

Levou o bilhete ao rosto para tentar sentir um perfume que não existia. Ela nunca gostara de perfumes. Tinha alergia.

Releu por incontáveis vezes as duas palavras ali escritas. Tentava, agora, entender por qual razão ela fizera aquilo. Fora ela que o deixara. Estavam bem. Não brigavam há meses. Nem uma discussão sequer. Estavam afinados como nunca antes haviam estado. Tinham tido um dia muito agradável, fizeram amor antes de dormir. Acordou pela manhã e ela já não estava mais lá. Se foi sem lhe dizer nada. Simplesmente partiu.

Agora, como quem voltasse de férias, um pouco prolongadas, quem sabe, ela aparecia em sua caixa de correio querendo, mais uma vez, fazer parte de sua vida.

Por quê?

O que será que acontecera para esse repentino retorno?

Precisava compreender o que se passava. Ela poderia ter batido à sua porta pela manhã bem cedo, ou à noite, logo depois de escurecer. Ele estaria lá. Ela sabia disso. Sabia muito bem. Haveria um constrangimento inicial, sem dúvida. O fim fora traumático, mas ela sabia que ele era um homem compreensível e educado. Não iria destratá-la. 

Era preciso ser racional. Ao certo, ela ficara sabendo, de uma forma ou outra, que ela ainda a amava. Algum amigo em comum, quem sabe. Ele não escondia de ninguém o que sentia. Sob a cama, guardava, em uma caixa de papelão, objetos diversos que o remetiam aos dias em que viveram juntos. Bilhetes, e-mails, desenhos, postais, cartões de embarque, fotografias dos lugares que haviam visitado (mas nenhuma em que os dois apareciam juntos).

Eles tinham sido felizes. Completavam-se. Conheciam-se muito bem. Talvez, por isso tenha chegado ao fim. Eram tão perfeitos um para o outro que a falta de ruídos, a ausência de oscilações, de altos e baixos, que a permanente constância da relação acabou por levá-los a um cenário em que não havia mais surpresas. Tornaram-se óbvios. 

Com a carta nas mãos, chorou como há muito não chorava. Não estava triste. Uma esperança já soterrada irrompeu em seu coração. Ela não o havia esquecido.

“Sinto saudades.”

Típico dela. Sempre fora sucinta, sem rodeios. Dizia exatamente o que sentia. Sentia saudade. Duas palavras. Para quê mais? Dissera tudo.

Passou a semana inteira à espera de algo mais. Nada. Um mês ficou para trás, e depois mais um, e outro, e outro, e outros mais. Assim como ressurgiu, desaparecera. Sem deixar vestígios. Durante todos esses dias, tentou, em vão, criar coragem para tomar o telefone em suas mãos e ligar para ela. Não o fez.     

Depois de mais um dia de apreensiva espera, de desesperadora indecisão, chorou novamente. Sentia dentro de si uma dor que médico algum poderia dar fim. Enxugou as lágrimas. Respirou fundo. Uma. Duas vezes.

Foi dormir.

Antes, porém, remexeu a gaveta do criado mudo que estava ao lado da cama, tateou a peruca, o batom, a maquiagem, jogou a câmera fotográfica para o lado, e pegou uma folha de papel e uma caneta.

Na manhã seguinte, quem sabe, um novo envelope poderia estar na caixa de correio.


Ela sentia saudades. Ele também.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ele era um colecionador de palavras

Era um colecionador de palavras. Ficava furioso quando diziam para ele que aquilo era loucura, que bastava comprar um dicionário, um bom dicionário, que estariam todas ali, as palavras, em ordem alfabética, inclusive.

Colecionava palavras. Para ele, a quantidade não era o mais importante. Um colecionador de carros não busca todos os modelos do mundo, e sim aqueles que o atraem especialmente, os raros, os únicos. Assim era ele com as palavras. Coletava apenas as especiais, as que o emocionavam.

Não era um minerador em busca de pedras preciosas. Não corria atrás das peças de sua coleção. Estava, sim, sempre atento para, quando uma delas cruzasse o seu caminho, capturá-la.

A semana de trabalho vinha sendo bastante normal, quase monótona. Foi quando encontrou um “soçobrar” em uma página de jornal de quinta-feira que sentiu que nem tudo estava perdido. Fazia bastante tempo que procurava, em vão, por um “soçobrar”. Guardou aquele com muito cuidado.

Colecionar palavras era um hobby bem desafiador. Exigia muito dele. Exigia tempo, pesquisa, trabalho, conhecimento. Exigia desprendimento, dinheiro, persistência. Os outros viam nele um louco. Ele se enxergava como um visionário. Um homem que entendia a importância e, mais do que isso, a necessidade daquele esforço.

Sua coleção não era organizada por ordem alfabética ou classificação gramatical. Em seu pequeno apartamento de um quarto localizado em uma região suburbana ao Leste da cidade, todas as paredes estavam cobertas por pequenos pedaços de papel. Folhas de caderno, papel pardo, papelão, papel higiênico, guardanapo, tíquetes do metrô, nota do supermercado. Qualquer tipo de papel que estivesse à mão quando encontrasse uma palavra que fizesse seus olhos míopes brilharem.

Coletando há muito tempo e sem mais espaço para fixar suas conquistas, passou a presentear as pessoas as quais gostava com itens de sua compilação. Há alguns dias, desfez-se de um “amor”. Já não fazia mais sentido para ele. Estava ocupando um espaço importante e que estava lhe fazendo falta. O encontro com aquele “amor” lhe fizera muito feliz. Chegara até a pensar que seria o seu único, que não precisaria de mais nenhum, que havia encontrado o “amor” perfeito, o “amor” da sua vida. Enganara-se, obviamente, mas, quem nunca se enganou com um ”amor”?

Manteve consigo, porém, todas as suas “paixões”, em todos os seus tipos. Sempre fora muito apegado àquelas “paixões”. A todas elas. Lembrava perfeitamente de como as conquistara. Uma por uma. Lembrava o lugar, lembrava o horário, lembrava a ocasião. A mais recente delas, fora na parada de ônibus. Esperava o coletivo chegar placidamente quando ela surgiu, flanando, e se postou ao seu lado. Percebeu na hora que aquela seria uma de suas “paixões”. Ele sempre sabia, já no primeiro instante.

O segredo de suas descobertas estava em manter os olhos atentos e o coração aberto. Rasgou seus “preconceitos” e os substituiu por “particularidades”. Interessou-se mais por “semelhanças” do que por “diferenças”.  Buscou “proximidades” onde antes havia “distâncias”.

Não tinha pressa, tampouco objetivos. Não levava consigo uma lista de palavras que gostaria de ter em sua coleção. A vida o levaria a elas. Um “crisântemo” no parque a caminho do trabalho, uma “singularidade” em meio ao caos urbano do centro da cidade, um “preâmbulo” em uma página de um livro qualquer.

Em não raras vezes, se via prostrado em frente aos seus tesouros. Imaginava quantas histórias eles poderiam contar. Suas próprias histórias. As histórias das palavras. Por onde andaram. Em que bocas estiveram. Por que foram ditas. Que emoções despertaram. Nessas horas, questionava se o que fazia era correto, se era justo manter aquelas palavras aprisionadas em suas paredes. Palavras que guardavam em si uma série de significados, mas que permaneciam em perturbador silêncio enclausurado.

Poderia libertá-las. Janela aberta, palavras ao vento. Que elas encontrassem os seus caminhos. Não tinha coragem, porém, de ver sua vida se desfazer diante de si. Algumas pessoas guardavam fotografias para relembrar de momentos importantes. Ele guardava palavras. Cada uma delas remetia seus pensamentos a um lugar, a uma pessoa, a um acontecimento. Eram as memórias de sua vida. As únicas memórias de sua vida. Orgânicas. Pulsantes. Coladas em paredes. Sobrepostas. Desorganizadas. Caóticas. Aleatórias. Memórias de sua vida.

Dedicou seus dias aos “encontros”. Experimentou o “efêmero”, mas preferiu o “agridoce” sabor da “constância”.

Por muito tempo, imaginou como seria vislumbrar o “infinito”. Perdeu as “esperanças”, mas sempre manteve a “fé”.

Nunca teve a “felicidade” em suas mãos.

Encontrou uma violenta “morte” quando já não acreditava mais no “futuro”.

Deixou a “gratidão” sobre a mesa da cozinha. Não teve tempo de colar seu último achado junto com os outros.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Reunião de família



Quando eles receberam as ligações, telegramas, e-mails, mensagens no celular, dependendo da idade que cada um tinha, todos já imaginaram qual era o motivo daquela convocação para uma reunião familiar de urgência.

Era uma tarde de domingo primaveril. As flores dos ipês roxos forravam as calçadas da rua. No jardim da frente da casa, as roseiras brancas e vermelhas se intercalavam formando um perfumado mosaico.

Eles foram chegando aos poucos. Alguns vinham de longe, de outros estados, enquanto outros moravam no mesmo bairro. Muitos abraços, beijinhos e tapinhas nas costas marcavam os reencontros.

Enquanto aguardavam o restante dos convocados chegar, os que já ali estavam reuniam-se em pequenas rodas de conversa. Os homens mais velhos falavam sobre futebol e política, alternadamente. As mulheres não desviavam o foco e ponderavam sobre as possíveis soluções para o problema que motivara o encontro daquela tarde. Isso, claro, se o problema fosse aquele que elas achavam que era. Meninos e meninas mais jovens se misturavam e tratavam de banalidades.

Havia, no ambiente, uma mistura de tensão, ansiedade, dúvida e até graça. O segundo bule de café quente e forte já estava acabando, e o último dos filhos de dona Aurora ainda não havia chegado. Tinha ficado preso em um congestionamento na ponte da entrada da cidade. Algum maluco em desespero ameaçava se jogar lá de cima nas águas turvas do lago.

A espera pelo único ausente revelava as idiossincrasias e expunha as entranhas daquela família. Das mulheres, Isabel era a irmã do meio. Mostrava uma aparente tranquilidade, quase um torpor. Os ansiolíticos em sua bolsa mascaravam sua total incapacidade de enfrentar a realidade da vida fútil e sem propósitos que levava. Para não desmoronar, agarrava-se às drogas receitadas por um médico preguiçoso qualquer.

O filho homem mais novo, Henrique, gargalhava em alto e bom som. Era jovem, havia sido agraciado em demasia com os belos traços físicos da família, tinha um emprego que pagava bem, um carro importado, vestia roupas de grife, morava em um apartamento de cobertura e era bajulado por amigos e conhecidos. Era querido por todos na família por estar sempre de bom humor e tratar a todos, indistintamente, com muita simpatia e educação. Henrique era gay. Ninguém na família sabia. Nem sua mãe, nem seus irmãos e irmãs, nem seus sobrinhos, nem ninguém. Ele sabia que iria ter de enfrentar muita resistência, que tudo o que era e o que conquistara passaria a ser questionado. Ele conhecia bem o seu eleitorado familiar. Seus irmãos eram todos conservadores. Seus sobrinhos tentavam transparecer uma imagem de modernos, com a cabeça aberta, mas eram, no fundo, pequenas cópias de seus pais. Somente dona Aurora, talvez, o fosse entender de verdade, sem julgamentos, sem condenações. Enquanto isso, enquanto tentava criar coragem para assumir quem realmente era diante de todos, ele seguia sendo quem não era, mas aquele que todos invejavam e gostariam de ser.

Dois dos netos, Rafaela e Lucas, evitavam-se. Sequer ficavam na mesma parte da casa ao mesmo tempo. Para os outros jovens da família, passavam a imagem de não se gostarem. Mas eles se amavam. Trocavam olhares lascivos à distância. Desejavam-se. Pensavam um no outro antes de dormir. Escreviam mensagens apaixonadas. Encontravam-se às escondidas há seis meses. Mantinham tudo em segredo. Um escândalo familiar, nesse momento, seria a pior coisa que poderia acontecer. Eles tinham ciência disso. Eram jovens, estavam apaixonados, mas tinham ciência disso.

A filha Suzana apanhava do marido e usava o uísque e a cocaína para esquecer. Ela ainda não criara coragem para denunciá-lo. O filho Antônio gastava o dinheiro do salário no jogo antes de chegar em casa. A neta Letícia se prostituía nas noites de quinta, sexta e sábado para pagar a faculdade de Publicidade. O neto Ricardo contraíra HIV depois de usar uma seringa compartilhada em uma noite de excessos juvenis. Ele ainda não sabia disso.

Faltavam três minutos para as cinco da tarde quando o retardatário chegou e, então, puderam reunir-se todos na grande sala de jantar e começar a busca por um entendimento comum.

Foi o recém-chegado, o filho mais velho, que tomou a palavra inicial. Augusto agradeceu a boa vontade de todos, falou sobre a dificuldade em reunir a família daquela forma, dos compromissos e das distâncias que os afastavam, da seriedade da questão a ser tratada. Antes de passar a palavra para Clara, a irmã mais velha, que era médica, disse que a decisão não teria de ser, necessariamente, tomada naquela tarde, que todos poderiam ir para as suas casas pensar a respeito e que um novo encontro seria marcado dentro de um mês para que cada um expusesse suas considerações conclusivas. Era uma sábia decisão. Apontamentos feitos de forma açodada não costumam gerar bons resultados.

Clara falava com uma tranquila seriedade que atraía a atenção de todos, até dos mais jovens. Ela era cativante. Não precisava levantar a voz, nem fazer gestos bruscos. Clara era sutil. Além de ser a figura mais doce da família, ela também foi escolhida para explicar o quadro, principalmente, por ser médica. Poderia destrinchar os detalhes, esclarecer dúvidas. Poderia ser simples e direta, mas, ainda assim, mantendo a ternura que lhe caracterizava.

“Mamãe tem Alzheimer. “

Silêncio.

Olhares incrédulos. Mãos sobre as faces.

Dona Aurora sempre fora uma mulher extremamente ativa. Morava sozinha e fazia questão de ser independente em tudo. Nunca se queixava. Ia duas vezes por semana à academia fortalecer a musculatura. Fazia caminhadas diárias de três quilômetros. Preparava a própria comida, cuidava do jardim, de dois cães e de uma gata. Participava de um grupo de mulheres que prestava serviços comunitários no bairro e organizava festas na igreja para arrecadar dinheiro para famílias carentes. Ela tinha 89 anos de idade.

Tudo começara em um sábado. Dona Aurora acordara cedo, como de costume. Tomara o café da manhã, dera de comer aos animais e saíra para ir à feira comprar frutas, verduras, queijo colonial e mel direto do produtor. Era sempre assim há pelo menos dez anos. Depois das compras, ela costumava passar na casa de uma amiga, Mercedes. Lá, sorvia o mate, colocava a conversa em dia e dava uma olhada nas peças de croché que a parceira de conversas fazia. Naquele sábado, dona Aurora não aparecera na casinha modesta de madeira de sua amiga. Havia algo errado. Mercedes não esperou passarem mais de cinco minutos do horário em que Aurora costumava cruzar seu jardim. Ela nunca se atrasara antes. Correu ao telefone e ligou para a polícia para comunicar um desaparecimento. Obviamente, a polícia não achara que um atraso de alguns minutos em uma visita matinal de sábado poderia se configurar em um desaparecimento. Nem deram muita bola. Mercedes, então, colocou um casaco, seus tênis de caminhada, e saiu para ver se encontrava Aurora em algum lugar. Depois de 1h45min de buscas, ficou sabendo que a amiga tinha sido avistada caminhando em direção ao parque central. De posse da informação, entrou em um táxi e foi para lá. Já próxima ao destino, avistou Aurora. Ela caminhava a esmo, sozinha, olhando para frente sem um foco definido. Carregava as compras em sacolas. Mercedes se aproximou e conversou com a amiga, que parecia desorientada. Colocou-a no táxi e a levou para casa.

Ainda na casa de Aurora, Mercedes ligou para Augusto e relatou o ocorrido. O filho ouviu com atenção e agradeceu o cuidado dispensado. Mal colocou o telefone no gancho e já saiu em direção à casa da mãe. Eram muito próximos. O primogênito sempre fora o queridinho de dona Aurora. Já na companhia dela, não conseguiu notar nada de diferente. Aurora não sabia explicar a razão de ter ido para o parque e não para a casa de Mercedes após as compras na feira. Estava um pouco confusa, mas ele pensou que poderia ter sido uma insolação, pois fazia calor e o sol ardia com força em um céu sem nuvens. Mesmo sem achar que poderia ser algo mais sério, ligou para Clara. A irmã era médica e poderia saber melhor o que se passara.

Clara não achou que aquele era um esquecimento natural de uma pessoa na idade da mãe. Dona Aurora tinha uma memória excelente. Havia algo de errado. No dia seguinte, bem cedo, passou na casa da mãe, a pegou e a levou ao hospital em que trabalhava. Depois de uma manhã e tarde inteiras de exames, consultas, conversas e debates entre a equipe médica, o diagnóstico foi definitivo: Aurora tinha Alzheimer.

A primeira coisa que Clara fez depois de receber a notícia, foi sentar-se com a mãe na sala de acolhimento. Com toda a clareza possível, explicou o que se passava. Dona Aurora custou um pouco a entender tudo. Levou muitos minutos para processar a informação que acabara de receber. Ela vinha esquecendo-se de muitas pequenas coisas nos últimos meses. Esquecia-se de fazer as compras do dia, de colocar o lixo para fora, esquecia-se de fazer uma visita que havia prometido. Agora, aquelas coisas que vinham lhe incomodando, mas às quais ela não dava importância, faziam sentido. Estava doente.

Depois de falar sobre a doença, sobre a evolução, sobre as terapias, sobre os cuidados, Clara disse para a mãe não se preocupar, que toda a família estaria ao seu lado, que ela teria os melhores tratamentos disponíveis. Dona Aurora ouviu tudo atentamente e não parecia preocupada. Confiava nos avanços da medicina e confiava ainda mais na filha. Se Clara disse para ela não se preocupar, ela não se preocuparia.

Tudo naquela família mudou depois da confirmação do diagnóstico. Os filhos de dona Aurora nunca haviam se visto em uma situação como aquela. Nunca tiveram de se envolver em nada da vida dos pais. Depois de perder o marido, Aurora manteve a serenidade. Na verdade, foi ela quem encarou a morte de Olavo com mais tranquilidade. Os filhos acharam que ela iria desmoronar sem o amor de uma vida inteira, mas se enganaram. Ela foi forte e segura. Foi Aurora que acabou sendo o esteio dos filhos depois da morte do pai, e não o contrário. Era uma mulher idosa e independente. Gozava de uma saúde de ferro e fazia questão de viver sem precisar da ajuda de ninguém. Costumava dizer que, no momento em que se tornasse um fardo para seus filhos, iria sumir do mapa. Pegar suas coisinhas e desaparecer no mundo.

A doença não a fez mudar o modo como via as coisas. Aurora não se sentia doente. Não sentia dores, não estava incapacitada de fazer nada. Esquecia coisas, mas havia coisas que já não queria mais lembrar mesmo. Assim, chegava até a ver algo de positivo na doença. Ela ainda estava na fase de negação. Não enxergava a seriedade do Alzheimer. Chegava a fazer troça da doença. Sempre fora assim. Fazia questão de ver o lado positivo de tudo. Mesmo quando esse lado não existia.

Os filhos, ao contrário, piraram. Clara era a única que mantinha a razão. Os outros passaram a agir de modo enlouquecido. O primeiro pensamento que veio à cabeça de todos foi: mamãe vai morrer. Uma doença séria em uma mulher idosa. Conclusão óbvia. Com o tempo, os nervos se acalmaram. Não passava um dia em que a filha médica não recebia três ou quatro ligações de irmãos e sobrinhos querendo saber detalhes sobre o quadro de saúde de Aurora. Os netos, mais antenados, buscavam confirmar o que haviam lido na Internet. Os filhos, em ignorante histeria, queriam respostas definitivas para perguntas genéricas. Clara não era neurologista, não conhecia a fundo os detalhes do Alzheimer, mas tentava acalmar a todos, esclarecendo o que podia esclarecer e prometendo descobrir mais sobre os pontos que desconhecia.

David era o neto mais jovem de Aurora. Tinha dez anos de idade recém-completados. Ele era filho de Clara. Sempre que sua mãe fazia plantão no hospital, o menino ficava aos cuidados da avó. Assim, eram muito próximos. David tinha asma e seis graus de miopia. Usava óculos de lentes grossas e não ia a lugar algum sem a sua bombinha. Há tempos ele percebia que a avó estava diferente. Ficava meio aérea em alguns momentos. Recostava-se no vidro da janela fechada e ficava olhando para a rua por muitos e muitos minutos. Nestes momentos, era como se se desligasse de todo o mundo ao seu redor. Era somente ela, aquela janela e a rua lá fora. David via as horas junto à avó como instantes mágicos de troca. Ela cuidava dele, lhe contava histórias, lhe fazia bolinhos cobertos com açúcar e canela e lhe deixava ver televisão até tarde. Ele lhe fazia pequenos favores, lhe acompanhava em saídas e lhe ajudava a lembrar onde havia deixado as chaves, o telefone sem fio e seus apetrechos de costura. Davam-se muito bem, avó e neto.

Diante do descontrole emocional dos filhos, que não conseguiam lidar com suas disfunções pessoais e com a ideia de que sua mãe estava doente da cabeça, Aurora encontrou no pequeno David o seu parceiro. O menino foi o único que não passou a vê-la com olhos piedosos. Para ele, nada mudara. Sua avó continuava a mesma pessoa. Ele não tinha pena dela, não achava que ela iria sair porta afora e se perder pelas ruas da cidade a qualquer momento. Quando olhava para ela, ele não enxergava uma idosa com uma doença mental. Para David, Aurora era a sua avó amada e era somente isso que lhe importava. Era somente isso que seus jovens olhos míopes viam.

Aproximaram-se de tal modo, que a única companhia familiar com a qual Aurora se sentia leve e relaxada era o neto mais novo. Com David, ela não se policiava, não se preocupava em se mostrar sadia, em não dar indícios ou sinais da doença que lhe acometia e que, nos momentos de solidão, a fazia se sentir cada vez mais distante de tudo e de todos.

Clara fazia plantão na emergência do hospital geral da cidade nas segundas, quartas e sextas. Além disso, também trabalhava à noite e na madrugada em um sábado e um domingo por mês. Assim sendo, David ficava com a avó em, no mínimo, 14 dias ao mês. Isso sem contar os finais de semana em que, por conta própria, o menino enchia sua mochila com algumas roupas e livros de histórias em quadrinhos e pedia para a mãe o levar para a casa de Aurora.

Tornaram-se, desta forma, mais do que avó e neto. Ficaram amigos, confidentes. David fez questão de continuar ficando na casa de Aurora nos dias de plantão da mãe mesmo depois do diagnóstico do Alzheimer. Para ele, não havia razão para deixar de fazê-lo. Sua avó não representava risco algum. Era uma senhorinha idosa muito divertida e que esquecia coisas. Era assim que ele via a situação.

Passaram-se quatro meses desde o primeiro encontro familiar em que todos souberam que a matriarca estava doente. Era, mais uma vez, um fim de tarde de um domingo. Reunidos na sala de estar da velha casa, os filhos de dona Aurora travavam uma ferrenha contenda acerca do futuro daquela família. A grande discussão girava em torno de uma questão: o que fazer com a mãe de todos eles? Não havia um consenso. Enquanto Augusto achava que o melhor para a mãe era permanecer em casa, próxima dos filhos e netos e que, para isso, todos deviam colaborar financeiramente e uma cuidadora de idosos deveria ser contratada, Antônio esbravejava contra, dizendo que o melhor lugar para a mãe era em um asilo, sob o cuidado de profissionais preparados para atender pessoas no estado de Aurora. Isabel, por sua vez, parecia pouco preocupada, mas deixava claro que não queria ter de perder tempo de sua vida cuidando de uma velha caduca. Henrique e Clara achavam que estar junto da família seria o melhor para a mãe. Entretanto, enquanto o caçula, em pé e com o dedo em riste, dizia que todos tinham a obrigação de cuidar e de dar o máximo de atenção e tempo possível para a mãe, fazendo sacrifícios para isso, se necessário, Clara, com sua cabeça de cientista, ponderava que, mais do que amor e carinho, Aurora precisava era de cuidados médicos e, portanto, ficar em casa sozinha durante a maior parte do tempo, na maior parte dos dias, não era o indicado para uma pessoa na situação da mãe.

A discussão prosseguia sem dar indício algum de que teria um fim em breve. Em meio ao bate-boca, temas correlacionados, ou nem tanto, vieram à baila. Antônio, o jogador, questionou se a mãe teria feito um testamento. Após um momentâneo silêncio de todos, disse que não era hipócrita e que não negaria que estava pensando em como seria a divisão dos bens quando a mãe morresse. Fez questão de frisar que não queria nada físico, nenhum bem, apenas dinheiro. Tentando transparecer um pudor que em nada diminuía a vergonha que estampavam em seus rostos, todos baixaram o tom de voz e não se negaram a tratar da questão por alguns minutos. Vender a casa e os dois carros antigos, que haviam pertencido ao pai deles e que estavam guardados na garagem acumulando pó, e dividir o dinheiro entre todos, foi a ideia que ganhou mais adeptos. O único que se opôs com veemência foi Augusto. Para ele, aquela casa era mais do que apenas um imóvel com preço fixado pelo mercado imobiliário. Ele percebia um valor acima do financeiro. Havia sido criado ali, vira seus filhos crescerem correndo naquele pátio. Em seu íntimo, pensou em comprar a parte de cada um dos irmãos e ficar com a casa para si. Sabia que não tinha dinheiro para isso, mas, ainda assim, passou a alimentar, em segredo, a ideia.

Quem arcaria com os custos do tratamento, quem iria pagar a cuidadora se Aurora permanecesse em casa, quem iria pagar o asilo se ela fosse para um, quem iria pagar a clínica se a internassem. Quem iria separar mais tempo para ficar junto à mãe, quem iria tratar das questões burocráticas envolvendo documentações, pagamento de contas, recebimento da aposentadoria. Quem iria acompanhá-la nas consultas médicas. Quem ficaria com ela quando precisasse ser internada no hospital. Quem?

Sentada na varanda da casa, Aurora tinha David no colo. Enquanto afagava os cabelos castanhos do menino que dormia um sono tranquilo, ela olhava para um ponto infinito à sua frente. Pensava, com lucidez, em tudo o que havia passado para alimentar, vestir, cuidar e educar aqueles meninos e meninas que, agora, discutiam em voz alta, quase gritando, na sala de estar. Pensava nas privações, nas noites sem dormir, na comida que deixou de comer para dar a eles. Tocando as suas enrugadas mãos, pensava na juventude que havia passado a galope diante de seus olhos e que se fora sem que ela tenha a acompanhado para dar uma volta sequer pelos campos da parte alta da cidade. A vida passara como um flash de luz. Ela não se arrependia de nada. Faria tudo de novo se fosse preciso. Aurora amava profundamente aqueles filhos, mas já não os reconhecia mais.


Não há cura para o mal cotidiano
Que mata, pouco a pouco, sem dor, o espírito humano.
Punhal que fere a carne não tira a vida de quem ama.
Palavra que não diz, sufoca o grito de quem clama.


Quem estava doente, afinal?


O maluco que ameaçava se jogar de cima da ponte, se jogou. Ninguém sabe a dor que o outro sente. Ninguém.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Para que as cortinas não se fechem, para que a peça não termine




“O amor é uma falácia”, ele disse antes de emborcar mais um copo de cerveja.

“O quê? O que estás dizendo? Como assim, uma falácia?”, ela retrucou com um evidente espanto na voz e na expressão do rosto.

“É uma falácia, ora. Uma mentira. O amor é uma mentira. Das grandes. Uma mentira das grandes. É isso que é o amor, uma mentira das grandes”, prosseguiu ele, erguendo a mão para chamar a atenção do garçom.

“Estás bêbado. Isso é o álcool falando por ti. Vou desconsiderar”, disse ela, com um certo ar de desdém.

“Não estou bêbado. Ou melhor, posso até estar, mas não é o álcool falando por mim. Sou eu mesmo falando. E essa é a verdade. Essa é a verdade que ninguém quer encarar. Todos têm medo. O amor dá esperança. É isso. O amor, ou melhor, a idealização do amor dá esperança para as pessoas. Ninguém sabe o que é amar de verdade. Ninguém nunca amou de verdade. E, se não é de verdade, não é amor. Por isso, o amor é uma falácia”, sentenciou ele, olhando com alguma irritação para o garçom que parecia ignorá-lo de propósito.

“Discordo. Discordo mesmo. Não vamos brigar por isso, somos amigos, mas não posso concordar contigo. Isso é besteira”, ela falou, tentando diminuir a tensão entre os dois.

“Não é besteira. Andei pensando muito nisso. Muito mesmo. Aliás, acho que só tenho pensado nisso ultimamente. Definitivamente, não é besteira. Todos os relacionamentos são essencialmente egoístas. Todos, todos. E, se é egoísta, não é amor”, replicou ele com um tom de sabedoria alcoólica ímpar.

Ela balançava a cabeça em negação, e tentava encontrar algum argumento que o colocasse na defensiva. O que não seria fácil. Ele era bem esperto e conseguia expressar e defender suas ideias de modo bem convincente. Mesmo sob o efeito do álcool.

“Sei lá, acho esse pensamento tão pessimista. Ou melhor, acho reducionista. Faz parecer que o amor é uma coisa simples. E não é simples. Amor envolve pessoas e tudo que envolve pessoas deixa de ser simples. Pessoas são complicadas”, disse ela tentando colocar a questão sob o ponto de vista da subjetividade, o que daria por encerrada a conversa. Mas não deu.

“Eu sei que as pessoas são complicadas. E umas são bem mais complicadas do que as outras. Eu sei disso. Tu achas que eu não sei disso? Pois eu sei. Sei muito bem. Eu sei que... eu sei... mas onde será que anda esse garçom?... por isso que não gosto desses bares modernos, pasteurizados, com garçons uniformizados, cobram caro pra caramba, mas o serviço é péssimo... bom... eu... ahhh... ah, sim, eu sei que as pessoas são complicadas. Mas não é reducionismo meu. Não, não, não... não é reducionismo”, ele falou, enquanto espiava de canto de olho o garçom servir a outras mesas.

“Acho que é reducionismo sim. Transformar algo tão complexo, cheio de nuances, em uma coisa tão simples. É reducionismo”, enfatizou ela, com a segurança de quem já havia lido e relido Schopenhauer e suas estratégias para vencer um debate.

Ele suspirou após ver que o homem de avental e crachá de identificação o havia esquecido mais uma vez, levou algumas batatas fritas com queijo à boca, mastigou com calma e, por fim, reiniciou sua explanação.

“As pessoas se relacionam para satisfazerem a si mesmas. Satisfazerem seus desejos, suas necessidades. Ninguém está verdadeiramente preocupado com o outro. Não há altruísmo. É disso que eu falo. Não há altruísmo. Tu me entendes agora? Não há altruísmo”, explicou ele, tentando convencê-la de sua teoria.

O rosto dela expressava uma incompreensão e, mais do que isso, uma incerteza. Claramente, ele havia conseguido balançá-la.

“Quando tu inicias um relacionamento com alguém, o faz porque isso faz bem pra ti. Tu te sentes bem com esse relacionamento. E, de modo geral, isso basta. Ninguém fica com uma pessoa porque isso faz bem para essa pessoa. Fica porque faz bem para si mesmo. Aí reside o egoísmo! Todo mundo se coloca como figura central na relação. Em um envolvimento sadio, não há figura central. Mas isso é impossível. Sempre buscamos satisfação pessoal. Por isso que eu digo que o amor é uma falácia. É um fato”, sentenciou ele com certo orgulho intelectual.

 “Tu falas da boca pra fora. Nem tu acreditas nisso. Sempre foste um romântico. Eu me lembro, lembro muito bem. Quando tu te apaixonavas, ficava insuportável. Sério, ficava mesmo. Era difícil te aguentar. Eu sempre aguentei, pois somos amigos de infância, mas era bem difícil”, falou a moça da boa memória e grande sinceridade.

“Aí está! É verdade! A mais pura verdade. Eu era muito romântico. Era mesmo. Acho até que ainda sou. Mas romantismo e amor são coisas bem diferentes. Muito diferentes. Amor em uma relação pressupõe duas pessoas. Romantismo é algo individual. Ninguém precisa de outra pessoa para ser romântico. Ninguém é romântico por outra pessoa. Se é romântico e ponto. Eu sou romântico. Vou ser sempre romântico. É uma característica minha. Não acho que posso mudar isso”, replicou o homem que escrevia acrósticos para suas primeiras paixões.

“Se tu és romântico, acreditas no amor”, alfinetou ela, interrompendo-o.

“Nada a ver, nada a ver. Eu sei que isso parece ter sentido, realmente parece, é o senso comum, mas é uma visão míope da coisa. Eu já tive sentimentos muito fortes por outras pessoas sim. Tu sabes bem. Eu sempre te contei tudo. Sabes mais da minha vida amorosa do que eu mesmo. Eu sou romântico porque sou um idealista. Sacaste? Eu idealizo tudo e as relações não são exceção. É por isso, aliás, que estou solteiro há tanto tempo. As relações, namoros, casamentos, são um teatro. Cada um interpreta o papel que acha que deve interpretar para que as cortinas não se fechem, para que a peça não termine, para que continue suprindo suas necessidade sociais, sexuais, materiais, para que tudo tenha alguma coerência, para que todos ao redor vejam como aquela relação é bonita, como são belos juntos, como se gostam”, explicou ele, buscando referências nas artes, uma paixão dela, para tentar convencê-la de uma vez por todas.

“Quer dizer que achas que todo namoro, todo casamento, é uma relação de fachada? Pra inglês ver?”, ela questionou, com uma expressão de deboche na face.

“Basicamente, isso. Eu não definiria melhor.“

“Que idiotice.”

“A prova de que todas as relações são intrinsicamente egoístas é o fato de que ninguém se relaciona com alguém pelo qual não tem interesse físico. A pessoa gosta de mim, quer ficar comigo, eu acho ela demais, uma companhia perfeita, mas, se ela não me atrai sexualmente, nada irá acontecer entre nós. As pessoas pensam em si mesmas em toda relação. O outro, o companheiro, é um meio para um fim. Satisfazer a si próprio”, disse ele com um tom de incisiva certeza na voz.

“Mas é claro que a gente só vai ficar com alguém que nós atrai....”

“É isso!! O sexo. É isso. Tudo se resume ao sexo. Uma pessoa pode ser inteligente, educada, culta, elegante, divertida, ter todas as qualidades que fazem dela um bom indivíduo, mas, se não atrair sexualmente, não serve. Acho que um pouco do nosso eu primitivo influi nessa questão, mas ainda não sei bem até que ponto. Preciso pensar mais sobre isso”, admitiu ele com alguma humildade.

“Não sei... até que faz sentido, mas eu tenho dificuldades em..., sei lá, em aceitar essa ideia. Porque, se for assim mesmo, as coisas perdem o encanto, sabe? Não existe mais magia. É tudo preto e branco. Entende? Não tem vermelho, azul, amarelo, lilás. É tudo tão sem graça sem a magia”, lamentou ela enquanto agradecia com um menear de cabeça a garçonete que, finalmente, tinha lhes trazido mais cerveja.

“E é por isso que, mesmo não havendo magia, as pessoas insistem em criá-la. A gente vive em um uma realidade que criamos para que não percebamos que o sentido da nossa vida se resume a sobreviver. Em suma, é isso. A garantia de um parceiro sexual e de alguém para cuidar de você quando estiver velho. É nisso que consistem os relacionamentos”, reafirmou ele, percebendo que ela começava a concordar com o que dizia.

“É... que triste pensar nisso. Se imaginar envelhecendo sozinho não é legal mesmo. E tenho de concordar contigo sobre o sexo. Eu nunca me envolvi com alguém que não me atraísse fisicamente. Mas é algo natural, né? A gente não fica pensando nessas coisas antes de iniciar um namoro. Eu não penso, nunca pensei. Simplesmente aconteceu. Então, não agimos assim, dessa forma pragmática, de má fé. Só agimos.”

“Sim, sim. Não há má fé. É o nosso instinto sobrepujando nosso ser social. Amor de verdade, amor puro, sem interesses pessoais envolvidos, sem desejos, sem necessidade de reciprocidade, esse amor que todo mundo diz sentir quando está namorando, ou quando é recém-casado, só existe de pais para filhos. Ou na velhice, quando a beleza física se esvaiu com o tempo. Entre duas pessoas jovens sem relações de sangue, não existe amor. Existe instinto e interesses travestidos. É uma verdade dura de ser dita, mas é uma verdade”, conclui ele, com a triste satisfação de ter feito mais uma pessoa enxergar o mundo pelos seus olhos desiludidos.

Passava das duas horas da madrugada quando eles se levantaram, deixaram o dinheiro da conta sobre a mesa – sem gorjeta para o garçom – e se foram, caminhando pela noite adentro. O motel ficava a três quadras do bar. Não precisavam pegar um táxi.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Era o Gato de Schrödinger


Em vão, ele tentava se desvencilhar de uma relação que o prendia ao nada. Não era amor, era frágil. Tampouco paixão, não era elétrico. Sentia-se se movendo em um terreno arenoso. Dispendia grande esforço a cada passo, mas não saía do lugar. Há meses, vivia em um constante looping. Tinha necessidade de avançar, de seguir em frente, mas era o personagem de uma história que não viveu.

Tentava não pensar mais nela. Não havia motivos para pensar nela. Não mais do que pensava em qualquer outra pessoa que conhecia. Seu cérebro lhe pregava uma peça. Era o Gato de Schrödinger. Ao mesmo tempo, estava e não estava em um relacionamento.

Via-se preso em uma teia de fatos que não haviam acontecido e sensações que não havia sentido. Era um fantoche controlado por si mesmo. Com frequência, se pegava pensando de quem era a culpa. Era sua, sem dúvidas. Iludira-se com uma promessa que nunca fora feita. 

Caçava nuvens como se fossem borboletas. Tocava-a, mas não a sentia em suas mãos. Estava perturbado. Todos em seu círculo de convívio já haviam percebido. Tentava disfarçar, buscava um refúgio em piadas que não lhe divertiam.

Ela o enganava. Aproximava-se para controlá-lo, mas conservava uma distância segura para manter viva a ilusão de que o queria, mesmo sem tê-lo desejado uma vez sequer. E ele vivia essa ilusão. Sabia que estava sendo usado, mas não conseguia evitar fazer parte daquele mise em scène. Era o jogo e o jogador. Vítima de si mesmo e da vontade de ser mais do que apenas um indivíduo. Queria fazer parte de algo maior. Queria ser parte da vida de outra pessoa.

Estava confuso. Intercalava momentos de profunda racionalização com instantes de emocionalismo juvenil. Dizia para si mesmo que era preciso ignorar seus sentimentos, mas não ouvia a própria voz. Além disso, seu corpo teimava em somatizar a ilusão que seu cérebro criava.

Não era uma pessoa com uma vida social muito ativa. Tinha poucos amigos. Passava os seus dias trabalhando, lendo, escrevendo e dormindo. Depois que a conheceu, porém, produzia pouco no trabalho, lia, mas não prestava atenção nas palavras, escrevia, mas não dizia nada.

O sono era um caso à parte. Já não se lembrava de quando fora a última vez em que dormira uma noite inteira sem sonhar com ela. Acordava sempre no meio da madrugada e a história terminava sem um final. Levantava da cama, caminhava pela casa, saía porta afora. A brisa, a escuridão e o silêncio - quebrado somente pelo ladrar dos cães ao longe - o acalmavam. Tentava esvaziar a cabeça, se livrar de todos os pensamentos. Buscava um estado anterior ao da consciência. Queria encontrar-se com o nada. Fracassava todas as noites.

Tentou evitá-la. Seu envolvimento com ela, porém, estava além da presença física. Era mais do que físico. Era metafísico. Não sabia ao certo se o que o atraia era ela, em sua essência, carne e presença, ou se era o que ela representava. Nem mesmo sabia o que ela representava. Era mais o efeito que ela produzia nele do que a existência dela. Era mais o saber que ela existia do que o fato de ela realmente existir.

E ela existia mais dentro dele do que fora. Ela se tornara parte dele. Estava com ele, ia para onde ele ia. Ela se tornara mais real nele do que em si mesma. Com o passar do tempo, ele a desfizera e a reconstruíra em sua experiência sensorial. Ela era única para ele.

Estava, assim, de certa forma, feliz. Ela não seria de mais ninguém. Mesmo nos braços de outros, mesmo revivendo inacabados amores antigos, ou descobrindo excitantes novas paixões, ela seria somente dele. Aquela a quem ele criara em seu íntimo, não seria de mais ninguém.

Deste modo, tendo conseguido se ver livre da existência dela fora de si mesmo, ele passou a ser indiferente à sua presença física. Ela já não o tirava dos trilhos. O atraía assim como qualquer outra bela e inteligente mulher o atraía. Conversavam, divertiam-se juntos. Ele ainda a desejava. Àquela a quem via quase que diariamente. Quem estava em seus pensamentos, porém, era a outra.

Por muitos e muitos meses, essa dualidade o deixou sereno. Não havia mais conflito. Não tinha com o que se preocupar. As aparências estavam mantidas. O segredo, protegido.

Não era mais o olhar, era a representação do olhar recriado em sua imaginação. Sabia que não era real, que tudo era um produto de sua mente. Isso, entretanto, não impedia que se sentisse em meio a um conflito que, o mesmo tempo, lhe confundia os sentidos e lhe impelia a buscar uma resposta que sabia que não queria encontrar.

Aos poucos, foi perdendo o controle. Já não conseguia mais distinguir uma da outra. Eram tão diferentes, mas eram a mesma. Estava tudo embaralhado, peças de um quebra-cabeça girando sob um chão de imagens ora nítidas e cristalinas, ora escuras e opacas. A realidade não era mais tão real. A fantasia se materializava diante dos seus olhos incrédulos.

Flertava com a loucura. Andava de mãos dadas com o medo.  

Teria de matá-la. Era isso, teria de matá-la. Já não conseguia mais viver com ela. Já não conseguia mais viver sem ela. Teria de matá-la. Sim, teria de matá-la.

Mas a quem teria de matar? A sua adorável invenção imaginária, ou aquela mortal de carne e ossos que o enfeitiçara? A criatura ou a criação? As duas, quem sabe?

Não era um assassino. Não mataria uma pessoa real. Gostava dela. Não poderia matá-la. Não faria isso. Estava certo, entretanto, de que também não seria capaz de dar fim à mulher que moldara à sua própria maneira. Ela era exclusiva, uma obra de sua ilimitada capacidade criativa. Orgulhava-se dela. Não a apagaria de sua mente.

Chovia muito na noite em que ele fez o que sabia que teria de fazer. De uma forma ou de outra, teria de fazer. Já era madrugada e ele caminhava sozinho pela rua. Havia perdido a noção do tempo. Não levava um relógio consigo. Não se importava com isso. Horas, minutos, segundos. Nada disso importava. Queria se concentrar. Precisava buscar dentro de si uma resposta. Procurou em todos os esconderijos de sua mente. Reencontrou-se consigo mesmo no passado e percebeu que sempre fora um bom homem. Dia após dia, ano após ano, da sua infância àquela noite chuvosa, revisitou a sua vida. Compreendeu, então, que fora uma ilha. Fora tudo aquilo que as pessoas que cruzaram o seu caminho faziam parecer que era o que admiravam em alguém, mas que, na realidade, era o que desprezavam. Não era um canalha aproveitador. Era um bom homem. Este havia sido o seu erro.

Aquela que acreditava ser sua principal qualidade, a crença fiel no seu semelhante, havia lhe traído.

Eis, então, que, por um instante, teve uma epifania. A tempestade havia passado, as nuvens se dissiparam. Um céu de um azul inocente cobria todo o horizonte. Aos seus pés, campos de lírios forravam a terra fértil.

Era isso. Definitivamente, faria o que sabia que tinha de fazer.

Saiu em disparada, pulando poças. Seria naquela mesma noite. Teria de ser naquela mesma noite. Parado junto a um prédio, olhou por não mais do que um instante para o bloco de concreto que se erguia à sua frente. Nunca havia estado ali antes, mas sabia exatamente onde a encontrar. A decisão estava tomada. Não iria voltar atrás. Respirou o mais fundo que pôde. Estalou os dedos das mãos e seguiu.

Matou-a.

Uma brisa fresca tirou a sua franja dos olhos. O temporal cessara. O dia estava prestes a amanhecer. Estava leve.

Quando acordou pela manhã, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi uma dúvida. Não sabia distinguir de qual das duas havia tirado a vida. A real ou a imaginária. Talvez tivesse eliminado ambas. Isso não lhe preocupou, porém. Tanto fazia. Estava, enfim, livre. Estava livre da mentira que o corroía, livre da mentira que sugava suas forças e o impedia de ir em frente. A havia matado e estava bem consigo mesmo. Tão doce era o sabor da liberdade. Lambuzou-se com o mel da redenção e sentiu nas mãos o apaixonante toque da verdade.

Carregou em seu íntimo, porém, o doloroso e pesado fardo da dúvida por todos os seus anos de vida restantes. Quando, no leito de morte, estava prestes a expirar, ouviu uma voz manipuladora e escorregadia, uma cruel e insensível voz aguda, sussurrar ao seu ouvido.

“Sempre foste meu. Nunca fui tua.”

Em sábio silêncio, sorriu um sorriso ácido e pensou consigo mesmo: 

“Pobre criança, tão rasa é a consciência dos que acreditam na reciprocidade do amor.”